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Full text of "Da monarchia para a república, 1883-1905"

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Presented  to  the 

LIBRARYo/í/ie 

UNIVERSITY  OF  TORONTO 

by 

PROFESSOR  HARRY  MAKLER 


U^    U-^~a — 


DA    3I0XARCHIA 


A    REPUBLICA 


BEENARDINO    MACHADO 


n 

DA   MOXAECHIA 

PAKA 

A    REPUBLICA 

1883-1905 


COIMBRA 

TYPOGEAPHIA  F.  FRANÇA  AMADO 
1905 


Os  soldados  da  Uberdade 


Senhores !  * 

Antes  de  irmos  tomar  parte  na  festa 
portuense  da  liberdade,  quizemos  preparar- 
nos  dignamente  para  ella.  Por  isso  viemos 
aqui  em  piedosa  romaria  depor,  com  esta 
coroa  civica,  as  nossas  homenagens  sobre 
o  tumulo  dos  que  por  amor  da  liberdade 
arriscaram  tudo  e  tudo  soffreram,  até  a 
morte.  Que  digo  eu,  Senhores  ?  Elles 
soffreram  a  incomparável  dôr  de  se  verem 
desconhecidos  e  de  serem  condemnados  e 
executados  j^elos  próprios  a  quem  preten- 
diam revelar,  com  a  liberdade,  o  segredo 
de  toda   a  força,    de   todos  os   progressos. 


*  Allocução  proferida  no  cemitério  do  Prado  do 
Eepouso,  junto  ao  tumulo  dos  martyres  da  liberdade, 
no  dia  9  de  julho  de  1883. 


Da  monarchia  para  a  republica 


Na  luta  com  o  obscurantismo,  com  os 
preconceitos,  contra  todas  as  formas  da 
injustiça,  elles  foram  vencidos,  e  o  seu 
corpo  baqueou  na  sepultura.  Mas,  ao 
morrerem,  o  seu  sangue  tingia  com  as 
purpurinas  cores  duma  aurora  o  horizonte 
politico  da  nação,  e  para  logo  se  levantou 
sobre  ella,  esj^lendoroso,  incontestável,  o 
sol  da  liberdade.  O  espirito,  pois,  destes 
martj^res  não  pereceu ;  triumphou,  sobre- 
vive. 

Prometamos,  Senhores,  ser-lhe  eterna- 
mente fieis ;  digamos  a  estes  nossos  que- 
ridos mortos  que  podem  ficar  eni  paz, 
porque  sempre,  no  meio  de  quaesquer 
contrariedades  da  existência,  nos  ha  de 
guiar,  como  um  ^^avilhão  glorioso,  o  exem- 
plo das  suas  virtudes. 

E  agora.  Senhores,  podemos  ir  á  nossa 
festa. 

Yiva  a  liberdade !  Honra  e  gloria  aos 
martj-res  da  liberdade  ! 


Os  soldados  da  liberdade 


Senhokes !  * 

A  nação  deve  amparo  e  auxilio  a  cada 
iim  dos  seus  membros ;  é  pela  solidarie- 
dade de  todos  que  ella  se  organiza  e 
robustece.  Mas  quanto  maior  não  é  a 
sua  obrigação  para  com  os  que  lutaram 
pelo  seu  desiuvolvimento,  á  custa  de 
quem  ella  pôde  lançar-se  pelo  caminho 
do  futuro,  desprendida  das  algemas  com 
que  o  despotismo  lhe  embaraçava  os  movi- 
mentos ! 

Não  esqueçamos,  pois,  nunca  os  esfor- 
çados campeões  das  nossas  liberdades  con- 
stitucionaes,  e  orgulhemo-nos  de  dividir 
com  os  que  ainda  restam,  a  j^rosperidade 
que  devemos  aos  seus  heroísmos. 

Animado  destes  sentimentos,  tenho  a 
honra  de  vos  aj^resentar  o  seguinte  pro- 
jecto de  lei : 


*    Projecto    ai^reseutado    á    Camará    dos    deputados 
em  1SS4. 


Da  nionarchia  para  a  republica 


Artigo  1."    Serão     admittidos    nas    com- 
panhias   de  reformados   todos    os   soldados  * 
que    nas    campanhas    da   liberdade    pugna- 
ram pelas  instituições  constitucionaes. 

Art.  2.^    Fica  revogada   a  legislação  em 
contrario. 


A  crise  do  Douro 


Mandou  para  a  mesa  uma  representação 
da  commissão  de  defesa  do  Douro.  Disse  que 
o  estado  do  j^aiz  vinhateiro  era  angustioso. 
Proximamente  15:000  hectares  do  terreno 
se  achavam  esterilizados  ;  e  a  consequência 
era  por  um  lado  a  falta  de  trabalho,  a  emi- 
gração e  a  diminuição  do  consumo,  por 
outro  o  abatimento  da  industria  e  do  com- 
mercio  do  vinho.  Por  isso  não  era  só  o 
Douro  quem  padecia,  padecia  com  elle  o 
paiz  todo  e  o  thesoiro. 

A  assistência  publica  ao  Douro  já  custava 
importantes  sommas.  Fora  preciso  fazer 
deducções  na  contribuição  predial,  augmen- 
tar  até  ao  dobro  a  verba  para  obras  publi- 

*  Resumo  dos  discursos  pronunciados  na  Camará  dos 
deputados  a  favor  da  cultura  do  tabaco  no  Douro,  em  1883. 


10  Da  monarchia  para  a  republica 

cas,  dispensar  as  camarás  das  despesas  com 
a  instrucção  primaria.  E  tudo  isto  era  in- 
sufficiente.  Portanto  valer  á  região  duriense 
era  favorecer  a  fazenda  publica. 

No  DonrOj  além  do  tratamento  dos  vinhe- 
dos, havia  que  replantar  de  vinha  os  15:000 
hectares  assolados.  Eram  já  consideráveis 
as  despesas  com  o  tratamento  ;  não  havia 
capital  que  chegasse  j^ara  a  replantação, 
até  porque  o  seu  emprego  não  viria  a  pro- 
duzir senão  tarde. 

Era  necessário  achar  uma  planta  cuja 
cultura  custasse  barato  e  desse  lucro  em 
cada  anno.  Ora  os  proprietários  do  Douro 
nas  suas  rejDresentações,  e  as  estações 
officiaes  anti-phylloxericas  nos  seus  relató- 
rios, estavam  accordes  em  que  essa  planta 
era  o  tabaco. 

Não  se  pretendia  estabelecer  definitiva- 
mente no  Douro  a  cultura  do  tabaco  ;  pro- 
punha-se  como  expediente  transitório,  por 
meio  do  qual  todos  os  annos  os  lavradores 
com  os  lucros  auferidos  se  fossem  habili- 
tando a  repovoar  de  vinha  as  suas  terras. 
Não  se  pretendia  abandonar  uma  cultura 
que  faz  parte  da  nossa  tradição,  que  é  um 
titulo  de  honra  para  a  nação. 


A  crise  do  Douro  11 


Havia  que  vencer  duas  difíiculdades,  mas 
era  forçoso  arcar  com  ellas,  exigia-o  um 
motivo  de  salvação  publica.  Era  preciso 
fiscalizar  para  a  cobrança  do  estado  a  cul- 
tura do  tabaco,  era  j^reciso  fiscalizá-la  j)ara 
que  ella  se  não  substituísse  á  da  vinha. 
A  fiscalização  para  o  imposto  far-se-ia  como 
noutras  nações ;  não  tinliamos  d'inventar. 
De  resto,  nenhuma  fiscalização  semelhante 
era  fácil,  mas  fazia-se  por  ser  necessária: 
e,  sendo  o  tabaco  bom  e  barato,  o  governo 
ganharia  com  a  contribuição  delle  o  que 
estava  perdendo  com  o  seu  contrabando. 
A  fiscalização  da  extensão  da  cultura  ficaria 
a  cargo  da  administração  anti-phylloxerica, 
que  a  proporcionaria  aos  proprietários  se- 
gundo a  beneficiação  e  a  replantação  dos 
vinhedos  efifectuadas  por  cada  um. 

E  assim,  durante  este  período  transitório 
da  permissão  regulamentada  do  tabaco,  o 
paiz  deixaria  de  exportar  os  centenares 
de  contos  com  que  comprava  tabaco  para 
fabricar. 

Esperava  ver  presente  na  camará  o  sr. 
presidente  do  conselho  para  lhe  perguntar 
o  seu  parecer  e  as  suas  intenções  a  este 
respeito.     E    mandou    para    a    mesa    uma 


12  Da  monarchia  para  a  republica 


proposta  para  que  a  representação  fosse 
enviada  ás  commissões  reunidas  de  agricul- 
tura e  de  fazenda,  que,  ouvido  o  governo, 
trouxessem  á  camará  um  projecto  de  lei 
sobre  a  cultura  do  tabaco. 

Lembrou  que,  quando  pela  primeira  vez 
falara  do  estado  lastimoso  da  região  vi- 
nhateira do  Douro,  dissera  que  a  questão 
do  Douro  não  era  somente  do  interesse  de 
alguns  lavradores  e  jornaleiros,  o  que  já 
seria  importante  como  toda  questão  de  pro- 
priedades e  de  vidas,  mas  que  havia  alli 
um  capital  de  15:000  hectares  de  terra, 
dantes  productivo  para  todo  o  paiz  e  ulti- 
mamente parai 3'sado.  A  23rova  de  que  assim 
era,  de  que  se  tratava  de  interesses  para 
sustentar  os  quaes  eram  insufficientes  as 
corporações  locaes.  estava  nas  representa- 
ções dirigidas  pelos  municípios  devastados, 
não  á  administração  districtal,  mas  logo 
aos  poderes  do  estado,  estava  na  represen- 
tação de  proprietários  e  negociantes  do 
Porto,  que  tinha  a  honra  de  mandar  para 
a  mesa. 

O  Porto,  cujo  desenvolvimento  proveiu 
em  grande  parte  da  cultura  do  Alto  Douro, 


A  crise  do  Douro  13 


sobresaltava-se,  ao  ver  ameaçada  na  origem 
a  sua  riqueza  e  futura  prosperidade.  Dis- 
cutia-se  no  parlamento  um  projecto  de  lei 
para  dotar  a  cidade  do  Porto  com  o  que 
ella  só  por  antiplirase  tinha  tido,  para  lhe 
dar  um  bom  |)orto.  Era  justo,  era  o  cum- 
primento dum  dever.  Mas  considerasse 
a  camará  que  para  pouco  viria  a  prestar  o 
porto  artificial  de  Leixões,  se  o  principal 
género  de  exportação  do  Porto  lhe  fosse, 
cada  vez  mais,  escasseando.  E  a  ruina  da 
segunda  cidade  arrastaria  a  de  todo  o  paiz. 
Disse  que  por  então  a  crise  do  Douro 
representava  um  grave  perigo  económico, 
mas  podia  para  mais  tarde  recear-se  que  se 
convertesse  num  perigo  social.  O  problema 
social  liga-se  tão  intimamente  com  o  pro- 
blema económico,  que  por  toda  a  parte  se 
pretendia  resolvê-lo,  resolvendo  este.  Tal 
era  a  politica  de  Gladstone,  de  Bismarck, 
de  Waldeck  Rousseau,  e  também  a  politica 
do  nosso  governo,  que  se  preoccupava  com 
a  sorte  dos  proletários  em  propostas  do 
sr.  ministro  das  obras  publicas,  e  que  pelo 
órgão  do  sr.  ministro  do  reino  nomeara 
uma  commissão  para  estudar  a  questão  da 
emigração. 


14  Da  monarcbia  para  a  republica 


Na  verdade,  nós  ainda  não  tinliamos 
as  difíiculdades  sociaes,  mas  tínhamos  as 
difíiculdades  económicas,  e  temerosamente 
no  Alto  Douro.  Esforçassemo-nos  todos 
por  debellá-las.  Por  emquanto  o  lavrador 
exautorado  da  sua  propriedade  e  o  jorna- 
leiro sem  trabalho  submettiam-se  á  sua  má 
sorte,  emigravam  —  e  a  emigração,  se  é 
um  mal  fatal,  que  só  pode  procurar-se 
dirigir,  quando  consequência  da  despro- 
porção entre  o  augmento  da  população  e  o 
progresso  industrial,  é  uma  verdadeira  ca- 
lamidade quando  resultante  da  fome  — ; 
accudissem  porém  os  poderes  do  estado  ao 
Douro,  antes  que  as  suas  povoações  se  re- 
voltassem, a  íinal,  contra  a  sua  desventura. 

Tornava-se  necessário  saber  que  não  se 
falava  só  no  Douro,  que  se  trabalhava  por 
elle,  porque  só  assim  o  j^aiz  esperaria  com 
confiança,  e  porisso  o  orador  jDrovocava 
uma  declaração  do  sr.  ministro  das  obras 
publicas. 


A  reforma  constitucional 
de  1885  * 


'  Leu  a  sna  moção  : 

«  A  camará  reconhece  que  a  proposta 
do  governo  traduz  lealmente  a  reforma 
constitucional  estipulada  no  acordo  dos 
partidos,  e  que  encerra  um  pensamento 
de  incontestável  progresso  politico,  quaes- 
quer  que  sejam  as  modificações  que  na 
especialidade  importe  fazer-lhe,  e  continua 
na  ordem  do  dia.  » 

Disse  que  ia  fazer  a  demonstração  desta 
moção,  começando  por  se  occupar  do 
acordo. 

Recordou  a  unanimidade  com  que,  havia 
muito,  os  partidos  proclamavam  a  necessi- 
dade   da    reforma    da    constituição,    e    ao 

*  Contexto  dos  discursos  proferidos  na  discussão 
parlamentar  da  reforma  constitucional  em  ISSõ. 


16  Da  monarchia  para  a  republica 

mesmo  tempo  a  dissidência  que  viera  a 
manifestar-se  entre  elles  quanto  ao  pro- 
cesso de  se  eífectuar,  entendendo  uns  que 
a  devia  realizar  com  as  suas  idéas,  intran- 
sigentemente, o  partido  que  estivesse  no 
governo,  entendendo  os  regeneradores  que 
só  devia  realizar-se  pelo  voto  unanime  de 
todos  os  partidos  monarchicos.  O  primeiro 
j)rocesso  era  sem  duvida  mais  expedito;  mas 
o  outro  era  de  certo  mais  prudente  e  seguro, 
tirava  á  reforma  toda  a  feição  partidária, 
dava-lhe  uma  indiscutível  auctoridade. 

Esta  divergência  foi  retardando  a  re- 
forma ;  não  a  emprehendiam  os  regenera- 
dores, e  depois  o  partido  progressista  não 
se  achou  com  força  de  a  promover.  Vol- 
tou, porém,  ao  governo  o  partido  regene- 
rador, e  os  factos  das  ultimas  promoções 
de  pares  levaram-no  ao  reconhecimento 
de  que  não  era  possível  continuar  o  paiz 
a  governar-se  com  a  camará  alta  de  no- 
meação refria.  Assim  se  orio-inara  a  ultima 
proposta  regeneradora  para  a  reforma  con- 
stitucional. 

A  principio,  os  progressistas,  surprehen- 
didos,  imaginaram-se  roubados  no  seu  pro- 
gramma,    como    se    a   idéa    do    senado    de 


A  reforma  constitucional  de  1885  17 


origem  mixta,  de  eleição  popular  e  de 
nomeação  regia,  fosse  privilegio  seu,  como 
se  a  missão  dos  governos  fosse  crear  idéas 
€  não  applicá-las.  Era  o  momento  de 
applicar  esta,  sem  inspirar  suspeitas  de 
interesse  partidário,  no  manifesto  interesse 
geral  da  nação.  Em  o  discernir  consistira 
o  mérito  dos  regeneradores.  A  opinião 
publica  deu-llies  razão  e  elles  mantive- 
ram-se  por  conseguinte  no  poder. 

A  proposta  regeneradora  apresentava-se 
com  uma  formula  que  podia  satisfazer  á 
media  das  aspirações  dos  partidos.  Era 
pouco  menos  que  a  proposta  histórica, 
adoptada  pelos  progressistas,  e,  se  na 
formação  do  pariato  era  um  pouco  mais 
conservadora  do  que  a  dos  constituintes, 
na  organização  do  poder  moderador  era 
algum  tanto  mais  democrática. 

Por  isso  sobre  ella  se  estabeleceu  o 
acordo.  O  orador  historiou  então  as  esti- 
pulações dos  regeneradores  com  os  consti- 
tuintes e  com  os  progressistas.  Mostrou 
como  foram  dignas  de  parte  a  parte,  e  poz 
em  relevo  por  um  lado  as  declarações 
ministeriaes  e  por  outro  as  dos  chefes  dos 
outros  partidos. 


18  Da  luonarchia  para  a  republica 

Assim  se  chegara  á  lei  de  15  de  maio^ 
que  declarou  a  necessidade  da  reforma 
constitucional. 

Desde  então  havia  já  responsabilidades 
não  só  moraes,  mas  também  legaes.  Exa- 
minou-as. 

Dessa  lei  decorreram  duas  obrigações : 
a  do  paiz  eleger  os  deputados  com  facul- 
dades constituintes,  e  a  da  legislatura  con- 
stituinte não  exceder,  querendo  usar  dessas 
faculdades,  os  limites  impostos  á  revisão 
23ela  legislatura  precedente.  A  primeira 
obrigação  era  evidente.  'Para  reconhecer  a 
segunda  bastava  observar  que  a  carta  exigia 
para  a  sua  revisão  que  duas  legislaturas 
consecutivas  concordassem  na  necessidade 
delia.  Este  acordo  limitava  forçosamente  o 
numero  de  artigos  sobre  que  j^odia  decidir- 
se  a  segunda  legislatura.  Senão,  suecederia 
alguma  vez  querer  a  jjrimeira  a  reforma  de 
um  artigo,  e  vir  a  outra  a  reformar  todos, 
menos  esse.  Mas  tal  limitação  não  coar- 
ctava, era  claro,  a  liberdade  de  decisão  da  se- 
gunda legislatura  sobre  cada  um  dos  artigos- 
cuja  reforma   ambas  julgassem  necessária. 

Da  lei  de  15  de  maio  não  resultava 
outra    obrigação.     Nem    do    mandato    con- 


A  reforma  constitucional  de  1885  19 


^tituinte  que  fora  conferido  aos  deputados 
por  virtude  delia.  Toda  legislatura  pode 
revogar  uma  lei  ordinária,  e  a  fortiori 
aquella  podia  revogar  a  de  15  de  maio. 
Podia,  apesar  do  mandato  constituinte, 
porque  não  é  imperativo.  Demais,  ser 
necessário  para  a  revisão  o  acordo  posi- 
tivo de  duas  legislaturas  consecutivas  so- 
bre a  sua  necessidade  é  o  mesmo  que 
dizer  que  a  segunda  pode  estar  por  elle 
ou  não.  Senão,  o  processo  da  carta,  que 
tinha  por  fim  dar  tempo  á  reflexão  antes 
que  se  fizesse  uma  reforma  constitucional, 
de  modo  que  em  matéria  tão  grave  não 
decidisse  logo  o  voto  de  uma  legislatura, 
mas  primeiro  se  formasse  a  opinião  do 
paiz,  e  só  depois  os  mandatários  da  nação 
viessem  exprimir  o  seu  voto  com  verda- 
deira consciência  das  necessidades  publi- 
cas, este  processo  mallograr-se-ia,  pois 
que  a  necessidade  da  reforma  vinha  a 
ficar  decidida  logo  á  primeira  legislatura, 
e  a  segunda  tinha  de  rever  a  carta, 
ainda  que  o  não  julgasse  necessário.  Não 
podia  ser. 

Entendia    também    que    a    lei    de   15   de 
maio  não  impozera  ao  governo  a  obrigação 


20  Da  monai-chia  para  a  republica 

de  apresentar  uma  pi'oposta  de  reformas 
politicas,  porque  nenhuma  lei  ordinária  Lhe 
podia  tolher  a  liberdade  de  iniciativa,  que 
lhe  estava  garantida  na  carta.  Elle  apre- 
sentara por  dever  do  cargo  e  por  se  achar 
a  isso  obrigado  moralmente. 

Além  das  obrigações  legaes  resultantes 
da  lei  de  15  de  maio,  havia  as  obrigações 
moraes  provenientes  do  acordo  dos  parti- 
dos. O  jDartido  regenerador  contrairá  a 
de  apresentar  uma  proposta  vasada  nos 
moldes  do  acordo  ;  assim  fez.  Para  o  veri- 
ficar bastava  comparar  a  proposta  com  as 
anteriores  declarações  do  sr.  Fontes  á 
commissão  da  camará  dos  pares,  as  quaes 
vinham  notadas  no  relatório  do  sr.  Thomás 
Ribeiro.  Este  foi  o  procedimento  leal  do 
partido  regenerador.  Qual  o  dos  outros 
partidos,  ou  antes  do  partido  jDrogressista 
e  do  chefe  dos  constituintes  ?  O  sr.  José 
Dias  Ferreira,  que  achava  boa  a  refonna, 
se  não  óptima,  passou  a  achá-la  péssima ; 
os  progressistas,  que  a  tinham  approvado 
na  generalidade  e  aífirmado  que  collabora- 
riam  nella  até  final,  vieram  por  fim  decla- 
rar que  a  não  consideravam  base  séria 
para  discussão.     Pois  o  seu  dever  era  dis- 


A  reforma  constitucional  de  1885  21 


cutir  todas  as  propostas  do  governo,  ainda 
que  para  isso  não  tivessem  com  elle 
tomado  compromisso.  Os  deputados  não 
tèem  só  de  votar,  a  própria  palavra  par- 
lamento indica  que  devem  discutir.  Se 
não  discutem  todos  e  cada  um,  é  porque 
estão  distribuidos  em  partidos  e  não  tem 
cada  um  sua  opinião  individual ;  mas  cada 
partido  tem  obrigação  de  intervir  nas  dis- 
cussões. Pretendia  o  partido  progressista 
que  o  seu  procedimento  anormal  fora  pro- 
vocado pela  dictadura  inter-parlamentar  do 
governo.  O  orador  não  attenuava  a  gra- 
vidade de  tal  acto,  não  era  como  o  sr. 
José  Luciano  de  Castro,  que  dava  assento 
a  esses  abusos  no  nosso  código  politico. 
Não  !  Entendia  que  não  só  as  dictaduras 
são  anti-constitucionaes  —  a  não  serem 
para  as  provincias  ultramarinas,  em  que 
as  tolerava  o  acto  addicional,  ou  para  se 
suspender  apenas  alguma  das  formalidades 
que  garantiam  a  liberdade  individual,  e 
isto  nos  casos  de  rebellião  ou  invasão  de 
inimigos,  e  jDedindo-o  a  segurança  do  es- 
tado — ,  que  nunca  é  licito  suspender  a 
independência  do  poder  legislativo,  a  qual, 
como  a  de  todo  o  poder,  representava,  na 


Da  monarchia  para  a  republica 


expressão  da  carta,  o  meio  mais  seguro 
de  tornar  effectivas  as  garantias  constitu- 
cionaes  ;  mas  entendia  ainda  que  á  legisla- 
tura não  assiste  o  direito  de  conceder  um 
hill  de  indemnidade  a  taes  excessos  do 
poder  executivo.  Onde  estava  consignado 
esse  direito  ?  A  conclusão  lógica  do  acto 
dictatorial  do  governo,  da  j)raxe  estabele- 
cida das  dictaduraS;  seria  reformar  ainda 
mais  depressa  a  constituição  e  não  a  apo- 
theose  da  dictaura,  como  a  fez  uma  das 
vozes  mais  eloquentes  do  paiz,  o  deputado 
progressista,  sr.  António  Cândido. 

Em  seguida  o  orador  passou  a  demon- 
strar que  o  pensamento  da  proposta  da 
reforma  que  estava  em  discussão,  era  de 
incontestável  progresso  politico. 

Disse  que  uma  constituição  era  um  código 
de  direitos,  desde  os  direitos  communs  até 
os  direitos  collectivos,  até  as  duas  espécies 
mais  culminantes  destes,  o  direito  de  sobe- 
rania, de  intervenção  da  nação  no  seu 
governo,  que  é  a  forma  mais  complexa 
do  direito  publico  interno,  e  o  direito  de 
autonomia,  de  independência  da  nação, 
que  é  já  uma  forma  do  direito  publico 
externo. 


A  reforma  constitucional  de  1885  23 


Afiançou  então,  em  primeiro  logar,  que  a 
proposta   do   governo   tendia   a   declarar-se 
bem  expressamente   que  a  nação  não  obe- 
decia a  suzerania  nenhuma  estranha,  nem 
temporal,    nem    espiritual,    nem    mesmo    á 
da  egreja :  tal  era  o  alto  sentido  do  artigo 
do  beneplácito  ;  segundo,  que,  ao  passo  que 
então  o  rei  tinha  duas  partes  na  represen- 
tação nacional  e  o  povo  só  uma,  pela  pro- 
posta   viriam    a    tê-las    approximadamente 
eguaes,  e,  emquanto   que  então,  num  con- 
£icto  entre  o  rei  e  as  cortes,  o  rei  podia, 
contra  o  espirito  da  carta,  prevalecer,  de- 
pois prevaleceriam  as  cortes,  e  seria  a  pró- 
pria nação  que  resolveria  os  conflictos  entre 
as    duas    camarás,   visto    que   ambas   iriam 
directa  ou  indirectamente  restabelecer  a  sua 
harmonia   ao  sufrágio  popular,  deixando  a 
solução   de   estar,  como  então,  dependente 
da  conciliação   sempre  incerta  do  rei,  que 
fazia  as  nomeações  dos  pares,  com  o  povo, 
que  elegia  os  deputados;  e,  finalmente,  que 
a  proposta  asseguraria  direito  tão  importan- 
te como  o  de  reunião,  tornando-o  indepen- 
dente para  sempre  de  auctorização  prévia. 
Demonstrou    largamente    estas    proposi- 
ções,   insistindo    sobretudo    nos    princípios 


24  Da  nionarchia  para  a  republica 

seguintes  introduzidos  neste  novo  acto  addi- 
cional :  a  camará  dos  pares  escolhida  não 
só  pelo  rei,  mas  também  pelo  povo ;  a 
impossibilidade  do  rei  contrariar  a  vontade 
das  cortes,  dissolvendo  incessantemente  a 
camará  dos  deputados  e  nomeando  pares 
indefinidamente.-  Quanto  aos  conflictos  pos- 
síveis de  futuro  entre  as  duas  camarás, 
ponderou  que,  se  até  áquella  data  elles  se 
tinham  resolvido  em  favor  da  camará  dos 
deputados  com  a  iDromoção  dum  numero  de 
pares  inferior  ou  excepcionalmente  pouco 
superior  a  vinte,  havia  todas  as  probabili- 
dades de  que  de  futuro  se  resolvessem  com 
a  eleição  de  cincoenta  novos  pares,  e  haveria. 
até  certeza,  se,  como  tencionava  pro]Dor,  a 
camará  dos  dignos  pares  ficasse  constituída 
metade  de  eleição  e  metade  de  nomeação, 
pois  que  aqnellas  probabilidades  perfariam, 
sem  duvida  alguma,  a  maioria  ao  voto 
popular.  Fez  ver  ainda  como  na  proposta, 
declarando-se  compatíveis  as  funcções  de 
ministro  com  as  funcções  anteriores  de  par 
e  deputado,  se  consagrava  para  o  poder 
executivo  esta  verdade  do  regimen  parla- 
mentar, que  os  ministros  são  da  escolha  do 
rei  e  do  parlamento.     Se  é  o  rei  quem  os 


A  reforma  constitucional  de  1885  25 


nomeia,  não  deve  exercer  a  sua  prerogativa 
senão  dentro  da  categoria,  dos  homens  que 
possuem  a  confiança  do  parlamento. 

O  orador  foi,  durante  a  sua  demonstração, 
concatenando    os   artigos    da   jjroposta,    de 
modo   a   convencer  que  toda  ella  obedecia 
a   um  pensamento  fundamental,  que  todas 
as  suas  partes  se  ligavam  systematicamente. 
Assim,   da  differenòa  futura  entre  os  pares, 
uns  de  nomeação  vitalicia,  outros  electivos 
e   temporários,    derivou   a  conveniência  de 
se  declarar  que  todos  elles  seriam  eguaes, 
que  todos,  assim  como  os  deputados,  seriam 
representantes  da  nação  ;  da  introducção  do 
elemento  electivo  na  camará  dos  pares  lhe 
levantar  o  nivel  politico  resultava  a  neces- 
sidade  de  se  elevar  egualmente  a  auctori- 
dade    da    camará    dos   deputados   para  lhe 
restituir    a   preponderância,    e    o    meio    era 
tornar  mais  intima  a  sua  communhão  com 
o   corpo   eleitoral,  reduzir  o  tempo  da  sua 
legislatura   de   quatro   a  três   annos,  prazo 
sufficiente,    segundo    opinavam    os    nossos 
políticos ,    e    entre    elles   o   marquês   de   Sá 
da  Bandeira,  para  os  deputados  legislarem 
proficuamente,   com    sequencia ;   e,    depois, 
desta  reducção,  que  podia,  apesar  de  tantas 


26  Da  monarchia  para  a  republica 

opiniões  auctorizadas,  induzir  alguns  depu- 
tados a  transformarem-se  em  candidatos 
perpétuos,  provinha  a  importância  de  con- 
demnar  expressamente  o  mandato  impera- 
tivo, não  porque  a  palavra  do  legislador 
seja  uma  sancção  jDcrfeita,  mas  porque 
ainda  tem  força  o  respeito  á  lei,  e  ])SLra. 
que  ficasse  este  preceito  a  recordar  que 
lia  um  limite  minimo  além  do  qual  não  é 
permissivel  estreitar  a  temporalidade  legis- 
lativa. Também  se  restringiu  a  preroga- 
tiva  real  do  indulto  e  commutação  de 
pennas,  exigindo  petição  prévia  de  qual- 
quer das  camarás  legislativas  para  ella  se 
exercer  em  favor  dos  ministros  condemna- 
dos  por  crimes  commettidos  no  desem- 
penho do  seu  cargo,  porque  ainda  neste 
caso  cumpria  consignar  a  doutrina,  que  é 
o  jDarlamento  o  supremo  moderador  consti- 
tucional. 

O  orador,  tendo  concluído  a  demonstra- 
ção da  segunda  parte  da  sua  moção,  per- 
guntou se  reforma  de  tanta  magnitude, 
supposto  não  fosse  radical,  não  deveria 
contar  com  quatro  annos  de  vida.  Este 
prazo,  julgava-o  indispensável  para  a  nação 
disciplinar  o  seu  desenvolvimento  politico. 


A  reforma  constitucional  de  1885 


Se  alguém,  depois  de  feita  esta  reforma, 
tentasse  logo  outra,  admittindo  por  um 
instante  a  hypothese  inverosímil  de  que 
tivesse  comsigo  um  numero  considerável  de 
espíritos  sérios,  precisaria  para  a  propa- 
ganda das  suas  idéas,  para  uma  legislatura 
ordinária  reconhecer  a  necessidade  da  nova 
reforma  e  para  a  legislatura  constituinte 
a  levar  a  cabo,  pelo  menos  dos  quatro 
annos. 

Nem  se  dissesse  que  o  poder  legislativo 
não  tem  o  direito  de  dispor  do  futuro  da 
nação.  Pois  é-llie  licito  ceder  porções  do 
território,  contrahir  empréstimos,  alienar, 
em  summa,  a  propriedade  das  gerações 
futuras,  no  intuito,  é  certo,  de  augmentar 
a  riqueza  publica,  e  não  o  seria  disciplinar 
a  liberdade  delias  para  assegurar  a  evolu- 
ção jurídica  da  nação  I  Mas  nem  disso  se 
tratava,  o^  prazo  anteposto  á  nova  reforma 
era  apenas  de  quatro  annos. 

Havia  quem  pensava  combatê-lo,  argu- 
mentando por  absurdo  que,  assim  como 
iam  ser  exigidos  quatro  annos  de  expe- 
riência constitucional  em  seguida  á  próxima 
reforma,  se  poderia  exigir  .um  grandíssimo 
numero   de  annos.     Era  como  se  da  facul- 


28  Da  monarchia  para  a  republica 

dade  que  o  poder  legislativo  tem  de  ceder 
porções  de  território,  se  pretendesse  inferir 
que  podia  aliená-lo  todo.  Não.  Aqui  o 
numero  não  é  elemento  arbitrário.  A  pra- 
tica ensinava  que  a  constituição,  para  se 
experimentar,  exigia  um  certo  numero  de 
annos  que  não  era  possivel  precisar,  mas 
que  com  certeza  não  era  inferior  a  quatro  ; 
e  já  não  se  fundaria  nos  factos  quem  lhe 
marcasse  um  periodo  comparativamente 
muito  longo. 

Mas  a  doutrina  contraria  tende  a  destruir 
não  só  toda  a  fé  publica,  mas  toda  a  fé 
dos  contractos.  Nenhuma  instituição  seria 
possivel.  O  deputado,  por  exemplo,  eleito 
hoje,  deveria  amanhã  restituir  o  seu  man- 
dato, porque  o  corpo  eleitoral  varia  conti- 
nuamente, e  até  não  se  sabe  se  os  próprios 
que  o  elegeram,  não  terão  mudado  de  sen- 
timentos para  com  elle.  E  ningu^  acharia 
com  quem  tratar  senão  á  vista,  porque 
todo  o  pactuante  teria  o  direito  de  rescindir 
sempre  o  seu  contracto,  quando  lhe  aprou- 
vesse, fundando-se  na  sua  liberdade  de 
acção,  que  nunca  deve  ser  coarctada. 

O  que  é  necessário,  accentuou  o  orador, 
não  é  já  outra  reforma  constitucional  logo 


A  reforma  constitucional  de  1S85  29 


depois     desta,    mas    aproveitar    esta    para 
melhorar  os  serviços  da  administração. 

Expoz  em  seguida  desinvolvidamente  a 
nossa  situação,  a  importância  que  tiveram 
os  meliioramentos  materiaes,  reclamados 
já  em  1820  por  Fernandes  Thomás  como 
urgentes,  paca  sempre  titulos  .  de  gloria 
do  partido  regenerador,  mas  a  sua  insuf- 
ficiencia,  a  immoralidade  qu^  occasionavam, 
6  até  a  ruina  que  contra-producentemente 
delles  podia  provir,  porque  as  estradas,  os 
caminhos  de  ferro,  que  se  fazem  para 
proveito  dos  nacionaes,  virão,  se  elles  não 
se  instruírem  senão  pela  sua  approximação, 
senão  pela  troca  das  próprias  idéas,  a 
aproveitar  sim,  mas  aos  estrangeiros,  que 
facilmente  os  an'uinarão  com  a  sua  supe- 
rioridade intellectual  na  luta  económica. 
Julgava,  pois,  inadiável  fomentar  o  desen- 
volvimento intellectual  e  moral  do  paiz. 
Este  devia  ser  naquelle  momento  o  pro- 
gramma  do  partido  regenerador.  E  pare- 
cia-lhe  que,  assim  como  Rodrigo  da  Fonseca 
prestara  ao  sr.  Fontes  a  sua  auctoridade 
para  a  realização  dos  melhoramentos  mate- 
riaes, assim  então  o  sr.  Fontes  devia  prestar 
a    sua   para   a  dos   melhoramentos   intelle- 


30  Da  monarchia  para  a  republica 


ctuaes.  Até  viriam  a  ficar  satisfeitos  os 
mesmos  que  achavam  insufficiente  a  lei  em 
projecto,  porque  onde  se  fazem  as  leis  não 
é  tanto  no  parlamento  como  na  eschola. 


Sr.  Presidente  ! 

Tenho  a  honra  de  mandar  para  a  mesa 
uma  proposta,  e,  se  v.  ex.'"*  me  dá  licença, 
como  o  que  tenho  de  dizer  é  pouco,  di-lo-ei 
deste  mesmo  logar.  A  camará  verá  bem 
pela  leitura  da  minha  proposta  qual  a  diífe- 
rença  que  existe  entre  ella  e  o  artigo  2." 
do  projecto. 

Proponho  a  seguinte  emenda : 

«  Artigo  2.°  A  camará  dos  deputados 
será  triennal,  e  as  funcções  dos  pares  ele- 
ctivos durarão  em  regra  seis  annos,  mas 
expirarão  para  metade,  no  fim  de  cada 
triennio  dos  deputados,  devendo  esta  reno- 
vação operar-se  de  cada  vez  por  turno,  ou, 
não  o  havendo  ainda,  á  sorte.     A  duração 


A  reforma  constitucional  de  1885  31 


do  mandato  eleitoral  contar-se-á  sempre  do 
primeiro  dia  de  reunião  de  cortes,  depois 
de  uma  eleição  geral  de  deputados  e  pares 
electivos. 

«  Haverá  cada  anno  civil  uma  sessão 
ordinária  de  cortes,  que  nunca  poderá 
durar  menos  de  três  mezes. 

«  §  único.  Fica  deste  modo  substituído 
o  artigo  17."  da  carta  constitucional. 

O  artigo  2.°  do  projecto  começa  por  falar 
em  legislatura.  Esta  palavra  era  bem  ca- 
bida na  constituição  de  1822,  que  instituía 
somente  uma  assembéa  legislativa.  Então 
podia  dizer-se,  por  isso  que  uma  legislatura 
era  o  tempo  das  funcções  dessa  assembléa. 
Com  a  carta  de  1826,  que  nos  rege,  podia 
também  dizer-se  uma  legislatura.  Não  havia 
já  só  uma  camará,  como  todos  sabem,  por- 
que, além  da  camará  dos  deputados,  orga- 
nizava-se  uma  camará  de  pares ;  mas,  sendo 
os  pares  vitalícios,  podia  ainda  dizer-se 
uma  legislatura,  significando  este  tempo  o 
periodo  entre  duas  eleições  geraes  ordiná- 
rias de  deputados.  Agora  é  que  já  não  se 
pode  dizer  o  mesmo,  porque,  depois  do  pro- 
jecto em  discussão  se  converter  em  lei,  não 
continuarão  electivos  só  os  deputados  como 


Da  monarchia  para  a  republica 


até  hoje,  mas  vão  tornar-se  electivos  alguns 
pares,  sem  ficarem  conjugados  os  dois  actos 
eleitoraes.  Daqui  a  seguinte  pergunta : 
legislatura  de  quem  ?  de  deputados,  ou  de 
pares  ?  Quando  o  projecto  diz  neste  artigo 
que  cada  legislatura  durará  três  annos, 
refere-se  á  legislatura  dos  deputados  ?  De 
certo  que  sim  ;  mas,  como  não  ha  só  essa,  ha 
também  a  legislatura  dos  pares,  parece-me 
que  a  expressão  não  é  acertada,  e  preferia 
que  se  dissesse,  ao  modo  da  constituição 
de  1838,  que  a  camará  dos  deputados  terá 
uma  duração  triennal  e  a  camará  dos  pares 
sexennal. 

Na  minha  opinião,  a  camará  dos  pares 
deverá  ser  renovada,  sempre  que  se  pro- 
ceder á  eleição  de  deputados,  isto  é,  nor- 
malmente no  fim  de  cada  triennio.  e  é 
o  que  consigno  na  minha  proposta. 

Preceitua-se  também  neste  artigo  do 
projecto  que  cada  sessão  annual  durará 
três  mezes  ;  mas,  como  adeante  o  projecto 
não  delimita  á  coroa  a  prerogativa  de  adiar 
as  cortes,  apesar  de  que  entendo  que  seria 
um  abuso  o  acto  do  poder  real  que  trans- 
formasse o  adiamento  numa  reducção  de 
sessão,  em  todo   o  caso  parece-me  conve- 


A  reforma  constitucional  de  1885  33 


mente  prevenir  esse  abuso,  posto  que  sim- 
plesmente possivel.  Por  isso,  em  vez  de  se 
dizer,  como  no  projecto,  a  a  sessão  dsve 
durar  três  mezes  »,  opto  por  que  se  diga 
que  a  sessão  não  durará  menos  de  três  mezes. 

No  paragráplio  a  coramissão  diz :  «  a 
sessão  que  durar  menos  de  três  meses,  não 
será  contada  para  o  acto  da  duração  da 
legislatura,  etc.  » 

A  duração  do  mandato  dos  deputados, 
que  até  agora  tem  sido  j)ela  carta  de  qua- 
tro annos,  passa  a  ser  de  três.  Ora  não  é 
sem  j)reoccupações,  sem  receio,  que  alguns 
espiritos  acceitam  esta  mudança.  Eu  já  tive 
occasião  de  mostrar  aqui  o  motivo  que  a 
determinou.  Desde  que  se  julgou  necessá- 
rio, e  bem,  levantar  o  nivel  da  camará  dos 
pares,  vinha  a  ser  também  necessário  res- 
tituir a  preeminência  politica  á  camará  dos 
deputados,  e  o  meio  obvio  que  se  indicava 
logo,  era  tornar  a  camará  dos  deputados 
mais  intima  com  os  eleitores,  portanto  redu- 
zir o  tempo  da  sua  legislatura.  Ha,  porém, 
um  j^erigo  grave  que  todos  prevêem.  Os 
deputados,  quando  o  tempo  da  legislatura 
se  reduza  excessivamente,  podem  transfor- 
mar-se  de  deputados  em  candidatos  perpe- 

3 


34  Da  monarchia  para  a  republica 

tuos  ;  quer  isto  dizer  que,  em  vez  de 
porem  acima  de  tudo  os  interesses  do  paiz, 
podem  procurar  principalmente  satisfazer 
os  interesses  dos  seus,  eleitores.  Este  receio 
domina  hoje  certos  es]DÍritos  timoratos.  A 
mim  parece-me  bastante  para  o  desvanecer 
a  opinião  dos  homens  mais  illustrados  e 
experientes  do  nosso  paiz,  como,  por  exem- 
plo, o  marquês  de  Sá.  A  maior  j)arte  dos 
homens  que  têem  passado  pelo  poder,  os 
que  têem  presidido  ás  situações  politicas, 
são  de  opinião,  que,  para  o  mandato  dos 
eleitores  se  não  tornar  imperativo  e  os 
deputados  se  não  converterem  em  candi- 
datos perpétuos,  basta  que  a  legislatura 
não  dure  menos  de  três  annos.  A  commis- 
são,  concordando  nesta  opinião,  realmente 
acceita  pelo  paiz,  adojDtou  este  prazo ;  mas 
é  preciso  que  a  reducção  não  vá  mais  longe, 
e  o  paragrapho  está  redigido  de  forma  que 
pódé  dar  tal  resultado.  Diz-se  que  a  sessão 
que  durar  menos  de  três  mezes,  não  se 
contará.  Peço  licença  para  observar  que 
nós  havemos  de  contar  as  legislaturas  não 
por  sessões,  mas  por  annos  civis.  Quando 
estabelecemos  no  corpo  do  artigo  que  a 
legislatura  dos  deputados  durará  três  annos, 


A  reforma  constitucional  de  18S5  35 


não  qiiizemos  contar  a  legislatura  senão  por 
annos,  e  o  paragrapho  não  devia  oppor-se 
a  este  principio,  vindo  dizer  que  a  sessão 
que  durar  menos  de  três  mezes,  não  se 
contará  para  o  computo  da  legislatura. 
Nós,  a  unidade  que  tomamos,  não  é  a  uni- 
dade sessão,  é  a  unidade  anno.  Se  a  unidade 
fosse  sessão,  num  só  anno  com  duas  ses- 
sões extraordinárias,  cada  uma  das  quaes 
durasse  três  mezes,  acabava-se  logo  a  legis- 
latura dos  deputados.  Ora  ninguém  deseja 
isso. 

Eu  sei  bem  os  inconvenientes  que  a 
commissão  quiz  evitar  com  esta  disposição, 
e  qual  foi  o  facto  que  lha  suggeriu ;  mas 
quem  encarar  de  frente  o  problema,  reco- 
nhecerá que  o  que  é  necessário,  é  fixar  o 
ponto  de  partida  para  as  legislaturas.  Isto 
faço  na  minha  proposta.  Entendo  que  as 
legislaturas  se  devem  contar  da  primeira 
reunião  das  cortes,  depois  d.e  umas  eleições 
geraes. 

Não  só  me  desagrada  a  forma  que  a 
commissão  deu  á  idéa  principal  do  para- 
grapho a  que  me  estou  referindo,  mas  acho 
incorrectíssima  a  redacção  da  sua  segunda 
parte. 


36  Da  monarcliia  para  a  republica 


Parece  que  já  estava  tudo  dito.  Dis- 
sera-se :  «  A  sessão  que  durar,  menos  de 
três  mezes,  não  será  contada  para  o  com- 
puto da  duração  da  legislatura  ».  Portanto, 
se  se  desse  o  caso  aqui  previsto,  se  fossem 
dissolvidas  as  cortes  e  houvesse  depois  uma 
sessão  de  dois  mezes,  por  exemplo,  antes 
de  janeiro,  os  dois  mezes  não  constituiam 
uma  sessão,  e  não  se  contava  esse  tempo 
para  a  legislatura.  Era  o  que  se  inferia. 
Mas  quiz-se  estabelecer  mais  alguma  coisa, 
que  é  inacceitavel.  A  commissão  continuou, 
dizendo  :  «  salvo  havendo  no  mesmo  anno 
nova  sessão  que  dure  o  tempo  preciso  2)ara 
completar  aquelle  prazo  ». 

Que  significa  isto  de  no  mesmo  anno 
haver  nova  sessão  ?  Dar-se-á  caso,  que  a 
commissão  admittisse  a  h^^pothese  de,  re- 
unidas as  cortes  em  seguida  a  uma  disso- 
lução, ellas  funccionarem  só  dois  mezes. 
por  exemplo,  haver  decorridos  elles  um 
adiamento,  reunirem-se  o  terceiro  mez  em 
nova  sessão  e  assim  se  completarem  três 
mezes  ?  E  esta  a  hypothese  que  a  com- 
missão figurou  V  A  commissão  entende  que 
a  prerogativa  real  do  adiamento  poderá  ter 
o   eífeito   de  obstar  a  um  trimestre  inteiro 


A  reforma  constitucional  de  1885  37 


de  sessão  consecutivamente  a  uma  dissolu- 
ção de  ambas  as  camarás  ?  Mas  para  que 
serviria  em  tal  caso  a  disposição  do  artigo  7.'^ 
do  projecto,  que  ordena  a  convocação  das 
cortes  para  se  reunirem  dentro  de  três 
mezes  a  contar  da  sua  dissolução  ?  E'  claro 
que  se  arriscava  a  ser  sophismada  pelo 
adiamento,  que  poderia  suspender  a  sessão 
logo  num  dos  dias  seguintes  ao  de  abertura. 

E  agora  se  apodera  de  mim  uma  appre- 
hensão.  Entenderá  em  these  geral  a  com- 
missão  que  o  adiamento  possa  não  só  inter- 
romper, mas  até  encurtar  qualquer  sessão 
do  parlamento  ? 

Já  sabem  o  que  penso  deste  encurtar 
mento.  Quero  porém  mostrar  a  conclusão 
que  se  tiraria  para  a  temporalidade  legisla- 
tiva. Inversa  á  de  ba  pouco.  A  legislatura, 
que,  pela  primeira  j)arte  do  paragrapho, 
pecava  por  defeito,  agora  pela  segunda 
23arte  vinha  a  pecar  por  excesso.  Digo  mais 
a  V.  ex.'"* :  se  a  prerogativa  real  fosse  tão 
discrecionaria,  se  o  adiamento  não  fosse 
simplesmente  uma  interrupção  das  sessões, 
mas  fosse  também,  ou  pudesse  dar  em 
resultado,  uma  reducção  delias,  sabe  v.  ex.'"' 
quanto  poderia  durar  uma  camará  de  depu- 


38  Da  monai"chia  para  a  republica 

tados  e  a  ])SiYte  electiva  dos  senadores  ? 
Indefinidamente.  Xo  primeiro  anno,  jjas- 
sado  um  mez  de  sessão,  liavia  um  adiamento 
até  ao  anno  seguinte,  e  não  se  contava  esse 
anno ;  no  segundo  anno  havia  só  um  ou 
dois  mezes  de  sessão,  tão  pouco  se  contava 
esse  anno  :  e  assim  successivamente.  Seria 
absurdo  duas  vezes.  Os  deputados  eterni- 
zavam-se,  e  nunca  tinham  tempo  j^ara  nada. 

Todos  estes  vicios  se  deparam  na  redacção 
do  artigo  2.'\  Para  os  remediar,  além  de 
querer  também  incluir  uma  idéa  que  já 
apresentei  a  v.  ex."*,  —  que  a  parte  ele- 
ctiva da  camará  dos  pares  seja  renovada 
por  metade  no  fim  do  triennio  dos  depu- 
tados — ,  organizei  a  emenda  que  tive  a 
honra  de  ler. 

Notarei,  e  para  terminar,  que,  por  inadver- 
tência, não  ficou  incluido  entre  os  artigos 
sujeitos  á  nossa  revisão  o  artigo  75."  §  1.", 
da  carta,  que  este  artigo  2."  do  projecto 
evidentemente  altera. 

Leií.-se  lia  mesa  a  i^roposta. 

Foi  admittida. 


A  reforma  constitucional  de  1885  39 


Sr.  Presidente  ! 

Pedi  a  jjalavra  para  mandar  para  a  mesa 
esta  proposta  que  se  fundamenta  com  as 
considerações  que  fizeram  alguns  dos  meus 
illustres  collegas,  e  já  se  achava  funda- 
mentada com  as  que  tive  a  honra  de  fazer 
durante  a  discussão  da  generalidade. 

E  agora  bastará  que  eu  mostre,  muito 
rapidamente,  que  a  razão  para  que  os  pares 
e  deputados  percam  os  seus  logares,  quando 
sejam  nomeados  ministros,  não  procede  para 
os  conselheiros  d'estado . 

A  razão,  que  eu  já  adduzi,  é  que  os  mi- 
nistros doestado,  ainda  que  a  carta  diga 
que  são  nomeados  livremente  pelo  rei,  a 
realidade  é  que  são  por  elle  tirados  da 
categoria  dos  eleitos  do  parlamento,  flnter- 
rupçãoj.  V.  ex.^  quer  dizer  que  podem  ser 
escolhidos  dentre  pessoas  estranhas  ao  par- 
lamento. De  certo,  mas  pessoas  que  mere- 
çam a  confiança  da  maioria.  Ha  um  exemplo 
recente  dum  illustre  estadista  que  veiu  a 
tomar   parte    num   ministério   progressista, 


40  Da  monarchia  para  a  republica 


sendo    nessa    occasião    estranho    ao    j^arla- 
mento.      Não    estou    advogando     agora    o 
principio,  que  tem  aliás  j)or  si  muitas  sym- 
pathias    e    a   pratica    quasi    constante,    de 
que    todos    os    ministros    sejam    membros 
de  alguma  das  camarás.     O  que  affirmo,  é 
que  o  poder  moderador  não  pode  escolher 
para  ministros  senão  homens  que  mereçam 
a  confiança   do   parlamento.     Portanto,    os 
deputados  ou  pares  nomeados  ministros  não 
devem    por    este    facto   tornar-se    suspeitos 
ao  paiz.     Passaram  não  por  uma  selecção 
exclusiva  do  poder  real,  mas  por  uma  sele- 
cção   simultânea  do   rei   e   do   parlamento. 
Só  lhes  pode  lançar  tal  suspeição  a  doutrina 
de  que  os  ministros  são  da  escolha  pessoal 
do   rei.     Mas   essa  não   é   positivamente  a 
nossa  doutrina,  não  é   de  maneira  alguma 
a  da  carta.     O  nosso  regimen  ó  de  gabinete. 
Não    é    o    regimen   americano,    em    que   os 
poderes     estão    completamente    separados, 
em  que  o  poder  executivo  é  eleito  ao  lado 
do    poder    legislativo    e    os    ministros    são 
creaturas  do  chefe  do  estado.    Em  Portugal 
os  ministros  são  não  só  nomeados  pelo  rei, 
mas  também  indigitados  pelo  parlamento. 
Esta  indicação  é  implicita. 


A  reforma  constitucional  de  1885  41 


Se  isto  assim  é,  se  é  por  esta  razão  que 
nós  devemos  incluir  no  actual  projecto  o 
principio  que  está  no  artigo  5.°,  esta  mesma 
razão  não  procede  para  com  os  pares  ou 
deputados,  quando  nomeados  conselheiros 
d'estado ;  porque,  j)fira  esta  nomeação,  que 
é  libérrima  da  prerogativa  real,  é  que  não 
intervém  o  voto  do  parlamento. 

Era  quasi  desnecessário,  para  fundamen- 
tar a  minha  proposta,  repetir  o  que  eu  já 
tinha  dito. 

PROPOSTA 

Proponho    que  no   artigo   õ."   se   elimine 
«  ou  de  conselheiro  d'estado  ». 
Foi  admittida. 


Começou  por  observar  que  lhe  não  era 
necessário  combater  o  principio  do  pariato 
hereditário,  visto  que  ninguém  o  defendia. 
E  que,  reconhecendo  todos  a  força  da 
hereditariedade,  todos  conhecem  ao  mesmo 
tempo   que  ella  não  é  bastante  para  dotar 


42  Da  nionarcliia  para  a  republica 


alguém  com  o  saber  e  com  a  virtude,  e 
estes  são  os  únicos  titulos  que  devem  dar 
direito  á  entrada  em  qualquer  das  camarás. 
Ademais,  perguntava  qual  era  entre  nós  a 
classe  que  se  pudesse  dizer  herdeira  das 
tradições  de  governo,  depositaria  do  espirito 
politico. 

Disse  que  lhe  era  necessário,  sim,  com- 
bater o  direito  próprio  ao  pariato,  que  tantos 
espiritos  cultos  ainda  sustentavam  e  até 
alguns  que  aliás  se  declaravam  seus  adver- 
sários. Assim  o  sr.  José  Dias  Ferreira,  que 
nesse  anno  acabava  de  falar  contra  o  direito 
ao  pariato  inherente  a  qualquer  funccio- 
nario,  no  anno  precedente  opinara  pela 
introducção  na  camará  dos  pares  de  mem- 
bros eleitos  por  corporações  do  estado,  como 
o  Supremo  tribunal  de  justiça,  por  exem- 
plo. Pois  dar  a  estas  corporações  o  direito 
de  eleger  pares  é  essencialmente  o  mesmo 
que  investir  no  pariato  certos  funcciona- 
rios  públicos.  O  mesmo  princijDio  conde- 
mna  um  e  outro  destes  supjíostos  direitos. 
Que  principio  é  este  ?  E  que  se  não  deve 
inverter  a  ordem  constitucional,  segundo  a 
qual  os  representantes  da  nação  formam 
immediatamente    pelos    seus    delegados    o 


A  reforma  constitucional  de  18S5  43 


poder  executivo  ;  e  dar  o  pariato  a  certos 
funccionarios  ou  a  certas  corj^orações  exe- 
cutivas é  derivar  não  o  executivo  da  repre- 
sentação nacional,  mas,  ás  avessas,  derivar 
do  executivo  um  ramo  da  representação 
nacional,  é  a  confusão  dos  poderes,  e  a 
peor,  porque  é  a  absorpção  de  todos  pelo 
executivo. 

Sabia  que  se  costumava  allegar,  em  favor 
da  elevação  ao  j)arlamento,  jjor  direito  pró- 
prio, dos  homens  mais  versados  na  pratica 
da  administração,  que  assim  se  aproveitaria 
o  seu  saber  feito  de  experiência,  mas  res- 
pondia que  o  ministro  não  deve  viver  isolado 
dos  funccionarios  do  seu  ministério,  estes 
devem  ser  collaboradores  que  o  cerquem 
das  suas  luzes,  representando-llie  os  vicios 
e  as  necessidades  dos  serviços,  e  que  é 
portanto  pela  iniciativa  parlamentar  dos 
ministros  que  o  paiz  deve  receber  o  concurso 
do  executivo  na  elaboração  das  leis. 

O  orador,  continuando,  disse  acliar-se 
em  presença  de  dois  systemas,  a  organi- 
zação da  camará  dos  pares  por  nomeação 
regia  ou  por  eleição  popular,  e  das  combi- 
nações que  com  estes  systemas  exclusivos 
se  podiam  fazer. 


44  Da  monarchia  para  a  republica 

Julgava  não  ter  que  discutir  os  direitos 
da  realeza  e  do  povo.  O  que  era  certo, 
era  que,  á  medida  que  o  jdovo  se  illustrava, 
tendia  a  chamar  a  si  uma  parte  maior  da 
auctoridade,  e  isto  pelo  direito  da  razão, 
da  consciência  humana.  Por  isso  declarara 
na  discussão  da  generalidade  que  um  dos 
caracteres  progressivos  da  proposta  era  que 
por  ella  viriam  de  futuro  o  povo  e  o 
rei  a  ter  quinhões  proximamente  eguaes 
na  representação  nacional,  emquanto  que 
pela  carta  o  povo  tinha  uma  parte  e  o  rei 
duas.  Tal  progresso  não  lhe  parecia  con- 
testável. 

A  questão  era  outra,  era  de  quem  escolhia 
melhor  os  pares,  o  rei  eleitor  ou  o  povo 
eleitor.  Não  havia  hesitar.  O  rei  não  podia 
escolher.  Tinha  que  tirá-los  dentre  os 
homens  públicos ;  estes  achavam-se  agru- 
pados em  partidos,  cada  partido  com  os 
seus  chefes  natura  es  no  ministério  ;  e,  como 
o  ministério  vivia  da  confiança  do  rei  e  da 
maioria,  não  devia  o  rei  fazer  uma  nomea- 
ção de  pares  com  que,  por  pouco  que  fosse, 
afrouxasse  essa  confiança.  Logo  o  rei  tinha 
de  nomear  sempre  os  pares  que  ao  minis- 
tério conviessem,  quer  dizer,  não  os  nomeava 


A  reforma  coustitucional  de  1885  45 


O  rei,  mas  os  ministros.  Isto  era  confirmado 
pela  pratica,  de  todos  conhecida.  Só  num 
caso  o  rei  poderia  exercer  o  direito  de 
nomeação  de  j)ares,  mas  então  não  usava, 
abusava  delle.  Seria  quando  quizesse  fazer 
governo  pessoal,  quando  quizesse  oppor-se 
á  vontade  das  cortes,  porque,  nesse  caso, 
escolhia  um  ministério  seu  e  nomeava  pares 
egualmente  seus.  Portanto  por  duas  razões 
devia  acabar,  senão  duma  vez,  ao  menos 
gradualmente,  o  pariato  de  nomeação  regia  : 
porque  o  rei  só  podia  abusar  do  seu  direito 
de  nomeação,  e  ^^orque  em  geral  eram  os 
ministros  que  o  exerciam,  invertendo  a 
ordem  constitucional,  que  é  que  os  ministros 
sejam  indicados  pelo  voto  do  parlamento 
e  não  que  escolham  elles  quaesquer  mem- 
bros da  representação  nacional.  E  aqui  se 
manifestava  a  importância  do  projecto.  Até 
áquella  data,  o  prestigio  da  camará  dos 
pares  tinlia  soífrido  por  causa  da  sua  origem 
ministerial;  desde  então,  ia  levantar-se,  con- 
correndo essa  camará  com  a  dos  deputados 
para  a  formação  dos  ministérios.  Além  de 
que  o  rei  não  se  acharia  já  com  um  direito 
constitucional  de  que  lhe  era  possivel  abusar 
em    luta    contra    as    cortes.     Todas    estas 


46  Da  monarchia  para  a  republica 


vantagens    provinham    da    introducção    do 
elemento  electivo  na  camará  alta. 

E  havia  quem  invectivasse  o  suffragio 
popular  í  Affirmava-se  que  o  povo  não 
sabia  escolher  os  seus  mandatários.  Assim 
succcdia  varias  vezes.  Mas  a  culpa  não  era 
sua.  Era  raro  que  o  povo,  só  depois  de 
ter  visto  como  um  homem  administrava  a 
sua  casa,  o  elegesse  para  gerir  os  negócios 
municipaes,  em  seguida  para  a  junta  geral, 
e  no  fim  de  todas  estas  experiências  para  o 
parlamento.  Este  seria  um  óptimo  processo, 
mas  quasi  nunca  era  praticável.  O  processo 
pelo  qual  o  povo  elegia,  era  em  geral 
sjmthetico.  Os  partidos  constituíam,  com 
os  seus  homens  eminentes,  j^nys  que  con- 
feriam o  titulo  de  capacidade  parlamentar 
a  certos  indivíduos,  e  era  dentre  estes 
candidatos  propostos  pelos  partidos  que  o 
povo  escolhia  os  seus  deputados.  Se  escolhe 
mal,  exclamou  o  orador,  a  culj)a  é  funda- 
mentalmente dos  partidos  que  não  lhe  pro- 
põem os  homens  mais  dignos,  que,  em  vez 
de  chamarem  á  politica,  isto  é,  á  mais  alta 
situação  do  paiz,  todos  os  grandes  meritoà, 
parece  muita  vez  que  se  receiam  delles. 
Era  ahi  que  estava  o  mal,  e  delle  se  padecia! 


A  reforma  constitucional  de  1885  47 


O  orador  julgava  ter  demonstrado  que  a 
camará  alta  se  deve  originar  no  suíFragio. 
Assim  desejava  que  se  fizesse  a  reforma. 
Mas  encontrava  os  actuaes  pares  do  reino, 
cuja  collaboração  se  tornava  necessária  para 
a  reforma.  Era  necessário  conservá-los  nas 
suas  funcções  legislativas,  do  que  resultava 
a  composição  mixta  para  a  camará  dos 
pares,  com  o  elemento  temporário  e  com  o 
elemento  vitalício,  principio  que  os  actuaes 
pares  do  reino  acceitavam.  Transigia,  por- 
tanto, para  realizar  um  progresso  possível, 
afigurando-se-lhe  todavia  que  a  proporção 
dos  pares  electivos  devia  ao  menos  ser 
egual  á  dos  pares  de  nomeação  regia,  já 
diria  porque. 

Como  tivera  occasião  de  expor  durante  a 
generalidade,  o  systema  da  proposta  do 
governo  era  viável.  Não  havia  motivo  para 
recear  que  os  conílictos  entre  as  duas  cama- 
rás ficassem  sem  solução,  porque  até  então 
se  tinham  resolvido  em  favor  da  camará  dos 
deputados  com  a  promoção  de  cerca  de  vinte 
pares,  quando  muito,  e  de  futuro,  a  cada 
conflicto,  entrariam  na  camará  dos  pares, 
logo  que  ella  tivesse  sido  dissolvida,  cin- 
coenta   pares.     Estas  probabilidades  iriam 


48  Da  uionarcbia  para  a  republica 

até  á  certeza,  se  o  numero  de  pares  electi- 
vos fosse  egual  ao  dos  pares  de  nomeação. 
As  questões  sociaes  não  são  questões  mera- 
mente arithmeticas.  Xão  bastava  dizer  que 
os  pares  de  nomeação  regia  em  numero 
egual  aos  pares  electivos  podiam  inutilizar 
o  voto  destes  ;  nas  sciencias  sociaes  não  se 
encontrava  ainda  a  maior  parte  das  vezes 
um  principio  superior  que  desse  a  razão  de 
certas  affirmações,  essa  razão  tinha  que  ser 
inductiva,  experimental.  Era  com  a  consti- 
tuição, tal  qual  estava,  que,  como  já  mos- 
trara, os  conflictos  entre  as  duas  camarás 
podiam  ficar  sem  solução,  porque  esta  solu- 
ção dependia  de  que  o  rei  que  nomeava  os 
pares,  se  conciliasse  com  o  povo  que  ele- 
gia os  deputados.  De  futuro,  não.  Seria 
só  o  povo  quem.  directa  ou  indirectamente, 
elegeria  os  deputados  e  os  jDares  temporá- 
rios. Uns  e  outros  haviam  de  inspirar-se 
nos  mesmos  sentimentos  pojjulares.  O  que 
era  necessário,  era  assentar-se  desde  logo 
que  tal  seria  a  origem  çommum  dos  man- 
datários electivos.  O  orador  não  admittia 
o  pariato  para  a  representação  de  classes  ; 
queria  que  nas  assembléas  primarias  das 
eleições   para   pares    votassem    os   mesmos 


A  reforma  constitucional  de  18S5  40 


eleitores  dos  deputados,  e  opportunamente 
diria  o  processo  eleitoral  que  preferia.  Não 
via,  pois.  motivo  para  se  recear  a  insolvência 
dos  conilictos  parlamentares.  O  que  julgava 
útil.  era  j^revení-los.  e  nesse  sentido  propo- 
zera  já,  quando  se  discutia  o  artigo  2.**,  a 
renovação  da  parte  electiva  da  camará  dos 
pares  no  fim  de  cada  triennio  dos  deputados. 
e  entendia  que  ella  deveria  ser  dissolvida 
sempre  que  o  fosse  a  camará  dos  deputados. 
Esta  disposição  só  viria  no  seu  logar,  ao 
tratar-se  do  artigo  7.".  Diria,  porém,  desde 
logo  que  a  dissolução  é  um  appello  ao  paiz. 
que,  se  as  duas  camarás  estão  de  acordo, 
deve-se  appellar  de  ambas,  se  não,  é  inad- 
missivel  a  dissolução  exclusiva  da  camará 
dos  deputados,  porque,  ao  consultar  a  opi- 
nião publica,  não  é  de  prever  que  ella  seja 
favorável  á  camará  que  a  não  reflecte  dire- 
ctamente, e  jjortanto  na  maioria  dos  casos 
terá  de  se  proceder  depois  á  dissolução 
também  da  camará  dos  pares.  Era,  pois. 
melhor  tê-las  dissolvido  juntamente.  Já 
reciprocamente  se  não  podia  affirmar  outro 
tanto,  e  por  isso  achava  bem  que  a  disso- 
lução pudesse  recair  exclusivamente  sobre 
os  pares  electivos. 

4 


50  Da  monarchia  para  a  republica 

Exprimiria  a  sua  opinião  a  respeito  do 
numero  total  de  pares  do  reino.  Era  grande, 
demasiado,  o  do  projecto,  mas  não  era  pos- 
sivel  diminuí-lo  por  causa  do  numero  de 
pares  actuaes ;  senão,  a  parte  electiva  da 
cama.ra  alta  seria,  pelo  menos  nos  primei- 
ros tempos,  tão  j)e<inena  que  então  é  que  a 
dominaria  talvez  uma  oligarchia  de  pares 
vitalicios.  Acceitava,  pois,  proximamente 
o  numero  do  projecto,  não  exactamente  lõO, 
mas  148,  porque  148  é  divisivel  por  4,  o 
que  simplificaria  a  renovação  dos  pares 
electivos,  tornando-a  de  metade  exacta. 
Para  o  orador  deveria  haver  portanto  74 
pares  electivos,  isto  é,  em  média,  um  por 
quatro  concelhos  do  continente  e  ilhas 
adjacentes. 

O  orador  terminou  por  examinar  as  pro- 
postas do  sr.  dr,  Calixto  e  do  sr.  Coelho 
de  Carvalho.  A  primeira  tendia  a  con- 
stituir o  pariato  todo  de  nomeação  regia, 
mas  temporário.  Ora  este  principio  é 
peor  que  o  da  carta.  Em  vez  de  haver 
uma  camará  de  ]3ares  formada  pela  sobre- 
jjosição  de  camadas  partidárias,  que  em 
summa  sempre  representava  todos  os  par- 
tidos,   haveria    uma   camará   não    só    feita 


A  reforma  constitucional  de  1885  51 


pelo  poder  executivo,  mas  feita  por  cada 
ministério  á  sua  imagem,  camará  que  não 
seria  senão  representante  dum  partido,  e 
nunca  da  nação.  E  mostrou,  em  seguida, 
como  este  principio,  alem  d'inacceitavl,  não 
poderia  applicar-se  ao  modo  da  proposta. 
Quanto  á  idéa  emittida  pelo  sr.  Coelho 
de  Carvallio  de  serem  os  pares  vitalícios 
escolhidos  dentre  os  temporários,  declarou- 
se  contra  ella,  porque,  se  era  admissível  a 
origem  mixta  de  cada  par,  como  no  Brazil, 
ou  inversamente,  como  queria  Garrett,  já  o 
não  era  a  divisão  da  camará  alta  em  duas 
classes,  taes  que  duma  se  passasse  para  a 
outra  como  por  promoção.  Era  indispensável 
que  os  pares  fossem  legislativamente  todos 
eguaes  entre  si.  E,  a  propósito,  advertiu 
que  convinha  inscrever  na  constituição  o 
preceito  das  categorias  tanto  joara  os  pares 
electivos  como  para  os  pares  de  nomeação. 
Leu-se  na  mesa  a  seguinte 

PROPOSTA 

Proponho  a  seguinte  emenda : 
Artigo  6.°    A  camará  dos  pares  compor- 
se-á  de  cento  e  quarenta  e  oito  membros, 


Da  monarchia  para  a  republica 


metade  vitalícios  de  nomeação  regia,  e  me- 
tade temporários  de  eleição  popular.  Só 
poderão  ser  pares  os  individnos  que  esti- 
verem comprehendidos  em  determinadas 
categorias,  idênticas  para  os  pares  de  eleição 
e  para  os  de  nomeação. 

A  eleição  de  par  cio  reino  será  indirecta, 
votando  nas  assembléas  primarias  a  massa 
dos  eleitores  dos  deputados.  Tudo  o  mais 
se  regulará  por  uma  lei  ordinária. 

§  transitório.  Os  actuaes  pares  do  reino 
continuarão  a  ter  assento  na  sua  camará  : 
e,  emquanto  o  seu  numero  se  não  reduzir  a 
setenta  e  quatro,  o  rei  fará  a  nomeação  de 
um  par  por  cada  terno  de  vacaturas  que 
elles  forem  deixando. 

Fica  jDor  este  modo  substituído  o  artigo  39." 
da  carta  constitucional. 

Foi  aclmittida. 


Notou  que  a  objecção  que  se  acabava  de 
levantar,  não  parecia  fundada.  Acto  mode- 
rador é  todo  aquelle  em  que  um  poder  ou 


A  reforma  constitucional  de  1S85 


ramo  de  poder  intervém  na  esphera  d'algum 
dos  outros  poderes  ou  ramos  de  j^oder. 
Quando  o  poder  real,  —  que  é  o  único  que 
a  carta  denomina  moderador,  ainda  que  de 
facto  haja  o.utros  poderes  moderadores  e  em 
primeiro  logar  esteja  o  das  cortes,  a  quem 
cabe  velar  na  guarda  da  constituição  — , 
quando  o  jjoder  real  intervém  na  acção 
legislativa  das  cortes,  representa  um  papel 
moderador.  É,  pois,  moderadora  a  funcção 
do  rei,  quando  nomeia  pares,  ainda  que 
deixe  de  os  nomear  em  numero  indefinido. 
O  que  naturalmente  se  tinha  querido  expri- 
mir, era  que  para  futuro  o  rei  não  exerceria 
a  acção  moderadora  de  resolver,  com  uma 
promoção  de  pares,  os  conflictos  entre  as 
duas  camarás  ou  entre  a  dos  pares  e  o  mi- 
nistério. Assim  viria  a  succeder;  mas  esta 
era  uma  das  conquistas  do  projecto. 

O  orador,  entrando  na  apreciação  directa 
do  artigo,  disse  que  primeiro  de  tudo 
tinha  que  definir  o  poder  real,  porque  só 
assim  se  tornaria  possível  apreciar  quando 
elle  sai  da  sua  esjíhera  de  acção  e  entra  na 
doutro  i^oder  ou  ramo  de  poder.  O  rei  é 
no  systema  monarchico-representativo  um 
dos  representantes  da  nação  ;  como  o  outro 


54  Da  monarchia  para  a  republica 


representante,  as  cortes,  tem  que  exercer 
duas  funcções,  a  funcção  legislativa,  san- 
ccionando  ou  não  o  que  as  cortes  decretam, 
e  a  funcção  de  concorrer  com  ellas  para  a 
eleição  do  poder  executivo,  .seguindo-se 
destas  funcções  a  de  insj)eccionar  e  asse- 
gurar a  execução  das  leis.  Quando  o 
systema  funcciona  harmonicamente,  o  exe- 
cutivo cumpre  a  vontade  do  legislativo  sob 
as  vistas  immediatas  e  constantes  do  rei  e 
sujeito  á  interpellação  e  ao  voto  do  parla- 
mento no  tempo  das  sessões.  Portanto, 
ainda  que  a  carta  declarava  que  o  rei  era 
o  cliefe  do  jíoder  executivo,  na  realidade 
este  poder  tinha  dois  chefes,  o  rei  e  as 
cortes,  e  quem  propriamente  o  constituia, 
era  o  ministério  com  todos  os  seus  colla- 
boradores. 

Daqui  se  inferia  logo  que  a  carta  abran- 
gia no  exercicio  do  poder  moderador  actos, 
uns  dos  quaes  são,  sim,  do  poder  real,  mas 
seus  próprios  —  a  sancção,  a  nomeação 
dos  ministros  — ,  não  são  moderadores,  de 
intervenção  sua  na  esphera  alheia;  e  outros, 
que  são  actos  executivos,  do  gabinete. 

Pelos  actos  proj^riamente  seus  ha  res- 
ponsabilidades   para    o    rei  ?     Tanto    como 


A  reforma  constitucional  de  1885 


pelos  actos  parallelos  ha  para  os  deputa- 
dos e  pares.  Têem  só  responsabilidade 
moral.  Cumprem  os  seus  deveres  ?  adqui- 
rem prestigio,  fortalecem-se  na  opinião. 
Não  cumprem?  desacreditam-se.  Ha  uma 
differença,  não  entre  o  rei  e  as  cortes,  mas 
entre  os  membros  electivos  da  representa- 
ção nacional  e  os  membros  vitalícios,  em 
cujo  numero  se  conta  o  rei,  e  é  que  aquelles 
conservam  o  mandato  ou  perdem-no,  pôde 
dizer-se  que  para  elles  existe  uma  respon- 
sabilidade e  uma  sancção  politica,  emquanto 
que  os  vitalícios  são  inamovíveis.  Por  isso 
as  faltas  destes  são  muito  mais  graves, 
ellas  tendem  a  originar  o  descrédito  das 
instituições. 

Quanto  aos  actos  propriamente  do  exe- 
cutivo, como  a  suspensão  dos  magistrados, 
as  commutações  de  penas,  perdões  e  amnis- 
tias, de  certo  que  devia  tornar-se  por  elles 
responsável  o  ministério.  São  actos  exe- 
cutivos, dos  ministros,  e  era  indevidamente 
que  a  carta  os  attríbuia  ao  rei. 

O  orador  insistiu  nestas  conclusões.  Mos- 
trando como,  pela  doutrina  consignada  no 
projecto,  viria  de  futuro  a  discutir-se  na 
camará     a     denegação     da    sancção,     que, 


5(3  Da  monarchia  para  a  republica 

segundo  a  carta,  tem  effeito  absoluto^  per- 
guntou se,  na  intenção  do  governo  e  da 
commissão,  isso  era  admissivel. 

Passou  em  seguida  a  examinar  as  fun- 
cções  realmente  moderadoras  do  rei,  des- 
criptas  no  artigo  74.°  da  carta.  Eram 
convocar  extraordinariamente  as  cortes, 
23rorogá-las,  adiá-las,  dissolvê-las  ;  eram 
todas  funcções  de  intervenção  do  rei,  como 
ramo  legislativo,  na  acção  do  outro  ramo, 
as  cortes  ;  eram,  em  summa,  funcções  mo- 
deradoras de  caracter  legislativo.  Como, 
pois,  irrogar  por  ellas  responsabilidade  ao 
ministério  ?  Do  seu  próprio  caracter  resulta 
que  não  ha  responsabilidade  j)ara  taes  fun- 
cções, e  ninguém  pode  assumir  o  que  não 
existe.  O  orador  rejeitava  portanto  a  dou- 
trina do  projecto,  de  tornar  responsáveis 
os  ministros  pelos  actos  do  poder  modera- 
dor. Só  lhes  pertencia  responsabilidade 
pelos  actos  executivos  que  erradamente  se 
achavam  attribuidos  no  artigo  74. **  da  carta 
ao  poder  real,  porque  são  do  ministério. 

Tratou  depois  das  reformas  propostas 
nos  diversos  números  do  artigo,  funda- 
mentando as  alterações  que  lhes  fazia  na 
seguinte    emenda  : 


A  reforma  constitucional  de  1885  57 


(í  Artigo  7."  O  rei  exercerá  o  poder  mo- 
derador : 

«1."    Nomeando  os  pares  vitalicios  ; 

«  2."    Prorogando  as  cortes  geraes  ; 

«  3."  Adiando  as  mesmas  cortes,  com- 
tanto  que  já  tenham  funccionado  iim  mez 
em  seguida  a  uma  eleição  geral  de  depu- 
tados, ou,  quando  não,  de  acordo  com 
ellas  ; 

a  4."  Dissolvendo  a  camará  dos  deputa- 
dos 6  a  parte  electiva  da  camará  dos  pares, 
nos  casos  em  que  o  exigir  a  salvação  do 
estado,  com  as  clausulas  seguintes  : 

«  Não  poderá  liaver  dissolução  da  camará 
dos  deputados,  emquanto  ella  não  concluir 
a  sua  primeira  sessão  ordiíiaria ; 

«  Quando  a  mesma  camará  fôr  dissolvida, 
sê-lo-á  simultaneamente  a  parte  electiva 
da  camará  dos  pares  ; 

«  O  decreto  da  dissolução  convocará  as 
cortes  seguintes  a  reunirem-se  dentro  de 
noventa  dias  ; 

«  õ."  Perdoando  e  moderando  as  penas 
impostas  aos  réus  condemnados  por  sen- 
tença, á  excepção  dos  ministros  d'estado 
por  crimes  commettidos  no  desempenho 
das  suas  funcções,  a  respeito  dos  quaes  só 


58  Da  monarchia  para  a  republica 


poderá  ser  exercida  esta  prerogativa  regia, 
precedendo  petição  de  qualquer  das  camarás 
electivas. 

«  Ficam  assim  substituídos  os  §§  l.*^, 
4."  e  7.°  do  artigo  74.°  da  carta  constitu- 
cional ». 

Já  propozera  que  cada  sessão  ordinária 
não  pudesse  durar  menos  de  três  mezes. 
Neste  logar  julgava  necessário  prescrever 
que  nunca,  depois  de  uma  eleição  geral  de 
deputados,  o  adiamento  recaísse  sobre  o 
primeiro  mez  de  sessão,  a  não  ser  com 
annuencia  das  camarás,  pois  que  do  con- 
trario arriscava-se  a  ser  sophismada  a  dou- 
trina de  que  se  haviam  de  reunir  as  cortes 
no  principio  de  cada  anno,  e  especialmente 
no  trimestre  consecutivo  a  qualquer  disso- 
lução da  camará  dos  deputados.  A  dissolu- 
ção i^rovém  dum  conflicto  que  é  preciso 
resolver ;  mas,  com  o  adiamento,  o  governo 
que  preveja  um  voto  contrario  das  novas 
cortes,  afasta  essa  resolução. 

Não  acceitava  as  palavras  «  bem  do  estado  » 
em  substituição  a  «  salvação  do  estado  »  para 
definir  os  casos  de  dissolução.  Preferia  que 
não  pudesse  haver  segunda  dissolução  senão 
depois  das  cortes  funccionarem  uma  sessão 


A  reforma  constitucional  de  1885  59 


ordinária.  Como  já  expozera,  entendia  que, 
dissolvida  a  camará  dos  deputados,  devia 
sê-lo  também  a  dos  pares. 

Acabou  por  observar  á  commissão  que 
ella  alterava  não  só  os  paragraphos,  como 
por  esquecimento  só  dizia,  mas  o  próprio 
artigo  74."  da  carta,  e  devia  fazer-lhe  refe- 
rencia. 

Leu-se  na  mesa  a  proposta. 

Foi  admittida. 


Apresentou  a  seguinte 

PROPOSTA 

«  Proponho  o  seguinte  additamento  : 
«  Artigo  10.°  Todo  o  cidadão  poderá 
ai)resentar  por  escripto  ao  poder  legislativo 
e  ao  executivo  as  reclamações,  queixas  ou 
petições,  e  até  expor  qualquer  infracção  da 
constituição,  requerendo  perante  a  compe- 
tente auctoridade  a  effectiva  responsabili- 
dade dos  infractores.  O  direito  de  reunião 
em  toda  a  sua  plenitude,  bem  como  o  de 
associação  j)ara  a  mutualidade  de  instrucção 
e  de   soccorros  são  egualmente  garantidos. 


60  Da  monarchia  para  a  republica 


A  lei  ordinária  regulará  o  exercício  de  cada 


um  destes  direitos. 
Leu-se  na  mesa. 
Foi  admittida. 


Sk.  presidente  ! 

Tomarei  pouco  tempo  á  camará. 

O  meu  nome  não  assigna  este  projecto  *, 
porque  o  convite  para  a  sessão  da  commissão 
me  chegou  tarde. 

Creio  que  estamos  todos  de  acordo  em 
que  esta  emenda  é  má,  discute-se  apenas  se 
é  mais  ou  menos  má.  Afigura-se-me  tam- 
bém inconveniente.  Não  devia  apparecer 
na  occasião  em  que  um  partido  tem  andado 
a   propalar   que    as    reformas   politicas   são 

*  Ao  artigo  6."  accresceuta-se : 

«  §  7.°  Os  immediatos  successores  dos  pares  fallecidos 
o  dos  actuaes,  que  existirem  á  publicação  desta  lei,  terâo 
ingresso  ca  camará  dos  pares  pelo  direito  hereditário, 
satisfazendo  ás  condivòes  da  lei  de  3  de  maio  de  1S78. 
Esta  disposição  em  nada  altera  o  que  fica  disposto  no 
§  4."  deste  artigo.  » 


A  reforma  constitucional  de  1885  Gl 


insignificantes.  Afigura-se-me  ainda  que  se 
pode  tomar  como  menos  airosa  para  a 
camará  dos  deputados,  desde  que  nenhuma 
das  idéas  que  se  apresentaram  aqui  á  pri- 
meira votação,  foi  acceita  pelo  governo. 
Mas  eu  não  terei  duvida  em  votar  a  emenda, 
apesar  de  entender,  como  toda  a  gente, 
que  ella  é  má,  apesar  de  a  reputar  menos 
conveniente,  se  acaso  for  convencido  do 
valor  do  sacrifício. 

Das  palavras  do  sr.  presidente  do  conselho 
deprehende-se  que  esta  emenda  não  era 
necessária  para  fazer  vingar  a  reforma,  e 
que  foi  concessão  es^íontanea  sua.  Se  a 
Receitasse,  o  projecto,  que  já  tinha  voto 
da  camará  alta  e  da  camará  dos  deputados, 
iria  á  sancção  regia.  Ora  eu  comprehendia 
que  o  governo  e  a  maioria  cedessem  para 
fazer  vingar  uma  parte  ao  menos  do  pro- 
jecto das  reformas  politicas  ;  mas,  visto  que 
não  foi  para  salvar  as  reformas  politicas,  o 
novo  acto  addicional,  cuja  efiâcacia  demon- 
strei, e  na  qual  ainda  creio,  careço  de  que 
o  sr.  presidente  do  conselho  me  diga  qual 
a  necessidade  que  o  aconselha. 

Esta  emenda  torna-se  necessária  para  que 
o    ministério    se    conserve  ?     (Apoiados   da 


i 


C2  Da  monarchia  pai-a  a  republica 


extrema  esquerda  J.  Entendo  que  não ;  e 
agora  talvez  que  a  opposição  me  não  apoie. 
O  actual  gabinete  tem  o  apoio  leal  da  sua 
maioria  (Apoiados),  mas  tem  também  a  seu 
favor  a  fraqueza  da  opposição.  A  opposi- 
ção ou  não  o  combate,  ou  os  seus  combates 
são  meramente  de  apparato.  (Interrupção 
dum  deputado  repidAicano ) .  Eu  não  me 
referi  a  s.  ex.""^,  reíiro-me  ás  opposições  que 
têem  maior  representação  parlamentar. 

Não  ha  governo  nenhum  que  não  procure 
nobilitar  a  sua  iniciativa,  trazendo  ao  par- 
lamento projectos  bons  ;  em  regra,  os  pro- 
jectos que  os  ministros  trazem  á  discussão 
do  parlamento,  têem  sempre  um  fundo  de 
utilidade ;  por  isso  a  funcção  essencial 
da  opposição  é  fiscalizar  a  administração  do 
governo,  e  eu  vejo  que  a  o]3posição  está 
satisfeita  com  a  nossa  administração.  Uma 
voz:  Está  enganado.  —  Ella  está  tão  satis- 
feita, que  é  voz  jDublica  que  na  opposição 
progressista  ha  até  luctas  internas  só  para 
ver  quem  ha  de  merecer  melhor  as  boas 
graças  do  governo  (Biso). 

Portanto  não  creio  que  fosse  por  o  governo 
se  recear  da  opposição  que  cedeu  a  esta 
emenda. 


A  reforma  constitucional  de  1885  63 


Mas  sujDponhamos  que  foi,  supponhamos 
que  elle  quiz  contentar  a  certos  elementos 
dispersos  da  opposição  para  tornar  ainda 
mais  fácil  a  sua  marcha  politica.  Pergunto  : 
qual  é  o  seu  fito  ? 

Eu  tive  occasião  de  dizer  aqui,  quando 
o  sr.  presidente  do  conselho  não  estava 
presente,  e  repito-o  hoje,  que  considero  a 
s.  ex."''  o  primeiro  vulto  da  politica  portu- 
guesa neste  momento  da  nossa  historia, 
e  estou  disposto  a  votar  esta  emenda,  se 
effectivamente,  como  espero,  o  sr.  23residcnte 
do  conselho  me  convencer  de  que  é  preciso 
para  que  as  reformas  que  s.  ex.'''  tem  em 
mente  e  que  devem  ser  proveitosas  para  o 
paiz,  se  realizem.  Mas  já  defini  o  campo 
das  reformas.  Entendo  que  nós  hoje  não 
carecemos  senão  parcamente  de  melhora- 
mentos materiaes.  Estes  melhoramentos 
constituem  apenas  os  instrumentos,  a  fer- 
ramenta, nas  mãos  duma  nação ;  torna-se 
necessário  que  o  operário  cultive  a  sua 
intelligencia  para  trabalhar  com  utilidade  e 
produzir.  Por  isso  eu,  que  admiro  no  sr. 
presidente  do  conselho  o  estadista  que 
soube  fomentar  o  desenvolvimento  material 
do  paiz   sob   a  auctoridade  de  Rodrigo  da 


t)4  Da  inonarchia  para  a  republica 

Fonseca  Magalhães,  desejaria  que  hoje  uma 
politica  no  sentido  do  desenvolvimento  da 
instrucção  publica  achasse  o  apoio  e  a  pro- 
tecção de  s.  ex.'' 

Termino.  Preciso  saber  Cjual  o  valor 
desta  emenda  para  poder  dar-lhe  o  meu 
voto.  Estou,  porém,  certo  de  que  o  sr. 
presidente  do  conselho,  com  o  seu  alto  tino 
jDolitico.  não  podia  acceitar  uma  proposta 
que  não  fosse  de  interesse  publico,  e  espero 
jDor  isso  que  as  explicações  que  peço  a 
s.  ex.'"^,  me  hão  de  satisfazer  completamente. 


Sr.  presidente  ! 

Resumirei  perante  a  camará  o  meu  dis- 
curso de  hontem  em  muito  j)oucas  palavras. 

Quando  hontem  se  tratava  da  emenda 
que  veiu  da  camará  dos  pares,  declarei 
que,  apesar  de  a  achar  má,  como  toda  a 
gente,  não  teria  duvida  em  votá-la,  se 
valesse  a  pena  o  sacrifício.     Eu  não  sabia 


A  reforma  constitucional  de  1885  65 


se  valia  a  pena,  esperava  pelas  explicações 
do  sr.  presidente  do  conselho.  Que  aquella 
emenda  não  fora  necessária  para  que  se 
completasse  a  reforma  politica  da  camará 
dos  pares,  dissera-o  o  sr.  presidente  dó 
conselho.  Seria  necessária  para  o  governo 
viver?  E.  a  este  proj)OSÍto,  disse  que  não 
me  parecia  que  o  governo  devesse. recear-se 
da  opposição,  —  e  referi-me  nomeadamente 
á  opposição  progressista,  que  da  opposição 
é  a  maioria  — ,  que  não  me  parecia  que  o 
governo  devesse  recear-se  da  opposição  pro- 
gressista, porque  nesse  grémio  havia  quem 
lhe  estivesse  roubando  forças,  solicitando 
as  boas  graças  ministeriaes.  Accrescentei 
ainda  que,  se  era  necessária  a  emenda  a 
final,  apesar  de  tudo,  para  vencer  difíi- 
culdades  parlamentares,  eu  queria  saber 
qual  o  programma  do  governo,  qual  o  seu 
pensamento  politico,  porque,  se  estivesse 
completamente  de  acordo  nesse  pensamento, 
votaria  a  emenda,  se  não,  não. 

Eis  muito  simjílesmente  o  resumo  do  meu 
discurso. 

Podia  ficar  por  aqui,  mas  quero  dizer  a 
V.  ex.'''  e  á  camará  que  eu  tanto  como  o  sr. 
Luciano  de  Castro,  a  quem  muito  prezo,  e 

5 


6*5  Da  monarchia  para  a  republica 


a  quem  agradeço  as  palavras  benévolas  que 
ha  pouco  lhe  foram  ditadas  pela  sua  fina 
educação  e  pela  sua  generosidade  de  animo, 
eu  mais  que  o  sr.  Luciano  de  Castro  senti 
que  hontem  lhe  não  fosse  possivel  usar  da 
palavra,  porque  me  apressaria  a  satisfazer 
os  seus  desejos. 

Quando  aqui  nesta  casa  o  meu  amigo,  o 
sr.  António  Cândido,  aventou  uma  vez  que 
entre  os  partidos  políticos  da  nossa  terra 
não  havia  difíerença  de  jDrincij^ios,  mas  uni- 
camente de  j^rocessos,  e  que  os  processos 
adoptados  pelo  partido  regenerador  eram 
immoraes,  eu  não  protestei  contra  essa 
phrase,  porque  sabia  que  evidentemente 
não  se  podia  dirigir  aos  homens  que  no 
partido  regenerador  tèem  toda  a  vida  pu- 
gnado pelo  cumprimento  do  dever.  Parece- 
me,  pois,  que  hontem,  quando  me  referi  aç) 
partido  progressista,  e  disse,  como  ha  pouco 
reproduzi,  que  no  seu  grémio  havia  alguns 
membros  que  não  sabiam  manter  escrupu- 
losamente a  sua  posição  politica,  parece-me 
que  não  se  deviam  interpretar  estas  pala- 
vras, como  acabo  de  ver  que  as  interpretou 
o  sr.  Luciano  de  Castro,  e  como  já  hontem 
presumia,  porque,  quaesquer  que  sejam  as 


A  reforma  constitucional  de  1S85  67 


accusações  que  recaiam  sobre  um  partido 
que  tem  por  chefe  o  sr.  Anselmo  Braam- 
camp, nunca  essas  accusações  podem  con- 
verter-se  em  ultraje  para  cada  uma  das 
suas  individualidades.  Eu  censurei  o  par- 
tido progressista  pelo  que  fazem  alguns, 
não  cada  um  dos  seus  membros,  e  censurei 
expressamente  o  partido  progressista,  como 
lia  pouco  disse,  porque  esse  partido  consti- 
tue  a  maioria  da  opposição  monarcliica. 
Exprimindo-me  assim,  julguei  que  não  de- 
sacatava absolutamente  nada  os  caracteres 
honrados  que  respeito  nesse  partido,  mas 
muito  pelo  contrario  provava  a  minha  con- 
fiança nelles,  porque  appellava  para  a  sua 
força  moral  dentro  do  seu  partido. 

Mas  seria  por  ventura  injusta  a  minha 
arguição?  Porque  é  então  que  um  partido, 
ao  qual  preside  o  sr.  Anselmo  Braamcamp, 
que  tem  ao  lado  do  seu  chefe  um  estadista 
tão  instruído  como  o  sr.  José  Luciano  de 
Castro,  que  conta  só  nesta  camará  reputa- 
ções tão  merecidas  como  as  do  sr.  Barros 
Gomes,  Yeiga  Beirão  e  Ennes,  que  dispõe 
da  j^enna  do  sr.  Emvgdio  Navarro,  que  é  o 
nosso  mais  vigoroso  jornalista,  e  da  palavra 
do  sr.  António  Cândido,  que  é  o  nosso  mais 


68  Da  monai-chia  para  a  republica 


lorílhante  orador;  jDorque  é  que  um  partido 
que  possue  illustrações,  como  o  sr.  Alves 
Matheus,  Simões  Dias,  Thomaz  Bastos, 
Laranjo  e  Eduardo  José  Coelho,  e  tantos 
outros  homens  tão  distinctos,  porque  é  que 
o  partido  progressista,  ao  qual  pertence  o 
sr.  Marianno  de  Carvalho,  que  só  por  si  é 
uma  notabilidade,  porque  é  que  este  partido 
que  devia  ser  forte  e  o  paiz  esperava  que 
o  fosse,  que  devia  exercer  uma  acção  par- 
lamentar sufficientemente  enérgica  para 
cohibir  os  abusos  sempre  possíveis  da 
auctoridade  e  garantir  á  nação  um  bom 
governo,  porque  é  que  veiu  a  dar  unica- 
mente numa  opposição  de  j)arada,  especta- 
culosa,  inefficaz,  que  nesta  camará  só  tem 
palavras  desoladas,  de  tristeza,  de  dôr  e  de 
luto,  'psiYa,  chorar  a  decadência  do  regimen 
parlamentar  ?  Porque  é  que  este  partido 
dia  a  dia  parece  arredar-se  cada  vez  mais 
do  poder?  O  parlamentarismo  decai,  dizem 
os  seus  oradores  ;  mas  porque  ? 

Quanto  a  mim,  a  causa  principal  é  que 
dentro  dos  partidos  monarchicos  oj)posicio- 
nistas,  além  da  jDarte  sã  que  eu  respeito 
mais  que  ninguém,  ha  elementos  dissol- 
ventes,   que    os   illaqueiam   e   enfraquecem 


A  reforma  constitucional  de  ISSõ  G9 


continuamente,  elementos  que  só  por  si 
não  valerão  muito,  mas  que  produzem 
damno  incalculável  pela  acção  enervante 
que  exercem  sobre  os  próprios  partidos, 
pela  acção  deletéria  que  exercem  na  po- 
litica portugueza.  Perturbam  immensa- 
mente  as  funcções  dos  poderes  públicos 
do  estado. 

Foi  contra  esses  elementos  que  por  inci- 
dente falei,  dizendo  que  elles  andavam 
requestando  as  boas  graças  ministeriaes. 
São  esses  os  elementos  que  eu  condemno, 
foi  por  causa  delles  que  censurei  o  partido 
progressista. 

Quem  são.  onde  estão?  não  tenho  de  o 
dizer.  Basta  que  eu  avise,  se  o- meu  aviso 
pode  -merecer  consideração.  Direi  unica- 
mente aos  homens  honrados  do  partido 
progressista  que  os  procurem,  e,  se  os 
encontrarem,  que  os  arredem  de  si.  Se 
não  os  encontrarem,  achar-me-ão  prompto 
a  confessar  o  meu  erro  e  a  penitenciar-me 
da  minha  involuntária  injustiça.  Mas,  por 
emquanto,  não  cubram,  por  quem  são,  com 
a  sua  auctoridade  moral  individuos  que  a 
ojDinião  publica  aponta  como  indignos  da 
sua  camaradagem. 


Da  mouarchia  para  a  republica 


Termino,  dizendo  que  é  necessário  qne 
todos,  membros  duns  e  doutros  partidos, 
nos  em]3enbemos  numa  cruzada  para  expur- 
garmos a  nossa  sociedade  j^olitica  da  esco- 
ria que  a  envilece  e  desacredita,  porque 
só  assim  se  poderá  realçar  o  j)i'estigio  tão 
empanado  das  instituições  representativas, 
fora  das  quaes  não  lia  salvação  para  a 
nossa  cara  pátria. 


Sr.  presidente  I 

Se  alguma  das  minhas  palavras  foi 
ofensiva  para  a  camará,  v.  ex."*,  j)ela  sua 
auctoridade,  retire-a. 

Sr.  presidente,  das  minhas  palavras  po- 
dia-se  concluir  que  havia  no  jDartido  j)ro- 
gressista  alguns  indivíduos  suspeitos.  Mas 
no  meu  espirito  estava  o  reconhecimento 
da  honra  e  do  brio  dum  grande  numero 
de  membros  desse  partido  e  dos  seus  illus- 
tres  caudilhos.    Já  hoje  o  declarei. 

Quer  o  partido  progressista  que  eu  me 
incumba  da  discijiilina  e  da  2:)olicia  interna 
do  seu  j^artido  ?    Não,  de  certo.    Essa  attri- 


A  reforma  constitucional  de  18S5  71 


buição    compete    ao    seu    chefe,    aos    seus 
homens  de  mais  consideração. 

Eu,  sr.  presidente,  entendo  que  a  honra 
do  j)artido  j^rogressista  está  bastante  salva 
pelos  altos  serviços  por  elle  prestados  ao 
paiz  e  pela  dignidade  inconcussa  de  tantos 
dos  seus  membros,  a  alguns  dos  quaes  já 
tive  o  prazer  de  me  referir  j^or  varias 
vezes  com  a  devida  justiça  na  minha  vida 
parlamentar.  Não  julgo  que  o  partido 
progressista  precise  levar  a  sua  defesa  a 
todos  os  seus  membros.  Possuindo  no  seu 
seio  muitos  caracteres  que  o  nobilitam,  não 
precisa  de  fazer  o  rol  dos  seus  membros 
para  provar  que  todos,  um  por  um,  são  tão 
puros  como  o  seu  chefe.  Estimaria,  porém, 
muitíssimo  que  esta  prova  se  pudesse  dar. 
Pela  minha  parte  só  quiz  fazer  um  aviso. 
E  o  que  significam  as  palavras  que  entendi 
de  meu  dever  pronunciar  nesta  casa  :  ellas 
não  podem  transformar-se  numa  delação  de 
ninguém  {Muitos  apoiados). 

O  sr.  Presidente :  —  Tenho  a  fazer  uma 
observação  ao  sr.  Bernardino  Machado.  Já 
declarei  que  faço  inteira  justiça  ás  intenções 
de  s.  ex."';  mas,  desde  o  momento  em  que 
as  explicações  dadas  pelo  illustre  deputado 


Da  nionarchia  para  a  republica 


ainda  não  satisfizeram  os  cavalheiros  que 
pertencem  ao  jjartido  progressista;  e,  desde 
que  as  phrases  que  oífendem  este  partido, 
que  está  representado  na  camará,  offendem 
a  própria  camará,  eu  não  posso  deixar  de 
convidar  de  novo  o  sr.  Bernardino  Machado 
a  retirá-las. 

O  orador:  —  Cedo  aqui  á  imposição  de 
V.  ex.^;  estando  prompto  a  reproduzir  em 
outra  qualquer  parte  as  iDalavras  que  pro- 
nunciei nesta  casa  (Apoiados).   . 

Vozes :  —  Muito  bem. 


Sr.  Presidente  !  * 


....  tratamos  duma  reforma  politica,  mas 
duma  reforma  ordinária,  não  duma  reforma 
constitucional. 

Direi  agora  o  que  me  parece  do  projecto. 

*  Palavras  proferidas  na  discussão  pai-lauientar  dum 
ai-tigo  da  lei  das  categorias  para  o  pariato. 


A  reforma  constitucional  de  1885 


Quando  a  proposição  da  camará  dos 
dignos  pares  appareceu  nesta  camará,  eu 
já  conhecia  a  sua  rápida  historia  parlamen- 
tar ;  sabia  que  fora  apresentada  por  um 
membro  da  opposição  d'aquena  casa  e  que 
tivera  a  acceitação  do  sr.  presidente  do 
conselho,  do  governo,  e  naturalmente  mais 
ainda,  porque  o  governo,  composto  dos 
caudilhos  e  até  do  chefe  da  maioria,  deve 
representar  a  maioria.  Tinha  j)rovavel- 
mente  a  proposta  apresentada  a  acceitação 
do  partido  que  está  á  frente  dos  negócios 
públicos.  Surprehenderam-me,  pois,  os  dis- 
cursos que  acabo  de  ouvir  nesta  camará, 
tanto  por  parte  do  sr.  jaresidente  do  conse- 
lho, como  j)or  parte  dos  dois  distinctos 
oradores  da  opposição  que  usaram  da 
palavra. 

Então  ninguém  quer  este  projecto,  e, 
comtudo,  foi  um  membro  da  opposição 
quem  o  apresentou  com  o  assentimento, 
cuidava  eu,  do  seu  partido,  e  comtudo  ado- 
ptou-o  o  governo  ! 

Eu  approvo  este  projecto,  porque  entendo 
que  elle  encerra  um  principio  justo,  qual  ó 
o  de  alargar  a  área  onde  se  ha  de  proceder 
ao  recrutamento  para  a  parte  electiva  da 


74  Da  monarchia  para  a  republica 


camará  dos  j)ares  ;  mas,  como  a  camará  vê 
bem,  esta  questão  não  é  uma  questão  de 
justiça  em  absoluto,  é  altamente  politica, 
interessa  vitalmente  aos  partidos,  porque 
não  sei  que  os  partidos  dentro  do  regimen 
parlamentar  tenham  mais  alta  ambição  do 
que  a  conquista  dos  logares  nesta  e  na 
outra  casa  do  parlamento  para  servirem  o 
paiz  (Apoiados). 

Como  é  pois  que  os  dignos  membros  da 
opposição  se  mostram  indiíferentes  a  este 
projecto,  que  foi  apresentado  por  um  dos 
seus  collegas  na  outra  casa  do  parlamento  ? ! 
Não  tem  importância?!  Tem-na,  disse-o  o 
sr.  Luciano  de  Castro;  é  de  elevado  alcance, 
porque  trata  de  nada  menos  do  que  traçar 
de  novo  a  linha  dentro  da  qual  se  ha  de 
travar  a  luta  dos  partidos  para  a  eleição 
dos  pares  de  origem  popular.  Esta  luta 
dos  partidos  é  o  acto  mais  grave,  mais 
fundamental,  de  qualquer  paiz  que  se  rege 
jDelo  s^^stema  representativo. 

O  sr.  presidente  do  conselho  disse-nos 
que  adoptava  a  proposta  ;  e  eu,  que  conheço 
a  historia  de  toda  a  vida  jjublica  de  s.  ex."'', 
que  lhe  presto  a  homenagem  da  minha 
admiração,   sei    que,   se    s.   ex.''  acceitou   a 


A  reforma  coiistitucioual  de  18S5 


proposta,  foi  jDorque  entendeu  que  o  prin- 
cipio que  se  pretendia  consignar  na  legis- 
lação, era  equitativo,  que  os  limites  ali 
iixados  para  as  contribuições  predial,  indus- 
trial e  bancaria  são  taes  que  com  egualdade 
os  partidos  poderão  medir-se  perante  a  urna 
a  fim  de  terem  logar  na  secção  electiva  da 
«amara  dos  dignos  pares  (Apoiado ) .  S.  ex.* 
andou,  quanto  a  mim,  nobremente,  accei- 
tando  aquella  proposta ;  o  que,  porém,  me 
doeu,  foi  ver  ha  pouco  s.  ex.''^,  depois  de 
ter  sido  acompanhado  de  todos  os  seus  cor- 
religionários políticos,  dar  uma  tão  pequena 
importância  á  j^roposta,  quando  sei  que  na 
mente  de  s.  ex.^  inquestionavelmente  ella  a 
tem  considerável,  nem  de  certo  s.  ex.*  dese- 
java o  apoio  da  maioria  para  uma  idéa,  se 
a  achasse  insignificante. 

Nas  não  é  insignificante  este  projecto, 
nem  para  o  governo  nem  para  a  opposição 
(Apoiados  ) . 

Eu  suppunha  que  o  digno  par  do  reino, 
quando  apresentara  a  sua  proposta,  estava 
investido  de  todos  os  poderes  para  o  fazer 
em  nome  do  seu  partido,  porque,  a  não  ser 
isto,  a  alteração  da  lei  das  categorias 
tomava   uma  feição   pouco   agradável. 


76  Da  monarchia  para  a  republica 

Podia  siTspeitar-se  que  se  fazia  um  acor- 
do, mas  não  clara,  patente  e  solemnemente, 
como  se  fizera  o  outro  que  precedeu  as 
reformas  politicas.  Podia  o  paiz  suspeitar 
que  se  fazia  agora  um  acordo,  mas  dissi- 
mulado ;  que  o  partido  progressista,  para 
que  não  se  visse  que  fazia  um  novo  acordo, 
mandava  um  dos  seus  dizer  ao  governo  que 
adiava  conveniente  a  alteração  da  lei  das 
categorias,  e  em  seguida  apparentava  por 
outros  membros  uma  completa  liberdade  de 
acção.  Isto  seria  simplesmente  medo  á 
palavra  acordo. 

Eu,  mais  do  qtie  ninguém,  estimarei  que 
o  partido  progressista  não  só  não  deseje, 
mas  não  necessite  viver  em  transacção  com 
o  governo  (Apoiados.  Riso.),  mas  declaro 
a  V.  ex.''  e  á  camará  que  para  mim  lia  acor- 
dos nobres,  e  este  seria  um  delles.  Xem 
mesmo  o  sr.  presidente  do  conselho  o  ajus- 
taria, se  não  fosse  (Apoiados  ).  Eu  entrei 
110  acordo  que  precedeu  as  reformas  politi- 
cas, vim  aqui  defendê-lo  com  a  minha  pala- 
vra, porque  me  pareceu  honroso.  Pouco 
tempo  depois,  os  partidos  conservador  e 
liberal  da  Inglaterra  uniam-se  para  resolver 
a  questão  eleitoral.    Os  partidos,  quando  se 


A  reforma  coustitucional  de  1885 


trata  de  interesses  que  devem  estar  acima 
das  suas  divisões,  fazem  em  toda  a  parte 
acordos,  e  esses  acordos  em  muita  parte 
também  se  cumprem  rigorosa  e  lealmente 
(Eiso). 

Tive  de  me  desviar  um  tanto  do  meu 
primitivo  intento.  O  meu  fim,  ao  pedir  a 
palavra,  era  apenas  significar  ao  sr.  presi- 
dente do  conselho  e  aos  representantes  da 
opposição  nesta  casa  a  necessidade  de  se 
dar  á  votação  deste  projecto  a  forma  mais 
correcta.  O  sr.  Luciano  de  Castro  declarou 
que  não  gosta  da  forma  por  que  o  projecto 
veiu  a  esta  camará.  Nem  eu.  Desejo  que 
dum  e  doutro  lado  se  atteste  solemne- 
mente  que  .se  considera  este  projecto  de 
utilidade  para  o  paiz  e  de  conveniência 
geral  para  todos  os  partidos.  Ninguém 
mais  auctorizado  do  que  o  sr.  presidente 
do  consellio  para  fazer  esta  declaração  em 
nome  do  partido  regenerador,  e  ninguém 
mais  auctorizado  para  a  fazer  em  nome  do 
partido  progressista,  visto  não  estar  pre- 
sente o  seu  chefe,  do  que  os  illustres  depu- 
tados que  acabaram  de  falar. 

Era  para  exjirimir  este  desejo  que  eu 
tinha    pedido    a    palavra.     Repito    pois    a 


78  Da  monarchia  para  a  republica 


V.  ex."*  que  fiquei  surprehendido  com  os  dis- 
cursos que  ouvi.  Então  este  projecto  não 
estabeleceu  compromisso  para  nenhum  dos 
partidos  ? 

Se  todos  os  partidos  não  interessam  com 
elle,  volto  atraz  e  não  llie  dou  o  meu  voto. 
Para  que  eu  não  tenha  de  proceder  assim, 
espero  que  de  parte  a  parte  se  reconheça 
desassombradamente  que  o  projecto  é  com 
effeito  de  utilidade  commum  para  todos  os 
partidos  e  conseguintemente  de  interesse 
publico,  e  que  nem  por  sombras  o  ponham 
em  duvida. 


Pouco   depois,   o   auctor   apresentava  á  Camará  dos 
deputados  o  pedido  de  renuncia  do  seu  mandato. 


o  ultimatum  de  1890 


Urge  atteuder  ás  obrigações  do  momento. 
Pensar  no  passado  e  no  futuro  é  bom, 
comtanto  que  não  redunde  em  prejuízo  do 
presente.  Xão  é,  recriminando-nos,  que 
preparamos  a  nossa  defesa;  nem  liavemos 
de  aguardar  pelo  nosso  restabelecimento 
para  então  nos  defendermos.  O  tempo  não 
sobra  para  liquidar  responsabilidades ;  e, 
para  agenciar  grandezas,  não  chega.  Xão 
compliquemos  ainda  este  mau  passo.  As 
circumstancias  apertam-nos.  Já  é  demais 
que  estejamos  soffrendo  as  tristíssimas  con- 
sequências das  faltas  commettidas ;  e  praza 
a  Deus  que  a  crise  que  atravessamos,  nos 
incuta,  com  o  sentimento  da  nossa  penúria, 


*  Prefacio  dum  volume  publicado  pela  Academia  dos 
estudos  livres  com  o  titulo  Subsidio  para  u  fjrande 
subscripçuo  nacional,  1800. 


80  Da  raonarchia  para  a  repablica 

O  esforço  pertinaz  bastante  para  successi- 
vamente  nos  supprirmos.  Ella  deve  marcar 
o  termo  dos  nossos  desvarios  e  o  começo 
da  nossa  regeneração ;  mas  é  de  per  si 
mesma  alguma  coisa  gravissima.  Rompa- 
mos com  os  viciosos  hábitos  inveterados  e 
votemo-nos  do  coração  a  nma  vida  nova ; 
mas  é  mister,  antes  de  mais  nada,  encarar- 
mos com  firmeza  os  azares  deste  transe, 
será  necessário  até  que  os  defrontemos  com 
heroismo.  Que  a  dôr  da  nossa  decadência 
e  a  esperança  de  melhores  tempos  nos  sir- 
vam de  estimulo  para  lutarmos  pela  pátria, 
pelos  nossos  direitos,  pela  nossa  honra !  O 
momento  é  de  luta.  Aj)ercebamo-nos  para 
ella.  Concentremos  nella  todas  as  energias. 
Quando  a  pátria  chama  pelos  seus  filhos, 
cessam  entre  elles  os  resentimentos  e  não 
ha  negocio  que  prevaleça  á  obrigação  de 
lhe  acudir. 

Não  nos  irritem  os  erros  do  passado,  que 

o  sentir  demasiado  a  fraqueza  é  signal  de 

abatimento :    nem,    pela,    soffrega    ambição 

de  ventura,  demos  um  feio  espectáculo  de 

•jDusillanimidade  nesta  hora  angustiosa! 

Do  passado  tomemos  a  j^roveitosa  lição 
que  encerram  os  annaes  dos  nossos  desas- 


o  ultimatum  de  1890  81 


três,  que  têem  sido  tamanhos,  e  das  nossas 
façanhas,  que  foram  prodigiosas,  para  que 
outra  vez  rebrilhe  em  nós,  acendrado  e  puro, 
o  génio  português.  Mantenhamos  vivos  na 
memoria  os  vultos  preclaros  que  souberam 
consubstanciar  em  si  com  toda  a  nobreza 
as  idéas,  os  sentimentos  e  as  aspirações  da 
nossa  gente.  Foram  elles  que  conquistaram 
os  titulos  que  o  estrangeiro  nos  disputa  e 
intenta  extorquir.  Cobre-nos  ainda  a  sua 
gloria.  O  seu  exemplo  nos  dará  inspirações 
para  arcarmos  com  a  adversidade  até  a 
suplantarmos. 

O  futuro  ainda  nos  não  descerra  as  suas 
portas.  É  cedo  para  contar  com  elle.  Acha- 
mo-nos  enfraquecidos  de  longa  data  e  é 
preciso  immediatamente  fazermos  das  fra- 
quezas força.  Quando  virá  a  operar-se  a 
nossa  restauração  ?  Antes  de  merecermos 
a  fortuna  pelo  trabalho,  temos  que  a  dobrar 
pelo  valor. 


Reconheçamos  imperturbavelmente  os  me- 
lindres da  situação. 

A  força  militar  das  nações  proporciona-se 
ao  seu  grau  de  civilização  material  e  moral, 


82  Da  nionarchia  para  a  republica 

ao  seu  civismo  e  riqueza ;  e  taes  elementos 
não  se  improvizam.  Uma  nação,  como  um 
individuo,  pode  transfigurar-se  pela  paixão, 
mas  só  gradualmente  se  reforma.  Aquella 
que  descurou  esquecidamente  os  seus  direi- 
tos e  interesses,  não  está  apta  para  de 
repente  restaurar  a  sua  jiolitica  e  as  suas 
finanças.  Carece  duma  instrucção  e  dum 
aprendizado,  jurídico  e  económico,  que  le- 
vam tempo.  Ora  nós,  que  temos  felizmente 
poucos  indigentes,  que  não  temos  grandes 
fortunas,  mas  também  não  temos  grandes 
misérias,  somos  colectivamente  pobres. 
Ora  entre  nós  não  ha  privilégios  odiosos 
e  revoltantes,  mas  a  autoridade  '  não  se 
acba  distribuida  tão  equitativamente  e  o 
principio  da  autoridade  não  é  tão  presti- 
gioso, que  cada  qual  esteja  no  seu  logar 
próprio  e  todos  mutuamente  se  respeitem. 
Os  nossos  laços  são  frouxos.  Se  não  ha 
secussões  violentas  no  machinismo  da  so- 
ciedade portuguesa,  ha  demasiadas  resistên- 
cias passivas.  Xão  possuímos,  pois,  como 
cumpria,  a  solidez  de  estructura  que  toma 
as  nações  robustas  e  temidas.  Podemos 
vencer  o  nosso  egoismo,  mas  não  se  desen- 
cantam logo   a  flux   a  riqueza  e  a  ordem. 


o  ultimatum  de  1890  83 


Não  sonhemos  com  tesoiros  que  uão  amea- 
lhámos. 

Havemos  j)or  isso  de  nos  render? 

Não.  Subscrevamos  com  tudo  que  possa- 
mos reservar  da  nossa  vida  domestica,  para 
occorrer  ás  necessidades  da  pátria ;  empe- 
nhemo-nos  até  por  amor  delia,  comtanto 
que  contraproducentemente  nos  não  aventu- 
remos em  compromissos  insolúveis,  sempre 
indecoroso^.  Avigoremos  o  mais  possível 
as  instituições,  mas  sem  Ímpetos  revolucio- 
nários de  aperfeiçoamento.  (.:^uem  se  atreve 
a  oíFerecer  nesta  occasião  o  elixir  politico 
da  fortuna  ?  os  pregoeiros  da  demagogia, 
que  attribuem  todos  os  males  á  pressão  dos 
governos ;  ou  os  adoradores  do  despotismo, 
que  os  derivam  inteiramente  da  anarchia 
das  multidões  ?  E  preciso  sacrificarmos  as 
ambições,  ainda  as  mais  generosas,  á  lei 
suprema  da  salvação  publica. 

O  aperfeiçoamento,  tanto  collectivo  como 
individual,  soíFre  semj^re  as  restricções  que 
lhe  impõe  a  necessidade  e  o  dever.  Sejamos 
corajosos  e  prudentes.  Evitemos  cautelosa- 
mente novas  causas  de  enfraquecimento. 
Poupemos  e  poupemo-nos.  Tiremos  da  me- 
diocridade das  nossas  condições  politicas  e 


84  Da  nionarchia  para  a  republica 

financeiras  tudo  que  ellas  podem  dar-nos. 
O  que  está  ao  nosso  alcance,  bastará,  que- 
rendo Deus. 

Estamos  fracos,  não  desfallecidos.  A  fonte 
das  virtudes  dum  povo,  da  sua  prosperidade, 
é  o  seu  patriotismo.  Brote  elle  nos  cora- 
ções, e  a  defesa  nacional  será  fervente  como 
a  própria  alma  da  pátria.  Faltam-nos  recur- 
sos, mas  acliamo-nos  decididos  a  todas  as 
privações.  A  nossa  constituiçãç  em  pé  de 
paz  não  nos  põe  logo  em  formatura  para  a 
guerra,  não  tem  essa  cohesão ;  mas  no  exer- 
cito iremos  todos  aprender  a  disciplinar-nos. 
A  fonte  das  antigas  virtudes  portuguesas 
pôde  estancar  algumas  vezes,  nunca  secou. 
E  os  portugueses  d*lioje  não  regatearão  o 
seu  sangue  para  pagar  religiosamente  a  sua 
divida  filial.  Xão  no's  amedronta  a  guerra. 
Ha  de  ser  uma  lição  cara,  mas  irrecusável. 
E,  se  muito  sacrificarmos,  muito  nos  retem- 
peraremos também.  Sairemos  delia  pobríssi- 
mos, mas  económicos;  cobertos  de  luto,  mas 
intimamente  unidos. 


A  íei  de  salvação  publica 


Sr.  Presidente  !  * 

Visto  que  a  camará  entende  conveniente 
não  tocar  nas  propostas  financeiras  em 
discussão,  não  enviarei  para  a  mesa  as 
modificações  que  desejava  introduzir  para 
restabelecer  os  direitos  do  professorado. 

Duas  palavras  apenas.  Voto  estas  pro- 
postas financeiras,  e  j)or  ellas  louvo  espe- 
cialmente o  sr.  ministro  da  fazenda**, 
cujos  altos  dotes  ha  muito  admiro;  voto-as, 
porque  entendo  também  que,  antes  de  mais 
nada,  nos  cumpre  mostrar  aos  credores  da 
nação  o  firme  propósito  em  que  toda  ella 
está  de  saldar  as  suas  dividas,  custe  o  que 
custar. 


Discurso  proferido  na  Camará  dos  pares,  1892. 
Oliveira  Martins. 


86  Da  monarchia  para  a  republica 

Mas  a  liquidação  tem  que  ir  mais  longe. 
Deve  egualmente  ser  a  liquidação  dos 
nossos  erros  políticos.  Ora  nada  mais  ne- 
fasto ao  prestigio  das  instituições  do  que  a 
confusão  dos  j)oderes  públicos,  invadindo  o 
legislativo  a  esphera  do  executivo  e  reci- 
procamente. Por  isso  não  posso,  com 
magua  o  digo,  conceder  ao  gabinete  as 
auctorizações  que  pede.  Xão  entraremos 
em  vida  nova,  sr.  presidente,  emquanto  se 
mantiverem  os  velhos  processos  ! 

Disse  bontem  o  sr.  presidente  do  conse- 
lho que  necessitamos  sobretudo  de  ter  juizo 
e  amor  ao  trabalho.  De  acordo  !  Mas  não 
me  parece  que  seja  prova  de  juizo  o  rein- 
cidir nos  erros  por  que  estamos  padecendo, 
nem  é  de  certo  convidar  ao  trabalho  coude- 
mnar  esta  e  a  outra  camará  a  uma  degra- 
dante inactividade. 

Comprehende-se  ainda  que  a  maioria 
jjarlamentar  delegue  o  seu  mandato  num 
gabinete  que  com  ella  se  consubstancia  no 
mesmo'  pensamento  governativo.  No  caso 
presente,  é  uma  verdadeira  abdicação  !  A 
que  princípios  obedecerão  as  reformas  da 
administração  publica?  Não  ouvimos,  ha 
momentos,  o  sr.  José  Dias  Ferreira  declarar 


A  lei  de  salvação  publica 


que  dentro  em  pouco  publicaria  a  reorgani- 
zação dos  serviços  de  ensino  ?  e  sabe  por- 
ventura a  camará  em  que  espirito  essa 
reorganização  se  está  elaborando  ? 

Allega-se  que  os  ministros  não  tiveram 
até  agora  tempo  para  formular  um  systema 
completo  de  reformas.  Não,  de  facto.  Tão 
pouco  os  representantes  da  nação  poderão 
exprimir  de  prompto  os  seus  intuitos  refor- 
madoi'es.  Mas  dahi  não  se  segue  para  o 
gabinete  o  direito  de  assumir  attribuições 
legislativas,  nem  para  o  parlamento  o  direito 
de  as  declinar. 

O  pedido  das  auctorizações  não  se  funda- 
menta. Não  tentou  justificá-lo  o  relatório 
ministerial,  nem  as  breves  considerações  a 
tal  resj)eito  expendidas  pelas  commissões 
de  fazenda  importam  uma  justificação. 

E  repare-se,  sr.  presidente,  que,  votada 
semelhante  concessão,  nenhum  mérito  advirá 
para  o  parlamento  do  bom  uso  que  o  gabi- 
nete delia  fizer ;  mas  use  delia  mal  o 
gabinete,  e  as  responsabilidades  pesarão 
grandemente  sobre  o  parlamento. 

Não !  Elevemo-nos  todos  á  altura  da 
nossa  missão.  As  camarás  tèem  as  suas 
commissões  :     convoquem-se,     funccionem  ; 


Da  monarchia  para  a  republica 


vão  ao  seio  delias  apresentar  as  suas  idéas 
os  membros  do  poder  executivo.  Unamo- 
nos  estreitamente  no  mesmo  empenho  sal- 
vador !  E  o  j)8'iz  bemdirá  o  patriotismo 
com  que  uns  e  outros  cooperarmos  para 
que  a  administração  publica  preste  por 
cada  um  dos  ministérios,  e  principalmente 
pelo  da  instrucção,  os  bons  officios  que, 
mais  que  nunca,  nesta  conjunctura  lhe 
incumbem. 


Senhores !  * 

A  lei  de  24  de  fevereiro  ultimo  no  seu 
artigo  1."  eximiu  da  nova  taxa  de  imposto 
que  creou,  os  vencimentos  inferiores  a  réis 
400-SOOO,  e,  sendo  contradictorio  a  esta  dis- 
posição o  artigo  13.''  da  mesma  lei.  que 
denega  a  muitos  professores  de  instrncção 
primaria    e    a   outros  fnnccionarios   de   tão 


*  Projecto  de  lei  apresentado  á  Camará  dos  pares 
em  1892  pai'a  a  isenção  tributaria  dos  pequenos  venci- 
mentos. 


A  lei  de  salvação  publica  89 


modesta  remuneração  O  angmento  de  venci- 
mento 23or  diuturnidade  de  serviço,  quando 
mesmo  com  esse  augmento  não  venham  a 
perceber  o  total  de  áOOóOOO  réis,  tenho  a 
honra  de  apresentar  o  seguinte  projecto  de 
lei,  que  submetto  ao  vosso  esclarecido  e 
recto  espirito. 

Artigo  1.°  São  exceptuados  do  disj^osto 
no  n.°  2.'^  do  artigo  13. '^  os  augmentos  de 
vencimento  por  diuturnidade  de  serviço 
que,  sommados  com  o  ordenado,  não  perfa- 
çam o  total  de  -íOOííOOO  réis. 

Art.  2.''  Fica  revogada  a  legislação  em 
contrario. 


o  ministério  de  1893 


Declaração  ministerial  ** 

«  Tendo  o  ministério  a  que  presidia  o 
sr.  conselheiro  Dias  Ferreira  j)edido  a  de- 
missão, Sua  Majestade  El-Rei  houvera  por 
bem  encarregar  o  orador  de  organizar  um 
novo  gabinete. 

«  Era  este  ministério  que  vinha  apresen- 
tar á  camará. 

(f  A  par  do  seu  collega  do  reino,  que  o  paiz 
conhecia,  não  só  como  jDarlamentar,  mas 
também  pelos  seus  actos  de  governo,  porque 
em  differentes  conjuncturas  tinha  dirigido 
importantes  negócios  públicos,  apresentava 

*  Vide,  do  auctor,  A  industria  (1898).  A  agricul- 
tura (1900)  e  Os  meios  de  communicação  e  o  com- 
mercio  (em  via  de  publicação). 

**  Feita  ao  parlamento  pelo  presidente  do  conselho  de 
ministros,  o  sr.  Hintze  Ribeiro,  em  fevereiro  de  1893. 


92  Da  monarchia  para  a  republica 

cinco  ministros  que  pela  primeira  vez  vi- 
nham tomar  assento  nos  conselhos  da  coroa. 

«  A  auctoridade  dos  seus  nomes  e  a  apti- 
dão e  competência  de  que  em  diíferentes 
ramos  de  administração  publica  tinham  dado 
claras  provas,  eram  titulos  que  os  recom- 
mendavam  á  consideração  da  camará  é  a 
benevolência  e  sympathia  dos  representan- 
tes da  nação. 

«  O  governo  não  tinha  illusões  acerca  das 
diíEculdades  que  se  lhe  deparavam.  Sabia 
bem  quanto  eram  graves  as  circumstancias 
do  momento  actual,  e  quão  profundamente 
ellas  aíFectavam  a  economia  e  o  credito  do 
paiz ;  mas  era  precisamente  numa  conjun- 
ctura  como  esta  que  todos  os  homens  públi- 
cos tinham  o  dever  de  concorrer  com  a  sua 
dedicação,  com  a  sua  vontade  e  com  a  sua 
energia  para  que  a  Portugal  se  pudessem 
abrir  novos  horisontes  no  futuro. 

«  Em  breves  palavras  diria  qual  o  pen- 
samento do  governo. 

«  Era  intenção  do  governo  solicitar  da 
coroa  uma  amnistia,  não  para  os  delictos 
eleitoraes,  mas  para  os  delictos  políticos, 
com  excepção  dos  que  houvessem  sido 
commettidos  por  chefes  militares. 


o  ministério  de  1S03  93 


«  O  governo  proporia  uma  remodelação 
da  lei  reguladora  da  liberdade  de  imprensa, 
de  forma  a  assegurar  a  liberdade  do  pen- 
samento e  a  responsabilidade  correlativa, 
estabelecendo-se  para  isto  uma  forma  espe- 
cial de  julgamento  que  seja  ao  mesmo 
tempo  uma  garantia  para  a  liberdade  e  um 
meio  para  se  tomar  effectiva  a  responsabi- 
lidade. Xeste  intuito,  o  governo  solicitaria 
também  da  coroa  uma  amnistia  jDara  os 
delictos  de  imprensa  que  já  tenham  sido 
praticados. 

«  Xo  mesmo  propósito  se  inspirava  o  go- 
verno com  respeito  á  liberdade  de  reunião. 

«  O  governo  apresentaria  ás  cortes  uma 
proposta  de  lei  que  definisse  em  termos 
claros  e  precisos  a  responsabilidade  dos 
ministros  pelos  actos  que  pratiquem. 

(í  Com  respeito  á  administração,  o  go- 
verno proporia  também  a  revisão  das  leis 
concernentes  ao  regimen  das  corporações 
administrativas,  de  forma  a  garantir  e  a 
promover  o  desenvolvimento  da  vida  local, 
descentralizando  os  serviços,  mas  resalvando 
as  necessárias  restricções  em  matéria  tribu- 
taria e  de  recurso  ao  credito.  Por  esta 
mesma  razão,  declarava  o  governo  que  não 


94  Da  monarcliia  para  a  republica 

usaria  da  auctorização  concedida  por  um 
decreto  recente,  no  que  toca  á  administra- 
ção das  obras  municipaes  por  conta  do 
estado. 

«  O  governo  dedicar-se-ía  com  desvela 
aos  serviços  da  instrucção  publica,  para. 
que,  com  o  aperfeiçoamento  das  institui- 
ções docentes  e  dos  methodos  de  ensino,  se 
possa  attrahir  a  frequência  ás  escolas,  tendo 
em  vista  os  largos  e  incontestáveis  bene- 
fícios que  deste  facto  emanam  ]iara  a 
sociedade. 

(í  O  governo  encontrava  pendente  uma 
questão  sobremaneira  imjDortante,  qual  era 
a  do  pagamento  aos  jDortadores  dos  titulos 
da  divida  publica  portuguesa.  Afíirmava  o 
gabinete  o  jíroposito  em  que  estava,  e  que 
traduzia  o  sincero  desejo  do  paiz,  de  que 
aos  credores  do  estado  se  pague  tudo  o 
que  caiba  nos  recursos  do  tesoiro.  Para 
isto  tinha  o  governo,  j^rimeiro  de  tudo,  que 
se  inteirar  por  completo  do  estado  desta 
questão,  das  phases  que  ella  tem  seguido  e 
dos  elementos  que  a  acompanham.  Ao 
mesmo  tempo  precisava  o  governo  de  exa- 
minar a  situação  financeira  nos  seus  ele- 
mentos essenciaes,  a  fim  de  se  habilitar  a 


o  ministério  de  1S03  95 


propor  com  segurança  a  solução  mais  conve- 
niente para  a  satisfação  dos  compromissos 
existentes,  dentro  das  forças  da  nação. 

«  Com  respeito  á  questão  de  fazenda, 
declarava  o  governo  que  não  é  sua  intenção 
propor  novos  agravamentos  tributários,  sem 
primeiro  proceder  a  uma  revisão  escrupu- 
losa do  orçamento  do  estado,  de  modo  que 
nos  diversos  ramos  da  administração  publica 
se  possam  efifectuar  todas  as  reducções  de 
despesa  que  as  circumstancias  do  país  instan- 
temente reclamam.  Era  doloroso  isto,  mas 
era  absolutamente  essencial  á  regeneração 
financeira  e  á  manutenção  dos  nossos  créditos 
de  nação  honrada,  como  nos  prezamos  de  ser. 
Não  menos  necessário  era  procurar  na  rigo- 
rosa arrecadação  dos  impostos  e  dos  débitos 
ao  tesoiro  não  só  um  meio  de  remediar  as 
desegualdades  que  praticamente  se  dão,  mas 
também  um  justíssimo  incremento  nas  recei- 
tas publicas.  O  governo  declarava  que  não 
estava  no  seu  propósito  agravar  os  impostos 
de  consumo,  que  vão  ferir  principalmente  as 
classes  operarias  e  menos  abastadas. 

«  Proporia  o  governo  uma  remodelação 
das  instituições  bancarias,  de  forma  a  asse- 
gurar  mais    eficazmente    a    inspecção    e    a 


90  Da  monarohia  para  a  republica 

fiscalização  do  estado  nestas  importantes 
entidades  financeiras  e  económicas. 

«  Feitas  as  necessárias  redacções  de  des- 
pesa e  tomadas  as  imprescindiveis  providen- 
cias no  tocante  á  arrecadação  das  receitas 
publicas  e  dos  débitos  ao  tesoiro,  o  governo 
proporia  então  as  medidas  mais  convenientes 
em  matéria  de  augmento  de  receita. 

«  Eram  estas  as  idéas  do  governo.  Para 
as  realizar  contava  com  o  concurso  de 
todos  os  homens  públicos,  sem  distincção 
de  parcialidades  politicas.  » 


Resposta  a  críticos 

Ex.™"  AMIGO  E  SR.   * 

Permitta-me  duas  observações  ao  artigo 
principal  do  ultimo  numero  do  Conimhricensf. 

Sobre  pagamentos  a  empreiteiros  e  for- 
necedores,   basta-me   dizer-lhe    que   paguei 

*  Joarjuim  Martins  de  Carvalho. 


o  ministério  de  1893 


centenas  de  contos  por  dividas  atrazadas, 
e  parte  provavelmente  para  Coimbra.  Se 
não  paguei  tudo,  foi  porque  não  pude. 

Para  o  districto  de  Coimbra  distribui  para 
cima  de  50:000-S000  réis  para  estradas,  cerca 
de  lOiOOOíSOOO  réis  para  edifícios  —  Museu 
e  Laboratório  chimico.  Sé  Velha,  Santa  Cruz 
e  Santa  Clara  — ,  e  uns  20:000íi000  réis  para 
obras  hydraulicas,  entre  as  quaes  o  alarga- 
mento do  cães  dessa  cidade  e  as  reparações 
das  mottas  do  Mondego.  Ainda  ultima- 
mente auctorisei  1:000^000  réis  para  des- 
viar as  aguas  da  egreja  de  Santa  Cruz. 

Algumas  palavras  a  respeito  de  escliolas. 
A  Eschola  agrícola  central  «  Moraes  Soares  » 
foi  reorganizada,  recebendo  um  ensino  com- 
pleto ;  a  um  seu  alumno  *  que  muito  se 
distinguira  na  construcção  de  machinas, 
mandei-o  ao  estrangeiro  aperfeiçoar-se  na 
mechanica  agrícola  para  vir  a  ser  o  mestre 
da  officina  da  sua  escliola  e  nella  realizar, 
em  proveito  da  nossa  lavoira,  ensaios  de 
machinas  agrícolas ;  e  concedi  aos  seus 
alumnos  a  promoção  para  o  Instituto  de 
Agronomia    e    Veterinária,    mediante    um 

*  O  sr.  Abílio  Trovisqueira. 
7 


98  Da  monarcbia  para  a  rspublica 


exame  de  admissão.  A  Escola  «  Broitero  » 
aproveitou,  como  todas  as  escolas  ándus- 
triaes,  o  novo  plano  de  estudos,  e.^como 
todas,  íicou  tendo  o  seu  programma  ;  muni-a 
de  todo  o  pessoal  e  material  necessário 
para  as  oíEcinas  de  carj^intaria  e  serralha- 
ria, o  que  importou  em  somma  quantiosa ; 
ordenei  a  installação  da  sua  officina  de 
cerâmica ;  e  auctorizei-a  a  subsidiar  com 
um  pequeno  jornal  os  alumnos  apprendizes. 

Passou-lhe  também  despercebido  que  fa- 
cultei a  utilização  do  Choupal  em  beneficio 
da  sericicultura  nessa  região. 

Não  falo  dos  serviços  que  prestei  á 
lavoira  de  Coimbra  com  os  decretos  e 
contractos  para  o  fornecimento  de  semen- 
tes, adubos,  etc.  ,  nem  dos  que  pude  espe- 
cialmente prestar  á  barra  da  Figueira  da 
Foz,  os  quaes  reflectirão  no  commercio  de 
Coimbra.  Não  pretendo  fazer  uma  enume- 
ração, mas  simplesmente  registrar  alguns 
dos  actos  da  minha  gerência ;  e  não  os 
lembro  com  desvanecimento,  pois  não  fiz  a 
Coimbra  nada  que  lhe  não  devesse. 

Creià-me  sempre  de  v.  ex.'"*  amigo  e 
admirador,  Bernardino  Machado. 

Jaueiío  de  1894. 


o  ministério  de  1893  99 


Meu  caro  amigo  !  * 

Diz  a  Tarde  de  hontem  que  fiz  taes  cor- 
tes no  orçamento  das  despesas  do  Minis- 
tério das  obras  publicas,  que  en  próprio 
acabei  por  descrer  da  sua  exequibilidade. 
A  isto  preciso  observar:  1.",  que,  assim 
como  reduzi  muitas  verbas,  também  refor- 
cei algumas  ;  2.°,  que,  á  excepção  das  obras 
nos  edifícios  públicos,  que  mal  se  podiam 
submetter  immediatamente  a  um  plano  de 
economia,  eu  esperava  que  a  maior  parte 
dos  serviços  se  cingissem  ás  minhas  previ- 
sões, e  os  restantes  se  compensassem  entre 
si;  3.*^,  finalmente,  que  a  minha  gerência 
me  persuadiu  de  que,  com  dedicada  e  escru- 
pulosa administração,  se  deveria  chegar 
nos  annos  seguintes  a  diminuir  ainda  mais 
os  encargos  do  tesoiro,  melhorando  ao 
mesmo  tempo  a  situação  dos  serviços  e 
especialmente  a  dos  pequenos  empregados 
e  do  operariado. 

*  Urbano  de  Castro. 


100  Da  monarchia  para  a  republica 

Acceite,  com  estas  informações,  as  affe- 
ctuosas  lembranças  do  seu  ded.°  am.°,  Ber- 
nardino Machado. 

Jaueiro  de  1S05. 


Meu  caro  amigo  !  * 

Leio  no  Diário  Popular  d'lioje  que  reduzi 
sem  fundamento  a  verba  de  conducção  de 
malas  do  correio.  Xão  é  exacto.  Está  pro- 
vado pelo  trabalho  dum  dos  mais  compe- 
tentes e  zelosos  funccionarios  da  repartição 
que  essa  reducção  é  perfeitamente  legitima ; 
e  eu  já  tive  em  cortes  occasião  de  expor  o 
modo  por  que  tentei  efíectuá-la.  O  Estado 
não  me  parece  que  deva  dar  ás  localidades, 
além  de  estrada,  carro. 

E  agora  me  lembra  que  o  Diário  Popular 
disse  lia  tempo  que  eu  reduzira  demais  as 
verbas  de  conservação  e  de  reparação  de 
estradas.  Também  não  era  exacto.  Consta 
já  o  contrario  do  relatório  do  distinctissimo 

'^'  O  sr.  Marianno  Prezado. 


o  ministério  de  1893  101 

director ;  e  eii  não  tenho  culpa  de  que, 
depois  de  mim,  essas  verbas  fossem  des- 
viadas do  seu  destino. 

Pela  publicação  destas  linhas  se  confessa 
desde  já  obrigado  o  teu  ant.''  am.°,  Bernar- 
dino Machado. 

Janeiro  de  1895. 


Meu  caro  amigo  !  * 

Sinto  que  o  Diário  Popular  continue  mal 
informado  a  meu  respeito.  Não  é  exacto 
que,  durante  a  minha  gerência,  eu  apenas 
me  importasse  com  os  programmas  das 
escholas  industriaes,  esquecendo-me  dos 
professores  necessários  para  a  sua  exe- 
cução. 

No  meio  de  tantas  outras  questões  que 
me  tomavam  o  tempo,  pude  iniciar  a  des- 
centralização do  ensino  profissional,  creando 
com  a  collaboração  das  corporações  locaes 
e    de    particulares,    varias    escholas    indus- 

*  O  sr.  Marianno  Prezado. 


102  Da  monarchia  para  a  republica 

triaes  e  commerciaes  e  uma  officiua  eschola 
d'olaria,  pude  duplicar  em  Lisboa  o  numero 
das  escholas  industriaes,  ampliando  a  an- 
tiga Eschola  municipal  Rodrigues  Sampaio, 
que  era  apenas  primaria  superior,  e  divi- 
dindo-a,  com  o  auxilio  do  sr.  duque  de 
Palmella  e  do  sr.  marquês  da  Praia  e  Mon- 
forte, em  duas  secções  industriaes,  uma  no 
Poço  Novo  e  outra  no  Eato  ;  e,  além  de 
assim  fundar  a  educação  menor  da  classe 
commercial  e  dififundir  a  da  classe  indus- 
trial, além  de  abrir  as  portas  de  cada  es- 
chola ao  dobro  da  população  trabalhadora 
por  meio  do  desdobramento  do  ensino  em 
diurno  e  nocturno,  fixei  o  plano  dos  exerci- 
cios  escholares,  esboçado  por  mim  em  1891, 
formulei  os  quadros  dos  cursos  e  decretei 
os  programmas  das  aulas  e  das  officinas, 
reforcei  o  material  pedagógico  das  aulas, 
imprimi  um  largo  desenvolvimento  ao  ensino 
ofíicinal,  apenas  começado  antes  de  mim, 
como  se  pôde  verificar  aqui  na  capital, 
visitando  as  magnificas  officinas  que  man- 
dei installar,  e  dotei  as  escholas  com  os 
professores  e  mestres  bastantes,  aprovei- 
tando para  o  magistério  alguns  empregados 
de  obras  i^ublicas,  addidos  ou  dispensáveis, 


o  ministério  de  1893  103 


de  reconhecido  mérito,  ao  mesmo  tempo 
que  reduzia  o  numero  de  professores  con- 
tractados,  e  tendo  a  fortuna  de,  por  contra- 
cto, recrutar  pela  j^i^inieira  vez  um  artista 
pDrtuguês  *.  Nem  deixei  de  pensar  nos 
íilhos  de  proletários  que  revelassem  aptidão 
superior,  e  para  elles  instituí  pensões  que 
lhes  j^ermittissem  ascender  á  frequência  dos 
Institutos  industriaes  e  commerciaes. 

Depois  que  saí  do  ministério,  nomeou-se 
eflPectivamente  contra  lei  um  sem  numero 
de  professores;  mas  não  eram  necessários, 
antes,  pelo.  contrario,  semelhante  accumu- 
lação  só  pode  prejudicar  os  alumnos,  que 
mal  dividirão  o  seu  tempo  por  tantas  aulas, 
e  desacreditar  perante  elles  as  escholas, 
que  assim  mais  parecem  destinadas  ao  ser- 
viço dos  professores  do  que  ao  dos  alumnos. 
Nomeou-se,  como  se  nomeou  gente  demais 
para  tudo,  ao  acaso  das  j)retenções.  Eis  a 
explicação  do  grande  augmento  de  des- 
pesas. 

Acceita  as  affectuosas  lembranças  do  teu 
ant.**  am.",  Bernardino  Machado. 

Fevereiro  de  1895. 

*  O  sr.  Roque  Gameiro. 


104  Da  raonarchia  para  a  republica 


Ex.'"°  Sr.  Eedactor  !  * 

Segundo  o  Diário  Popular  de  hontem,  ha 
nas  escliolas  .indiistria,es  e  commerciaes  31 
professores  provisórios,  9  dos  quaes  nomea- 
dos por  mim. 

Para  evitar  confusões,  devo  dizer  a  v.  ex.^ 
que  os  que  nomeei,  foram  os  seguintes : 
2  para  dois  logares  vagos,  interinamente, 
emquanto  não  se  preenchiam  por  concurso ; 
2  condnctores  de  obras  publicas,  1  fiscal 
dos  caminhos  de  ferro  e  1  desenhador,  des- 
necessários nos  seus  quadros,  cujas  aptidões 
foram  aproveitadas  para  o  magistério,  indo 
dois  para  as  novas  escliolas  da  Figueira  da 
Foz  e  de  Aveiro,  e  os  outros  dois  para  as 
Escliolas  Affonso  Domingues  e  Fradesso 
da  Silveira,  onde  a  população  escholar  os 
reclamava ;  1  monitor,  que  exercia  funcções 
de  professor  na  Eschola  Affonso  Domingues, 
e  que,  como  era  de  justiça,  recebeu  o  titulo 
de  professor;  1  para  a  Eschola  de  commer- 

*  O  sr.  Marianno  de  Carvalho. 


o  ministério  de  1893  105 


cio  de  Lisboa,  creada  j^or  mim,  o  qual  tinha 
de  ser  pago  pela  Associação  commercial ; 
1  gratuito  para  o  ensino  da  aritlimetica  e 
geometria  na  Escliola  Affonso  Domingues, 
onde  esse  ensino  não  existia  e  era  de  toda 
a  conveniência. 

Lembro-me  ainda  de  que  chamei  ao  ser- 
viço 2  antigos  professores  da  Eschola 
Rodrigues  Sampaio,  addidos  ao  Ministério 
do  reino,  que  não  foram,  comtudo,  imme- 
diatamente  j)6rceber  mais  do  que  tinham 
na  disponibilidade. 

E  fiz  isto,  creando  novos  centros  de 
ensino  no  paiz,  duplicando-o,  póde-se  dizer, 
pelas  provincias,  e  quadruplicando-o  na  ca- 
pital, e  ao  mesmo  tempo  que  dispensava 
das  escholas  profissionaes  um  professor  do 
lyceu,  que  nellas  encontrara  deslocado,  e 
supprimia  a  despesa  annual  de  2:520,!>00O 
réis  com  professores  estrangeiros  contra- 
ctados. 

Peço  a  V.  ex.''  o  favor  de  dar  i3ublicidade 
a  estes  esclarecimentos.  E  sou,  com  toda  a 
consideração,  de  v.  ex.'"*  amigo  e  collega 
admirador,  Bernardino  Machado. 


A  armada  nacional 


Senhor  Presidente  ! 

O  sr.  Carlos  Lobo  cV Ávila  fez-me  o 
obsequio  de  me  procurar  para  me  prevenir 
de  que  não  poderia  talvez  comparecer  logo 
ao  entrar-se  na  ordem  do  dia,  jjor  ter 
hoje  recepção  do  corpo  diplomático.  Não 
supponbo,  porém,  que  a  camará  queira  por 
isso  interromper  os  seus  trabalhos,  e,  da 
minha  parte,  reservarei  para  o  fim  a  per- 
gunta que  tencionava  formular-lhe. 


*  Observações  á  plirase  seguinte  do  discui-so  da  coroa : 
«  Não  meuos  merecedora  desses  desvelos  é  a  nossa 
marinha  de  guerra,  cuja  corporação  tão  bem  sabe,  em 
regra,  manter  o  brilho  das  tradições  herdadas...  » 
Camará  dos  pares,  24  de  novembro  ee  1894. 


108  Da  monarchia  para  a  republica 

Pedi  a  V.  ex.'"'  a  palavra,  quando  outro 
dia  o  sr.  presidente  do  conselho,  com  a  sua 
costumada  correcção,  acabava  de  affirmar 
que  o  ministério  era  todo  solidário  nesta 
questão.  A  mim  parece-me  que  a  conclusão 
que  se  ha  de  tirar  deste  debate,  é  precisa- 
mente a  opposta,  e  que  essa  conclusão  se 
impõe  inilludivelmente  á  consideração  dum 
dos  membros  do  gabinete. 

Sr.  presidente,  associo-me  de  bom  grado 
á  moção  de  ordem  mandada  para  a  mesa 
pelo  venerando  chefe  do  partido  regenera- 
dor, o  sr.  António  de  Serpa. 

Também  me  dou  por  satisfeito  com  as 
explicações  do  governo,  porque  estou  certo 
que  ellas  traduzem  fielmente  os  sentimentos 
do  valente  e  brioso  ex-governador  de  Mo- 
çambique, meu  antigo  collega,  que  dirige 
os  destinos  da  armada. 

E  ninguém  mais  cordialmente  do  que  eu 
rende  homenagem  ás  altivas  corporações, 
os  exércitos  de  terra  e  de  mar,  tão  estrei- 
tamente vinculadas  ambas  ás  nossas  glo- 
riosas tradições,  e  que  ainda  agora  mesmo 
vão  com  egual  ardor,  no  cumprimento  de 
um  dever  commum,  acudir  pelas  armas  ao 
nosso     senhorio    sobre    um    rincão    dessas 


A  armada  nacional  109 


remotas  paragens  que  os  nossos  heróicos 
maiores  descobriram  e  conquistaram  para 
a  civilização. 

Mas,  sr.  presidente,  as  palavras  arguidas 
do  discurso  da  coroa  não  tèem  dois  sentidos  I 

Pôde  o  governo  repudiá-las,  pode  e  deve 
esta  camará  revoltar-se  contra  o  seu  signi- 
ficado ;  mas  todas  as  declarações  e  protestos 
não  fazem  senão  demonstrar  uma  coisa,  e 
é  que  neste  momento  alguém  no  seio  do 
gabinete  se  tornou  incompatível  com  o 
parlamento  e  com  o  próprio  governo.  Esse 
alguém  é  o  ministro  que  um  jornal  da  sua 
intimidade  deu  a  %aber  que  fora  pelos  seus 
collegas  incumbido  de  redigir  o  discurso 
da  coroa. 

Sr.  presidente,  que  haja  entre  nós  esta- 
distas que  dissipem  a  fortuna  publica,  de- 
sacreditaudo-nos  aos  olhos  do  mundo  como 
homens  de  negocio,  é  deplorável  e  nada 
mais  contrario  á  laboriosidade  honesta  da 
nossa  gente ;  mas  que  um  membro  do 
governo,  do  alto  do  poder  e  pela  voz  do 
chefe  do  estado,  numa  grande  solemnidade 
constitucional,  nos  apregoe  tão  envilecidos 
que  nem  já  sabemos,  nos  mares  onde 
outrora  dominámos,  honrar  sequer   a  ban- 


110  Da  moaarchia  para  a  republica 


deira  sagrada  da  pátria,  eis  o  que  é  imper- 
doável ! 

Um  tal  attentado  não  deve  ficar  impune. 
Mas,  para  isso,  é  necessário  dissipar  os 
equívocos  que  tolhem  todo  o  eíFeito  e 
sancção  desta  discussão. 

Não  ouviram  na  ultima  sessão  o  sr.  mi- 
nistro dos  negócios  estrangeiros  invocar  o 
respeito  do  parlamento  pelas  instituições, 
para  se  acabar  com  esta  questão  ?  Mas 
quem  foi  que  as  atacou?  Quem  se  j)Oz  em 
conflicto  com  o  vivo  a£fecto  do  nosso  j)OVO 
pela  sua  marinlia  de  guerra  ?  Pois  imagina 
alguém  que  el-rei  pronunciasse  litteral- 
mente  o  discurso  da  coroa,  a  não  ser  con- 
strangido pelo  seu  escrúpulo  de  constitu- 
cionalidade ? 

Não  viram  o  sr.  ministro  dos  estrangeiros 
sair  em  defesa  dos  seus  collegas,  e  jDrinci- 
palmente  do  sr.  ministro  da  marinlia?  Mas 
as  culpas  são  de  todo  o  governo  ?  E  vero- 
símil que  a  phrase  insólita  do  discurso  da 
coroa  fosse  controvertida,  j)esada,  e,  só 
depois  de  maduro  exame,  escolhida  pelo 
conselho  de  ministros  ? 

Eu  ]3or  mim  já  reputo  demais  que  o 
governo  se  julgasse  obrigado  a  dar  explica- 


A  armada  nacional  111 


ções  que  enfraquecem  sempre  o  principio 
da  auctoridade  e  da  disciplina.  E  quem 
não  reconhece  que,  se  o  sr.  ministro  da 
marinha  se  cala  no  assumpto,  é  positiva- 
mente porque  elle  não  podia  ser  e  não  é, 
de  facto,  o  auctor  de  semelhante  attentado  ? 
Mas  quem  é  o  seu  auctor  ?  Sinto  que  não 
esteja  presente  o  sr.  ministro  dos  negócios 
estrangeiros,  para  lho  perguntar. 


Guerra  ao  banditismo 
politico!  * 


Começou  o  conferente  por  notar  que  ia 
ali  pela  sua  viva  sympathia  á  Liga,  á  qual 
tributa  o  testemunho  do  seu  apreço,  e  pelas 
suas  cordiaes  relações  com  o  sr.  conselheiro 
Fuschini,  de  quem  foi  companheiro  desde 
os  bancos  da  Universidade  até  ás  cadeiras  do 
p)oder,  para  onde  entraram  e  d'onde  saíram 
juntos. 

Vivemos,  ponderou,  no  momento  mais 
admira,vel  da  vida  da  humanidade  :  nunca  a 
sua  civilização  foi  tão  brilhante,  nunca  o  seu 
coração  palpitou  com  tão  eflfusiva  ternura. 
Ao  mesmo  tempo,  pungente  contraste!  Por- 
tugal  atravessa  hoje  um  dos  momentos  mais 
sombrios  e  amarsros  da  sua  historia. 


Extracto  da  couferencia  prouuuciada  na  Liga  liberal 
■■.•in  2G  de  dezembro  de  1894,  seguudo  O  Século. 


114  Da  monarchia  para  a  republica 


Com  uma  população  insufficiente,  e  quasi 
na  sua  totalidade  inculta,  temos  por  explo- 
rar grande  parte  das  nossas  riquezas  nati- 
vas. Produzimos  muito  pouco.  E  já  não  é 
um  excesso  de  força  o  que  nos  leva  por 
esses  mares  para  dilatar  os  âmbitos  da 
pátria  ;  o  que  hoje  impelle  os  nossos  com- 
patriotas a  emigrarem,  é  a  miséria. 

São  males  que  vêem  de  longe.  Não  se 
pode  dar  á  luz  da  civilização  um  mundo 
novo  sem  perda  de  muito  sangue,  sem 
soffrer  muitos  sacrifícios.  A  nossa  popula- 
ção no  século  xvi  pouco  excederia  um 
milhão  de  habitantes  no  continente.  Está- 
vamos exhaustos.  Mas  a  nossa  decadência 
não  pode  invocar  só  motivos  gloriosos.  É 
o  resultado  também  da  accumulação  de  erros 
e  culpas  de  que  todos  temos  responsabili- 
dade, mas   sobretudo   os  poderes  jDublicos. 

Ia  referir-se  especialmente  aos  últimos 
tempos. 

Estamos  no  século  das  luzes,  da  sciencia 
e  do  trabalho,  e  comtudo  nunca  a  politica 
portuguesa  foi  mais  fementida  e  estéril. 

Mal  exercemos  os  nossos  direitos  políti- 
cos. O  suíFragio  é  quasi  um  trafico,  uma 
burla.     A    liberdade "  eleitoral    é   como    em 


Guerra  ao  banditismo  politico!  115 

certas  paragens  d' Africa  o  negocio  de 
escravos  que  se  acoberta  com  o  euphe- 
mismo  de  resgate. 

Sobre  esta  base  de  torpezas  não  é  possí- 
vel levantar  um  edifício  de  austera  auctori- 
dade.  Legislatura  e  administração  não  são 
muitas  vezes  senão  a  organização  da  burla 
eleitoral  para  a  exploração  da  maioria  tra- 
balhadora por  uma  minoria  parasitaria. 

E'  este  o  regimen  sob  o  qual  temos  vivido, 
ou,  antes,  sob  o  qual  vamos  morrendo. 

E,  j^ara  nos  fazer  perder  a  consciência  do 
aniquilamento,  esta  politica  traz  a  seu  soldo 
uma  legião  de  falsos  apóstolos,  que  todos 
os  dias  espalham  aos  quatro  ventos  a  fraude 
intellectual. 

Ha  ainda  algum  visionário  que  imagine 
que  existe  dentro  deste  regimen,  como  prin- 
cipio de  vida,  a  luta  dos  partidos  ?  E'  uma 
illusão  que  se  deve  desvanecer.  Os  parti- 
dos conluiaram-se  entre  si. 

São  conhecidos  os  acordos  eleitoraes,  em 
virtude  dos  quaes  os  partidos  conseguiram 
mais  do  que  falsificar  a  eleição  :  supprimi- 
ram  o  eleitor. 

Nas  camarás  as  difíiculdades  de  combater 
o   governo  provêem  muitas  vezes  das  pro- 


116  Da  monarchia  para  a  republica 

prias  opposições,  por  causa  dos  acordos 
parlamentares.  Como  exemplo,  lembra  a 
celeuma  furiosa  que  se  levantou  ha  um 
anno  contra  a  nomeação  dum  certo  minis- 
tro, e  pergunta  quem  foi,  em  cortes,  com 
excepção  do  digno  par  Yaz  Preto,  que 
increpou  o  governo  por  essa  nomeação. 
Já  estavam  perfeitamente  entendidos  com 
o  mais  insinuante  dos  ministros. 

Os  partidos  chegaram  ao  cumulo  de 
repartir  entre  si  equitativamente  o  mando 
governativo.  Hoje  ha  concelhos  e  distri- 
ctos  regeneradores  e  progressistas,  com 
auctoridades  da  confiança  duns  e  dou- 
tros, e  não  ha  galoj^^im  que  não  tenha  um 
quinhão  na  partilha  do  poder. 

Para  o  acordo  ser  completo  só  falta 
regular  a  rotação  dos  partidos,  os  turnos 
ministeriaes.  E  não  está  isto  ainda  feito, 
porque  a  escolha  dos  ministros  não  depende 
da  vontade  dos  partidos,  é  uma  preroga- 
tiva  regia. 

Em  conclusão,  o  sj-stema  que  nos  rege, 
tal  como  se  pratica,  é  uma  mystificação, 
razão  por  que  ninguém  se  importa  com  elle. 

Como  se  confundem  entre  si  ministério  e 
maioria,   se   o  ministério  pretende  assumir 


Guerra  ao  banditismo  politico!  117 


a  dictadura  no  intervallo  parlamentar,  o 
rei  e  o  paiz  consentem,  e  ninguém  estra- 
nha. Mais  ainda !  Como  entre  governo  e 
opposição  não  lia  discrepâncias,  caso  o 
governo  queira  adiar  as  eleições  das  cor- 
tes ou  a  sua  reunião,  ou  mesmo  encerrá-las 
antes  de  tempo,  podem  alguns  ingénuos 
appellar  para  o  paço  oi^  jDara  a  praça 
publica,  que  encontrarão  o  rei  e  o  paiz 
egualmente  frios.  Ninguém  combate  por 
apparencias  ! 

Mas  o  que  não  é  uma  ficção,  o  que  ó 
uma  terrível  realidade,  é  o  despotismo  das 
facções,  que,  lançando  atravez  de  todos  os 
partidos  os  seus  tentaculos  para  sugarem 
a  vida  do  paiz,  nos  empobrecem  e  aviltam. 

E'  contra  este  despostimo  que  nos  deve- 
mos levantar ! 

Terá  a  nação  forças  para  revindicar  os 
seus  direitos?  Ainda  que  houvesse  de  ser 
vencida,  deveria  empenhar  a  luta.  Mas 
entende  que  tem.  Essas  forças  são :  o  rei, 
o  paiz,  isto  é,  as  classes  trabalhadoras,  e 
os  homens  públicos  independentes. 

Deve-se  ter  confiança  no  rei,  porque  no 
meio  dessa  corrupção  de  acordos,  elle  é  a 
única  auctoridade  politica  que  por  emquanto 


118  Da  monarchia  para  a  republica 

soube  conservar-se  alheia  a  elles.  Podem 
discutir,  como  quizerem,  o  seu  procedi- 
mento, mas  ninguém  pôde  deixar  de  reco- 
nhecer a  sua  isenção.  Os  partidos  não 
poderam  supprimi-lo,  como  supprimiram  o 
eleitor.  E  não  se  faça  da  sua  virtude  uma 
culpa,  exigindo-lhe  a  responsabilidade  de 
tudo.  Elle  não  é.  nem  pode  ser,  como  pre- 
tendeu um  celebre  jornalista,  a  única  força 
constitucional. 

Podemos  confiar  na  energia  das  nossas 
classes  trabalhadoras  ?  Podemos  e  devemos. 
Ha  nada  mais  bello  e  animador  do  que  o 
espectáculo  que  tem  ofíerecido  o  paiz,  que, 
atravez  de  todas  as  crises,  conseguiu,  á 
custa  de  tantos  sacrifícios,  quasi  alcançar  o 
seu  equilíbrio  e  independência  económica  ? 
E  quem  attinge  a  sua  independência  eco- 
nómica, está  em  vésperas  de  attingir  a  sua 
maioridade  politica.  Para  signal  deste  re- 
nascimento politico  lembra  o  congresso 
agrícola  de  1888,  as  recentes  manifesta- 
ções do  corpo  commercial  e  industrial  de 
Lisboa  e  a  multiplicação  das  associações  de 
classe  nos  últimos  tempos.  As  classes  tra- 
balhadoras, organizando-se,  mostram  querer 
intervir  nos   negócios   do  paiz.     E  hão  de 


G^uerra  ao  banditismo  politico!  119 


ser  ellas  que  hão  de  vencer  difficuldades 
não  só  internas,  mas  também  externas, 
que  se  reputam  insuperáveis.  O  trabalho, 
a  producção  e  a  força  do  génio  expansivo 
do  nosso  povo  hão  de  conquistar,  com  os 
mercados  externos,  as  boas  relações  iníer- 
nacionaes. 

Pôde  a  nação,  finalmente,  contar  com 
uma  plêiade  de  homens  de  bem,  que  não 
sacrificarão  nunca  os  interesses  públicos  á 
veniaga  politica,  homens  estranhos  e  per- 
tencentes aos  partidos,  onde  alguns  se 
devem  vexar  de  não  fazer  mais  do  que 
uma  figura  decorativa. 

São  bastantes  estas  forças  para  a  nação 
vencer?  Divididas,  não.  Nem  o  paiz  deve 
entender  que  pode  dispensar-se  de  eleger 
os  seus  mais  puros  espíritos,  deixando  o 
encargo  de  os  descobrir  exclusivamente 
á  prerogativa  regia ;  nem  o  rei,  para  por 
sua  parte  os  escolher,  deve  esperar  inerte- 
mente  por  todas  as  indicações  dum  paiz 
que,  a  tão  duras  penas,  está  elaborando  a 
sua  educação  politica.  E  é  indispensável 
que  os  nossos  homens  públicos,  mais  capa- 
zes de  servir  a  nação,  não  pretendam  des- 
culpar-se    da    indifferença    ou    connivencia 


120  Da  monarcliia  pai-a  a  republica 

própria,  accusando  de  apathia  o  rei  e  o 
paiz.  Unam-se  todas  estas  forças  vivas, 
que  da  sua  união'  brotará  inelutavelmente 
a  nossa  regeneração  politica ! 

Qual  o  programma  desta  regeneração 
politica? 

Serão  precisas  reformas  constitucionaes 
para  assegurar  a  liberdade  e  a  auctoridade? 
O  que  primeiramente  é  preciso,  é  desoppri- 
mir  os  eleitores  do  feudalismo  politico,  e 
fazer  um  governo  de  força,  mas  de  força 
para  o  bem.  para  o  serviço  do  paiz  e  não 
para  o  aífrontar. 

Ha  necessidade  duma  lei  de  imcompati- 
bilidades  politicas?  A  verdadeira  incompa- 
tibilidade é  a  do  homem  de  bem  com  os 
corruptos.  Que  importa  afastar  um  cor- 
rupto do  jDarlamento,  se  elle  puder  impor 
alguém  que  lá  o  represente  ? 

E'  precisa  uma  lei  de  responsabilidade 
ministerial?  O  que,  antes  de  mais  nada,  se 
torna  indispensável,  é  que  todos  os  minis- 
tros tenham  responsabilidade  moral.  Esses 
saberão  sempre  assumir  a  responsabilidade 
politica  dos  seus  actos  governativos. 

São  precisas  reformas  económicas?  Sim! 
Mas  o  que  ó  necessário,  sobretudo,  é  repartir 


Guerra  ao  banditismo  politico!  121 


equitativamente  o  imposto,  desaggravando 
as  classes  desherdadas,  e  applicá-lo  escru- 
pulosamente ao  pagamento  das  nossas  divi- 
das e  aos  serviços  de  genuino  fomento  na- 
cional. O  pagamento  das  nossas  dividas  é 
um  ponto  capital.  Que  imjíorta  multiplicar 
as  vias  de  communicação  e  até  mesmo  in- 
struir-nos,  endividando-nos  além  de  todos  os 
nossos  recursos  ?  E'  simplesmente  aperce- 
bermo-nos  para  melhor  servirmos  os  nossos 
credores.  E  ó  necessário  fazer  uma  politica 
de  interesses,  mas  de  interesses  geraes  e  não 
de  quaesquer  individualidades  poderosas, 
uma  politica  que  leve  um  raio  de  alegria 
ao  casal  dos  trabalhadores,  emancipando 
da  rotina  o  filho  ]Dor  meio  da  instrucção, 
fixando  no  lar  domestico  a  mulher  pela 
protecção  ás  industrias  caseiras,  e  assegu- 
rando o  futuro  da  familia  contra  os  azares 
da  invalidez,  da  decrepitude  ou  da  morte 
do  seu  chefe. 

Devemos,  em  summa,  fazer  uma  politica 
patriótica,  moral,  que  levante  a  consciência 
publica,  e  faça  passar  pelas  almas  uma 
corrente  de  fé  e  sympathia. 

Que  divisões  nos  podem  impedir  de  realizar 
esta  politica?     Não  somos  todos  conserva- 


122  Da  monarchia  para  a  republica 


dores  e  progressistas  a  um  temj)o,  egual- 
mente  amantes  da  ordem  e  do  progresso? 
Não  deveremos  ser  todos  socialistas,  no 
sentido  elevado  e  humano  da  palavra?  Não 
é  o  socialismo  a  politica  do"  coração,  que  a 
mulher  portuguesa  nos  está  exemplificando, 
distribuindo  a  sopa  económica  aos  pobres 
trabalhadores  e  instituindo  dispensários  para 
o  tratamento  de  seus  filhos?  Nenhuma 
crença,  nenhum  ideal  nos  di^áda.  Unamo- 
nos  todos,  e  seja  o  nosso  único  grito  de 
ódio  :    Guerra  ao  banditismo  politico  ! 


o  fomento  vitícola 


Senhor  Presidente!  * 

Ainda  que  não  fosse  representante  de  algu- 
mas corporações  que  se  lembraram  do  meu 
nome,  eu  não  faltaria  neste  logar.  A  Real 
associação  central  da  agricultura  portu- 
guesa projectou  este  congresso,  quando  eu 
tinha  a  honra  de  ser  ministro  das  obras 
publicas,  commercio  e  industria,  e  ella  sabe 
perfeitamente  o  acolhimento  cordial  que  lhe 
fiz  (Apoiados).  Por  isso  eu  não  podia  deixar 
de  vir  aqui  significar  a  v.  ex.^,  como  repre- 
sentante da  Real  associação,  as  minhas 
congratulaçõs  pelo  êxito  feliz  e  completo 
de  tão  patriótico  projecto. 


*  Discurso    proferido   no  Congresso  vitícola  nacional 
era  fevereiro  de   1895. 


124  Da  monarchia  para  a  republica 

A  questão  dos  vinlios  é,  sem  duvida 
alguma,  a  nossa  principal  questão  econó- 
mica (Apoiados).  Não  temos  outro  elemento 
comparável  de  riqueza.  E'  o  vinho  o  nosso 
principal  artigo  de  exportação  (Apoiados);  e 
precisamos  de  pensar  não  só  em  que  os  ter- 
renos que  já  destinamos  á  cultura  da  vinha, 
promettem  ainda  uma  producção  maior  do 
que  a  actual,  mas  também  nesses  largos 
tractos  de  terreno  que  desgraçadamente 
ainda  hoje  se  acham  incultos  no  nosso  paiz 
(Apoiados).  A  esses  terrenos  é  da  maior  con- 
veniência levar  a  cultura  da  vinha.  Todos 
sabem,  e  esta  assembléa  especialmente,  que 
não  ha  cultura  mais  colonizadora  (Apoiados). 

A  necessidade  colonizadora  tem  sido 
reconhecida  ha  muitos  annos  entre  nós ;  e 
eu  tentei  satisfazê-la  pelos  meios  que  se  me 
afiguraram  mais  práticos.  Pôde  dizer-se  que 
a  colonização  official  se  achava  interrom- 
pida desde  o  tempo  das  nossas  navegações 
e  conquistas  até  ao  decreto  que  publiquei, 
sendo  ministro  das  obras  publicas.  Por 
esse  decreto  quiz  que  o  Estado  desse  o 
exemplo  colonizador.  Infelizmente  até  hoje 
ainda  se  não  fez  sequer  o  arrolamento  das 
propriedades  na  posse   do  Estado   que   eu 


o  fomento  vitícola  125 


desejava  que  fossem  acoureladas  para  cen- 
tros colonizadores ;  nem  ao  menos  foi  ainda 
convocada  a  commissão  colonizadora  que 
encarreguei  de  proceder  a  esses  trabalHos, 
e  que  era  constituida  pelos  srs.  visconde 
de  Chancelleiros,  José  Maria  dos  Santos, 
Sertório  do  Monte  Pereira  e  António  Isi- 
doro de  Sousa. 

E'  pois  urgente,  não  só  em  face  da  nossa 
actual  producção,  mas  na  previsão  do  muito 
que  devemos  esperar  da  viticultura  portu- 
guesa, que  se  cuide  com  todo  o  interesse 
da  collocação  dos  nossos  vinhos  (Apoiados). 

Devemos  pensar,  antes  de  tudo,  no  pri- 
meiro mercado,  que  é  o  nosso  próprio  paiz 
(Apoiados  ) . 

Evidentemente,  pelo  incremento  das  in- 
dustrias, e  portanto  por  um  progresso  na 
economia  nacional,  o  nosso  paiz  deverá  ser 
um  consumidor  maior  do  que  é  actualmente. 
Além  de  que  o  paiz  não  se  restringe  ao 
continente  e  ilhas  adjacentes,  a  pátria  por- 
tuguesa estende-se  até  ás  colónias ;  e,  se 
devemos  contar  com  as  colónias  para  a 
producção  dos  géneros  agricolas,  inclusi- 
vamente o  trigo,  que  tanto  nos  falta,  deve- 
mos  contar  com  ellas  também  para  nosso 


126  Da  nionarchia  para  a  republica 


mercado  de  consumo,  especialmente  para 
mercado  de  vinhos  (Apoiados).  Por  mais 
que  se  cerceiem  os  nossos  dominios,  que 
ainda  são  grandes,  apesar  do  muiix)  que  a 
voracidade  estrangeira  tem  arrancado  á 
nossa  fraqueza,  a  verdade  é  que  não  deve- 
mos deixar  de  pensar  na  exportação  dos 
nossos  vinhos  para  as  nossas  colónias 
(AjjoiaãosJ. 

Como  assegurar,  como  desenvolver  a 
exportação  dos  nossos  vinhos  para  fora  do 
paiz  ?    Eis  logo  depois  a  outra  questão. 

Não  só  os  mercados  para  vinhos,  mas  os 
mercados,  em  geral,  jDodem  dividir-se  em 
mercados  de  producção,  como  são  os  gran- 
des centros  novos,  de  trabalhadores,  e  em 
mercados  de  consumo,  que  são  sobretudo 
as  nações  ricas,  que  tèem  já  classes  com 
riqueza  bastante  para  se  poderem  dar  gos- 
tos mesmo  requintados.  D'ahi  vem  que  os 
mercados  se  dividem  naturalmente,  uns  para 
os  vinhos  de  pasto  communs,  e  outros,  que 
são  as  nações  mais  ricas,  mais  poderosas, 
não  só  para  vinhos  de  ])asto  communs,  mas 
ainda  para  vinhos  generosos. 

Os  nossos  mercados  são,  para  os  vinhos 
communs,  princiíoalmente  o  Brazil,  e,  para 


o  fomento  viticola  127 


OS  vinhos  generosos,  principalmente  a  In- 
glaterra ;  o  que  está  rigorosamente  dentro 
da  classificação  que  acabo  de  indicar  á 
assembléa.  Não  nos  pôde  ser  muito  difficil 
fortalecer-nos  nestes  dois  mercados.  Para 
nos  assegurar  o  mercado  inglês  temos  a 
primazia  dos  nossos  vinhos ;  e  para  forne- 
cermos o  mercado  do  Brazil  temos  do 
nosso  lado  o  patriotismo  dos  portugueses 
que  ali  estão. 

Mas,  sr.  presidente,  não  devemos  tratar 
só  de  fortalecer-nos  em  mercados  já  con- 
quistados ;  devemos  fazer  por  levar  os 
nossos  vinhos  de  pasto  a  todos  os  centros 
de  população  portuguesa  espalhados  j)elo 
mundo,  e  por  levar  os  nossos  vinhos  gene- 
rosos á  Allemanha  e  á  Rússia  e,  na  Ame- 
rica, aos  Estados  Unidos  do  Norte,  e,  atrás 
dos  vinhos  generosos,  que  são  os  introdu- 
ctores  de  todas  as  nossas  mercadorias,  levar 
também  os  vinhos  de  pasto. 

Quaes  os  meios  para  realizar  este  deside- 
ratum  ? 

Para  conhecer  esses  meios,  sr.  presidente, 
é  indispensável  conhecer  quem  são  os  nos- 
sos competidores.  Não  os  temos  para  os 
vinhos  generosos,  Porto  e  Madeira.     Para 


128  Da  monai'chia  para  a  republica 


os  vinhos  de  pasto  temos  duas  ordens  de 
competidores,  temos  os  que  produzem 
muito  e  temos  os  que  produzem  bem. 
Os  nossos  competidores  são,  não  falando 
senão  dos  principaes,  quanto  á  perfeição, 
a  França,  quanto  á  abundância,  a  Espanha, 
e  também,  pela  abundância  da  colheita  e 
pelo  aperfeiçoamento  do  fabrico,  a  Itália. 
Todos  sabem  o  que  a  Espanha  tem  feito 
para  a  conquista  de  novos  mercados.  Ainda 
ha  pouco,  o  sr.  Moret,  quando  ministro, 
parecia  estar  tão  seguro  da  conquista  do 
mercado  do  Brazil,  que  se  expressava  em 
termos,  a  meu  ver,  de  esperança  desmedida 
em  uma  circular  dirigida  ás  camarás  de 
commercio  espanholas.  Mas,  se  os  nossos 
competidores  são  estes,  se  temos  competi- 
dores pela  abundância  e  pela  perfeição,  os 
meios  de  que  devemos  usar  para  a  luta. 
não  são  senão  produzir,  sob  o  ponto  de 
vista  commercial,  proporcionalmente  mais 
do  que  a  Espanha  e  tão  bem  como  as 
nações  que  melhor  produzem. 

Achando-me  no  seio  deste  congresso, 
devo  signiíicar-lhe  todo  o  meu  respeito, 
toda  a  minha  veneração  pelos  esforços  que 
a  iniciativa  particular  tem  envidado  neste 


o  fomeuto  vitícola  129 


sentido,  tanto  para  haver  producção  mais 
intensa  como  para  haver  aperfeiçoamento 
no  fabrico  do  vinho.  Sobretudo,  sr.  presi- 
dente, a  luta  sustentada  pelos  viticultores 
portugueses  contra  os  successivos  flagellos 
da  vinha  é  verdadeiramente  admirável ! 
Nesta  segunda  metade  do  século  têem-se 
succedido  os  flagellos  tão  de  perto,  que  a 
cada  um  que  sobrevem,  parece  que  a  viti- 
cultura portuguesa  vai  succumbir ;  e  ella 
tem-se  sempre  levantado,  tem  subido  até 
á  altura  que  demonstra  este  congresso  !*" 
(Vozes:  —  Muito  bem). 

Isto  pelo  que  toca  ao  ponto  de  vista,  a 
que  chamarei  naturalista  ou  industrial.  Mas 
ainda  ha  o  ponto  de  vista  social ;  quero 
dizer,  a  agricultura,  como  qualquer  indus- 
tria, precisa  de  se  associar,  e  nestes  últimos 
tempos  os  comícios  realizados  em  defeza 
do  trigo  e  em  defesa  do  vinho  nacional 
provam  bem  o  espirito  de  camaradagem 
da  agricultura  portuguesa  (' Ajxnados ) . 

E  a  agricultura  portuguesa,  sr,  presidente, 
convenceu-se  de  que  para  o  seu  desenvolvi- 
mento precisava  sobretudo  de  se  instruir. 
São  notáveis  os  progressos  que  a  instrucção 
agrícola  tem  recebido.  Basta  visitar  algumas 


130  Da  nionarchia  para  a  republica 


propriedades,  que  são  verdadeiros  modelos 
em  qualquer  parte ;  basta  ver  a  profusão  de 
publicações  que  se  occupam  das  questões 
agrícolas,  especialmente  de  viticultura.  E 
nesta  campanha  pela  instrucção  agrícola 
cabe  incontestavelmente  uma  parte  nobre  e 
gloriosa  ao  Instituto  de  agronomia,  cujos 
professores  são  continuadores  digníssimos 
da  obra  encetada  por  Ferreira  Lapa  e  Sil- 
vestre Bernardo  de  Lima  (Vozes:  —  Muito 
bem). 

Sr.  presidente,  durante  a  minha  gerência 
ministerial,  entendi  que  devia  acompanhar 
este  movimento  para  fomentar  a  intensi- 
dade da  producção,  e  fiz  pela  primeira  vez 
a  distribuição  de  adubos  chimicos  e  de 
preparados  cúpricos  garantidos.  Seguindo 
o  pensamento  do  meu  illustre  antecessor,  o 
sr.  visconde  de  Chancelleiros,  eu  pela  pri- 
meira vez  pude  adquirir  plantas  exclusiva- 
mente dentro  do  paiz  para  a  renovação  dos 
nossos  vinhedos  ;  e  accrescentei  o  numero 
de  viveiros  officiaes,  ao  norte  e  ao  sul  do 
paiz. 

Para  fomentar  o  aperfeiçoamento  do 
fabrico,  tendo  visto  os  resultados  obtidos 
pela  Companliia  vinícola  do  norte  do  paiz. 


o  fomento  vitícola  131 


resultados  realmente  credores  de  todo  o 
applauso,  entendi  que  devia,  ao  sul,  subsi- 
diar uma  outra  companhia,  também  credora 
de  todas  as  sjmpathias,  a  União  vinicola  e 
oleicola  de  Vianna  do  Alemtejo,  para  ella 
poder  levar  a  effeito  a  construcção  de  um 
lagar  e  adega  sociaes. 

Egualmente  dei  a  mão  ao  movimento 
associativo,  e  apoiei  no  parlamento  e  no 
meu  ministério  a  proposta  para  a  formação 
de  sj^ndicatos  agricolas,  apresentada  jdcIos 
srs.  deputados  Alfredo  Barjona  de  Freitas 
e  Diniz  Moreira  da  Motta.  Estimo  deveras 
ter  ensejo  de  prestar  homenagem,  deante 
dum,  a  ambos  esses  deputados,  que  foram 
os  primeiros  a  exemplificar  a  importância 
do  principio  associativo,  organizando  um 
delles  um  syndicato  no  continente  e  o 
outro  um  syndicato  nas  ilhas. 

E,  como  a  grande  mola  e  a  instrucção, 
eu,  de  mais  a  mais  na  minha  antiga  e  nunca 
esquecida  qualidade  de  professor,  procurei 
impulsar  o  ensino  agrícola,  reformando  as 
escholas  de  viticultura,  no  sentido  de  as 
tomar  verdadeiramente  práticas  para  pre- 
pararem capatazes  vitícolas  e  mestres  de 
adegas,  e  dotando  o  Instituto  agrícola  com 


132  Da  monarchia  para  a  republica 


mais  tempo  lectivo  para  o  ensino  da  viti- 
cultura e  com  uma  quinta  annexa  para 
campo  de  experiências.  Mas,  —  como  o 
ensino  não  se  faz  unicamente  nas  escholas, 
e  o  ensino  não  é  só  para  os  adolescentes,  é 
também  para  os  adultos  — .  honrado  pela 
collaboração  dos  srs.  Jayme  Batalha  Eeis  e 
Cincinato  da  Costa,  iniciei  no  paiz  confe- 
rencias para  a  vulgarização  dos  melhores 
processos  de  cultura  da  vinha  e  de  fabrico 
dos  nossos  vinhos,  bem  como  das  prescri- 
pções  que  os  commerciantes  devam  seguir 
para  a  collocação  dos  \ànhos  no  estrangeiro. 
E.  sr.  presidente,  além  do  ensino  dado  na 
eschola,  além  do  ensino  dado  pela  palavra 
oral,  pude  fundar  uma  bibliotheca  agricola, 
destinada  a  espalhar  pelo  paiz  as  melhores 
publicações  agricolas,  e  portanto  também 
sobre  viticultura. 

Infelizmente,  depois  que  saí  do  ministé- 
rio, não  sei  que  estas  minhas  iniciativas, 
que  não  eram  mais  do  que  um  impulso  com 
que  cordialmente  procurava  cooperar  para 
o  desenvolvimento  do  paiz,  não  sei,  digo, 
qua  estas  minhas  iniciativas  proseguissem. 
Já  no  ultimo  anno  não  me  consta  que  se 
distribuissem  adubos  chimicos  e  preparados 


o  fomento  vitícola  13c 


cúpricos  ;  parece  que  se  desfez  por  fim  o 
arrendamento  que  eu  mandara  fazer  da 
quinta  annexa  ao  Instituto  agricola :  e,  que 
eu  saiba,  ainda  ninguém  poude  aproveitar- 
se  da  bibliotheca  de  que  acabei  de  falar,  a 
bibliotlieca  agricola !  Pois  estes  são  os 
meios  pelos  quaes  nós  lograríamos  ir-nos 
liabilitando,  cada  vez  mais,  a  arcar  com  os 
nossos  competidores. 

Assim  habilitados,  a  nossa  empreza  reduz- 
se  á  propaganda  dos  nossos  vinhos.  Ora 
fazer  a  projDaganda  dos  nossos  vinhos  não  é 
senão  instruir  o  estrangeiro  sobre  as  distin- 
otas  qualidades  que  caracterizam  os  vinhos 
23ortuguêses. 

A  iniciativa  particular  muito  tem  feito  já 
para  a  propaganda  dos  vinhos  portugueses 
no  estrangeiro.  Ainda  ultimamente  é  para 
citar  com  louvor  a  iniciativa  da  Associação 
commercial  do  Porto,  que  foi  aos  Estados- 
TJnidos  expor  os  nossos  vinhos  no  certamen 
de  Chicago,  onde  elles  obtiveram  o  galar- 
dão merecido.-  A  imprensa  patrocinou  esta 
iniciativa,  e  o  Coimnercio  do  Porto,  órgão 
que  honra  a  imprensa  portuguesa,  fez  uma 
publicação  especial,  que  foi  largamente 
espalhada,  e  que  muito  concorreu  de  certo 


134  Da  inonarchia  para  a  republica 


para  o  conhecimento  dos  nossos  vinhos  na 
America. 

Eu,  sr.  presidente,  tinha  também  o  dever 
de  acomj)anhar  a  iniciativa  particular  na 
propaganda  dos  nossos  vinhos,  e  nesse  sen- 
tido pensei,  auxiliado  jDor  alguns  homens 
competentes,  em  fazer  a  jjropaganda  ao 
norte  e  ao  centro  da  Europa.  A  propa- 
ganda consistiria  na  organização  de  expo- 
sições e  de  laboratórios  junto  aos  nossos 
consulados,  e  em  conferencias  e  publica- 
ções que  despertassem  a  attenção  publica 
e  demonstrassem  e  puzessem  bem  em  relevo 
as  altas  qualidades  dos  jDroductos  das  nos- 
sas vinhas. 

Depois  de  mim,  pensou-se  doutro  modo  ; 
mas  parece-me  que  se  quiz  fazer  um  tour 
de  force,  tentando  quasi  o  impossivel.  Nós, 
como  já  tive  occasião  de  dizer,  devemos 
tentar  a  collocação  dos  nossos  vinhos  de 
pasto  nos  mercados  onde  os  vinhos  gene- 
rosos são  os  seus  naturaes  introductores, 
quero  dizer,  devemos  levar  os  nossos  vinhos 
de  jDasto  á  Inglaterra,  á  Allemanha  e  á 
Rússia.  Levá-los  á  America  do  sul,  ás 
republicas  espanholas,  parece-me  coisa  tão 
difficil,  coisa  tão  arriscada  quasi,  como  se 


o  fomento  vitícola  135 


pensássemos  em  levar  a  competência  á  pró- 
pria Espanha. 

Não  basta,  sr.  presidente,  fazer  a  propa- 
ganda dos  nossos  vinhos .  .  . 

Eu  vejo  que  já  passou  a  hora  e  não 
desejo  por  modo  algum  abusar  da  assembléa. 
Por  mais  que  procurasse  resumir-me,  não 
consegui  acabar.     (Vozes:  —  Fale,  fale). 

Agradeço  a  manifestação  da  assembléa. 

Não  basta,  sr.  presidente,  fazer  a  pro- 
paganda dos  nossos  vinhos,  não  basta  de- 
monstrar a  sua  valia,  as  suas  qualidades  ;  é 
indispensável  defendê-los  dos  nossos  com- 
petidores. E'  preciso  defendê-los  dentro  do 
paiz  e  fora  delle.  Estas  duas  questões,  a 
questão  da  defesa  dos  vinhos  dentro  do 
paiz  e  a  da  sua  defesa  fora  delle,  tèem  sido 
ultimamente  agitadas. 

Para  os  defender  dentro  do  paiz  temos 
um  meio,  que  é  o  imposto  de  importação. 

Como  V.  ex.^  sabe,  durante  a  minha  ge- 
rência, pretendeu-se  abaixar  o  direito  de 
importação  dos  vinhos  espanhoes.  Por 
todo  o  paiz  se  reclamou  contra  semelhante 
pretenção ;  e,  antes  mesmo  deste  movi- 
mento geral  da  opinião,  achando-me  em 
Santarém    com    o    professor    em    quem    ha 


13'5  Da  )i)onarchia  para  a  republica 


pouco  falei,  o  sr.  Cincinato  da  Costa,  eu 
declarava  categoricamente  que  não  seria 
com  a  minha  assignatura  que  se  franquea- 
ria a  entrada  dos  vinhos  espanhoes  em  Por- 
tugal. (Apoiados.  Vozes:  —  Muito  bem). 
E  porque  ? 

Os  argumentos  apresentados  em  favor  da 
reducção  do  imposto  de  importação  eram 
estes  :  jjrimeiro ...  (  O  sr.  Manoel  Pestana  : 
—  O  primeiro,  se  v.  ex.^  me  permitte.  é  que 
não  havia  lei  que  tal  auctorizasse.  —  )  Tem 
V.  ex.'*  razão.  Mas  o  governo  podia  levar  ás 
camarás  uma  proposta  de  lei  nesse  sentido. 
Não  a  levaria  eu.  e  não  a  levaria,  porque 
nenhum  dos  argumentos  adduzidos  me  pare- 
cia convincente.  (  O  sr.  Manoel  Pestana  :  — 
Apoiado).  Dizia-se  que  precizavamos  de 
assegurar  a  nossa  clientela  no  Brazil.  Mas 
a  primeira  condição  para  assegui-armos 
uma  clientela  é  não  nos  desacreditarmos 
(Apoiados).  Este  era  o  argumento  do  pre- 
sente. Falava-se  também  do  futuro,  e 
dizia-se  que  provavelmente  o  paladar  se 
deshabituaria  dos  nossos  vinhos  e  se  vol- 
taria para  os  vinhos  espanhoes.  E  então 
iriamos  pela  lotação  preparar  a  transição 
para  esse  futuro  ?  !  ( Apoiados J. 


o  fomento  viticola  137 


Depois,  e  era  este  para  mim  o  principal 
reparo,  ha\àa  o  governo  da  nossa  terra  de 
decretar  a  falsificação  dos  vinhos  portu- 
gueses, porque  outra  coisa  não  era  o  que 
se  pedia?    (Muitos  apoiados). 

O  exemplo  citado  da  França  não  colhe. 
(O  sr.  Manuel  Pestana  :  —  Apoiado  —  )  Xão 
queria  mesmo  que  o  imitássemos,  porque 
não  desejo  nunca  que  o  commercio  deixe 
de  proceder  de  boa  fé.  ( O  sr.  Manuel 
Pestana:  —  AjwiadoJ.  Mas,  em  summa,  a 
França  procurava  os  nossos  vinhos  para 
apresentar  um  producto  que  tem  uma  accei- 
tação  universal ;  e  nós  iamos  desfigurar  e 
comprometter  os  nossos  ! 

O  exemplo  também  citado  da  Espanha 
nos  últimos  tempos  não  jDrocede.  egual- 
mente.  A  Espanha  abriu  as  suas  portas, 
não  a  um  vinho  inferior  aos  seus,  mas  a 
um  vinho  francês  para  melhorar  o  seu  pro- 
ducto. Não  digo  que  façamos  o  mesmo, 
não  acho  bem  que  o  vamos  fazer.  Mas  era 
outra  coisa. 

E,  quando  afinal  devêssemos  importar  os 
vinhos  espanhoes,  era  pelo  menos  preciso 
sujeitá-los  a  um  regimen  semelhante  ao  dos 
trigos,  garantindo-se  um  preço  ao  vinicultor, 


138  Da  monarchia  para  a  republica 

da  mesma  forma  que  se  garante  ao  produ- 
ctor  do  trigo. 

Em  summa,  já  disse  o  bastante,  creio, 
para  justificar  perante  v.  ex.'"*  e  perante 
esta  assembléa  a  decisão  que  tomei  como 
ministro  das  obras  publicas. 

E,  já  que  falo  neste  assumpto,  preciso 
denunciar  á  assembléa  duas  maneiras  pelas 
quaes  até  certo  ponto  se  pode  sophismar  a 
decisão  que  tomei  contra  a  importação  dos 
vinhos  espanhoes. 

Um  dos  sophismas  é  ir  o  negociante 
português  a  Espanlia  fazer  lá  a  lotação. 
Para  este  não  lia  outro  remédio  senão  o 
patriotismo,  a  educação  moral.  Eu  confio 
no  patriotismo  da  nossa  gente  o  bastante 
para  crer  que  um  ou  outro  exemplo  não  se 
generalizará.  Sair  da  pátria  para  faltar 
aos  deveres  que  ha  para  com  ella,  é  jíroce- 
dimento  de  contrabandistas,  porque  a  legis- 
lação que  nos  rege,  não  se  restringe  ao 
nosso  território,  estende-se  a  todo  o  terri- 
tório onde  esteja  um  português. 

Outro  sophisma  de  que  se  pode  lançar 
mão,  é  o  abuso  da  liberdade  de  transito 
concedida  aos  vinhos  espanhoes.  Hoje  ha 
depósitos    alfandegários    dos    vinhos    espa- 


o  fomento  vitícola  139 


nhoes.  Nesses  depósitos  é  prudente  vigiar 
se  o  tratamento  que  se  faz  aos  vinhos  es- 
panhoes,  serve  para  que,  tendo  sido  impe- 
dida pela  lei  a  sua  livre  entrada,  ella  se 
esteja  dissimuladamente  effectuando. 

A  outra  questão,  a  da  defesa  dos  nossos 
vinhos  fora  do  paiz,  é  a  questão  dos  tra- 
tados, e  essa  não  me  competia  a  mim. 
Lamento  que  se  não  tenha  dado  nesse 
caminho  o  largo  passo  que  ao  governo 
competia  dar. 

Quando  a  Itália  vai  pelos  tratados  con- 
quistando mercados,  quando  a  Espanha 
não  só  tenta  esta  conquista,  mas  até  num 
acordo  provisório  com  a  Inglaterra  também 
já  caminha  abertamente  nesse  sentido,  a 
nossa  morosidade,  a  nossa  incúria  é  verda- 
deiramente lamentável  (Ap(jiados). 

Xós  precisamos  absolutamente  de  trata- 
dos !  Não  falo  agora  do  tratado  com  o 
Braail,  que  circumstancias  dolorosas  para 
o  nosso  coração  parecem  distanciar,  mas 
precisamos  de  garantir  tanto  quanto  pos- 
sível a  entrada  dos  nossos  productos  na 
Inglaten'a,  e  precisamos  de  tratados  com  a 
Allemanha  e  com  a  Eussia,  que  instam  da 
sua  parte  por  negociá-los  comnosco. 


140  Da  monarchia  para  a  repablica 

Sr.  presidente,  esta  é  a  competência  leal, 
e  é  assim  que  teremos  de  nos  defender  delia. 

A  competência  desleal  são  as  falsificações 
feitas  dentro  e  fora  do  paiz, 

O  que,  antes  de  mais  nada,  é  preciso,  é 
não  levar  por  toda  a  parte  a  convicção  de  que 
já  não  temos  senão  vinhos  falsificados.  Cum- 
pre-nos  tratar  este  assumpto  com  discreção, 
e  eu  infelizmente  não  a  tenho  visto.  Não  se 
leve  ao  estrangeiro  a  idéa  e  a  presumpção 
de  que  Portugal  já  não  tem  vinho  bastante 
para  o  seu  negocio  e  que  o  está  falsificando. 

Ha  falsificações  dentro  do  paiz  ?  Punam- 
se,  assim  como  todas  as  falsificações  dos 
géneros  alimentícios,  ou  quaesquer  outras. 

Não  é  o  governo  que  deve  fazer  a  fiscali- 
zação, porque  isso  é  uma  chimera.  Façam-na 
os  particulares !  Acho  indispensável  que 
em  cada  districto  haja  junto  do  agrónomo 
um  laboratório,  para  que  C[ualquer  individuo 
possa  fazer  a  fiscalização  por  si.  Esta  é  que 
é  a  verdadeira  fiscalização  efíicaz.  Concordo 
todavia  com  o  relatório  em  que  se  torna 
absolutamente  necessário  traçar  um  pro- 
cesso para  a  verificação  das  falsificações. 

Quanto  ás  falsificações  no  estrangeiro,  á 
venda  de  vinhos  estrangeiros,  e  principal- 


o  fomento  vitícola  141 


mente  de  vinhos  espanhoes,  com  o  nome 
de  vinho  português,  isso  está  sob  a  commi- 
nação  do  tratado  de  commercio  celebrado 
em  Madrid  em  1891,  que  eu  como  ministro 
tive  a  honra  de  levar  o  governo  a  ratificar. 
Do  que  precisamos,  portanto,  é  de  lançar 
mão  delle ;  e  não  sei  realmente  como  é  que 
o  não  temos  feito,  porque  este  convénio  foi 
sem  duvida  alguma  a  melhor  arma  defensiva 
que  os  representantes  portugueses,  um  dos 
quaes  já  fallecido.  Oliveira  Martins,  podiam 
arrancar  ao  congresso  madrileno.  Parece 
que  em  frente  da  Esj)anha,  que  está  ex- 
portando para  o  Brazil  vinhos  seus  comi  o 
nome  de  portugueses,  nós  cruzamos  os 
braços,  como  se  taes  vinhos  não  fossem 
lá  fazer  competência  comnosco.  O  governo 
espanhol,  em  documentos  que  tiveram 
toda  a  publicidade,  referiu-se  a  essas  falsi- 
ficações, e  nós  pelos  nossos  agentes  não 
procurámos  saber  o  que  havia  a  tal  res- 
peito para  se  applicarem  as  disposições  do 
convénio  ! 

Não  desejo  alongar-me  mais.  Esta  magna 
questão  dos  vinhos  é  extremamente  compli- 
cada ;   é  também   a  de  todas  as  industrias 


142  Da  nionarchia  para  a  republica 

subsidiarias,  é  a  questão  do  álcool,  a  questão 
do  vasilhame  e  a  questão  da  navegação. 
E'  mister  que  os  governos  se  convençam  da 
necessidade  de  proteger  estas  industrias, 
que  são  subsidiarias  da  industria  dos 
vinhos ;  mas  que  haja  todo  o  critério  no 
modo  de  as  proteger,  porque  não  é  pelos 
meios  que  ás  vezes  se  tèem  proposto  no 
parlamento,  que  essa  protecção  se  pôde 
tornar  benéfica. 

Finalmente  a  questão  dos  vinhos,  como 
todos  os  problemas  económicos,  prende-se 
intimamente  com  a  nossa  situação  finan- 
ceira ;  e  nós  não  poderemos  resolver  nem 
esta,  nem  nenhuma  outra  questão  económica, 
emquanto  pesar  o  ónus  incomportável  da 
tributação  sobre  a  economia  publica.  Com 
um  imposto  predial  tão  desegual,  que  tanto 
o^Dprime  a  maioria  dos  agricultores,  com  as 
múltiplas  alcavallas  do  imposto  industrial, 
6  ainda  jDor  cima  com  o  imposto  de  con- 
sumo sobre  o  negociante,  repercutindo-se 
em  todos  os  productores,  não  é  possível. 
Nem  reciprocamente  as  finanças  melhoram 
pelo  excessivo  aggravamento  das  taxas 
fiscaes.  E'  por  isso  que  eu  entendo  que  do 
seio   deste   congresso   deve   sair  um  brado 


o  fomento  vitícola  143 


bem  alto  ao  nosso  governo,  de  que  só  ha 
um  modo  de  vencer  as  difficuldades  finan- 
ceiras, e  esse  modo  é  administrar  bem ! 

(Muitos  apoiados.     O  orador  foi  applaudido 
com  uma.  salva,  de  palmas). 


José  Elias  Garcia 


Meus  Senhores  ! 

Vindo  por  aqui  **  em  j^iecloso  cortejo, 
nós  fazemos  hoje  o  caminho  que  em  vida 
seguiu  José  EHas  Garcia. 

Professor,  muito  naturalmente  ambicio- 
nou servir  na  sua  carreira  publica  a  pro- 
fissão que  tão  nobremente  exercia.  Mas 
nelle  havia  mais  do  que  a  bem  legitima 
paixão  pelo  seu  mister ;  mais  do  qae  o 
profissional,  havia  o  patriota,  animado  do 
santo  ardor  de  cooperar  para  a  felicidade 
da  nação,  para  a  sua  ordem  e  para  o  seu 
progresso,    pelo    fecundo    desinvolvimento 


*  Allocução    proferida   na  commemoração   civica  de 
21  de  abril  de  1895  celebrada  pela  população  da  capital. 
**  Por  deante  da  Escbola  primaria  central  n.°  1,  de 
Lisboa. 

10 


146  Da  monarchia  para  a  republica 

dos  serviços  do  ensino.  Elle  pertencia  á 
plêiade  generosa  dos  politicos  educadores, 
que  consideram  a  sua  missão  como  um 
magistério  e  põem  todo  o  empenho  em 
j)roteger  e  conduzir  os  humildes  e  os  fracos 
para  a  sua  emancipação.  Na  tribuna,  como 
na  cathedra,  sorria-lhe  o  mesmo  ideal  de 
liberdade  e  de  amor. 

Eu,  que  o  vi  de  jDerto  sair  á  estacada^ 
que  fui  por  vezes  seu  companheiro  nas  lutas 
parlamentares,  j)Osso  dar  testemunho  da 
grandeza  do  seu  animo.  Ninguém  entre  nós 
exemplificou  melhor  a  bondade  e  a  tolerân- 
cia, que  são  as  supremas  virtudes  de  todo 
o  homem,  mas  principalmente  do  politico  e 
do  mestre.  Rico  de  talentos  nativos  e  levan- 
tado pela  confiança  dos  seus  concidadãos 
aos  postos  proeminentes,  elle  usou  sempre 
da  influencia  e  dos  poderes  da  sua  jerarchia, 
não  com  o  soberbo  desdém  dos  orgulhosos, 
que  tudo  lhes  julgam  devido  e  todos  pre- 
tendem acorrentar  ao  carro  dos  seus  trium- 
phos,  mas  com  a  humana  cordialidade  de 
quem  estremece  de  syraj)athia  ao  sofíi^i- 
mento  dos  outros  e  se  julga  obrigado  a 
acudir-lhes  na  medida  precisamente  dos  bens 
de  que  a  natureza,  a  fortuna  e  o  valor  do 


José  Elias  Garcia  147 


próprio  esforço  o  investiram.  Militar  aus- 
tero, a  vida  foi  sempre  para  elle  nm  campo 
aberto  de  acção  civica. 

Da  sua  bondade  e  tolerância  me  lembro 
por  mim.  Unidos  no  mesmo  culto  da  pátria 
e  nos  mesmos  ternos  sentimentos  de  aífecto 
pela  infância  e  pelo  povo,  divergíamos  porém 
na  nossa  concepção  das  formas  de  governo, 
cujos  progressos  elle  capitulava  de  indispen- 
sáveis á  marcha  da  administração  publica, 
emquanto  que  eu  os  esperava  dos  próprios 
progressos  da  nossa  regeneração  adminis- 
trativa ;  e  todavia,  apesar  desta  divergência, 
que  tanto  irrita  os  espíritos  facciosos,  foi 
com  o  concurso  que  elle  espontaneamente 
solicitou  de  professores  seus  correligioná- 
rios, que  eu  pela  primeira  vez  entrei  á 
Camará  dos  pares. 

Mas  não  fala  em  mim  agora  só  a  gratidão 
pessoal,  só  o  antigo  collega  e  o  amigo. 
Tenho  nesta  solemnidade  de  recordar  sobre- 
tudo o  forte  impulso  que  José  Elias  Garcia, 
o  primeiro  vereador  do  pelouro  da  instru- 
cção,  deu  ao  movimento  escholar  da  capital, 
impulso  d'onde  saiu  o  valioso  agrupamento 
de  beneméritos  trabalhadores  que  ahi  illus- 
tram  o  nosso  ensino  primário :  e  de  pedir  a 


148  Da  monarehia  para  a  republica 


Deus  que  a  inscripção  do  seu  nome  sobre 
esta  bella  eschola,  edificada  sob  a  sua  gerên- 
cia municipal,  defenda  como  um  sagrado 
palladio  a  causa  da  educação  popular  em 
todo  o  paiz. 

Meus  Senhores  !  Collocando  esta  lapide, 
que  vou  ter  a  honra  de  descerrar,  Lisboa 
rende  uma  homenagem  intima  de  saudade 
a  um  dos  mais  queridos  membros  da  sua 
familia.  Nenhum  também  ainda  lhe  quiz 
mais,  nenhum  cuidou  dos  seus  filhos  com 
mais  entranhavel  devoção! 


o  governo   do   engrandecimento 
do  poder  real  * 


Um  dos  maiores  snccessos  dos  últimos 
dias  foi  o  acolliimento  feito  ao  novo  minis- 
tro do  Brazil,  o  dr.  Assis  Brazil.  Membros 
duma  grande  commissão,  constituida  por 
delegados  da  imprensa  e  das  classes  indus- 
trial e  commercial  de  Lisboa,  foram  espe- 
rá-lo á  fronteira;  e  na  estação  do  Rocio,  á 
sua  chegada  a  esta  capital,  milhares  de 
pessoas  o  saudaram,  tendo  á  sua  frente  o 
presidente  da  municipalidade,  conde  de 
Restello.  Esta  cordial  manifestação  ao 
representante  brazileiro,  antes  delle  ser 
recebido  pelo  rei  e  desprendidamente  da 
acção  governamental,  poz  bem  em  eviden- 
cia o  divorcio  que  existe  entre  o  paiz  e  o 

*  Cartas  politicas  a  «  El  Liberal  »  de  Madrid.    1895. 


lõO  Da  monarchia  para  a  republica 


actual  gabinete ;  e  foi  ao  mesmo  tempo 
uma  demonstração  de  força  das  associações 
da  industria  e  do  commercio,  que  o  governo 
ha  mais  dum  anno  dissolveu,  sem  que  até 
lioje  lhes  permittisse  a  sua  legitima  recon- 
stituição. Egual  significado  teve  o  banquete 
offerecido  dias  depois  ao  dr.  Brazil.  Pare- 
ceu aos  seus  promotores  que  lhes  cumpria 
convidar  para  elle  o  ministro  dos  negócios 
estrangeiros,  e,  apesar  de  lhe  não  destina- 
rem a  j^residencia,  a  sua  simples  presença 
foi  bastante  para  se  retraírem  individuali- 
dades preponderantes,  enfraquecendo  a  im- 
portância da  festa.  Notou-se  precisamente 
que  ninguém  ousasse  levantar  um  brinde 
ao  membro  do  governo  presente.  Vê-se 
que  o  convite  que  lhe  fora  dirigido,  não 
jDassou  do  cumprimento  duma  mera  forma- 
lidade de  etiqueta,  dado  o- caracter  interna- 
cional do  banquete,  até  porque  nenhum  dos 
outros  ministros  foi  convidado,  nem  sequer 
o  chefe  do  gabinete,  que  de  certo  folgaria 
com  a  feliz  conjunctura  de  protestar  o  seu 
respeito,  tão  contestado,  ás  instituições 
vigentes  do  Brazil.  Assim  se  pronuncia 
inilludivelmente  o  sentimento  publico  con- 
tra a  oligarchia  dominante. 


o  governo  do  engrandecimento  do  poder  real        151 

Logo  depois  da  chegada  do  ministro  bra- 
sileiro, partia  para  o  Rio  de  Janeiro  o 
representante  de  Portugal,  o  illustre  homem 
de  lettras  e  estadista,  Thomaz  Ribeiro.  Fo- 
ram a  bordo  do  paquete  dizer-lhe  adeus 
grande  numero  dos  seus  amigos  e  admira- 
dores. A  sua  escolha,  feita  jDelo  seu  antigo 
collega,  o  actual  presidente  do  conselho, 
quando  ainda  geria  o  ministério  dos  negó- 
cios estrangeiros,  mereceu  os  applausos 
geraes,  e  todos  avaliam  que  só  um  forte 
motivo  patriótico  o  determinaria  a  acceitar 
uma  nomeação,  que,  embora  oíFerecida  por 
um  amigo  de  caracter  pessoal  respeitável, 
o  liga  a  uma  politica  ominosa.  Segundo 
consta,  no  Brazil  preparam-se  os  maiores 
festejos  para  o  receber,  e  tudo  faz  esperar 
que  a  sua  missão  na  nova  republica  ameri- 
cana tornará  ainda  mais  viva  a  symj)athia 
que  ali  votam  ao  seu  nome,  que  é  uma 
gloria  de  Portugal.  Portugueses  e  brazilei- 
ros  estamos  bem  precisados  de  que  os  nossos 
representantes  officiaes  saibam  estreitar  os 
antigos  vínculos  ethnicos  e  históricos  que 
unem  atravez  do  Atlântico  os  dois  ramos 
da  nossa  familia;  e  de  Portugal  ninguém 
mais  indicado  do  que  Thomaz  Ribeiro. 


152  Da  monarchia  para  a  republica 

Eis  quasi  os  únicos  factos  agradáveis  de 
que  lhes  posso  dar  conta.  Não  falo  da 
batalha  das  flores,  cujos  intuitos  benéficos 
a  não  puderam  salvar  do  seu  despropósito 
no  meio  das  preoccupações  que  pungem  o 
espirito  publico.  Por  isso  foi  duma  frieza 
profunda.  Nem  se  comprehende  como,  sem 
salões,  sem  hábitos  de  convivência  afíe- 
ctiva,  a  cidade  dum  momento  para  outro 
improvize  enthusiasmos  floridos  de  familia- 
ridade. 

Factos  tristes  é  que  infelizmente  não 
faltam . 

Referir-lhes-ei  primeiro  a  impressão  que 
deixou  a  ultima  recepção  de  gala  no  palá- 
cio da  Ajuda,  por  occasião  do  anniversario 
da  outorga  da  carta  constitucional.  Foi 
lúgubre !  Quasi  toda  a  opposição  progres- 
sista desertou,  entendendo  que,  depois  dos 
abusos  dictatoriaes  do  governo,  consentidos 
pela  coroa,  a  celebração  dos  foros  constitu- 
cionaes  era  uma  mj-stificação,  a  que  ella 
não  devia  associar-se.  Não  approvo  o  seu 
modo  de  ver,  porque  o  facto  de  o  governo 
desacatar  a  lei  fundamental  da  nação  não 
pode  servir  de  motivo  para  que  os  que  dese- 
jam vê-la  praticada  em  toda  a  sua  pureza, 


I 


o  gove]'no  do  engraudecimeuto  do  poder  real         153 

a  não  acatem  também,  prescindindo  de 
solemnizar  a  sua  promulgação ;  mas  o  caso 
é  que  a  opposição  conseguiu  deixar  em 
grande  isolamento  o  chefe  do  estado,  que, 
apenas  teve  ao  seu  lado,  além  das  pessoas 
que  lhe  são  particularmente  dedicadas  e 
das  poucas  que,  não  jDensando  como  o  par- 
tido progressista,  foram  naquelle  dia  reite- 
rar a  sua  adhesão  aos  principios  liberaes, 
um  certo  grupo  de  pessoas  sem  valor  ou 
peor  do  que  isso. 

É  ainda  mais  triste,  porque  tem  outro 
alcance,  a  resolução  que,  em  vista  das  elei- 
ções, acabam  de  tomar  o  directório  do  par- 
tido republicano  e  o  partido  progressista 
reunido  em  numerosos  conclaves  nos  salões 
do  seu  chefe,  o  sr.  Luciano  de  Castro. 
Resolveram  uns  e  outros  abster-se  da  pró- 
xima campanha  eleitoral,  com  a  allegação 
de  que  a  luta  não  é  airosamente  possivel 
sob  o  regimen  do  ultimo  processo, eleitoral 
decretado  pelo  governo.  Como  sabem,  o 
governo  supprimiu  a  representação  das 
minorias  e  as  candidaturas  de  accumula- 
ção,  identificando  os  circulos  politicos  com 
os  districtos  administrativos.  Não  me  pa- 
rece procedente  a  allegação.     A  centraliza- 


154  Da  monarchia  para  a  republica 


ção  eleitoral  devia  responder  ura  esforço 
maior  das  opposições  pela  sua  representa- 
ção parlamentar.  Em  que  outro  terreno  se 
propõem  lutar?  appellam  para  a  revolução 
tanto  os  republicanos  como  os  monarcbicos 
progressistas  ?  E  a  consequência  provável 
é  que  o  gabinete,  que  tem  feito  tudo  para 
se  livrar  do  parlamento,  aproveite  a  absten- 
ção para  o  declarar  inútil  sem  os  elementos 
opposicionistas,  continuando  os  desmandos 
desta  opprobriosa  dictadura  até  que  uma 
rajada  de  indignação  levante  contra  as  in- 
stituições a  onda  popular. 

Tudo  faz  prever  que  não  está  longe  esse 
dia,  que  será  de  justiça,  mas  também,  quem 
sabe  ?  de  vingança,  de  anarchia  e  de  dôr. 
A  corrupção  politica  cada  vez  mais  exaspera 
a  paciência  publica  com  os  escândalos  que 
successivamente  vêem  á  suppuração.  Agora 
é  o  da  companhia  do  Nyassa.  Os  seus  dire- 
ctores dividiram-se  e  trouxeram  a  lume  irre- 
gularidades que  reclamam  código  penal. 
E  comtudo  havia,  junto  á  companhia,  um 
commissario  régio  para  fiscalizar  a  sua 
administração.  Não  cumpriu  o  delegado 
do  governo  com  o  seu  dever,  ou  foi  o 
governo    quem   faltou   a   elle  ?     Parece   ter 


U  governo  do  engrandecimento  do  poder  real        155 

havido  o  propósito  de  envencilhar  esta 
questão.  Um  e  outro  defendem- se,  mas 
sem  se  atreverem  abertamente  a  accu- 
sar-se.  Por  um  lado,  o  ministro  da  mari- 
nha commenta  a  exoneração  concedida  ao 
commissario  com  a  declaração  lançada  no 
requerimento  de  que  ella  lhe  seria  imposta, 
mesmo  que  não  fosse  pedida,  e,  por  outro 
lado,  um  irmão  do  commissario,  que  era 
secretario  do  ministro  das  obras  publicas, 
a  despedir-se  deste  logar  e  do  grémio 
governamental ;  mas  nem  o  despacho  do 
ministro  da  marinha  é  transcripto  nos  seus 
termos  deprimentes  no  Diário  do  Governo, 
nem  consta  que  o  commissario  rompesse  as 
suas  relações  de  intimidade  com  os  minis- 
tros predominantes  da  situação.  Ao  mesmo 
tempo  o  órgão  officioso  do  governo  na 
imprensa,  alludindo  á  defesa  publicada 
pelo  commissario,  acha-a  muito  elucidativa. 
Tudo  isto  não  passa,  pois,  dum  processo 
de  confundir  responsabilidades,  que  nin- 
guém quer  jDara  si.  O  peor  é  que,  para 
ainda  aggravar  este  feio  negocio,  accresce 
a  circumstancia  de  que  certos  administra- 
dores da  companhia  fazem  parte  dos  digni- 
tários   da   corte    e    o   próprio    commissario 


156  Da  monarchia  para  a  republica 


régio  é  administrador  da  casa  real.  O  rei 
apressou-se  a  determinar  para  futuro  incom- 
pativeis  os  cargos  do  paço  com  o  serviço 
de  companhias  concessionarias  do  estado ; 
mas  em  que  posição  moral  ficam  os  perso- 
nagens que  provocaram  esta  determinação 
regia  ?  Para  bons  entendedores  ella  equi- 
valeria a  um  mandado  de  demissão. 

O  resultado  é  desauctorizar-se  o  cliefe  do 
estado,  apesar  de  todos  os  seus  esforços 
para  sobrenadar  acima  deste  cliarco  de  tor- 
pezas. E,  para  cúmulo,  um  dos  periódicos 
mais  estreitamente  ligados  com  os  politicos 
suspeitos  á  opinião,  dá-se,  ha  tempos,  ares 
de  ser  o  órgão  dos  sentimentos  pessoaes 
do  rei.    Tristissimo ! 


Continua  a  dictadura  com  todos  os  seus 
deploráveis  effeitos. 

Até  os  tribunaes  de  appellação  já  assen- 
taram a  doutrina  subserviente  de  que  o 
arbitrio  ministerial  é  lei,  emquanto  sobre 
elle  se  não  pronunciar  o  parlamento  ! 


o  governo  do  engrandecimento  do  poder  real    157 

Se  a  magistratura  está  assim,  imagine-se 
o  que  não  será  a  administração !  Reina 
absolutamente  o  favoritismo,  contra  o  qual 
muitas  vezes  nem  os  effendidos  nos  seus 
direitos  protestam,  porque  elle  deixa  sem- 
pre o  campo  aberto  a  todas  as  esperanças. 
A  anarchia  alastra-se  e  chega  até  ás  escho- 
las,  onde  os  alumnos  protegidos  alcançam 
todas  as  dispensas  de  estudo  e  se  vão 
assim  desmoralizando  e  perdendo. 

Em  volta  desta  politica  dissolvente,  pro- 
seguem  os  escândalos  como  o  do  Nyassa, 
que  dá  cada  vez  mais  que  scismar,  porque 
o  governo,  depois  de  haver  alardeado  no 
seu  órgão  officioso  que  j)ublicaria  o  parecer 
da  procuradoria  geral  da  coroa,  logo  que 
algum  dos  interessados  o  requeresse,  recon- 
siderou, não  deferindo  até  agora  ao  reque- 
rimento que  nesse  sentido  lhe  foi  apresen- 
tado por  um  dos  directores  da  companhia. 
Portanto  só  uma  coisa  é  clara  neste  negocio, 
e  é  o  propósito  que  ha  de  o  obscurecer  para 
a  apreciação  do  paiz. 

Entretanto  o  ministro  especialmente  en- 
carregado da  pasta  das  mystificações  archi- 
tecta  novas  peças  de  effeito  que  impressio- 
nem a  imaginação  popular.     O  ultimo  caso 


158  Da  monarchia  para  a  republica 


theatral,  posto   em   scena  para   distrair  do 
Nyassa  e  para  enterjiecer  o  publico  ingénuo, 
foi  o  duma  tentativa  de  chantage  de  que  elle 
ministro  se  apressou  a  fazer-se  victima.   Um 
jornalista  mal   reputado,  que  travara  rela- 
ções   com    elle,    procurou-o    amistosamente 
para  lhe  pedir  dinheiro  com  o  fim,  segundo 
declarava,    de    lhe    comprar    o    silencio    do 
auctor  de  certas  criticas  depreciativas.   Evi- 
dentemente nem  o  jornalista  pretendia  illu-  1 
dir  o   ministro,  nem   este   se   podia   deixar               ■ 
illudir.     O   pedido  não  passava  duma  for-               * 
mula  transparente  de  proposta  de  contracto. 
O  ministro,  em  vez  de  o  repellir,  planeou 
tirar  dahi  ^^artido  para  attestar  a  venalidade 
dos  seus  detractores.    Convidando  o  jorna-               t 
lista  para  sua   casa,  captivou  tanto   a  sua               5 
confiança,  que  o  induziu  a  passar-lhe  recibo               i 
da   quantia  pedida,   e   então,  com   attitude               | 
solemne,  descerrado  o  reposteiro,  atraz  do               : 
qual  se  escondia  o  juiz  de  instrucção,  entre- 
gou-o   tragicamente   á  auctoridade  policial, 
clamando:    sr.  juiz,   cumpra  o   seu  dever! 
O   caso   foi  logo   cantado   em   dithyrambos 
ao   nobre   ministro,   acompanhados   de   tre- 
mendas    objurgatorias     aos     seus    infames 
accusadores. 


o  governo  do  eugrandecimento  do  poder  real        lõ9 


O  peor  é  que  se  não  contou  com  a  sen- 
sibilidade moral  do  nosso  povo,  e  afinal  a 
consciência  publica  revoltou-se  indignada 
contra  a  tramóia  ministerial.  Pergunta-se 
se  outrem,  que  não  fosse  aquelle  ministro, 
inspiraria  tão  fácil  confiança  ao  solerte  chan- 
teur ;  pergunta-se  também  se  é  crime,  em 
troca  do  silencio  ou  do  favor  jornalistico, 
pedir  dinheiro,  que  saia  do  bolso  do  minis- 
tro, e  já  o  não  é  pedir-lho,  que  saia  dos 
cofres  da  nação,  e  se  não  será  ainda  maior 
crime  oíFerecer  o  próprio  ministro  os  em- 
pregos públicos,  que  valem  dinheiro,  aos 
periodistas  e  reporters  para  os  calar  ou 
bem  dispor.  E  não  se  admitte  nem  que 
um  ministro  da  coroa  converta  uma  tenta- 
tiva de  crime  em  facto  criminoso,  tornan- 
do-se  a  si  mesmo  cúmplice  do  auctor ;  nem 
que  tenha  alguém  o  direito  de  atraiçoar  seja 
quem  fôr,  ainda  que  seja  um  scelerado.  Ha 
processos  que  repugnam  ! 

Eis  os  commentarios  que  provocou  a  urdi- 
dura da  peça,  o  que  não  quer  dizer,  bem 
entendido,  que  todos  os  órgãos  da  opinião 
os  fizessem,  já  não  falando  nas  gazetas  mi- 
nisteriaes,  que  celebraram  com  clangor  de 
apotheose   o  seu  pequeno  Deus  ex-mackina. 


KiO  Da  monarchia  para  a  republica 

Dos  próprios  periódicos  chamados  opposi- 
cionistas  ou  imparciaes,  alguns  só  tiveram 
condemnações  para  o  chanteur,  sem  ver  nejle, 
além  do  criminoso,  o  miserável  joguete  do 
ministro,  e  nem  todos  os  outros  sustenta- 
ram por  muitos  dias  as  increpações  que  no 
primeiro  momento  lhes  arrancou  a  inquali- 
ficável representação. 

Não  confiando  inteiramente  na  eíficacia 
destes  lances  patheticos,  o  governo  recorre 
ás  violências  e  ao  apparato  bellico  para 
amedrontar  as  gentes. 

Foi  demittido  um  professor  do  collegio 
militar,  que,  no  ultimo  congresso  do  par- 
tido progressista,  orou  vivamente  contra 
os  desmandos  governamentaes.  E  mais  um 
dos  exemplos  que  o  ministério  entendeu 
necessário  dar  para  fingir  de  forte.  Come- 
çou por  demittir  o  secretario  da  Universi- 
dade de  Coimbra  e  por  se  encolerizar  contra 
vários  professores  do  ensino  superior  que 
se  encorporaram  em  commissões  de  propa- 
ganda republicana.  Simplesmente  as  suas 
fúrias  não  attingem  os  funccionarios  de 
maior  vulto  politico  que  ha  muito  vêem 
demonstrando  por  palavras  e  obras  o  seu 
republicanismo  ;  prudentemente  escolhe  para 


o  governo  do  engrandecimento  do  poder  real        161 


dar  os  seus  exemplos  pessoas  de  exigua 
influencia  publica. 

Ao  mesmo  tempo,  a  pretexto  de  conde- 
corar um  sargento  pela  diuturnidade  dos 
seus  bons  serviços,  fez-se  na  Avenida  uma 
parada  das  tropas  da  guarnição  de  Lisboa, 
com  o  rei  á  frente,  tendo  ao  seu  lado  o 
ministro  da  guerra,  e  escoltado  pela  caval- 
laria  da  guarda  municipal,  que  recebeu  o 
cognome  de  guarda  jDretoriana. 

Este  alarde  de  força  tem-se  repetido, 
sempre  que  uma  prepotência  ministerial 
ou  algum  escândalo  rebenta  e  alvoroça  a 
opinião.  Pretende-se  desfarte  conter-lhe 
os  assomos  de  revindicação.  Infelizmente 
o  chefe  do  estado  presta-se  a  estas  exliibi- 
ções  ;  e  até,  nessas  conjuncturas,  é  quando 
percorre  ufano  a  cidade  a  cavallo  ou  em 
carruagem  descoberta,  como  que  a  afPron- 
tar  o  sentimento  publico.  E  assim  o  vai 
indispondo  contra  si  e  alienando  sympathias 
ás  instituições  monarchicas  ! 

As  provas  não  rareiam.  Como  lhes  disse, 
o  novo  representante  do  Brazil  foi  acolhido 
na  capital  com  grandes  manifestações  de 
jubilo.  A  Lisboa  seguiu-se  o  Porto ;  e, 
mais  ainda  do  que  succedera  aqui,  onde 
11 


162  Da  monarchia  para  a  republica 


OS  republicanos  predominaram  nos  festejos, 
assenhoreando-se  da  sua  direcção,  as  festas 
celebradas  na  segunda  cidade  do  reino  tor- 
naram-se  numa  demonstração  dos  progressos 
das  idéas  republicanas.  Já  ninguém  pode 
suppor  que  a  provincia  ainda  considere  a 
palavra  republica  como  um  synonymo  de 
desordem  e  anarchia :  por  toda  a  parte,  o 
nome  do  presidente  da  republica  brazileira 
foi  saudado  afifectuo sãmente,  quasi  se  diria 
anciosamente.  E  não  ha  duvida  que  a 
presença  entre  nós  do  sympathico  ministro 
do  Brazil,  dessa  antiga  colónia  que  é  um 
prolongamento  de  Portugal,  serve  de  fami- 
liarizar cada  vez  mais  o  nosso  paiz  com  as 
instituições  ali  implantadas. 

Nos  festejos  do  Porto  deu-se  logo  uma 
nota  significativa,  e  foi  que  o  Centro  com- 
mercial  do  Porto,  que  tomara  a  iniciativa 
do  convite  ao  dr.  Assis  Brazil,  entendeu 
que,  2^ara  melhor  honrar  a  visita  do  repre- 
sentante brazileiro,  devia  solicitar  o  con- 
curso oratório  dum  dos  mais  prestigiosos 
caudilhos  republicanos,  deputado  por  Lis- 
boa nas  ultimas  eleições  *. 

'■*  O  sr.  Gomes  da  Silva. 


o  governo  do  engrandecimento  do  poder  real        163 


Merece  também  registar-se  que,  á  exce- 
pção do  presidente  da  camará  municipal 
de  Lisboa  e  do  vice  presiaeute  da  camará 
do  Porto,  que  são  membros  do  partido 
progressista,  este  agrupamento  politico  mal 
se  manifestou  cçrno  tal  nos  actos  de  con- 
gratulação pelo  reatamento  das  relações  com 
o  Brazil.  Parece-me  abstenção  demais ! 
■  A  politica  pessoal  do  gabinete  e  a  ab- 
stenção da  opposição  progressista  deixam 
innegavelmente  o  terreno  livre  para  os 
republicanos,  embora  elles  se  digam  tam- 
bém em  abstenção,  pois  que,  sem  vida 
publica  normal,  o  paiz  vai  acariciando  a 
idéa  de  a  procurar  numa  nova  ordem  de 
coisas. 

A  oligarchia,  porém,  que  se  apossou  do 
espirito  dos  actuaes  governantes,  acha  que 
tudo  lhe  corre  ás  mil  maravilhas,  e,  tendo 
o  ministério  na  mão,  inventa  uma  opposi- 
ção do  seu  gosto  para  assegurar  em  seu 
proveito  a  rotação  ministerial.  Agora  im- 
pera pela  fraqueza  do  sr.  Hintze  Ribeiro, 
amanhã  mandará  pela  complacência  do  sr. 
José  Dias  Ferreira.  O  iDresidente  do  con- 
selho da  precedente  situação  declarou  que 
não  se  abstém  da  j^roxima  (?)  luta  eleitoral, 


164  Da  monarchia  para  a  republica 


quando  elle  é  precisamente  o  vulto  politico 
que  parecia  não  necessitar  de  se  abster, 
visto  não  ter  neste  momento  no  paiz  quem 
o  acompanhe.  Mas  tudo  se  arranjará  para 
que  elle  não  faça  má  figura  de  opposição. 
Infelizmente  ainda  lia  gente  de  sobra  para 
estes  desdobramentos  ! 

Quando  terminarão  todas  as  sophistica- 
ções  ?  Bem  merecia  uma  politica  de  ver- 
dade e  justiça  uma  nação  capaz  dos  maiores 
sacrifícios,  como  os  que  ainda  agora  o  nosso 
soldado  está  fazendo  no  ultramar  para  hon- 
rar o  nome  português  e  ali  manter  a  nossa 
soberania.  E  graças  a  Deus  que  ao  menos 
esses  sacrifícios  são  compensados  pelos 
triumphos  de  que  acabamos  de  ter  noti- 
cia, alcançados  em  Lourenço  Marques  e 
Timor ! 


A  maçonaria  portuguesa 


Caros  e  respeitáveis  irmãos  !  * 

A  virtude  também  precisa  d'institmções 
que  a  celebrem,  que  a  propaguem  e  defen- 
dam, e  a  maçonaria  é  a  grande  ordem 
secular  onde  commungam  quantos,  sem 
distinção  de  crenças  religiosas  ou  d'opi- 
niões  politicas,  llie  rendem  um  culto  livre. 

Não  somos  nem  um  partido,  nem  uma 
seita. 

Respeitamos  todos  os  crentes  sinceros. 
O  sacrário  em  que  cada  um  abriga  o  seu 
ideal  d'amor  e  d'abnegação,  é  para  nós 
inviolável.  Queremos  realizar  o  bem  neste 
mundo,  sem  inhibir  alguém  de  crer  na 
existência    dum    mundo    melhor.     O   nosso 


*  Discui"so  no  acto  da  posse  do  malhete,  em  3  de  julho 
de  1895. 


1(JG  Da  niouarchia  para  a  republica 

templo  não  se  levanta  sobre  os  escombros 
de  nenhum  outro. 

Tão  pouco  nos  insurgimos  contra  os 
poderes  constituídos  pela  vontade  nacional. 
A  prova  de  que  a  nossa  missão  cabe  dentro 
das  formas  politicas  da  sociedade  moderna, 
é  que  á  sua  testa  se  acham  egualmente 
monarcliicos  e  republicanos.  Passou  o  pe- 
ríodo revolucionário  da  maçonaria.  Hoje 
a  autoridade  legal  tem-nos  de  seu  lado. 
Assim  como  ha  associações  que  compartem 
os  encargos  administrativos  do  estado,  im- 
porta que  também  haja  quem  o  coadjuve 
na  sua  suprema  funcção  fraterniz adora,  e 
nós,  com  a  nossa  organização  alti'uista, 
somos  como  uma  guarda  civica  de  voluntá- 
rios ao  seu  serviço. 

A  politica  e  a  religião  é  que  vêem  ao 
nosso  seio  receber  inspirações  generosas, 
porque  fundamentalmente  a  mesma  moral 
religiosa,  como  a  mesma  moral  politica, 
aproxima  os  espíritos  do  nosso  tempo  ;  e 
é  essa  que  professamos. 

Nós  professamos  a  benevolência  em  toda  a 
isenção.  Sem  nos  determos  em  discussões 
académicas,  arredando  mesmo  discretamente 
das  nossas  assembléas  os  assumptos  litigio- 


A  maçonai-ia  portuguesa  161 


SOS,  cujo  exame  arriscaria  a  nossa  cohe- 
são  e  integridade,  nós  procedemos  como 
gente  d'acção,  que  está  convencida  de  que 
muitas  coisas  indiscutivelmente  boas  se 
podem  fazer  sem  provocar  animadversões 
nem  desconfianças,  mas  que  possue  todo  o 
entranhavel  ardor  de  bem  querer  e  toda  a 
hombridade  para  não  recuar  deante  dos 
maiores  perigos,  quando  se  trate  d'acudir 
pelos  opprimidos  ou  de  estender  a  mão  aos 
infelizes. 

E'  vastíssimo  o  nosso  campo  d'acção. 
A  creança  e  o  velho,  a  mulher,  o  proletário, 
o  enfermo,  o  delinquente,  e,  para  uma  na- 
ção como  esta,  tão  disseminada  pelo  mundo 
e  tutora  de  tantos  povos  incultos,  o  emi- 
grante e  o  gentio,  eis  um  sem  numero 
d'entes  que  imploram  a  protecção  social,  e 
a  quem  por  nossa  parte  a  devemos. 

E  uma  paixão  sobretudo  pretendemos 
insufiflar  a  humildes  e  a  poderosos,  a  da 
liberdade,  que  é  o  próprio  -timbre  da  digni- 
dade humana.  O  mal  só  triumpha  pela 
inércia  das  almas  !  Para  o  combater  não 
basta  tocar  o  coração  dos  que  o  praticam ; 
é  ainda  indispensável  erguer  os  caracteres 
de   todos    que  passivamente   o   consentem, 


168  Da  monai-chia  para  a  republica 

como  se  não  fosse  uma  ignominia  contem- 
plar-lhe  os  ataques  sem  um  assomo  de 
coragem  para  os  repellir. 

Queridos  irmãos !  A  esta  nobre  cam- 
panha, incruenta  mas  de  sacrifícios,  nos 
está  appellidando  angustiosamente  a  voz 
dolorida  da  pátria,  anhelante  por  uma 
atmosphera  pura,  onde  a  virtude  lioresça  e 
a  reacção  e  o  vicio  se  desalentem  e  succum- 
bam ;  e  só  uma  profunda  secussão  moral 
será  capaz  neste  momento  de  revivificar  a 
consciência  publica. 

Quão  graves  são,  pois,  as  responsabili- 
dades do  grão  mestrado  a  que  vos  haveis 
dignado  exalçar-me  com  uma  affectuosa  con- 
fiança que  captiva  toda  a  minha  gratidão ! 
Mas,  como  em  egual  solemnidade  exclamou 
José  Estevão  e  Mendes  Leal  já  repetiu, 
ellas  não  me  acobardam,  e  atrevo-me  a 
assumi-las,  alumiado  pelas  lições  dos  meus 
antecessores,  e  fortalecido  pela  inquebran- 
tável unidade  de  sentimentos  e  aspirações 
que  nada  vingará  aíFrouxar  sequer  entre 
nós. 


A  maçonaria  portuguesa  169 


Queridos  irmãos  !  * 

Reune-se  a  Grande  Loja,  quando  ainda 
estão  mal  cicatrizadas  as  feridas  abertas  no 
coração  da  maçonaria  portuguesa  pelos  des- 
mandos de  alguns  dos  seus  membros.  Faço, 
pois,  appello  ao  amor  que  todos  llie  dedicais, 
para  que  desta  assembléa,  cujas  tradições 
de  tolerância  se  impõem,  saiam  de  novo 
revigorados  os  laços  de  intima  fraternidade 
que  nos  devem  indissoluvelmente  ligar. 

Um  assumpto  reclama  instantemente  os 
nossos  desvelos :  é  a  reforma  da  consti- 
tuição maçónica.  Não  só  ó  mister  que  a 
nossa  lei  fundamental  se  conserve  sempre 
um  modelo,  para  assim  facilitarmos  a 
administração  interna,  e,  com  as  nossas 
praticas,  nos  auctorizarmos ;  mas  neste 
momento  não  podemos  deixar  de  abrir 
francamente  os  braços  a  muitos  antigos 
irmãos  que  se  não  apartaram  sem  dôr  do 
nosso  grémio  e  anceiam  por  voltar  a  elle 
sem  quebra  das  suas  justas  regalias. 

*  26  de  fevereiro  de  1897. 


170  Da  monarcliia  para  a  republica 

Fortes  com  a  nova  constituição,  cumpre- 
nos  ter  bem  em  vista  o  nosso  fim  supremo : 
imprimir  á  vida  portuguesa  o  cunho  liberal 
que  nos  caracteriza.  E  oxalá  chegue  breve 
o  dia  em  que  a  legislação  nacional  reco- 
nheça e  consagre  a  legitimidade  dos  nossos 
esforços  !  Xesse  dia,  cessaremos  de  existir 
como  instituição  secreta,  para  gloriosa- 
mente nos  confundirmos  com  os  nossos 
concidadãos  no  seio  politico  da  nação. 

O  segredo  das  nossas  reuniões  tornou-se 
tão  anachronico  com  a  civilização  moderna, 
que  muita  gente  lá  fora  o  não  comprehende 
e  aprecia  com  justiça,  e  a  verdade  é  mesmo 
que  nem  entre  nós  se  guarda  fielmente. 
Este  ar  de  m3'sterio  que  nos  envolve, 
presta-se  a  todas  as  suspeitas  e  malsina- 
ções ;  e,  como  de  facto  nos  não  escondemos 
de  ninguém,  achamo-nos  perante  os  poderes 
públicos  numa  situação  tolerada  que  nos 
cerceia  a  liberdade  d'acção,  e,  com  ella,  a 
nossa  força  e  prestigio. 

Eis  porque  julgo  urgente  empenharmo-nos 
pela  legalização  da  maçonaria  portuguesa 
numa  confederação  de  associações  liberaes. 

E'  para  isso  necessário  fazer  uma  cam- 
panha   em   prol    do   principio   associativo  ? 


A  iiiaçouíina  portuguesa  171 


Intentemo-la !  O  levantamento  em  massa 
das  nossas  hostes,  na  actual  crise  moral 
do  país,  será  uma  consoladora  demonstra- 
ção de  que  ainda  ha  felizmente  por  todo 
elle  muitos  corações  devotados  ao  bem 
commum. 


Queridos  irmãos 


I  * 


Da  faculdade  concedida  pela  nossa  legis- 
lação aos  representantes  das  Lojas  de  fora 
de  Lisboa  de  transferirem  o  seu  mandato 
a  delegados  por  elles  escolhidos  entre  os 
obreiros  activos  de  qualquer  Loja,  resultou 
poder-se  dar  o  abuso  de  não  ser  a  Grande 
Loja  senão  quasi  só  a  representação  das 
Lojas  da  capital  e  de  ser  a  sua  maioria 
quem,  pelo  Conselho  da  Ordem,  dispozesse 
em  grande  parte  de  toda  a  mais  represen- 
tação, da  província,  ilhas  adjacentes  e 
ultramar  e  do  estrangeiro  ;  e  era  fatal  que, 
viciada   assim   na  origem  a  autoridade  dos 

*  20  de  maio  de  1899. 


172  Da  inouarchia  para  a  republica 

poderes  constituidos,  havia  de  chegar  nm 
dia  em  que,  travando-se  apaixonadamente 
a  luta  no  seio  da  Grande  Loja,  a  minoria, 
vencida,  se  rebellasse  contra  a  maioria. 
Foi  o  que  ultimamente  sucedeu,  com  grave 
perigo  para  a  unidade  maçónica. 

Chamado  a  intervir  no  conflicto,  fui 
direito  á  sua  causa  eficiente,  e  aconselhei 
uma  reforma  da  lei  eleitoral  *  que  tornasse 
genuina  a  representação  da  maçonaria  na 
Grande  Loja,  e,  como  dignos  corolários,  a 
dissolução  da  Grande  Loja,  —  que  me  fora 
lembrada  pelo  seu  próprio  presidente,  e 
que  ella,  cuja  legislatura  é  simplesmente 
annual,  me  podia  jíropôr  sem  sacrifício  de 
maior,  ao  encerrar-se  a  sua  sessão  ordi- 
nária que  estava  a  concluir  — ,  e  a  exone- 
ração do  Conselho  da  Ordem,  —  que  d'egual 
modo  me  fora  proposta  pelo  seu  próprio 
presidente,  mas  que,  isoladamente,  não  fazia 
sentido,  visto  que  o  mais  provável  era  a 
reeleição  do  mesmo  Conselho  pela  maioria 
que  o  apoiava. 

Tendo  previamente  combinado  com  o 
presidente    do    Conselho   da   Ordem,   chefe 

*  Já  está  hoje  em  execução. 


A  maçonaria  portuguesa  173 


da  maioria,  este  plano  de  elevada  reconci- 
liação, porque  era  sobretudo  de  moralização 
das  nossas  leis  e  costumes,  communiquei-o 
também  á  minoria  ;  e  começou-se  a  dar-lhe 
execução,  votando  a  Grande  Loja  a  reforma 
eleitoral.  Então  manifestou-me  o  presidente 
do  Conselho  o  desejo  de  tentar  ainda  um 
acordo  para  evitar  a  eleição  da  Grande 
Loja  antes  da  época  normal,  no  que  annui, 
por  lhe  dar  mais  uma  prova  da  minha  con- 
fiança ;  mas  a  sua  tentativa,  fosse  jDelo  que 
fosse,  não  vingou.  E  depois  encontrei-me 
desacompanhado. 

Portanto,  não  me  sendo  possível  conti- 
nuar a  desempenhar-me  da  minha  missão 
de  supremo  arbitro  dos  partidos  dentro  da 
maçonaria  portuguesa,  cumpre-me  apresen- 
tar-vos  a  minha  exoneração  de  grão-mestre. 
E  faço-o,  penalizado  de  certo,  mas  com  a 
consolação  moral  de  que  vos  presto  ainda 
um  ultimo  serviço,  em  troca  de  tantos  que 
vos  devo,  e  é  o  de  exemplificar  dentro  da 
nossa  Ordem  a  obrigação  que  corre  a  todo 
o  funccionario  ou  corporação  de  renunciar 
ás  suas  funcções,  quando  não  possa  no  seu 
posto  continuar  a  bem  servir  a  sociedade 
que  lhas  confiou. 


Concurso  pecuário 


Meus  Senhores ! 

Agradeço  ao  sr.  presidente  da  camará  e 
presidente  do  syndicato  agricola  o  favor  de 
hospitalidade  que  me  permitte  occupar  este 
logar  de  honra,  tão  lisonjeiramente  para  o 
meu  antigo  affecto  por  3Iontemór-o-Yellio. 

Eu  nunca  passava  por  deante  desta  villa, 
que  não  me  estivesse  tentando  a  visitá-la  a 
sua  soberba  figura,  coroada  pelos  muros 
vetustos  do  seu  castello,  que  lembram 
ainda  grandiosamente  os  heróicos  tempos 
de  incertezas  e  de  dores  da  fundação  da 
nossa  nacionalidade ;  e  anciava  por  admirar 
a  belleza  destes  sitios,  que  inspiraram  a 
Fernão  Mendes  Pinto  a  ardente  paixão 
das  viagens  que  o  levou  por  esse  mundo  a 

*  Em  Moutemór-o-Yelho,  1  de  maio  de  1896.  " 


176  Da  monarchia  para  a  republica 


correr  as  aventuras  tão  vivamente  dramati- 
zadas nas   suas  Peregrinações. 

Montemór-o-Velho,  que  encerra  no  seu 
seio  o  precioso  tumulo  de  Diogo  d'Azam- 
buja,  o  valente  fronteiriço  d'Africa,  pôde 
sentar-se  com  orgulho  nas  margens  deste . 
pátrio  Mondego  — -  cujo  curso,  á  semelhança 
da  nossa  historia,  vem  desde  a  serra  da  Es- 
trella,  isto  é,  desde  Viriato,  até  ao  oceano, 
isto  é,  até  ás  nossas  navegações  e  conquis- 
tas —  porque  vários  dos  feitos  illustres 
dessa  historia  esmaltam  o  seu  brazão. 

Mas  não  foram  só  as  memorias  do  nosso 
passado  e  o  meu  amor  pelas  paisagens  da 
nossa  terra  o  que  me  trouxe  aqui.  Decidiu- 
me  a  vir  hoje  o  convite  do  meu  prezado 
amigo  Alfredo  Barjona,  que  me  não  per- 
doaria a  falta  á  festa  do  syndicato  agrícola 
em  que  elle  mais  pensava,  quando,  com 
Diniz  Moreira  da  Motta,  iniciou  em  cortes  * 
a  consagração  legal  desta  ordem  de  insti- 
tuições entre  nós ;  convite  a  que  amavel- 
mente se  quiz  associar  o  digno  presidente 
deste  concelho  e  do  seu  syndicato  agrícola, 

*  Sendo  ministro  das  obras  publicas  o  auctor,  que  lhes 
prestou  todo  o  apoio. 


Coucarso  pecuário  177 

O  sr.  José  Galvão.  Eu  não  tenho  quasi 
nunca  outro  meio  de  agradecer  os  obséquios, 
senão  acceitando-os. 

E  agora  cresce  ainda  o  meu  agradeci- 
mento, porque  tive  o  gosto  de  conhecer 
de  perto  uma  povoação  que,  respeitosa  das 
suas  nobres  tradições,  é  sobretudo  a  con- 
tinuadora  das  fortes  gerações  obscuras  que, 
com  o  suor  do  seu  rosto,  amassaram  o 
património  territorial  que  usufruimos. 

Aos  technicos  compete  apreciar,  com  todo 
o  conhecimento  de  causa,  o  certamen  pecuá- 
rio cujos  principaes  lidadores  vamos  pre- 
miar, e  elles  indicarão  o  sentido  em  que  os 
creadores  devam  dirigir  os  futuros  esforços 
para  melhor  os  aproveitarem;  a  impressão, 
porém,  que  deste  espectáculo  se  nos  impõe 
•a  todos,  é  deveras  consoladora,  porque 
prova  quanto  pôde  a  intelligencia  e  a  von- 
tade das  nossas  populações  ruraes,  ainda 
quando  em  luta  com  as  inclemências  do 
tempo. 

Eu  saúdo  os  competidores  e  principal- 
mente os  vencedores  deste  torneio  civiliza- 
dor. E  felicito  o  syndicato  agrícola  pelo 
bom  êxito  do  seu  commettimento. 


Duarte  Fava 


Meus  Senhores !  * 

E'  sempre  com  lagrimas  de  dor  que 
vemos  partir  para  a  eterna  viagem  d'além- 
tumiilo  algum  dos  membros  desta  nossa 
familia  portuguesa,  já  de  si  tão  pouco 
numerosa  para  as  ousadias  do  seu  génio  ; 
mas,  quando  esse  membro  realizava  pelo 
seu  caracter,  como  Duarte  Fava,  o  perfeito 
modelo  do  cidadão,  a  sua  perda  fere  inti- 
mamente a  alma  da  nação  no  que  ella  tem 
de  mais  nobre,  a  sua  sensibilidade  moral. 
Com  a  morte  dos  bons,  sentimo-nos  enfra- 
quecidos na  nossa  solidariedade  social.  Por 
isso  é  tão  profunda  a  commoção  que  nos 
avassalla  neste  transe  ! 


*  Allocução  proferida  á  beira  da  sepultura,  em  Lisboa, 
10  de  maio  de  1896. 


180  Da  iiionarchia  para  a  republica 


Duarte  Fava  era  um  destes  generosos 
espíritos,  cada  vez  mais  raros,  que  sabem 
exemplificar  pelas  suas  virtudes  como  se 
pôde  resolver  dignamente  o  problema  da 
vida,  mesmo  quando  ella  é  tão  difficil 
como  entre  nós  se  tem  tornado  a  vida  de 
todos  que  trabalham,  mesmo  quando  ella  é 
tão  cheia  de  lutas  interiores  como  a  vida 
militar  das.  nações  atormentadas  pelos  des- 
mandos da  politica. 

Meus  Senhores !  Neste  logar  sagrado 
pela  religião  de  nossos  maiores,  todos  que 
fomos  amigos  e  companheiros  de  Duarte 
Fava,  inspiremo-nos  da  sua  memoria  para 
proseguir  corajosamente  na  obra  patriótica 
a  que  elle  de  coração  se  devotou  até 
expirar ! 


Rodrigues  de  Freitas 


Na  crise  tão  dolorosa  qne  atravessamos, 
quando  o  mal  parece  ter  conquistado  entre 
nós  o  reino  deste  mundo,  mais  que  nunca 
se  torna  necessário  que,  ao  menos  na  hora 
solemne  do  passamento,  ao  partirem  para 
a  viagem  da  eternidade,  os  homens  de  bem 
recebam  a  sua  justa  consagração. 

Morreu  com  Rodrigues  de  Freitas  um 
dos  caracteres  mais  nobres  da  nossa  terra. 
Elle  era  um  dos  raros  membros,  infeliz- 
mente tão  dis|)ersos,  da  classe  dirigente, 
cuja  virtude  ainda  tem  logrado  confortar 
com  o  seu  luminoso  exemplo  a  alma  nacio- 
nal, guiando-a  amoravelmente  pelos  cami- 
nhos já  quasi  perdidos  da  honra  e  da 
salvação.  E  em  tão  permanente  commu- 
nicação    com    ella    estava,    e   tamanha   era 

*  O  Instituto,  julho  de  1896. 


182  Da  monarchia  para  a  republica 

a  auctoridade  que  ao  seu  saber  prestava  a 
lógica  da  sua  vida,  que  bem  pôde  affirmar-se 
que  o  seu  pensamento  fazia  parte  integrante 
da  consciência  publica.  Como  professor  ou 
como  jornalista  e  tribuno,  a  sua  persona- 
lidade insinuava-se ;  mas,  embora  a  sua 
palavra  escripta  fosse  tão  persuasiva,  para 
ter  perfeita  idéa  das  faculdades  de  irra- 
diação sympathica  que  o  animavam,  era 
necessário  c  nhecer  o  orador.  Elle  sabia 
alliançar  ao  aprumo  da  sua  inquebrantável 
firmeza  de  convicções  uma  doçura,  uma  tal 
complacência  de  tom  e  de  maneiras,  que 
irresistivelmente  se  apoderava  do  seu  audi- 
tório. E,  por  isso,  porque  era  um  delicado, 
não  se  envolvia  em  todos  os  combates. 
Não  o  retrahia  a  doença,  mas  a  sua  terna 
sentimentalidade.  Lutador  indefesso,  pro- 
curava comtudo  tomar  a  posição  donde  os 
seus  ataques,  visando  aos  erros  sociaes, 
não  pudessem  ferir  o  coração  dos  seus  con- 
cidadãos, que  tanto  amava.  A  sua  politica 
era  uma  politica  de  bondade,  cuja  formula 
elle  ainda  nos  legou  no  seu  testamento : 
«  devoção  pelos  doentes  e  pelos  fracos  ». 
Filho  do  Porto,  foi  sem  dúvida  nos  últi- 
mos tempos  a  sua  encarnação  mais  pura ;  e 


Rodrigues  de  Freitas  183 

a  falta  que  lhe  faz,  não  pode  ser  medida. 
Tantas  vezes  á  custa  da  sua  precária  saúde, 
não  houve  momento  difficil  em  que  a  sua 
voz  dedicada  não  soasse  bem  alto  para  que 
a  cidade  do  trabalho,  centro  potente  de 
iniciativa  e  de  independência,  theatro  de 
acções  generosas  na  guerra  e  na  paz,  man- 
tivesse sem  desfallecimentos  contra  todos 
os  assaltos  a  sagrada  bandeira  das  suas 
tradições.  E  oxalá,  na  fragua  dos  negócios, 
ella  não  deixe  nunca  de  ouvir  o  seu  ajjpello ! 
A  mim  a  noticia  da  sua  morte  feriu-me 
como  um  dobre  de  finados  pelo  eximio 
patriota  de  que  se  vê  desamparada  a  revin- 
dição  da  liberdade  e  da  justiça  em  Portugal, 
e  pelo  amigo,  cuja  perda  me  alanccia  o 
coração  com  os  espinhos  da  mais  amarga 
saudade. 


o  estudo  do  paiz 


Principiou  por  dizer  o  conferente  que  de 
nada  soffria  mais  o  paiz  do  que  da  nossa 
inconsciência  nacional,  da  ignorância  em 
que  vivemos  da  terra  e  da  historia  da 
pátria. 

Citou,  como  característico,  o  facto  de  nem 
sequer  termos  um  mappa  usual,  authentico, 
de  Portugal. .  Só  ultimamente  se  fez  a  cam- 
panha do  estudo  geographico  dos  Açores  ; 
se  quizermos  estudar  a  chorographia  das 
ilhas  adjacentes,  havemos  de  recorrer  ainda 
a  mappas  estrangeiros.  Já  temos  alguns 
estudos  apreciáveis  das  colónias,  mas  os 
estudos  que  os  allemães  têem  feito  das 
suas  possessões  ultramarinas  são  incompa- 


*  Conferencia  na  Academia  dos  Estudos  Livres,  em  19 
de  novembro  de  1897,  segundo  o  extracto  de  O  Século. 


186  Da  monarchia  para  a  republica 

ravelmente  mais  completos,  superiores  até, 
a  muitos  respeitos,  aos  que  nós  possuimos 
da  metrópole. 

Falta-nos  uma  carta  mineira  que  dê  idéa 
das  riquezas  que  o  paiz  encerra,  e  atlas  que 
demonstrem  a  variedade  da  nossa  flora  e 
da  nossa  faUna. 

Parece  incrivel  que,  sendo  nós  um  povo 
com  os  fastos  mais  brilhantes,  mais  grandio- 
samente épicos,  não  haja  nenhuma  grande 
obra  original  que  os  exponha  integralmente, 
nenhum  resumo  fiel  que  os  vulgarize.  Para 
o  seu  estudo  succinto  são  preferíveis  os 
resumos  estrangeiros. 

Não  quer  isto  dizer  que  entre  nós  não 
haja  trabalhos  valiosos  de  estudo  do  paiz. 

Têem  contribuído,  sem  duvida,  para  elles 
homens  de  grande  vulto,  occorre  logo  citar 
Herculano,  e  vários  collaboradores  modes- 
tos, como  x\nchieta,  que  sacrificou  a  sua 
vida  ao  estudo  das  colónias.  Os  municípios 
têeem  dado  alguns  subsidies  para  esses  tra- 
balhos, creando  museus  regionaes,  e  os  de 
Lisboa,  Porto  e  Coimbra,  procedendo  ao 
estudo  dos  seus  archivos.  E  o  estado  tem 
cooperado  também,  modernamente,  nesse 
sentido,  creando  as  direcções  dos  trabalhos 


o  estudo  do  paiz  187 

geodésicos  e  geológicos,  compostas  de  ho- 
mens de  sciencia  eminentes,  j)^'!'^'  ^  ^i"te 
fundando  o  museu  de  bellas-artes,  e  para 
o  estudo  das  nossas  tradições  industriaes  o 
museu  etimológico,  da  iniciativa  do  orador. 

São  certamente  serviços  importantes,  mas 
são  apenas  fragmentos  ;  e  desta  insuficiên- 
cia e  atrazo  no  conhecimento  do  paiz  as 
responsabilidades  pertencem  sobretudo  ao 
estado. 

Na  verdade,  que  tem  feito  o  estado  pelo 
estudo  scientifico,  artistico,  industrial  do 
paiz  ? 

Quasi  não  existem  laboratórios  officiaes 
de  investigação  ;  os  nossos  museus  e  jardins 
públicos  são  poucos  e  mal  dotados.  Isto 
para  o  estudo  do  nosso  meio.  E,  para  o 
conhecimento  do  génio  nacional  e  daquillo 
que  ha  de  original  no  espirito  português, 
que  estudos  existem?  Nem  ainda  temos 
um  diccionario  completo  da  lingua  verná- 
cula, nem  sequer  sabemos  a  orthographia 
em  que  devemos  escrever. 

Não  ha  um  inventario  das  riquezas  astis- 
ticas  que  o  paiz  possue,  e  os  artistas  novos, 
tão  sympathicos,  clamam  debalde  contra  a 
ruina    dos    monumentos    e    o    desappareci- 


188  Da  nionarchia  para  a  republica 


mento  das  preciosidades  que  dia  a  dia  se 
somem  para  ir  parar  a  mãos  estrangeiras. 
E'  caracteristico  o  facto,  apontado  pelo 
sr.  Ramalho  Ortigão  no  «  Culto  da  Arte  », 
do  governo  ter  recusado  õOjjiOOO  reis  para 
a  impressão  do  catalogo  da  ultima  exposi- 
ção da  arte  sacra  ornamental. 

Num  paiz  agricola  como  o  nosso,  os 
estudos  do  solo  são  apenas  incipientes,  e 
sobre  o  nosso  clima,  tão  variável,  mais 
importante  ainda  de  conhecer  para  a  nossa 
agricultura,  nenhuns  estudos  se  tèem  feito, 
apezar  do  orador  os  ter  decretado.  Tam- 
bém o  orador  ordenou  a  estatística  das 
produções  agrícolas,  assim  como  a  dos 
productos  dos  diversos  ramos  da  nossa  in- 
dustria, e  ellas  ainda  se  não  realizaram. 

E  que  se  tem  feito  jDara  o  estudo  politico 
e  económico  da  nação  ? 

Não  falando  no  censo  da  população,  se 
temos  para  o  commercio  externo  as  esta- 
tísticas alfandegarias,  para  o  commercio 
interior  ha  apenas,  além  da  estatística  res- 
trictamente  bancaria,  por  elle  mandada 
fazer,  o  platónico  mercado  de  productos 
agrícolas,  e,  para  o  serviço  próprio  dos  mi- 
nistérios, o  centro  de  informações  também 


o  estudo  do  paiz  189 


por  elle  creado,  mas  ainda  até  agora  não 
aproveitado,  a  direcção  de  fornecimento  de 
materiaes  no  ministério  das  obras  publi- 
cas. Para  o  conhecimento  da  sua  vida  poli- 
tica e  administrativa  o  estado  nem  sequer 
tem,  como  qualquer  casa  comraercial,  uma 
escripturação  bem  montada.  Raro  é  o  mi- 
nistério que  tenha  o  tombo  do  seu  material ; 
e  o  material  dos  ministérios,  como  o  mate- 
rial do  paiz,  corre  o  risco  de  se  sumir. 

O  estado  nem  os  elementos  de  estudo 
que  tem,  fornece  á  nação.  Falou  da  falta 
que  nos  faz  um  mappa  de  Portugal  para 
uso  vulgar  e  das  escolas  ;  pois  mandou-o 
elle  fazer  pela  commissão  geodésica,  e  esse 
mappa  está  prompto  na  pedra  á  espera  de 
que  um  ministro  auctorize  a  sua  tiragem. 
Na  maior  parte  dos  museus  não  ha  catálo- 
gos nem  designações  dos  objectos  expostos. 
As  informações  de  que  pode  dispor,  o  es- 
tado não  as  aproveita  sequer  para  acudir  ás 
crises  do  paiz  ;  assim  deixa,  por  exemplo, 
de  fornecer  pontualmente  ao  nosso  commer- 
cio  de  vinhos  as  noticias  sobre  os  mer- 
cados externos  que  lhe  são  enviadas  pelos 
nossos  cônsules.  Nem  mesmo  se  aproveita 
delias  para  prevenir  catastrophes  que  amea- 


190  Da  inonarchia  para  a  republica 

çam  frequentemente  o  nosso  paiz,  e  ainda 
até  agora  não  cuidou  de  dar  execução  ao 
decreto  de  aviso  das  cheias  e  tempestades, 
referendado  pelo  orador. 

O  resultado  de  tudo  isto  é  que  o  estado 
não  só  falta  ao  desempenho  da  sua  funcção 
docente  de  elucidação  do  espirito  publico  ; 
mas,  não  conhecendo  elle  próprio  o  paiz, 
não  pôde  dirigi-lo.  Esta  a  grande  causa 
da  sua  má  administração. 

Sendo  Portugal  um  j^aiz  agrícola  e  mari- 
timo,  encontra-se  a  braços  com  dois  gran- 
des deíicits,  o  deficit  cerealifero  e  o  deficit 
da  marinha  mercante.  E  o  estado  que  os 
desconhece,  nada  faz  para  os  extinguir. 
Ha  muito  que  a  lavoira  raclama  adubos  e 
sementes  seleccionadas  para  a  cultura  in- 
tensiva do  trigo,  e  não  consta  que  fossem 
distribuídos  senão  durante  a  sua  gerência. 
Os  nossos  estaleiros,  que  ainda  ha  pouco 
tempo  contavam  dias  festivos,  vão-se  tor- 
nando cada  vez  mais  abandonados. 

Como  o  estado  não  conhece  os  recursos 
do  paiz,  favorece  industrias  que  poderiam 
viver  por  si  próprias,  descurando  outras  que 
necessitavam  de  ser  protegidas.  Exempli- 
fica com  a  industria  do  ferro,  industria  por 


o  estudo  do  paiz  191 


excellencia,  que  era  necessário  crear  com 
um  impulso  vigoroso,  assumindo  mesmo  o 
estado  a  sua  administração  ;  e  com  a  indus- 
tria dos  edifícios  públicos,  que  o  estado 
devia   entregar  á  administração  particular. 

E,  como  na  sua  ignorância  das  coisas  do 
paiz  o  estado  administra  geralmente  mal, 
as  consequências  desta  má  administração 
são  os  excessivos  impostos,  os  desastrosos 
empréstimos,  e  finalmente  as  suspensões 
de  trabalhos  que  arremessam  as  classes 
laboriosas  a  taes  extremos  de  miséria,  que 
alguns  operários  têem  chegado  a  abdicar 
da  própria  dignidade,  pedindo  para  serem 
enviados  como  vadios  para  as  colónias .  .  . 

Emquanto  que  por  toda  a  parte  se  pro- 
cura desenvolver  as  associações  de  classe, 
ha  muitas  pelas  nossas  províncias  que  nem 
sabem  como  hão  de  constituir-se,  porque 
os  governos  ainda  não  publicaram  para 
as  orientar  o  modelo  de  estatutos  que  o 
orador  durante  o  seu  ministério  mandou 
fazer. 

E  como  ha  de  o  estado  promover  e  diri- 
gir a  vida  collectiva  das  localidades,  se 
ainda  ha  pouco  se  romperam  os  vínculos 
históricos  dos  municípios,  sob  pretexto  de 


Da  monarchia  para  a  republica  192 

imaginarias  economias  ?  Ninguém  mais  do 
que  elle,  orador,  é  amigo  da  economia,  mas 
não  se  deve  ter  uma  concepção  de  chatins, 
despresando  os  direitos  adquiridos  pelas 
populações  á  custa  dos  maiores  e  mais 
prolongados  esforços.  Deviam-se  respeitar 
todas  as  entidades  locaes,  a  exemj^lo  do 
que  fazem  a  Allemanha  e  a  Inglaterra,  que 
tèem  augmentado  mesmo  o  numero  desses 
prestantes    intermediários    administrativos. 

Não  é  preciso,  e  é  um  erro,  distribuir  os 
mesmos  encargos  a  todas  as  corjDorações 
de  egual  categoria.  Proporcionem-se  ás 
suas  forças.  Mas  respeite-se  a  existência 
de  todas  as  corporações  com  direito  a  ella, 
porque  são  quasi  as  únicas  escolas  de  socia- 
lização que  ha  espalhadas  ^^elo  paiz. 

Fala-se  em  supprimir  districtos.  Trate-se 
mas  é  de  resuscitar  as  nossas  antigas  jjro- 
vincias. 

A  vida  politica  do  estado  é  instável,  por- 
que se  não  funda  no  conhecimento  do  paiz. 
Por  isso  as  leis  se  reformam  continuamente 
e  quasi  nunca  se  cumjirem. 

Dahi  a  anarchia  e  a  dissolução  dos  laços 
sociaes,  que  vai  até  ao  ponto  de  se  pensar 
no    desmembramento    da  pátria,   na  venda 


o  estudo  do  paiz  193 


das  colónias,  como  se  ellas  fossem  umas 
simples  propriedades  territoriaes  e  não 
representassem  para  nós  também  um  sa- 
grado encargo  de  almas,  como  se  nós  não 
tivéssemos  para  com  ellas  de  desempenhar 
uma  grande  missão  histórica  civilizadora, 
que  nos  não  é  licito  declinar. 

E  o  peor  é  que  todos  estes  males  jjare- 
cem  irremediáveis,  porque,  como  não  ha 
verdade  e  publicidade  na  administração, 
como  o  paiz  a  não  conhece,  não  pôde 
fiscalizá-la. 

Indigna  a  todos  a  idéa  sequer  duma 
fiscalização  estrangeira.  Portanto,  termina 
o  conferente,  até  pelo  motivo  supremo  de 
amor  á  nossa  soberania  e  de  decoro  e  sal- 
vação nacional,  votemo-nos  todos  ao  estudo 
da  nossa  querida  pátria. 


Mousinho  d'Albuquerque 


Minhas  Senhoras  e  meus  Senhores  !  * 

Já  se  não  pôde  agora  dizer,  depois  das 
fulgurantes  victorias  do  nosso  exercito,  que 
vivemos  indignamente  apenas  dos  reflexos 
do  esplendor  passado  !  A  gloria  de  Mou- 
sinho d'Albv.querque  não  o  illumina  só  a 
elle,  mas  a  toda  a  nação,  que,  pelas  assom- 
brosas proezas  dum  dos  seus  filhos,  acaba 
de  revelar  de  novo  ao  mundo  os  inesgo- 
táveis tesoiros  de  valor  que  o  seu  coração 
encerra.  E'  como  a  lamina  daquella  espada 
a  rija  tempera  do  caracter  nacional! 

Quem,  ao  vê-lo  partir  para  a  Africa, 
vaticinara  as  suas  épicas  campanhas?    Pois 


*  Allocução  pronunciada  na  presidência  da  sessão 
solemne  do  Centro  Conimercial  do  Porto,  em  17  de 
janeiro  de  1898. 


190  Da  inonarcbia  para  a  republica 

ninguém,  neste  lance  de  expiação,  repre- 
senta como  elle,  até  na  melancolia  da  sua 
figura,  a  alma  da  nossa  gente,  como  elle 
torturada  e  sonhadora,  como  elle  ardente  e 
ousada  até  aç  lieroismo  ! 

Quantas  dedicações  obscuras  não  jazem 
alii,  anciosas  por  acudir  com  o  seu  braço  e 
com  o  seu  peito  pela  felicidade  da  pátria? 
Chamem-nas,  attraiam-nas ;  e  do  seio  do 
nosso  abençoado  solo  brotará,  como  por 
encanto,  uma  formidável  legião  de  austeros 
batalhadores  promptos  a  todos  os  commetti- 
mentos  que  possam  revindicar-nos  o  nosso 
antigo   posto  na  vanguarda  da  civilização. 

A  força  atávica  dos  nossos  brios  não  se 
extinguiu  !  Sabem  o  que  ha  de  sobre- 
humano  no  arrojo  de  Chaimite?  é  a  herança 
de  honra  dos  antepassados,  que  se  sublima 
de  sreracão  em  geração  até  aos  mais  im- 
l^ossiveis  prodígios  I  Por  cada  um  dos  seus 
membros  que  prodigaliza,  esta  familia  Mou- 
sinho d' Albuquerque  resuscita  cada  vez 
com  mais  arranque  no  indomável  denodo 
dos  seus  descendentes.  Permitta  Deus  que 
assim  succeda  á  grande  familia  portuguesa ! 

Que  é  preciso  para  nos  salvarmos  ?  uma 
só  coisa  :  que  communguemos  com  os  nossos 


ifousinho  d' Albuquerque  197 

bravos  soldados  no  mesmo  espirito  de  nobre 
sacrifício,  e  sejamos  tão  bons  cidadãos  para 
o  governo  do  paiz  como  elles  se  provaram 
na  sua  defesa.  Eis  a  lição  moral  que,  sobre- 
tudo, pretendo  tirar  dos  nossos  brilhantes 
feitos  d'armas. 

Senhor  Joaquim  Mousinho  d'Albuquer- 
que  !  Não  tenho  medalhas  para  lhe  entre- 
gar;  mas,  se  as  trouxesse,  seriam  feitas  do 
ferro  luzente  das  nossas  charruas  e  das 
nossas  bigornas  para  bem  fielmente  lhe 
traduzirem  toda  a  esperançosa  gi'atidão  do 
nosso  povo. 


Contra  o  convénio 


O  comício,  explicou,  era  promovido  por 
um  grupo  de  patriotas  que  pelo  paiz  tem 
espalhado  contra  a  conversão  um  protesto, 
já  coberto  de  muitos  milhares  de  assigna- 
turas . 

Como  nem  todos  saibam  o  que  seja  a 
conversão,  vai,  em  breves  palavras,  expô-lo. 

E'  da  instrucção  e  educação  politica  do 
povo  que  ha  de  resultar  a  resurreição 
nacional.  Quando  elle  conhecer  os  seus 
deveres,  não  será  uma  oligarchia  quem  nos 
reja,  mas  um  verdadeiro  governo  de  nação 
livre. 

A  concorrência  ao  comício  é  uma  prova 
de  que  o  povo  assim  o  entende  e  corre  a 
preparar-se    para    tomar    o    posto    que    lhe 


*  AUocução  na  presidência  do  comicio  de  6  de  março 
de  1898  em  Lisboa,  segundo  o  extracto  de  O  Século. 


200  Da  moiiai'cbia  para  a  republica 

compete.  Elle  não  é,  como  as  classes  diri- 
gentes apregoam,  indifferente  ás  questões 
publicas,  e  a  ellas  é  que  cabe  a  responsa- 
bilidade, do  amargurado  transe  por  que  se 
está  23assando. 

Cessem  as  tentativas  de  governo  pessoal. 
A  dictadura  é  um  enxovalho  que  a  todos 
vexa  com  os  seus  desmandos,  infamando- 
nos  ante  os  estrangeiros.  Não  é  no  poder 
pessoal  que  reside  a  força  da  nação,  mas 
sim  na  vontade  collectiva  de  todos  os 
cidadãos.  O  nosso  primeiro  inimigo  é  o 
inimigo  interno.  Vençamo-lo.  e  teremos 
força  para  arcar  com  as  imposições  estran- 
geiras. 

A  conversão  da  divida  externa  é  uma 
questão  importantíssima  para  o  paiz.  Mas 
o  que  o  governo  planeia,  não  é  uma  verda- 
deira conversão,  porque  não  se  trata  de 
reduzir  uma  divida  noutra  de  menores  juros. 
E'  exactamente  o  contrario.  E,  compro- 
mettendo-nos  num  novo  empréstimo,  ii3'po- 
theca-nos  grande  parte  dos  bens  que  ainda 
nos  restam. 

Não  !  Queremos  viver  dos  nossos  recur- 
sos. Queremos  pagar  o  que  devemos,  e 
não  accrescentar  as  nossas  actuaes  respon- 


Contra  o  convénio  201 


sabilidades,  lançando-nos  numa  aventura. 
em  que  mais  uma  vez  arriscamos  os  nossos 
créditos. 

Muito  temos  já  perdido  do  nosso  patri- 
mónio, mas  o  que  ainda  nos  resta,  não 
consentiremos  que  no-lo  vão  alienando  pela 
hj^potheca.  A  garantia  dos  liomens  de  bem 
é  a  sua  honra,  e  nós  não  queremos  dar  outra  I 

E  iriamos  offerecer  não  um  penhor  pro- 
porcionado á  divida  que  se  tenta  contrahir, 
mas,  montando  os  juros  da  nova  divida 
a  6.000  contos,  um  jíenhor  de  12.000  contos 
annuaes !  Qual  será  então  a  garantia  dos 
credores  internos,  que  possuem  papeis  do 
estado,  principalmente  dos  estabelecimentos 
de  beneficência,  como  misericórdias,  hospi- 
taes,  asylos,  etc.  ?     Coisa  alguma. 

Os  rendimentos  aduaneiros,  que  são  os 
reguladores  do  trabalho  nacional,  vão  ser 
hypothecados.  E  como  de  futuro  o  defende- 
remos ?  Como  reformaremos  os  impostos 
de  importação,  ficando  elles  na  dependência 
dos  credores  externos  ?  Xão  ha  prisão  indi- 
vidual por  dividas ;  mas  prende-se  a  nação 
e  escraviza-se. 

Para  se  avaliar  do  requinte  de  crueldade 
que  presidiu  á  confecção  da  lei,  basta  dizer 


Da  monarchia  para  a  republica 


que  é  preciso,  ainda  depois  de  promulgada, 
que  os  credores  externos  a  acceitem.  Crê 
não  haver  parlamento  que  sanccione  um 
projecto  tão  desvairado,  porque  seria  uma 
espoliação,  a  alienação  dos  nossos  direitos 
constitucionaes. 

Não  são  competentes  para  o  discutir  as 
côrtss  ordinárias.  Tenha  o  governo  a  cora- 
gem de  convocar  cortes  constituintes,  e 
veja  ahi  se  o  paiz  deixa  passar  o  attentado. 
Ahi  deveriam,  para  isso.  ser  transformadas 
as  attribuições  dos  poderes  do  Estado, 
exarando-se  que  o  poder  moderador,  chave 
de  todos  os  poderes,  é  constituído  pelo  rei 
com  os  credores  externos,  que  juntos  exer- 
cem o  poder  executivo  pelos  seus  ministros. 


Na  campanha  contra  o  convénio,  o  auctor  fez  também 
uo  mesmo  anno  duas  conferencias,  em  Coimbra  e  Aveiro. 


Joaquim   Martins  de   Carvalho 


Nada  tão  edificante  como  o  espectáculo 
da  ascensão  moral  do  homem !  Contem- 
plando-o,  reconhecemos,  absortos,  que,  de 
todas  as  forças  do  universo,  nenhuma  pôde 
medir-se  com  a  da  vontade.  Não  ha  obstá- 
culos que  ella  não  vença;  e,  quando,  cançado 
de  a  acompanhar  na  sua  áspera  carreira 
pelo  bem,  o  organismo  desfallece,  ella  ergue 
victoriosamente  para  o  ceu  a  alma  humana, 
que  de  lá  fica  para  sempre  illuminando  as 
outras  almas  com  o  seu  resplendor. 

Joaquim  Martins  de  Carvalho  foi  um 
acabado  exemplar  desse  inegualavel  poder. 

Pobre  e  desajudado,  a  si  próprio  se  fez 
pela  máscula  energia  do  seu  caracter.  Era 
um  mesquinho  operário,  e  chegou  a  ser 
um   dos  nossos  mais  valorosos  publicistas,. 

*  O  Instituto,  novembro  de  1898. 


204  Da  inonarchia  para  a  republica 

comprovando  assim  com  o  seu  admirável 
exemplo  que  não  ha  eschola  que  suppra  a 
da  vida,  nem  disciplina  como  a  da  adversi- 
dade. Já  nos  últimos  annos  de  existência, 
agrilhoado  pela  doença  á  casa  e  por  fim 
ao  leito,  a  frescura  do  seu  rosto  testemu- 
nhava a  todos  o  viço  daqueJle  cérebro,  que 
era  uma  maravilha  de  memoria  e  de  eru- 
dição. 

Trabalhador  indefesso,  os  revezes  da 
sorte  infundiram-lhe  o  dom  do  sacrifício  ;  e 
a  hombridade  com  que  arrostou  os  maiores 
perigos  nas  lutas  contra  o  depotismo,  nunca 
mais  esmoreceu  no  seu  coração  patriótico. 

Elle  fez  da  imprensa  uma  tribuna  de  pro- 
paganda ardente,  donde  sem  cessar  cele- 
brava os  feitos  e  as  datas  gloriosas  ou 
infaustas  da  nossa  historia,  memorando 
piedosamente  o  nome  de  cada  heroe  ou 
martyr  da  liberdade  e  independência  nacio- 
nal, e  donde,  com  egual  perseverança  e 
com  intransigente  denodo,  denunciou  sem- 
pre os  riscos  que  a  democracia  corria  pela 
sua  própria  incúria  ou  pelas  ameaças  dos 
poderosos.  E  o  prestigio  do  seu  civismo 
communicava-se  á  súa  palavra,  que  era  por 
todos    escutada    com   veneração.     Tanto   a 


Joaquim  Martins  de  Carvallio  205 


aiictoridade  moral  se  impõe,  ainda  em  meio 
das  sociedades  scepticas  e  corruptas  ! 

Esta  cidade  sobretudo  deve-llie  um  pro- 
fundo amor,  só  comparável  ao  que  tambcm 
por  ella  e  pelos  seus  membros  mais  desva- 
lidos teve  outro  íillio  do  povo,  Olympio 
Nicolau  E-uy  Fernandes  ;  e  o  Instituto  de 
Coimbra,  —  a  cujo  grémio  elle  pertencia, 
honrando  as  letras  com  as  suas  pacientíssi- 
mas investigações  — ,  do  coração  pranteia 
saudosamente  o  seu  trespasse. 


Centenário  de  Garrett 


Minhas  Senhoras  e  meus  Senhores !  * 

Lembram-se  de  quando,  ao  saber  casada 
em  segundas  núpcias  a  esposa,  que  o  julgara 
morto  em  Alcacer-Kibir,  D.  João  de  Por- 
tugal, velho  e  desfigurado,  á  pergunta  — 
Quem  és  tu?  —  responde,  apontando  com 
o  bordão  de  peregrino  para  o  seu  bello 
retrato  juvenil  de  cavalleiro  —  Ninguém.  - — ? 

Quantas  vezes  também,  confrontando  as 
magnificências  d'outrora  com  as  misérias 
presentes,  nós  não  temos  soluçado  o  mesmo 
grito  de  desalento  ! 

Não  !  A  lei  geograpliica  que  põe  ao  pés 
das  mais  soberbas  eminências  os  abysmos 
mais  profundos,  não  se  verifica  no  mundo 


*  Discurso  proferido  na  pi^esicleocia  da  sessão  solem ne 
celebrada  pelo  Atheneu  Commercial  do  Porto  em  4  de 
fevereiro  de  189!). 


2()8  Da  mouarchia  para  a  i'epublica 


moral.  Nos  não  estamos  condemnados  a 
expiar  ignominiosamente  a  gloria  deslum- 
brante dos  nossos  fastos.  As  grandezas 
históricas,  se  são  como  as  altas  montanhas, 
é  porque,  como  ellas,  pela  sua  força  de 
attracção,  desviam  da  queda  os  corações 
piedosos  que  fielmente  se  inclinam  no  seu 
culto. 

Xão  !  Xão  pôde  estar  morto  nem  mori- 
bundo um  itOYO  em  cujo  peito  palpita 
sempre  viva  a  religião  dos  seus  maiores  ! 
O  que  faz  a  força  das  nações,  é  a  sua 
cohesão,  a  sua  cordialidade;  e  nós,  reunin- 
do-nos  perante  o  altar  da  pátria  para  cele- 
brar com  todo  o  fervor  a  memoria  dos 
nossos  queridos  mortos,  não  estamos  longe 
de  estreitar  indissoluvelmente  os  nossos 
vincules  sociaes.  Commemorações,  como 
esta,  são  efficacissimas  escholas  de  civismo. 

Dentre  os  génios  bons  da  nossa  terra, 
nenhum  mais  do  que  Almeida  Garrett  me- 
rece as  homenagens  posthumas  dos  seus 
compatriotas,  porque  ninguém  contribuiu 
mais  do  que  elle  para  a  reviviscencia  da 
sociedade  portuguesa. 

A  sua  nobre  figura  destaca  á  frente  da 
legião    sagrada    dos    audazes    campeadores 


Centenário  de  (larrett  20í> 


da  liberdade  entre  nós.  Não  lia  só  a  tyra- 
nnia  das  instituições  e  dos  costumes,  ha 
também,  e  é  a  sua  alliada,  a  tyrannia  dos 
preconceitos,  das  academias  e  dos  clássi- 
cos, da  moda  e  da  rotina ;  e,  emigrado  e 
soldado  da  nossa  emancipação  politica, 
])ela  qual  se  bateu  dentro  das  linhas  de 
defesa  desta  invicta  cidade,  Garrett  foi 
ao  mesmo  tempo  um  dos  principaes  caudi- 
lhos da  emancipação  do  espirito  nacional. 
Camões,  Fr.  Luis  de  Sousa,  as  Viageiís  na  mi- 
nha terra,  desferem  golpes  tão  decisivos  no 
absolutismo,  como  Almoster  e  Asseiceira. 
E  com  que  enternecido  affecto  elle  se 
desvelou  sempre  pelos  fracos  e  l^imildes  ! 
Tudo  com  o  povo  e  pelo  jdovo  !  exclamava. 
E  que  effectivamente  não  são  só  os  sábios 
e  os  artistas  que  possuem  o  condão  das 
idéas  e  das  emoções  originaes,  como  não  só 
ás  classes  altas  da  sociedade  pertence  privi- 
legiadamente o  arbitrio  do  poder.  Assim 
como  aquella  simples  creada  Brigida  e  até 
a  pobre  da  mulata  Rosa  de  Lima  foram  as 
doces  collaboradoras  de  Garrett,  assim  o 
povo,  ainda  o  das  raças  conquistadas  para 
a  civilização,  deve  ser  discretamente  cha- 
mado   a    collaborar    com    o    seu   voto    no 


210  Da  mouarchia  para  a  republica 


governo  da  collectividade.  No  povo  reside 
a  inspiração  profunda  de  todo  o  progresso, 
e  é  preciso  consultá-lo. 

Desta  concepção  resulta  o  grande  princi- 
pio moderno  da  democratização  do  ensino. 
Quantas  observações  que  não  tèem  podido 
desabrochar  na  consciência  publica  por  falta 
de  cultura !  e  quantos  sentimentos  delicados 
e  generosos  se  não  perdem  á  tôa,  que  pre- 
ciosamente se  deviam  engastar  no  oiro  puro 
da  lingua  vernácula!  Como  havemos  de  ter 
sciencia,  arte  e  industria,  como  havemos 
de  respeitar  a  justiça,  se  não  prepararmos 
cabalmente  a  massa  dos  operários  e  cida- 
dãos ?  Onde  iremos  recrutar  os  mestres  e 
os  magistrados  ?  Onde  acharemos  publico 
para  as  nossas  obras  primas,  onde  apoio 
para  a  virtude  ?  Por  isso  Garrett  se  dedi- 
cou tanto  á  causa  do  ensino,  e  publicou  o 
seu  tratado  da  Educação  e  ambicionava 
mesmo  que  toda  a  sua  obra  se  diffundisse 
educativamente  pelo  povo.  «  A  missão  do 
literato,  do  poeta,  disse  elle,  é  revestir  das 
formas  mais  populares  o  estudo  dos  factos, 
e  derramar  assim  pelas  nações  um  ensino 
fácil,  uma  instrucção  intellectual  e  moral 
que,  sem  apjjarato  de  sermão  ou  prelecção, 


Centenaiúo  de  Garrett  211 


siirpreliencla  os  ânimos  e  os  corações  da 
multidão.  » 

E  não  só  a  educação,  mas  toda  a  assis- 
tência se  deve  ao  jíovo.  Xeste  sentido,  o 
socialismo  é  uma  verdade  incontrastavel; 
e  Garrett  foi  dos  primeiros  a  proclamá-lo. 
Na  camará  dos  jDares,  dos  magnates,  pro- 
feriu elle  estas  notáveis  palavras :  «.  A  so- 
ciedade deve  esforçar-se  em  fornecer  traba- 
lho ao  que  precisa  trabalhar  para  viver:  a 
sociedade  tem  obrigação  de  sustentar  o 
que  envelheceu  e  se  impossibilitou  no 
serviço  delia.  »  E  accentuou :  «  Amparar 
o  seu  semelhante,  valer-lhe  nas  affli- 
cções,  na  pobreza,  na  doença,  na  morte, 
é  innato  desejo,  é  natural  precisão  de 
todo  o  homem  social :  o  que  será  entre 
portugueses  !  » 

Quer  isto  dizer  que  Almeida  Garrett 
fosse  um  revolucionário  ?  Foi-o,  sobre- 
tudo, com  a  penna  na  mão;  mas  não  que 
elle  não  preferisse  que  a  evolução,  que  é 
a  lei  suprema  tanto  da  sociedade  como  da 
natureza,  se.  operasse  serenamente  entre 
os  homens.  Num  prefacio  do  Catão,  -7— 
tragedia  que,  com  visivel  intento,  dedicou 
á  sua  terra  natal,  ao  Porto,  chamando-lhe 


212  Da  mouarchia  para  a  republica 

«  illustre  pelo  sangue  dos  seus  marty- 
res  f>  — .  elle  tracejava  assim  a  literatura 
do  porvir:  u  Da  união  da  arte  antiga  com 
a  arte  moderna,  da  plástica  com  o  espi- 
ritualismo, do  bello  das  formas  com  o 
bello  ideal,  do  consorcio  da  Helena  homé- 
rica com  o  Fausto  dantico.  é  que  tem  de 
nascer  o  bello  Euphorion,  o  génio,  o 
principio,  o  symbolo  da  arte  regenerada  y<. 
E  esta  foi  essencialmente  também  a  for- 
mula do  seu  pensamento  politico ;  queria 
conciliar  o  j^rogresso  com  a  ordem.  Mas, 
para  que  na  marcha  das  nações  a  evolução 
se  realize  ordeiramente,  é  mister  que  as 
classes  dirigentes,  a  exemplo  de  Garrett, 
se  inspirem  com  toda  a  lisura  no  bem 
publico,  que  é  sobretudo  a  integridade  e 
a  honra  nacional.  Se  os  poderosos  aban- 
donam o  povo,  e  elle  se  encontra  apenas 
com  um  punhado  de  intransigentes  para 
re vindicar  todos  os  seus  direitos,  direi- 
tos individuaes,  direitos  associativos  e  cor- 
porativos, direitos  constitucionaes,  todos, 
desde  o  direito  de  prover  á  alimentação  e 
instrucção  dos  seus  filhos  até  o  direito  de 
não  vêr  polluida  nem  infamada  a  bandeira 
augusta  dos  seus  antepassados,  que  admira 


Centenário  de  ÍTarrett  213 

que  um  dia  estale  novamente  a  revolução, 
com  todo  o  seu  infando  cortejo  de  desas- 
tres e  dores  ?  Xum  desses  desesperados 
transes  também  Garrett  teve  de  pegar  em 
armas. 

Procuremos  evitá-lo,  Senhores  e  minhas 
Senhoras.  A  todos  me  dirijo  neste  mo- 
mento solemne.  Façamos  tudo  por  comba- 
ter o  mal  sem  ferir  a  ninguém;  ^j^ue,  para 
afugentar  as  cubicas  dos  maus,  bastará,  — 
espero-o  — ,  que  sempre,  como  hoje,  erga- 
mos bem  alto  para  o  ceu,  com  inalterável 
brilho,  a  chamma  ardente  do  nosso  patrio- 
tismo. 


Em  19  de  março  de  1900  o  auctor  fez  na  Figueira  da 
Foz  uma  conferencia  em  prol  dos  direitos  da  mulher,  a 
convite  da  Associação  educativa  da  mulher  pobre,  daquella 
cidade.  Será  incluída  no  livro  «  A  creança,  a  mulher  e  o 
povo  :>,  em  via  de  publicação. 


Pela  liberdade 


Duas  fôrça^  sobretudo  dominam  o  mundo, 
maiores  que  todas  as  outras,  a  liberdade, 
que  é  a  maior  força  singular,  e  a  sociabili- 
dade, que  é  a  maior  força  collectiva.  Har- 
monizá-las, eis  o  problema.  Unidas,  dão  a 
prosperidade  e  grandeza  das  nações  e  da 
humanidade  ;  separadas,  em  conflicto,  a 
sua  decadência  e  ruina.  E  tão  condemnavel 
é  a  selvageria  licenciosa  que  attente  contra 
os  laços  sociaes,  como  a  escravatura  corpo- 
rativa que  suíFoque  as  livres  aspirações  das 
almas. 

Veja-se  como  o  nosso  tempo  lhes  presta^ 
indiviso  culto  ! 

O  socialismo  é  um  dos  seus  motes.  E'  o 
tempo  da  maior  sociabilidade.  A  sociedade 
tem  estendido  a  sua  assistência  a  todos,  até 

*  Opúsculo  publicado  em  abril  de  1901. 


216  Da  nionarchia  para  a  republica 

aos  mais  miseráveis.  Pôde  mesmo  dizer-se 
que  é  o  tempo  dos  infinitamente  pequenos 
tanto  do  mundo  j^liysico  como  do  mundo 
moral.  Da  mais  intima  integração  geral 
de  todas  as  classes  e  dum  immenso  amor 
pelos  fracos,  pelos  infelizes,  —  povO;  mulher 
e  creança,  enfermos  e  degenerados  — ,  é 
que  tem  sido  feita  a  arte,  a  industria  e  a 
sciencia,  a  moral  e  o  direito,  toda  a  riqueza 
e  toda  a  bondade  que  se  encerra  nos  te- 
soiros  da  civilização  hodierna. 

Mas  o  nosso  temjDO  é  conjuntamente  o 
tempo  da  liberdade.  O  liberalismo  é  o  seu 
outro  mote.  Por  toda  a  parte  se  arvora 
neste  momento  o  pendão  liberal :  irlandeses 
e  bõers  contra  o  império  britannico,  na 
Austria-Hungria  os  tchecas,  na  AUemanha 
as  populações  annexadas,  na  Eussia  a  Po- 
lónia e  a  Finlândia,  na  Turquia  a  Macedónia 
e  a  Arménia,  esses  martj^res  arménios  tão 
desamparados  de  todos.  Que  era  ainda  ha 
pouco  a  questão  juridica  Dre3-fus  em  França 
e  a  questão  eleitoral  na  Bélgica,  que  é  a 
actual  questão  partidária  na  Itália,  tão 
ardentes,  senão  questões  de  liberdade?  Não 
é  outra  a  questão  religiosa  que,  agora, 
agita   e   perturba  França,  Espanha   e  Por- 


Pela  lil-erdade  217 


tiigal,  e  que  não  é  só  a  questão  religiosa 
com  a  egreja  catholica,  porque  convulsiona 
ao  mesmo  tempo  os  ânimos  tanto  em 
S.  Petersburgo  como  em  Budapesth.  E  que 
é  por  todo  o  mundo  a  questão  chamada 
social  senão  fundamentalmente  uma  questão 
de  liberdade,  de  revindicação  da  liberdade 
de  trabalho  e  da  liberdade  de  economia  ? 
Vivem  e  progridem  as  nações  que  a  honram, 
como  a  Suissa,  de  Guilherme  Tell,  e  os 
Estados  Unidos,  de  Washington,  como  o 
renascente  Japão  parlamentar ;  vacillam  e 
desfallecem  as  que  a  injuriam  e  joerseguem, 
como  a  Áustria,  de  Metternich,  a  Espanha 
ultramontana,  e  a  Turquia  e  a  China  des- 
póticas. 

Quem  desconhece  que  o  indefesso  desin- 
volvimento  da  industria  moderna  assenta 
na  conquista  e  senhorio  cada  vez  mais 
amplo  da  sua  liberdade  ?  Já  hoje.  mercê 
de  Deus  !  não  é  necessário  a  ninguém  pedir 
licença  para  ter  um  moinho,  um  lagar,  um 
forno.  E  que  é  a  industria  em  si  mesma 
senão  a  emancipação  crescente,  formidável, 
da  acção  do  homem  perante  as  fatalidades 
naturaes  ?  Pois  todo  o  avanço,  não  menos 
prodigioso,    da    sciencia  contemporânea   se 


!18  Da  monarchia  para  a  republica 


assignala  também  inicialmente  por  uma 
libertação,  e  não  só  do  homem,  atè  da 
própria  natureza.  Que  são  as  descobertas 
physicas  e  chimicas  de  novos  corpos  e  de 
novas  forças  e  de  tantas  das  suas  radiações, 
anciosas  de  se  resgatarem  da  brutalidade 
cahotica  que  a  um  tempo  as  esmagava  e 
impellia  para  as  conflagrações  revolucio- 
narias, que  são  senão  a  outorga  da  sua 
autonomia?  Que  é  a  biologia  actual  senão, 
antes  de  mais  nada,  a  carta  de  alforria  do 
organismo,  que,  ainda  não  ha  muito,  taxado 
de  incapaz  de  se  reger  por  si,  electivamente, 
se  submettia  ao  ferrenho  despotismo  da 
velha  força  vital?  E  a  psychologia,  que 
pretende  ella  senão  do  mesmo  modo  arrancar 
as  almas  á  usurpação  e  tutela  degradante  de 
toda  a  potencia  sobrenatural  ou  estranha  ? 
Na  arte  a  liberdade  mudou  todos  os  gostos. 
Passou-se  em  cada  uma  das  suas  manifes- 
tações, na  architectura,  no  arranjo  interior 
das  casas,  na  jardinagem,  na  grande  e  na 
pequena  arte,  duma  arte  S3'metrica,  forma- 
lista, convencional,  a  esta  espécie  de  de- 
salinho elegante,  de  rusticidade  proposital, 
de  desafogo  das  coisas,  que  é  hoje  moda 
em   tudo.     Um   simples  ramo,  em  cuja  es- 


Pela  Uberdade  219 


tnictura  geométrica  dantes  se  contorciam 
inquisitorialmente  as  pobres  flores,  hoje, 
para  nos  agradar,  ha  de  enfeixá-las  bran- 
damente, como  que  negligentemente,  dei- 
xando-as  quasi  no  mesmo  livre  desplante 
com  que  se  abraçariam  no  macisso  natal. 
O  artista  moderno  destaca  pela  liberdade 
da  sua  inspiração  ;  e,  assim  como  a  sciencia 
foi  dando  foros  de  existência  a  tantos  seres 
e  forças  obscuras,  assim  também  a  arte  foi 
descerrando  de  sob  o  desdenhoso  e  escar- 
nento  orgulho  dos  grandes  toda  essa  elegia 
de  dores  e  de  dedicações  dos  simples,  que, 
mais  que  nenhuma  outra,  tem  o  dom  de 
nos  commover.  A  nossa  moral  é  a  moral 
da  iniciativa,  do  esforço,  do  respeito  pela 
personalidade  de  todos,  homem  ou  mulher, 
adulto  ou  creança,  seja  letrado  ou  anal- 
phabeto.  tanto  do  individuo  válido  como  do 
doente,  de  todos,  até  pela  personalidade 
do  louco  ou  do  criminoso.  O  nosso  código 
de  justiça  é  uma  declaração  de  direitos  ;  e 
instituições  politicas  e  económicas,  iimas 
e  outras,  tendem  a  constituir-se  liberal- 
mente, cooperativamente,  pelo  sufifragio 
universal.  A  liberdade,  diffundindo-se  cada 
vez  mais,   vai   até   aos   antípodas,   onde  já 


?20  Da  monarcbia  para  a  republica 


investe  as  raças  indígenas  na  faculdade  de 
legislarem  por  si  .na  sua  própria  lingua. 
Não  atropliiem,  não  martyrisem  os  recem- 
nascidos  com  faixas !  clamou  amoravel- 
mente  Rousseau.  E  temo-las  tirado  a  tudo 
e  a  todos. 

Se  o  passado  foi  de  trágicas  lutas  e  o 
futuro  se  nos  antolha  de  doce  e  risonha 
jDaz,  o  grande,  o  glorioso  e  immortal  ven- 
cedor de  todas  as  eras,  que  nessas  lutas 
tem  vindo  terçando  sem  esmorecimento  por 
implantar  jjara  sempre  a  jjãz  na  terra,  é  a 
liberdade.  Com  ella  triumphou  a  egreja, 
acolhendo  no  seu  seio  ainda  os  mais  des- 
herdados  e  abrindo-lhes  accesso  a  todas  as 
suas  dignidades  até  á  mais  alta. 

Amamo-la  em  tudo  que  no-la  represente, 
na  curva  imprevista  e  fugidia  duma  azi- 
nhaga, esquivando-se  pela  encosta,  na  petu- 
lante moita  de  flores  silvestres  que  de 
repente  nos  assalta  dentre  as  fendas  mus- 
gosas dum  velho  muro,  no  canto  desga- 
rrado do  rouxinol  ao  desafio  com  o  luar 
por  noite  serena  de  verão,  na  irrequietação, 
na  chamma  crepitante  da  alvorada  infantil, 
que  é  toda  ella  uma  aspiração,  uma  anciã 
de  liberdade ;  e  amamo-la  sobretudo  no  que 


Pela  liberdade  •  221 


grandiosamente  a  exemplifica,  na  larga 
atmosphera  das  montanhas,  na  vaga  es- 
tuante  da  maresia,  na  alterosa  enverga- 
dura da  águia,  e,  mais  que  tudo,  nos  ras- 
gos patheticos  de  abnegação  dos  caracteres 
inquebrantáveis.  Amamo-la  tanto,  que  só 
a  idéa  de  a  perdermos  nos  tortura,  e, 
achando  nos  aprazivelmente  em  qualquer 
])arte,  venham  dizer-nos  que  não  ])odemos 
sair  dali,  no  mesmo  instante  o  receio  se 
nos  commuta  em  afflicção ;  tanto.,  que  sem- 
pre uma  empreza  fácil,  que  pouco  exija  de 
nós,  nos  deixa  inertes  e  até  nos  dissabe, 
nem  que  fosse  uma  aíFronta  e  violação 
intentada  contra  ella.  Amam-na  as  crean- 
ças,  que,  ainda  ao  collo  das  mães,  por  ella 
logo  estrebucham  para  que  as  deixem  ir 
pelo  seu  pé;  os  rapazes,  que  nada  julgam 
impossível  e  teem  todas  as  audácias,  como 
se  a  encarnassem  no  seu  ardor  juvenil ;  e 
os  velhos,  como  esse  venerando  ancião  do 
Porto  C|ue,  outro  dia,  rompendo  por  entre  as 
alas  dos  cortezãos,  a  foi  reclamar  em  frente 
do  chefe  do  estado  com  o  vibrante  accento 
da  mais  arraigada  convicção.  E  como  não 
havemos  de  amá-la  nós,  portugueses,  se  do 
seu  amor  é  que  nasceu  e  foi  crescendo  esta 


Da  inonarcbia  para  a  republica 


nossa  querida  nacionalidade,  se.  pela  sua 
paixãO;  é  que  os  nossos  maiores,  em  peri- 
gos e  guerras  esforçados,  mais  do  que  pro- 
mettia  a  força  humana,  da  lei  da  morte  se 
foram  libertando  ? 

Liberdade  e  sociabilidade  são  insepará- 
veis, uma  é  a  condição  e  a  lei  suprema  da 
outra.  O  progresso  é  sobretudo  obra  de 
cordialidade,  mas  é  antes  de  tudo  obra 
de  independência,  de  hombridade.  Sem 
liberdade  não  ha  verdadeira  sociabilidade. 
A  tyrannia  juxtapõe  ;  mas  recalca,  destece, 
não  socializa.  O  socialismo,  revista  a  forma 
que  revestir,  leigo  ou  religioso,  seja  qual 
fôr  o  seu  escopo,  ou  ha  de  ser  liberal,  orga- 
nizar-se  liberrimamente,  ou,  mentindo  ao 
seu  nome,  não  passará  dum  absolutismo, 
condemnado  pelo  seu  vicio  orgânico  a  não 
attingir  fim  algum  elevado  e  nobre.  Os 
meios  não  são  indifferentes  ao  fim.  Justiça, 
riqueza,  poderio,  só  podem  firmar-se  inaba- 
lavelmente  sobre  a  liberdade. 

Mas,  se  todas  as  liberdades  são  legitimas, 
não  é  urna  delias  a  d'associação '?  Não 
poderemos  associar-nos  como  quizermos  ? 
Sim !  todas  as  liberdades  são  legitimas, 
menos    a    de    a    alienar.     Temos   o   direito 


Pela  libeixlade  223 


de  livremente  nos  associarmos,  mas  livre- 
mente !  Pobres  ereaturas,  consumidas  e 
desvairadas  pela  febre  do  bem,  sedentas 
de  ideal,  que,  no  arroubamento  do  seu 
sonho  radioso,  tudo  sacrificara,  até  a  pró- 
pria liberdade !  Como  se  illudem !  Num 
coração  escravo  não  pôde  vingar  a  san- 
guinea,  a  alegre,  a  triumphal  flor  da 
virtude  ;  e,  se  alii  mesmo,  por  um  arrojo 
da  natureza  humana,  que  é  quasi  sempre 
da  ingenita  bondade  feminil,  ella  consegue 
brotar  e  expandir-se,  enfeitiçando-nos  os 
olhos  com  as  primícias  das  suas  graças,  ai! 
bem  cedo  a  cresta  e  emmurchece  o  cálido 
vento  do  mal,  o  terror,  a  superstição. 

O  sacrifício  da  liberdade,  não  !  Se  nenhum 
outro  sacrifício  tem  valor  senão  pelo  que  a 
retempera  e  acendra,  incutindo-lhe  novos 
alentos !  se  esse  valor  não  quer  mesmo 
dizer  senão  que  ella  vale  mais  do  que 
todos  os  outros  bens !  O  sacrifício  é  a 
victoria  da  liberdado.  Com  ella,  todos  os 
outros  bens  se  conquistam  ;  sem  ella,  não 
ha  nenhum  que  valha  e  seja  puro  e  dura- 
doiro. Nada  nos  deve  levar  a  sacrificá-la, 
nem  o  amor  da  profissão,  nem  o  da  familia, 
da  corporação,  da  pátria  ou  da  humanidade, 


224  Da  niODarchia  pava  a  republica 


nem  o  amor  de  Deus,  essa  encarnação 
suprema  do  bem  universal.  Seria  nm  de- 
sassisado  amor.  Sem  ella,  nada  !  Porque  é 
que  a  cabeça  de  Christo  resplandece  sobre 
nós  com  tão  celestial  clarão  ?  é  porque  vida, 
tudO;  elle  sacrificou  á  libertação  das  almas. 
E;  se  podemos  crer  que  elle  resuscitou  no 
mundo,  é  porque  a  sua  obra  de  libertação 
ficou. 

Arte,  industria,  sciencia,  são  sem  dúvida 
grandes,  apeteciveis  bens ;  mas  apetecem-se 
sobretudo  pelo  poder,  isto  é,  pela  liberdade 
que  dão  ao  homem.  Mais  que  ao  desenvol- 
vimento da  nossa  intelligencia  pela  verdade, 
da  "nossa  emotividade  pelo  bello  e  da  nossa 
actividade  pelo  que  nos  é  útil,  prezamos  o 
desenvolvimento  da  própria  liberdade,  sem 
a  qual  nem  mesmo  ha,  não  pode  haver, 
creações  artísticas,  invenções  industriaes, 
descobertas  scientificas,  que  todas  são  fru- 
ctos  só  colhidos  pela  nossa  iniciativa,  pelo 
nosso  desinteresse,  j)ela  nossa  coragem,  nos 
altos  ramos  dessa  paradisiaca  arvore  do 
bem  e  do  mal,  radicada  em  cada  um  de  nós, 
que,  ás  vezes,  sacudida  pelo  erro  ou  pela 
dôr,  infelizmente  degenera,  mas  em  cujos 
profundos  vasos  circula  e   palpita  a  seiva 


Pela  liberdade  225 


vivificante  dos  mais  abençoados  heroísmos. 
Arte,  industria,  sciencia.  que  fazem  afinal 
senão  evocar  á  liberdade,  com  as  forças  da 
natureza,  as  emoções,  as  idéas,  as  sensa- 
ções e  acções,  que  são  as  forças  de  que  se 
compõem  as  faculdades  da  alma?  Pela 
obra  fremente  do  génio  passa  semjDre  um 
sopro  arrebatador,  que  estimula,  aquece  e 
alevanta  os  brios  da  humanidade. 

Não  falando  dos  paizes  de  maior  civili- 
zação, onde  o  operário,  como  dantes  o 
€avalleiro,  já  calça  luvas,  não  para  em- 
punhar uma  arma  mortífera,  em  luta 
d'homem  para  homem,  mas  o  martello.  o 
escopro,  o  alvião,  na  luta  com  a  pedra  e 
com  o  metal,  onde  as  classes  trabalhadoras 
têem  palácios  de  reunião,  e  se  professam 
cursos  superiores  de  trabalho  manual  para 
ferreiros,  carpinteiros,  entalhadôres.  etc,  e 
se  explica  e  commenta  Homero  e  Platão 
aos  mineiros,  onde  ha  Universidades  para 
a  mulher  estudar  e  Faculdades  para  se 
estudar  a  creança ;  porque  é  que  estamos 
abaixo  mesmo  de  povos,  ha  meio  século 
ainda  na  barbárie,  quasi  ainda  sem  historia, 
que  já  ostentam  tresdobrada  producção  da 
nossa?  Porque  é  que  quasi  nada  produ- 
to 


226  Da  raonarchia  para  a  republica 


zimos  de  original,  não  temos  monumentos 
modernos,  e  passamos  a  maior  parte  do 
tempo  a  decorar  e  copiar  o  estrangeiro  ? 
Porque  ignoramos  tanto  os  recursos  do 
nosso  solo  e  do  nosso  clima,  dos  nossos 
mares  e  das  nossas  colónias,  e  nem  conhe- 
cemos os  nossos  próprios  recursos  pessoaes, 
os  preciosos  dons  atávicos  de  poesia,  de 
experiência  e  de  aptidões  transmittidos  a 
cada  um  de  nós  pelos  nossos  valorosos 
antepassados  ?  Porque  temos  inculta  me- 
tade das  nossas  terras  e  a  maior  parte  das 
nossas  aguas,  e  quasi  sem  cultura  o  nosso 
esj)irito  ?  Porque  é  que  não  possuimos 
bastantes  estradas,  caminhos  de  ferro,  tele- 
graphos,  canaes  e  portos  ?  Porque  não 
possuimos  marinha,  nós,  antigos  navegantes 
6  senhores  dos  mares  ?  Porque  não  temos 
uma  philosophia,  uma  moral  ?  Porque  não 
temos  força,  riqueza  e  valimento?  E,  pri- 
meiro de  tudo,  porque  não  temos  liberdade. 
De  tudo  necessitamos,  mas  de  nada  tanto. 
Quem  é  livre  em  Portugal  ?  O  rei,  os 
chefes,  os  grandes  ?  Qual  é  delles  o  que 
mostra  a  liberdade  de  preferir  os  bons,  de 
os  chamar  a  si,  de  com  elles  fazer  o 
governo    da  nação  ?     São   livres   os   ricos  ? 


Pela  liberdade  227 


Quantos  se  livram  da  tentação  dos  prazeres 
grosseiros  e  sensuaes  deste  nosso  meio, 
para  fazerem  a  vida  espiritual  e  social  do 
homem  civilizado  ?  E'  livre  o  pobre  ?  Esse 
nem  a  liberdade  tem  de  dizer  do  seu  direito, 
e  é  a  cada  passo  empurrado  para  fora  da 
sociedade.  Ao  requerimento  dum  desgra- 
çado, que  solicitava  merecida  protecção, 
um  director  geral  poz  textualmente  este 
despacho  inverosimil :  Para  quando  houver 
maré.  E'  livre  a  mulher?  Na  familia,  uma 
escrava ;  na  sociedade,  até  se  pensaria  mal 
da  que  viesse  pleitear  as  suas  franquias. 
Quem  é  livre  entre  nós,  onde  tudo  sp  faz 
por  empenho  e  nada  sem  elle,  tudo  se 
trapaceia,  e  nenhum  preceito  tem  f(5ros  de 
cidade,  nem  o  mais  elementar  preceito 
hygienico  ?  Quem,  individuo,  corporação, 
tem  aqui  seguros  os  seus  direitos  ?  A  pro- 
víncia? Não  ha.  O  districto?  E'  como  se 
não  existisse.  São  livres  os  municípios  ? 
Extinguem-se  e  dissolvem-se  todos  os  dias 
as  suas  vereações  discrecionariamente.  Que 
liberdade  temos  ?  A  da  instrucção  ?  Ha 
quatro  milhões  de  analphabetos.  A  do 
trabalho  ?  Quem  tem  entre  nós  a  liberdade 
de   seguir  a  sua  vocação  ?  quem  garantido 


228  Da  nionarchia  para  a  republica 


O  preço  remnuerador  da  sua  lide,  garan- 
tida a  estabilidade,  o  dia  seguinte  do  seu 
mister?  O  productor  vive  sob  uma  inquie- 
tante ameaça  de  arbitrios,  de  incertezas  e 
de  riscos  económicos  ;  o  pequeno  proprie- 
tário, desajudado,  avergado  de  impostos, 
inveja  a  sorte  nómada  do  simples  jorna- 
leiro, pobre,  mas  sem  dividas ;  e  o  pobre 
jornaleiro,  para  ter  a  liberdade  de  trabalhar 
e  de  ganhar  o  pão  para  si  e  para  os  seus 
filhos,  emigra.  Temos  a  liberdade  de  pala- 
vra? Por  toda  a  parte  se  abafa  ao  egoismo 
a  voz  da  razão  e  da  justiça.  Prohibem-se 
as  conferencias,  apprehendem-se  os  jomaes. 
A  de  reunião?  Está  na  mão  da  auctoridade. 
A  de  associação  ?  Quantos  são  os  que  ahi 
livremente  se  associam  ?  Tentam-no  as 
classes  laboriosas  das  cidades  e  dos  campos  ; 
mas  com  que  custo,  se  nem  dizem  aos 
operários  como  elles  hão  de  redigir  os  seus 
estatutos  !  Temos  a  liberdade  de  fazer  o 
bem?  Onde  estão  os  meios?  Que  é  do 
património  nacional  milagrosamente  amea- 
lhado com  tanta  canceira  e  tantas  lagrimas, 
mas  com  tão  inquebrantável  intre[)idez  e 
perseverança,  pelo  nosso  bom  povo?  Tudo 
se   tem  centralizado   em  Portugal :   consti- 


Pela  liberdade  229 


tuição,  administração  territorial,  fomento, 
ensino,  inclusivamente  a  caridade.  O  prin- 
cipio electivo,  qne,  até  para  a  formação  da 
camará  dos  pares,  já  em  1837  era  acceito 
ao  conservador  Garrett  e  que  em  1<885  era 
defendido  e  implantado  por  um  gabinete 
conservador,  a  que  presidia  Fontes,  vai 
sendo  banido  de  toda  a  nossa  legislação  e 
desapparecendo  por  completo  das  nossas 
instituições.  Encontramo-nos  no  regimen 
do  estado-providencia ;  e  o  estado,  que  tudo 
absorve  e  por  isso  todos  os  apetites  e  cubi- 
cas desj)erta,  tudo  adultera  e  frustra  e 
dissipa  e  aniquila. 

Quer  isto  dizer  que  fosse  chimerica  toda 
a  portentosa  campanha  dos  nossos  constitu- 
cionaes,  e  fallazes  as  liberdades  que  nos 
legaram  ?  Xão  !  Ainda  que  a  houvessem 
perdido,  e  ainda  que  nenhuma  houvessem 
conquistado,  bastava  o  seu  magnânimo 
exemplo  para  nos  edificar.  O  que  isto 
significa,  é  que  desaproveitámos  a  herança, 
e  a  temos  calcado  aos  -pés.  Herdámos  os 
principios,  mas  não  os  respeitamos  e  man- 
temos ;  e,  quando  expressamente  os  não 
derogamos,  infringimo-los  pelos  nossos  cos- 
tumes, voltando   a  reger-nos   pela  lei  con- 


230  Da  monarchia  para  a  republica 


suetudiuaria    da    velha    relaxação    e    soler- 
cia. 

Em  nada  affirmamos  a  dignidade  d'ho- 
mens  livres.  Veja-se  o' ensino:  a  reforma 
mais  urgente  que  ha  a  fazer  nelle,  é  dar-lhe 
liberdade.  Xo  primário  é  preciso  refazer 
a  obra  democrática  de  D.  António  da  Costa 
e  de  Rodrigues  Sampaio.  O  secundário,  é 
preciso  abri-lo  rasgadamente  á  educação  da 
classe  media,  ainda  hoje  sem  logar  nos 
nossos  Ijxeus.  No  superior  é  indispensá- 
vel começar  por  proclamar,  como  direito 
supremo,  sem  o  qual  não  ha  sciencia  nem 
auctoridade  no  magistério,  a  liberdade  dd 
pensamento,  hoje  amordaçada  por  um  obso- 
leto juramento  religioso  e  jíolitico,  que 
nem  a  visinha  Espanha  já  exige  ;  e  depois 
dar  a  Lisboa  e  Porto  o  direito  de  organi- 
zarem também  em  centros  universitários  as 
suas  aulas,  dar  a  cada  Universidade,  com 
toda  a  autonomia,  o  direito  de  escolher  o 
seu  reitor  e  os  seus  decanos,  dar  a  todo 
o  homem  de  comprovada  competência  o 
direito  de  j^rofessar  nos  estabelecimentos 
officiaes,  e  ao  professor,  quer  official,  quer 
officioso,  o  de  fazer  trabalho  original,  espe- 
cializando-se   dentro   do  seu  programma,  e 


Pela  liberdade  231 


dar  ao  alumno  o  direito  de  escolher  a  sua 
Universidade,  o  seu  professor  e  as  discipli- 
nas do  seu  curso,  e  o  de  trabalhar  ao  lado  ir 
do  professor,  dispondo,  como  elle,  dos  !!! 
livros,  exemplares,  apparelhos  e  instrumen- 
tos públicos.  E  é  preciso  que  em  todos  os 
graus  e  ramos,  o  ensino,  deixando  de  ser  ,,. 
uma  catechese,  como  hoje  é  geralmente,  ||l 
tanto  em  religião  como  no  direito,  como  na 
mechanica  -e  na  engenharia,  se  ministre  de 
modo  que  a  instrucção,  em  vez  dum  appren- 
dizado  de  servidão  e  de  ociosidade,  seja, 
como  deve  ser,  o  genuino  apprendizado  dos 
officios  sociaes,  que  só  se  pôde  fazer,  não 
esqueça  !  praticando-os.  E'  tudo  questão  de 
liberdade.  Diz-se  que  não  emprehendemos 
reformas,  porque  nos  falta  o  dinheiro.  Ahi 
estão  todas  essas,  que  não  custam  um  real. 
O  que  jDrimeiro  nos  falta  para  as  emprehen- 
der,  é  o  espirito  livre  de  emj^rehendimento. 
Nós  não  temos  sequer  a  liberdade  de 
viver,  porque  o  não  é  viver  sem  honra, 
vilipendiado  por  todos,  que  de  toda  a  parte 
arreiam  a  nossa  bandeira,  um  dia  ingleses, 
outro  dia  allemães,  outro  franceses  ;  dimi- 
nuídos pela  nossa  nacionalidade,  a  ponto 
de  termos  a  cada  instancia  de  corar  deante 


232  Da  monarcliia  para  a  republica 


dos  estrangeiros,  que  não  duvidaram  mesmo 
recentemente,  á  força  de  nos  vituperarem, 
calumniar  a  nossa  inexcedivel,  proverbial 
e  nunca  desmentida  hospitalidade,  assacan- 
do-nos  o  infame  intento  de  atraiçoarmos  a 
fé  dum  nosso  hospede  ilhistre  *  para  venal- 
mente  o  entregarmos  aos  seus  inimigos. 
Como  somos  desprezados  lá  fora,  até  quando 
lá  vamos  render  vassalagem,  que  o  diga  essa 
peregrinação  de  devotos 'que  fizeram  a  visita, 
de  Roma  o  anno  passado,  á  frente  da  qual 
um  patriótico  prelado  **  teve  de  rememorar 
solemnemente  os  direitos  históricos  de  Por- 
tugal á  consideração  da  grande  metrópole 
catholica.  Liberdade  de  viver?  Quem  é 
português  e  não  jouve  o  immenso  estertor 
da  nossa  raça,  agonizando  aos  pedaços  por 
todo  esse  globo  que  ella  encheu  e  assombrou 
com  as  immorredoiras  proezas  do  seu  génio 
civilizador?  Ai !  de  Honolulu,  de  Demerara, 
os  nossos  irmãos  estendem-nos  em  vão  as 
mãos  supplicantes;  e,  em  Malaca,  na  Malaca, 
d'AíFonso  d'Albuquerque,  theatro  de  nossas 
glorias,    os    descendentes    de   heroes,   esses 

*    Kriiger. 

**  O  bispo  de  Coimbra. 


Pela  liberdade  233 


restos  que  lá  existem  abandonados,  esque- 
cidos da  sua  estirpe,  nem  já  sabem  a  que 
familia  humana  pertencem,  nem  nos  conhe- 
cem já,  —  mais  miseráveis  que  os  próprios 
indigenas,  extinguem-se  — . 

Falta-nos,  mais  que  nenhuma,  a  liberdade 
para  a  qual  todas  as  outras  convergem  e  da 
qual  todas  ellas  irradiam,  aquella  em  que 
todas  se  concentram  e  a  que  todas  a  final 
se  reduzem,  a  liberdade  moral,  base  de 
todas  as  liberdades  publicas,  e  coroamento 
da  liberdade  do  trabalho,  artístico,  indus- 
trial, scientifico,  que  ainda  se  desdobra  nas 
liberdades  de  sentir,  de  proceder  e  de  pen- 
sar e  na  liberdade  de  viver. 

A  superstição,  este  fetichismo  egoista  dos 
que,  tentados  por  enganosas  miragens  de 
felicidade,  imaginam  alcançá-la,  fazendo 
a  corte  aos  poderosos  que  dispensam  ou 
recusam  as  graças  desta  ou  doutra  vida 
aos  seus  eleitos  ou  réprobos,  como  se  hou- 
vesse outra  felicidade  senão  a  de  praticar  o 
bem,  e  como  se  o  bem  fosse  uma  coisa 
nossa  e  não  de  nós  para  os  outros,  a  super- 
stição enreda  as  suas  cegas  malhas  ás  facul- 
dades do  nosso  espirito  e  paralysa-lhe  todos 
os  sãos   anhelos.     Levando-nos  a  vontade. 


234  Da  monarchia  para  a  republica 


leva-nos  tudo  mais.  E'  a  maior  escravidão  ; 
e  a  reacção  que  a  promove  e  sustenta,  o 
nosso  maior  inimigo,  quer  tente  impôr-se, 
invocando  o  poder  de  Deus,  quer  o  poder 
da  fortuna,  secular  ou  clerical,  não  importa! 
Deus,  palavra  santa,  que  se  não  deve  sacri- 
legamente  converter  em  grito  desalmado 
de  cólera,  de  ódio  e  de  perseguição  ;  brado 
glorioso  dos  livres  corações,  que,  ainda  á 
custa  de  tudo,  j)OSÍção.  riqueza,  saúde,  bem- 
dizem  a  vida,  se  podem  espalhar  em  torno 
a  si  um  pouco  do  calor,  das  scintillações, 
das  caricias,  da  fé,  do  divino  sol  do  amor ! 

Fanatizados  pela  idolatria  das  falsas  divin- 
dades terrenas  ou  dum  Deus  sobrenatural, 
feito  á  imagem  dos  peores  t^-rannos,  sem 
integridade  moral,  como  havemos  de  ter 
liberdades  publicas  ? 

Vimos  debatendo-nos,  ha  annos,  sob  uma 
023pressão,  dia  a  dia  mais  incomportável, 
das  classes  dirigentes,  que,  fortes  da  nossa 
fraqueza  moral,  descarregam  com  mão  des- 
apiedada golpes  sobre  golpes  ao  nosso  pun- 
donor, não  lhe  tolerando  sequer  os  mais 
leves  assomos.  E,  ou  erga  ao  lado  da 
nossa,  que  ainda  lhe  parece  demasiadamente 
liberal,    uma    egreja    autocrática   para   nos 


Pela  liberdade  235 


submetter  o  coração  ao  nuto  jesnitico,  oii 
jogue  na  tavolagem  financeira  a  nossa  auto- 
nomia económica,  curvando-nos  a  liberdade 
d"acção  á  avareza  dos  argentarios,  ou  esma- 
gue na  sua  marcha  ovante  todas  as  nossas 
franquias  politicas,  —  individuaes,  associa- 
tivas, locaes,  geraes  — ,  é  sempre  a  mesma 
oppressão  ignóbil,  que  a  cada  instante  nos 
entrega,  manietados  e  quasi  sem  acordo, 
ás  violências  e  ás  injurias  do  estrangeiro, 
porque  do  desj^otismo  interior  resulta  sem- 
j)re  o  exterior,  e  não  ba  governos  mais  fracos 
do  que  os  governos  chamados  de  força, 
que  não  tèem  por  si  a  verdadeira  força  que 
todos  os  adversários  cança  e  reprime,  que 
tudo  ousa,  que  é  a  vontade,  a  decisão,  a 
força  de  animo  dos  governados,  pelos  gover- 
nantes pisada  e  amortecida.  Uma  nação  que 
se  rebaixa  a  si  mesma  ])e\a,  servidão,  não 
pode  ser  acatada  de  estranhos,  e  fica  á 
mercê  de  qualquer  audacioso  invasor. 

Reparem.  Quasi  á  mesma  hora,  somos 
affrontados  pelo  escândalo  proselytista  da 
tentativa  de  rapto  da  filha  do  cônsul  Cal- 
mou, pela  viagem  aventureira  dum  filho 
do  pretendente,  e  pelas  intimidações  da  plu- 
tocracia enthronizada  num  ecabinete  francês. 


236  Da  nionarchia  para  a  republica 


E'  a  onda  que  de  fora  cresce  sobre  nós. 
Theocratas  catliolico-romanos,  monarchicos 
protestantes,  ingleses  e  allemães,  democra- 
tas franceses  mais  ou  menos  livres  pensa- 
dores, todos  se  identificam  no  mesmo  des- 
caroamento  com  que  nos  desprezam,  nos 
vexam  e  ludibriam.  E  porque?  porque  nos 
têem  visto  tão  apoucados  e  abatidos,  que 
não  só  não  protestamos  contra  os  aggravos 
dos  nossos  próprios  governantes,  mas  até, 
como  uns  doentes  scismaticos  e  crédulos, 
para  todo  curandeiro  e  feiticeiro  nos  volta- 
mos, confiando-lhe  o  governo,  sem  que 
desastre  algum  nos  desengane  de  que  não 
é  possivel  fazer-se  o  milagre  duma  vara 
torta  dar  uma  sombra  direita.  Ali!  o  poder 
duma  nação  não  é  nunca  o  duma  auto- 
cracia ou  duma  oligarchia ;  uma  nação  ne- 
cessita de  ser  um  centro  orgânico  d'acção, 
fortalecido  de  todos  os  lados  pelo  inconsutil 
valor  moral  de  cada  um  dos  seus  membros. 
Quando  provarmos  que  o  nosso  coração  não 
parou  para  o  mutuo  respeito  de  nós  mesmos, 
então  e  só  então  é  que  daremos  signal  de 
que  ainda  somos  uma  nação  e  somos  capa- 
zes de  pugnar,  com  toda  a  nossa  altivez 
e  todo  o  nosso  sangue,  imperterritamente, 


Pela  liberdade  237 


pela  independência  da  pátria.  Convençam-se 
quantos  ainda  ])rocuram  palliar,  transaccio- 
nar: se  uma  grande  revolução,  a  maior  que 
se  pôde  fazer,  que  é  a  que  se  deve  operar 
cm  cada  um  de  nós  todos,  não  vier  de 
])rompto  restituir-nos  os  antigos  espiritos, 
os  absolutistas,  que,  esses,  não  se  levam 
de  concessões,  em  breve  attestarãcr  sobre 
as  ruinas  das  nossas  liberdades  publicas  que 
nenhumas  os  fizeram  esquecer-se  dos  seus 
soberanos  legítimos.  Com  elles  não  ha  meias 
medidas  !  Se  realmente  queremos  levantar 
comnosco  a  honra  e  os  créditos  nacionaes, 
vamos  !  desalojemos  o  inimigo  de  todos  os 
seus  postos.  E'  indispensável  que  o  nosso 
brio  se  revolte  contra  todos  os  falsos  sal- 
vadores a  que  temos  prestado  ouvido  e 
obediência,  quer  elles  se  arregimentem  nas 
clientelas  sectárias  que  hjqDocritamente  se 
appellidam  batalhões  sagrados  da  fé,  quer 
nessas,  senão  tão  compactas,  não  menos 
insolentes  e  nefastas,  legiões  pretorianas 
das  clientelas  financeiras  e  politicas.  Nem 
covardes  perante  os  problemas  da  outra 
vida,  nem  perante  os  desta ! 

Seremos   liberaes   demais  ?  o   nosso  libe- 
ralismo irá  até  ao  anarchismo  ?    Não  !    Não 


238  Da  monarchia  para  a  republica 


nos  faz  má  sombra  ser  governados,  sendo-o 
por  nosso  inauferivel  querer.  O  que  re- 
pellimos,  não  é  o  governo,  é  a  prepotência. 
Hoje  obedece-se  ao  mando,  não  ao  dever. 
Uma  sociedade  elege  ahi  os  seus  corpos 
gerentes?  Regateia-lhes  depois  e  nega-lhes 
os  meios  de  governar.  Os  directores  são 
seus  eguaes,  clamam  os  consócios.  Yem 
uma  auctoridade  superior,  e  intima  esses 
mesmos  rebeldes,  tão  susceptíveis,  a  um 
procedimento  indecoroso  :  rendem-se  logo. 
E'  que  o  liberalismo  não  se  confunde  com 
o  individualismo.  Xão  !  não  somos  pela 
indisciplina.  Queremos  de  certo  governo, 
mas  governo  liberal,  queremo-lo  mesmo 
para  que  governe  a  liberdade,  sem  prejuízo 
e  quebra  de  nenhuma. 

Três  poderes  governam  o  homem,  o  reli- 
gioso, o  económico  e  o  politico ;  e  todos 
três  são  legítimos.  Cada  um  se  esforça 
por  absorver  e  exercitar  os  outros  dois,  e 
a  sua  lata  dilacera  ainda  a  sociedade  con- 
temporânea. 

Um  segue  a  arte,  e  tem  tido  para  os 
povos  mais  cultos  o  seu  centro  principal 
na  Itália,  em  Roma ;  outro  segue  a  indus- 
tria, e   tem-no   hoje  em  Londres;  outro,  a 


Pela  liberdade  239 


sciencia,  e  oscilla  actualmente  para  a  Alle- 
manha,  que  não  é  a  Allemanha  do  chamado 
direito  da  força,  ha  pouco  consubstanciada 
no  chanceler  de  ferro  e  theatralmente  per- 
sonificada agora  pela  atrevida  figura  de 
Guilherme  II,  symbolos  só  apparentes  e 
passageiros  dum  poder  bem  mais  profundo, 
um  tanto  transviado  ainda  por  barbaras 
tradições  feudaes  do  recto  caminho  da  .sua 
missão  bemfazeja,  o  poder  da  intelligencia 
humana,  representado  brilhantemente  por 
uma  constellação  augusta  de  espiritos  supe- 
riores, que  assumiram  de  direito  a  hege- 
monia do  pensamento  e  quasi  já  também  n 
do  sentimento  e  a  da  acção  contemporânea. 
Esta  é  que  é  a  incontrastavel  força  politica 
da  Allemanha,  e  não  a  outra,  a  força  bruta, 
que  só  servirá  para  lhe  minar  e  derruir  a 
auctoridade  e  o  prestigio.  O  imperialismo 
germânico  governará  reis  e  cortes,  alas- 
trando-se  como  um  morbus  contagioso  pelas 
classes  dirigentes  das  outras  nações  até  á 
liberal  Inglaterra,  até  mesmo  aos  republi- 
canos Estados-Unidos  ;  mas  não  captiva  a 
alma  generosa  das  multidões.  O  que  nos 
fascina  nos  allemães,  não  são  os  seus 
mavórcios  capacetes,  nem  mesmo  o  vistoso 


240  Da  iiiouaichia  para  a  republica 


figurino  do  geutilissimo  espadachim  do  seu 
imperador;  é  alguma  coisa  bem  diíFerente, 
bem  mais  magestosa,  é  a  soberana  philo- 
sopbia  dos  seus  venerandos  pensadores. 
Berbm  governa,  porque  é  a  capital  intelle- 
ctual,  e  emquanto  o  fôr. 

O  poder  religioso  ha  de  ser  sempre  de 
quem  fôr  mais  tocante  para  nos  commover 
o  coração ;  o  económico,  de  quem  mais 
destramente  utilizar  os  nossos  serviços  ;  e 
o  politico,  dos  que  melhor  souberem  con- 
vencer-nos  da  sua  opinião.  Também  tive- 
mos a  nossa  vez  no  primado  da  humani- 
dade, quando,  pelos  nossos  descobrimentos, 
abríamos  ao  mundo,  com  um  mundo  novo, 
uma  nova  edade  de  progresso.  Se  não 
somos  já  de  grandeza  a  constituirmos  um 
centro  artístico,  industrial,  ou  scientifico 
crattracção  universal,  recusar-nos-emos  por 
isso  a  gravitar  para  os  que  o  são  ?  Não  ! 
Debalde  o  tentaríamos.  Corre-nos  o  dever 
de  formarmos  disciplinadamente  em  torno 
dos  melhores  da  nossa  espécie.  Porque  é 
que  hoje  o  padre,  o  financeiro  e  o  poli- 
tico estrangeiro  nos  conduzem?  E,  por- 
que é  mais  instruído  e  vale  mais  do  que 
o    nosso    padre,    o    nosso    financeiro    e    o 


Pela  liberdade  241 


nosso  politico.  E  esta  subordinação  é  inillu- 
divel. 

O  que  não  consentimos,  é  que  no-la 
intimem,  é  que  convertam  a  direcção  em 
collisão  e  nos  deshonrem,  ultrapassando  a 
fronteira  dos  nossos  direitos,  a  cuja  defensa 
acudiremos  sempre  com  todo  o  arranque 
do  nosso  pujante  patriotismo.  Desejamos 
commungar  com  os  outros  povos  na  mais 
pura  fraternização,  religiosa,  económica, 
politica ;  mas  por  nosso  próprio  alvedrio, 
sem  desar  da  nossa  autonomia,  escolhendo 
por  nós  mesmos  tanto  os  nossos  j)adres 
como  os  outros  nossos  ministros.  E'  ne- 
cessário governo,  e  não  só  nacional,  interna- 
cional também,  que  cimente  a  justiça  entre 
os  povos,  mas  voluntário,  electivo,  não 
dogmático,  imposto,  que  nos  escravize  seja 
a  quem  fôr. 

A  auctoridade  não  é  feita  da  torpe  abdi- 
cação das  almas.  Quando  mesmo  não  seja 
a  resultante  da  intervenção  directa  de  todas 
as  vontades  na  elaboração  e  na  execução 
das  leis,  como  vai  sendo  cada  vez  mais,  — 
attente-se  na  lição  da  Suissa  — ,  ó  e  deve 
ser  o  fiel  da  balança  que  todas  as  liberdades 
pondere   e   equilibre   com  o  máximo  escru- 

16 


242  Da  monarchia  para  a  republica 


pulo.  A  liberdade  só  tem  um  limite,  a 
liberdade,  Associemo-nos,  sim !  para  fazer 
o  bem,  mas  não  esquecendo  jamais  que  o 
bem  não  é  afinal  senão  um  accrescimo  de 
liberdade.  O  crime  é  essencialmente  uma 
lesão  da  liberdade.  E  por  isso  não  o  ha 
maior  do  que  o  despotismo. 

Se  nos  nossos  próprios  adversários  se 
exemplifica  quanto  pôde  a  força  da  asso- 
ciação, apesar  de  desnaturada  da  sua  inspi- 
ração liberal,  é  que  ainda  aos  que  fazem 
voto  perpetuo  de  absoluta  servidão,  a 
tyrannia  não  chega  nunca  a  arrancar  a  sua 
inteira  liberdade,  reduzindo-os  a  uns  com- 
pletos autómatos ;  o  mais  que  consegue, 
e  dolorosamente  o  presenceamos,  é  com- 
primir-lha  e  tanto  retardar  o  seu  desinvol- 
vimento  que  ella  se  torne  monstruosa  para 
a  nossa  época. 

Queremos  associação,  governo,  não  só 
para  assegurarmos  a  liberdade,  mas  até 
para  a  accrescentarmos,  para  havermos  as 
liberdades  que  individualmente  não  nos  é 
dado  lograr,  a  de  cada  um  viver,  quando 
lhe  faltam  as  forças  ou  os  meios  de  occorrer 
á  sua  subsistência,  na  infância  ou  na  senec- 
tude,   na   doença,  durante  as  crises,  ainda 


Pela  libei-dade  243 


tão  angustiosas,  do  trabalho,  e  a  de  viver 
não  a  vida  grosseira,  mesquinha,  amarga, 
do  selvagem,  mas  a  delicada,  a  doce,  a 
cordial  e  eífusiva  vida  do  homem  civilizado. 
Uma  só  condição  pomos,  é  que  não  ha  de 
ser  a  troco  de  nenhuma  outra  liberdade. 
Asylos,  hospitaes,  escholas,  museus,  jar- 
dins, bibliothecas,  tudo  quanto  devotada- 
mente cria  a  assistência,  a  philantropia,  a 
caridade,  são  de  certo  beneméritas,  adorá- 
veis instituições,  comtanto  que  as  não  erija, 
como  os  antigos  monumentos,  o  despotismo, 
flagellando  os  seus  obreiros,  sobre  a  renun- 
cia espavorida,  arquejante  e  allucinada  da 
liberdade,  que  não  é  essa  legendaria  serpe 
demoniaca  da  rebelião  e  do  peccado  que  á 
virtude  incumbe  supplantar. 

Associação,  que  não  timbre  de  liberal, 
volta-se  contra  a  própria  sociedade  em  cujo 
seio  se  gera,  ferindo-a  gravemente  e  até  de 
morte.  São  as  ordens  professas,  estigma- 
tizando o  amor  e  dissolvendo  e  extinguindo 
a  familia ;  é  o  conluio  dos  açambarcadores, 
accendendo  e  desencadeando  os  ódios  de 
classe  ;  e  são  as  facções  demagógicas  e  as 
camarilhas  cesaristas,  perseguindo  por  toda 
a  parte   o  lealismo  puritano  dos  cidadãos : 


244  Da  monarchia  pai'a  a  republica 

uns  e  outros  associados,  bandeados,  para 
dividir,  dissociar,  e  como  que  por  isso 
mesmo  apostados  também  a  sublevar,  a 
revolucionar,  porque  chega  semjDre  um  dia 
em  que  os  lesados,  não  confiando  em 
nenliuma  hierarcliia  para  onde  appellem,  e, 
divididos,  não  podendo  improvizá-la  por 
si,  vendo  que  o  despotismo  tudo  assalta 
brutalmente  e  só  na  força  bruta  se  esteia, 
acabam,  no  desespero  da  sua  indignação, 
por  procurar  fazer  justiça  pelas  suas  mãos, 
6  á  insurreição  moral  dos  espiritos  segue-se 
o  choque,  a  desordem  material  das  ruas. 
E  peor  seria  que  nem  esse  dia  de  provação 
chegasse,  porque  então  seria  a  morte  da 
nação.  Faça-se  tudo  por  evitar  a  violência, 
sempre  lastimosa,  mas  reconheça-se  que 
ella  é  o  ultimo  recurso  da  legitima  defesa 
tanto  dos  indivíduos  como  dos  povos. 

Não  pretendemos  demolir  auctoridade 
alguma  legitima.  Somos  crentes  ;  e  quere- 
mos a  associação  e,  com  ella,  o  governo 
religioso  dos  crentes,  mas  em  templos  onde 
a  celebração  da  virtude  irrompa  de  peitos 
livres.  Não  movemos  guerra  ao  capital ; 
queremos,  pelo  contrario,  poupá-lo,  multi- 
plicá-lo,   socializando-o,    entregando    o   seu 


Pela  liberdade  245 


governo  aos  seus  productores.  Almejamos 
pela  ordem ;  queremos  mesmo  uma  forte 
constituição,  um  forte  governo  politico, 
mas  que  só  um  imperialismo  estatua,  o  do 
dever,  firmado  na  mais  proporcionada  e 
tolerante  conciliação  das  opiniões.  Quanto 
até  não  lamentamos  que  o  estado,  em 
cujas  mãos  se  concentram  dentro  da  nação 
todos  os  três  poderes,  religioso,  económico, 
politico,  não  tenha  auctoridade  bastante 
para  nos  afastar  de  qualquer  delles  as 
investidas  estranhas  !  Mas  como  ha  de  ter, 
se  não  faz  a  única  solida  politica  interna- 
cional, que  é  a  politica  liberal,  que  todos 
os  brios  da  alma  nacional  respeita,  e  por 
isso  também  conta  com  todos  os  milagres 
do  seu  arrojo  na  hora  do  perigo?  Os  gover- 
nos despóticos,  assim  como  occultam  aos 
cidadãos  os  seus  attentados,  occultam  egual- 
mente  os  que  com  a  fraqueza  da  sua  fraude 
e  mystificação  estão  provocando  do  estran- 
geiro, e  cedem  sempre,  não  para  salvarem 
a  nação  dum  conflicto  desastroso,  como 
apregoam,  mas  de  facto  para  não  succum- 
birem  nelle,  j)orque  estão  mesmo  a  cada 
passo  requestando  allianças  de  protecção, 
fatalmente  ruinosas,  e,  ainda  concedidas  de 


246  Da  monarchia  para  a  republica 

mão  beijada,  deprimentes  da  dignidade 
nacional,  na  esperança  de  abafarem  os 
gritos  de  descontentamento  e  irritação  da 
opinião,  que  não  duvidam  sequer,  num 
lance  final  de  luta  pela  -existência,  arre- 
messar ás  mais  temerárias  aventuras,  se 
antevêem  que  com  o  sangue  da  pátria 
poderão  talvez  inocular  um  pouco  de  vida 
no  seu  moribundo  poderio.  O  despotismo, 
nem  as  invasões  que  se  não  escudam  em 
temerosos  exércitos,  está  apercebido  para 
repellir  victoriosamente,  nem  as  que  hoje 
são  as  mais  incruentas  de  todas,  as  religio- 
sas. Não  nos  illudamos,  pois,  por  nossa 
parte  !  nós  nenhuma  liberdade  temos  segura. 
Nem  a  religiosa. 

Liberaes!  é  indispensável  sê-lo  radical- 
mente. Não  se  pôde  ser  liberal  na  praça 
publica  e  despótico  dentro  do  partido,  no 
seio  da  corporação,  no  grémio  da  classe, 
na  repartição  ou  no  escriptorio,  ao  balcão, 
na  officina  ou  na  granja,  com  os  creados, 
com  a  familia.  Como  havemos  de  crer  em 
liberaes  que  atordoam  os  comicios  e  ^ 
imprensa  com  as  suas  tiradas  tribunicias, 
e  que  na  educação  dos  seus  filhos,  na 
intimidade  com  a  sua  esposa,  no  exercicio 


Pela  liberdade  247 


da  sua  profissão,  na  cathedra  de  professor, 
na  mais  humilde  junta  ou  dii'ecção,  são 
uns  tyrannetes  intratáveis  ?  Todas  as  liber- 
dades são  solidarias,  e  é  indispensável 
reclamá-las  todas  e  j^^-ra  todos  solidaria- 
mente também.  Emquanto,  por  exemplo, 
fecharmos  á  mulher  as  portas  das  carreiras 
sociaes  e  da  legislatura  e  administração 
publica,  como  estranhar  que  ella,  ao  impulso 
da  sua  ineffavel  dedicação,  para  entrar  na 
sociedade,  onde  só  a  sua  presença  é  um 
dom  do  ceu,  bata  á  única  porta  que  encontra 
aberta,  á  dum  convento,  amortalhando 
embora  á  entrada  todas  as  suas  outras 
aspirações,  que  chegam  mesmo  a  figurar-se- 
Ihe  criminosas,  desde  que,  para  as  satisfazer, 
a  lei  humana  lhe  não  permitte  desempe- 
nhar-se  por  maior  da  sua  angélica  missão 
social!  Re  vindiquemos  todos  os  direitos, 
principalmente  os  dos  mais  fracos. 

E  nada  nos  é  licito  ambicionar,  emquanto 
os  não  obtivermos.  Uma  instituição  que, 
sem  a  liberdade  e  a  sua  fiscalização,  se 
implante,  é  um  foco  a  mais  de  arbitrarie- 
dades e  depravação.  Nada,  nem  a  salvação 
neste  mundo,  nem  no  outro,  esperemos  da 
dictadura. 


248  Da  monarchia  para  a  republica 


Bem  sei  que  custa  immeuso  a  ver  a 
miséria,  ouvir  os  seus  lamentos,  e  não  lhe 
acudir,  porque,  para  isso,  neste  atro  regi- 
men de  nepotismo  e  simonia  em  que  vive- 
mos, ou,  antes,  vamos  morrendo,  teríamos 
de  nos  acorrentar  á  complacência  dos  pode- 
rosos que  de  tudo  dispõem  a  seu  talante. 
E  ha  tanta  miséria  !  Ai  !  em  Portugal  não 
soffrem  só  os  desgraçados ;  soífrem  com 
elles  todos  os  que,  depois  de  lhes  darem 
tudo  que  podem,  debalde  procuram  em 
volta  de  si,  no  civismo  das  instituições, 
um  meio  de  lhes  valer.  Aproveitemos  j)ara 
o  bem  commum  todos  os  serviços  que, 
ainda  quebrantada  ^elo  despotismo,  esta 
bôa  sociedade  portuguesa,  maternalmente, 
á  custa  do  secular  sacrifício  das  suas  classes 
trabalhadoras,  nos  presta ;  mas  não  accei- 
temos  nenhum  por  graça  e  favor  do  poder. 
Condescender  com  a  arbitrariedade,  com  a 
reacção,  não  é  sociabilidade,  é  cumplici- 
dade ;  e  não  incorramos  nella  por  nada, 
nem  que  nos  promettam  transfigurar  dum 
dia  para  outro  os  nossos  quatro  milhões  de 
analphabetos  em  outros  tantos  milhões  de 
cabeças  letradas.  Sairiam  uns  mandarins, 
e  já  disso  temos  demais. 


Pela  libei-dade  249 


Sejamos  intransigentes,  duma  irredncti- 
vel  intransigência  com  o  mal.  Não  qne 
partamos,  em  som  de  guerra,  a  atacar 
ninguém,  nem  os  maus,  que  são,  em  ver- 
dade, os  infelizes  mais  dignos  de  dó,  que 
mais  precisão  teem  do  nosso  amparo  ;  bem 
basta  já  para  seu  castigo  não  lhes  podermos 
dar  toda  a  nossa  confiança.  Guerra  ao  mal, 
mas  a  ninguém,  nem  aos  maus !  Não  foi, 
exterminando  os  animaes  bravios  e  ferozes, 
foi  domesticando-os,  convertendo-os  em  seus 
auxiliares,  não  foi  destruindo  as  plantas 
silvestres  e  venenosas,  foi  cultivando-as, 
fazendo  duma  solanea  um  tubérculo  ali- 
menticio,  que  o  homem  povoou  e  enrique- 
ceu a  terra  de  animaes  e  plantas  úteis.  Os 
maus,  esses  micróbios  moraes,  hão  de 
combater-se  como  nos  ensinou  o  grande 
Pasteur,  attenuando-lhes  a  virulência,  isto 
é,  melhorando-os.  E  como  ?  pela  irresisti- 
vel  magia  da  bondade.  A  tyrannia  não 
provém  só  dos  tyrannos,  e  por  isso  não 
desapparece  logo  com  elles.  Que  importa 
expulsá-los,  se  ella  não  se  expulsa,  porque 
fica  ainda  nas  almas  captivas  ?  Será  pre- 
ciso tratar  o  paiz  como  a  creança,  da  frente 
de   quem   se  tira  uma  fruta   que  lhe  pôde 


250  Da  monarchia  para  a  republica 

fazer  mal?  Não  digo  que  não;  ás  vezes, 
até  isso  é  preciso.  E'  preciso  evitar  a 
snggestão.  Mas,  quando  menos  nos  pre- 
catarmos, ella  a  terá  comido.  E'  o  que 
nos  tem  succedido  tanta  vez !  o  tyranno, 
passado  tempo,  volta,  quando  mesmo  não. 
encontra,  como  o  fruto,  um  pobre  coração 
compadecido  que  o  guarde  e  encubra.  O  que 
é  preciso,  não  é  fazer  mal  aos  maus,  é  não 
lhes  conceder  jDrivilegios  como  em  Espa- 
nha, e,  mesmo  entre  nós,  onde,  por  isenção 
da  jurisdicção  parochial,  até,  em  muita 
parte,  o  registro  civil  tem  estado  á  sua 
mercê,  é  não  os  encher  esbanjadoramente 
e  indiscretamene  de  benesses,  de  subsídios 
de  toda  a  qualidade,  em  edifícios,  dinheiro, 
etc,  que  são  armas  que  se  metem  nas  suas 
mãos,  como  alii  se  tem  feito,  é  não  os  deixar 
praticar,  commeter  o  mal,  é  passá-los  de 
governantes  a  governados,  é  descingi-los 
de  todos  os  diademas  por  elles  usurpados, 
exauctorá-los  da  governação,  negando-lhes 
logar  tanto  nas  magistraturas  como  no  ma- 
gistério social.  Sobretudo  não  lhes  entre- 
guemos o  ensino,  que  é  o  governo  que, 
mais  que  nenhum,  necessita  de  ser  liberal, 
porque  é  o  das  almas  tenras  ainda,  mimosas, 


Pela  liberdade  251 


em  germinação,  que  a  mais  leve  pisadura 
pode  para  sempre  tolher  e  abafar.  Mas 
para  tanto  basta  o  nosso  querer,  o  nosso 
voto  livre.  Não  serão  nossos  eleitos,  em- 
quanto  o  não  merecerem.  Resta-lhes  ainda 
muito  campo  aberto  ?  Elles  tentarão  alliciar 
os  pobres  e  simples,  como  o  povo,  e  os 
fracos,  como  a  mulher,  como  as  raparigas, 
captar-lhes  os  votos  ?  Condemnemos  for- 
malmente a  escravatura,  seja  ella  qual  fôr, 
declarando  irritos  e  nullos  todos  os  votos 
servis,  e  façamos  tudo  jjoi'  delia  resgatar 
as  suas  victimas. 

Emancipar  as  almas,  eis  o  eterno  afan  da 
humanidade.  Mas  como  ?  como  chamá-las, 
como  attrahi-las,  como  socializá-las  para  a 
liberdade  ?  Pela  liberdade.  Pela  coacção 
seria  paradoxal.  Não  neguemos  a  ninguém 
nenhuma  liberdade,  nem  a  de  associação, 
desde  que  os  seus  membros  não  professem 
insolentemente  ou  desvairadamente,  como 
uma  quadrilha  de  malfeitores,  ou  como  uns 
epilépticos,  o  culto  do  despotismo  e  a  exe- 
cração e  o  ataque  da  liberdade.  Não  é, 
respeitando  as  instituições  das  raças  indí- 
genas, que  hoje  por  toda  a  parte  os  povos 
colonizadores    procuram    persuadir- lhes    as 


252  Da  monarchia  para  a  republica 

suas  ?  Pois  as  próprias  beatas,  se  não  são 
melhores,  também  não  são  peores  do  que 
os  selvagens  nas  suas  abusões  e  crendices. 
E  quem  é  que  ha  de  negar  ás  suas  associa- 
ções o  direito  de  existir  ?  O  estado,  que 
é  o  seu  principal  promotor?  EUe.  que  tem 
uma  egreja  official,  de  cuja  cadeira  paro- 
chial  e  episcopal,  de  cujo  púlpito  manda 
pregar  que  o  reino  do  Senhor  não  é  o 
deste  mundo,  ha  de  ser  elle  quem,  depois 
desta  propaganda,  ao  tomarem-lhe  o  con- 
selho, condemne  os  que,  por  effeito  delia, 
rompam  todos  os  laços  terrenaes  para  se 
associarem  pela  vida  comtemplativa  com 
um  deus  sobrenatural  que  lhes  ensinaram 
a  invocar  e  preferir  ?  Nem  essas  congrega- 
ções elle  tem  logicamente  auctoridade  para 
supprimir.  E  quem  a  tem?  Onde  estão 
ahi  as  novas  associações  livres,  egualmente, 
—  que  digo  eu?  —  mais  religiosas  ainda, 
que  as  substituam  ?  Onde  novas  cathedras 
e  novos  púlpitos  liberaes  de  propaganda 
moral  ?  Onde  o  confessionário  também  libe- 
ral a  que  recorrer,  para  pedir  luz  num  caso 
difficil,  delicado  e  penoso  de  consciência? 
Onde  o  sino,  a  cujo  som  pensemos  terna- 
mente nos  nossos  irmãos,  filhos  da  mesma 


Pela  libei'dade 


terra,  que  nascem,  que  se  amam  ou  que 
morrem,  a  cujo  toque  larguemos  a  enxada, 
a  plaina  ou  a  penna,  sus^Dendamos  mesmo 
todo  o  trabalho,  para  nos  juntarmos  com  a 
família  á  mesma  mesa  ou  com  os  nossos 
visinhos  no  mesmo  adro  e  perante  o  mesmo 
altar,  e  com  ella  e  com  elles  erguermos  o 
espirito  ao  nosso  Deus,  Deus  verdadeira- 
mente humanado,  em  piedosa  idealização 
de  todos  os  humanos  aíFectos  ?  O  que  é 
preciso,  não  é  supprimir,  é  transformar  as 
caducas  associações  religiosas,  apressar  a 
sua  transformação,  que,  apesar  de  todas  as 
antigas  resistências,  se  vai  effectuando  a 
olhos  vistos,  de  associações  contemplativas, 
mysticas,  em  associações  activas,  trabalha- 
doras, que  educam,  que  velam  enfermos, 
que  missionam,  numa  palavra,  que  crêem 
que  esta  vida  não  merece  ser  macerada, 
mas  amada,  porque  é  a  fonte  inexhaurivel 
de  todo  o  bem.  Que  ninguém  se  isente  da 
lei  do  trabalho  ! 

A  sociedade,  que  á  força  de  obedecer 
á  voz  do  mando,  chegara  a  crer  na  omnipo- 
tência do  verbo,  da  prece,  vai  perdendo 
quasi  de  todo  essa  grande  superstição  do 
passada ;  e  a  egreja,  triste  é  que  tão  lenta- 


254  Da  monarchia  para  a  republica 


mente  !  acomjDanha-a,  a  egreja,  sob  pena  de 
se  sejonltar  na  corrente,  não  ^^odia  deixar 
de  caminhar  também.  Reconheça-se-lhe 
mesmo  esta  superioridade,  que,  pela  pró- 
pria perda  successiva  da  sua  ingerência  tem- 
poral, ella  é  já  hoje  o  poder  constituido  que 
menos  luta  pelas  armas.  Se  dentro  delia 
ainda  são  innumeraveis  os  conspiradores 
que  se  abraçam  desgrenhadamente  á  ban- 
deira negra  da  servidão  e  da  guerra,  cada 
vez  mais  firme  e  mais  alto  se  hasteia  nella 
á  luz  de  Deus  a  bandeira  branca  da  liber- 
dade e  da  paZj  a  mesma  que  desfraldámos 
mais  longe  que  ninguém  por  esse  orbe  fora, 
fazendo  do  christianismo  uma  religião  tão 
nossa,  que,  para  rompermos  com  ella,  sen- 
timos que  teriamos  de  romper  com  os  nos- 
sos queridos  mortos,  com  ã  nossa  gloriosa 
epopeia.  Mas  para  que  romper?  Inscre- 
vamos, sim,  em  caracteres  bem  ni tidos,  no 
nosso  lábaro  liberal,  tanto  no  dominio 
religioso,  como  no  económico  e  como  no 
politico,  a  divisa  da  nossa  fé,  que  em 
todos  elles  atteste  e  lembre  estas  verdades 
moraes  :  O  bem,  a  felicidade,  não  é  nenhum 
goso,  nenhum  proveito,  nenhuma  perfeição 
individual,  egoista,  que  submissamente  im- 


Pela  liberdade 


pioremos  a  nenhum  grande  poderoso,  mas 
a  perfeição  social,  mundial,  para  que  cada 
um  tem.  de  contribuir  por  si  com  a  sua 
quota,  na  espbera,  grande  ou  pequena,  da 
sua  existência,  pelo  livre  exercicio  da  sua 
iniciativa  e  do  seu  esforço,  pelo  seu  des- 
prendimento e  sacrifício.  E  a  virtude  não 
está  em  nos  mortificarmos  humildemente 
sem  mais  amor  que  o  da  própria  salvação  ; 
mas  sim  em  nos  engrandecermos  e  multi- 
plicarmos tanto  por  amor  dos  outros,  que, 
para  lhes  acudirmos,  ousemos  arrostar  ainda 
os  maiores  perigos.  Esta  a  doutrina  que 
por  toda  a  parte  devemos  evangelizar. 
Não  nos  curvemos  perante  nenhum  poder 
arbitrário  ;  seja  a  suprema  liberdade,  e  só 
ella,  o  nosso  supremo  arbitro.  E,  na  egreja 
e  fora,  todos  se  darão  por  entendidos. 

A  emancipação  das  almas,  temos  de 
operá-la,  fundindo,  harmonizando  a  socia- 
bilidade com  a  liberdade.  A  nossa  intran- 
sigência com  o  mal  não  ha  de  ser  ajjathica, 
ha  de  ser  viva,  militante  :  é  o  que  se  pôde 
chamar  a  obrigatoriedade  da  liberdade. 
E-nos  defeso  ficar  indifferentes  ás  machi- 
nações  do  despotismo  ;  temos  instantemente 
de  nos  pronunciar,  de  intervir  contra  ellas. 


256  Da  monarchia  para  a  republica 

Mas.  no  ardor  da  nossa  campanha,  não 
aprisionemos  a  ninguém  ;  não  a  fazemos 
para  isso.  Xada  imponhamos  a  ninguém, 
nem  a  liberdade.  EUa,  que  nunca  jamais 
morre  no  fundo  do  nosso  ser,  porque  é  a 
sua  própria  substancia,  ella,  que  é  tão 
essencial  á  vida  do  espirito  como  o  calor  á 
do  corpo,  também  como  elle  se  desenvolve 
e  accumula  pelo  exercício,  pelo  trabalho, 
que  nutre  o  corpo  e  instrue  o  espirito. 
Trabalho  é  redempção.  Para  apostolar  a 
liberdade,  trabalhemos  ao  lado  dos  nossos 
operários,  das  nossas  esposas,  dos  nossos 
filhos,  não  os  abandonando  a  ninguém  que 
lhes  embarace  e  ate  e  quebre  os  movimentos. 
E  quem  hoje  ahi  senão  quasi  só  os  nossos 
adversários  e  os  seus  adeptos  lida  com  elles  ? 
Quem  os  agazalha  e  trata?  Quem  os  educa 
e  consola?  Quem  lhes  ministra  uma  lição, 
uma  regra,  um  preceito  ?  Quem  descerra 
ao  seu  coração  e  á  sua  imaginação,  ávidos 
de  commoções  e  de  maravilhoso,  o  tocante 
mysterio  da  belleza  moral?  Quem  os  aca- 
lenta á  entrada  e  á  despedida  da  vida,  e 
os  acolhe  nos  bons  e  nos  maus  dias?  Vive 
o  proprietário  com  o  rendeiro,  o  patrão 
com   o   caixeiro   ou  com   o   artífice,   o  rico 


Pela  liberdade  257 


com  o  pobre,  o  chefe  da  familia  com  ella? 
Dão-lhes  o  seu  desdém!    Então? 

Façamos  mais  pela  liberdade  do  que  os 
nossos  adversários  contra  ella.  Estreita- 
mente unidos,  como  mais  ninguém,  organi- 
zemos uma  grande  associação  que  tenha 
um  núcleo  cerrado  de  força  e  de  resistência 
em  cada  um  dos  nossos  casaes ;  e,  com 
todo  o  fervor  da  nossa  solidariedade,  pro- 
vemos a  efficacia  incomparável  da  liberdade, 
levando  a  toda  a  parte  incessantes  serviços 
e  por  toda  a  parte  oppondo  —  ás  instituições 
servis  —  maiores,  mais  numerosas,  melhores 
instituições  liberaes.  Assim,  e  só  assim,  ao 
rubro  calor  das  nossas  virtudes,  é  que  se 
irão  dissolvendo  todas  as  ordens  nefastas. 
Como  Christo,  façamos  do  povo,  da  mulher, 
da  creança  a  nossa  familia,  a  nossa  sagrada 
familia  ;  que,  no  dia  em  que  o  povo,  a  mu- 
lher e  a  creança  nos  tiverem  pelos  seus 
amigos,  nada  já  haverá  que  temer  pela 
liberdade.  Ella  terá  triumphado.  A  ella 
se  offertarão  todos  os  incensos,  todas  as 
flores,  todos  os  hymnos,  todas  as  alegrias 
e  todas  as  laji-rimas  desta  vida. 


A  Associação  liberal 
de  Coimbra 


Minhas  Senhoras  e  Meus  Senhores ! ^ 

A  Associação  Liberal  de  Coimbra  voltou 
a  tomar  o  seu  posto  de  combate,  não  para 
atacar  ninguém,  mas  para  pugnar  contra  o 
erro  e  a  oppressão,  pela  verdade  e  pelo 
direito.  E,  como,  sob  a  presidência  do 
eminente  cidadão,  que  fora  secretario  das 
nossas  constituintes  de  1820,  o  visconde 
de  S.  Jeronymo,  inaugurou  em  1875  a  sua 
primeira  campanha,  assim  inaugura  agora 
esta,  celebrando  hoje.  como  então,  a  entrada 
triumphante  do  glorioso  exercito  libertador 
nesta  cidade,  não  só  para  honrar  a  memo- 

*  Discurso  proferido  na  presidência  da  sessiío  solemne 
celebrada  no  salão  do  i)aço  municipal  na  noite  de  8  de 
maio  de  1901,  commemoraudo  o  anniversario  da  entrada 
do  exercito  libertadoí'  em  Coimbra. 


k 


2t)0  Da  líionarchia  paia  a  republica 

ria  dos  bravos  que,  atravez  de  tantos  peri- 
gos, defenderam  e  revindicaram  a  liberdade, 
mas  também  para  que  jamais  esqueçam  os 
damnos  e  torturas  que  lhes  infligiu  o  eterno 
inimigo  da  sociedade  e  da  civilização,  a 
reacção. 

A  nova  acommetida  do  negro  bando,  é 
indispensável  arredar  para  sempre  da  nossa 
terra  a  repetição  de  tão  dolorosas  e  degra- 
dantes scenas.  E  graças  a  nossos  pães, 
que  já  para  isso  não  temos  de  pegar  em 
armas,  bastará  envidarmos  um  nobre  esforço 
patriótico,  que  pode  e  deve  ser  grande  e 
decisivo  pela  estreita  união  de  toda  a  fami- 
lia  liberal ! 

Nós  descançámos  demais.  E  certo  que 
a  liberdade  nunca  desfallece  de  todo,  e, 
menos  que  em  nenhum  outro,  em  peitos 
portugueses,  (guando  o  despotismo  a  ima- 
gina avassalada,  ei-la  que  irrompe  de 
repente  com  todo  o  fulgor,  como  em  1385, 
como  em  IGiO,  como  em  1820,  como  de 
1828  a  183-4.  E  em  parte  alguma  podemos 
contar  mais  com  os  prodigios  do  amor  da 
liberdade  do  que  nesta  historicíí  Coimbra, 
que  foi  a  capital  dos  heróicos  fundadores 
da  nossa  nacionalidade,  e   tem  sido  prefe- 


A  Associação  liberal  de  Coimbra  261 

rentemente  a  capital  das  novas  gerações, 
de  cujo  seio  saem  sempre  os  mais  arden- 
tes soldados  das  franquias  nacionaes. 

Mas  a  própria  lição  do  passado  nos 
aconselha  a  ser  mais  acautelados  e  vigi- 
lantes. Por  mais  frondosa  e  al3undante  de 
fructos  que  se  nos  mostre  a  arvore  da  liber- 
dade, não  nos  persuadamos  nunca  de  que 
ella  se  radicou  já  tanto  no  coração  do  paiz, 
que  nada  a  possa  abalar  e  enfraquecer. 
Foi  essa  confiança  cega  o  que  nos  compro- 
meteu ultimamente. 

Vimos  a  nação  constituir  o  governo  popu- 
lar das  suas  parochias,  descentralizar  os 
municípios,  crear  verdadeiros  parlamentos 
districtaes,  e  o  principio  electivo  vivificando 
todas  as  instituições,  até  chegar  a  intervir 
pela  lei  constitucional  de  1885  na  formação 
da  camará  dos  próceres. 

E,  do  mesmo  passo,  a  instrucção  pros- 
perava: ao  lado  da  iniciativa  local,  princi- 
palmente dos  municípios,  que  multiplicava 
escholas  primarias,  procurando  pela  assis- 
tência publica  povoá-las  de  alumnos,  o 
governo  fundava  em  Lisboa  o  Museu  agrí- 
cola e  em  Lisboa  e  no  Porto  os  Museus 
industriaes  e  commerciaes,  e  ia  espalhando 


202  Da  monarchia  para  a  republica 

pelos  districtos  escliolas  industriaes  e  la- 
boratórios, estações  e  escholas  agrícolas ; 
estreava-se  ainda  pela  iniciativa  local  o 
ensino  primário  complementar,  e  o  estado 
planeava  o  ensino  secundário  médio  para  o 
sexo  feminino,  sendo  pelas  cortes  discutida 
com  ardor  a  reforma  dos  lyceus ;  imprimia- 
se  pelo  concurso  das  administrações,  cen- 
tral e  territorial,  um  forte  impulso  ao  ensino 
normal  para  liabilitação  de  j^rofessores  pri- 
mários, o  Ministério  das  obras  publicas 
amplificava  os  Institutos  agrícolas  e  indus- 
triaes e  o  Ministério  do  reino  accrescen- 
tava,  ainda  que  modestamente,  as  dotações 
do  ensino  superior ;  transformava-se  radi- 
calmente a  antiga  Junta  consultiva  de 
instrucção  num  grande  Conselho  de  eleição 
de  todo  o  magistério ;  e  annunciava-se  para 
breve  o  estabelecimento  definitivo  dum 
Ministério  especial  para  os  negócios  docen- 
tes.    A  liberdade  parecia  garantida. 

Mas,  dentro  em  pouco,  um  vento  de  insâ- 
nia começou  a  soprar ;  e,  quando  alguns 
políticos  sinceros  tentaram  em  1893  travar 
a  derrocada  liberal,  já  era  tarde  de  mais 
para  a  força  de  tão  poucos.  Dissolveram- se 
associações,  annullou-se  quasi  a  vida  paro- 


A  Associação  liberal  de  Coimbra  263 


chiai,  reduziu-se  o  numero  dos  concelhos, 
supprimindo-se-lhes  as  regalias,  amesqui- 
nhou-se  de  todo  a  administração  districtal, 
snspendeu-se  dictatorialmente  o  parlamento, 
e,  usurpado  o  exercício  do  poder  legislativo, 
dictatorialmente  se  lançaram  e  cobraram 
impostos,  dictatorialmente  se  promulgou 
até  uma  nova  constituição  retrograda.  E 
tudo  isto  se  fez  affrontosa  e  impunemente, 
sem  que  a  ninguém  valesse  o  recurso  para 
os  tribunaes. 

Ao  mesmo  tempo,  fechavam-se  escholas, 
abandonava-se  o  ensino  geral  para  um  e 
outro  sexo  da  classe  media,  proclamava-se 
o  dogmatismo  do  ensino  secundário  official 
e  escravizava-se-lhe  em  tudo  o  ensino  par- 
ticular e  domestico  ;  cortaram-se  os  meios 
de  trabalho  ao  ensino  superior  e  ameaçou-se 
e  preteriu-se  o  seu  magistério  de  opiniões 
mais  avançadas ;  do  Conselho  superior  de 
instrucção  publica  não  se  conservava  mais 
do  que  o  nome  ;  e  o  Ministério  de  instru- 
cção publica  durou  apenas  um  momento. 
Tanto  é  certo  que,  quando  soffre  a  liber- 
dade, soffre  também  com  ella  a  instrucção. 

Assim  chegámos  ao  lastimável  estado 
actual,    a    este    ultimo    acto,   tão    longo  já 


2G4  Da  monarchia  para  a  republica 

para  os  nossos  brios,  em  que,  sobre  um 
scenario  de  ruinas,  temos  visto  fusilar 
lobregamente,  quasi  sem  intervallo,  as  iras, 
as  ameaças  e  os  attentados  dos  poderosos 
estrangeiros.  Um  dia  a  Inglaterra,  outro 
dia  a  Aliem anha,  outro  a  França.  Faltava 
Roma  ?  Não  !  não  faltava.  Ella  tivera  artes 
de  assestar  occultamente,  antes  de  ninguém, 
as  suas  baterias ;  nós  é  que,  na  cegueira 
em  que  viviamos,  não  dávamos  por  isso. 
A  reacção  religiosa  levantou  egrejas  ao 
lado  das  nossas,  oppoz  aos  nossos  semi- 
nários os  seus  noviciados,  substituiu  os 
nossos  padres,  e  até,  parece,  alguns  dos 
nossos  prelados,  pelos  seus ;  e,  emquanto 
não  vingava  empolgar  o  governo  de  toda 
a  sociedade  portuguesa,  foi-se  apoderando 
do  es]3Írito  dos  fracos,  dos  velhos  e  doen- 
tes, das  mulheres,  das  creanças.  A  maior 
parte  dos  hospitaes,  as3dos  e  collegios  está 
nas  suas  mãos.  E  foi  preciso  que  o  povo, 
que  é  quem  hoje  em  todas  as  partes  revin- 
dica  a  causa  da  liberdade  e  da  justiça, 
foi  preciso  que  o  nosso  povo,  indignado, 
se  revoltasse  contra  mais  uma  das  suas 
aggressões,  já  insolentemente  feita  a  des- 
coberto, para  que   os  nossos  corações,  so- 


A  Associação  liberal  de  Coimbra  2Gr 


bresaltando-se,  dessem  rebate  de  todo  o 
risco  que  corríamos. 

Juntemo-nos,  pois,  de  vez,  decididos, 
não  é  só  a  não  desertar  jamais  do  nosso 
posto  de  honra,  é  a  nunca  mais  dispersar 
sequer.  A  situação  está  longe  de  ser  deses- 
perada. Não  podemos  confiar  na  lei  e  nos 
seus  agentes,  nem  na  justiça  dos  tribunaes, 
que  tentam  mesmo  ás  vezes  ameaçar-nos 
com  processos  arbitrários  e  inquisitoriaes  ; 
mas  ainda  se  não  improvizam  alçadas  que 
levantem  deante  de  nós  a  figura  tétrica  do 
patíbulo.  Já  não  é  pouco  sermos,  como 
somos,  açoitados  na  nossa  honra  nos  pelou- 
rinhos estrangeiros.  A  situação  é  critica, 
sem  dúvida.  Desesperada  que  fosse,  porém, 
havíamos  de  vencer,  como  os  nossos  maio- 
res em  1834,  e  os  vindoiros  haviam  certa- 
mente de  poder  celebrar  o  nosso  triumpho, 
como  hoje  estamos  celebrando  o  dessa 
gloriosa  época. 

O  que  cumpre  instantemente,  é  arcar, 
sem  nenhuma  transigência  ingénua,  onde 
quer  que  elle  nos  aíFronte,  com  o  despo- 
tismo, para  o  desalojar  de  todos  os  seus 
baluartes  e  reductos.  Os  liberaes  de  então 
comprehenderam  bem  que  elle  era  solidário 


•2(j0  Da  monarchia  para  a  republica 


em  todos  os  seus  campos,  e,  a  golpes  redo- 
brados, feriram-no  incessantemente  com  a 
promulgação  da  carta  constitucional  no 
campo  politico,  com  as  reformas  íiscaes  da 
Terceira  no  campo  económico,  e  com  a 
extincção  das  congregações  no  campo  reli- 
gioso. Palmella,  Mousinho  da  Silveira, 
e  Silva  Carvalho  com  Joaquim  António 
d' Aguiar  personificam,  em  volta  do  rei- 
soldado,  esta  tríplice  campanha.  Cumpre- 
nos,  hoje,  como  então,  restaurar  a  liberdade 
em  cada  um  dos  seus  domínios. 

Por  isso  eu  assisto  com  jubilo  ao  dujDlo 
movimento  generoso  que  neste  momento 
agita  e  apaixona  a  alma  nacional.  Que- 
rem-se  substituir  por  livres  associações 
religiosas  as  obnoxias  congregações  servis, 
e  as  pre2:)0tentes  companhias  capitalistas 
por  syndicatos  agrícolas  e  associações  in- 
dustriaes  de  classe  fundadas  sobre  o  coope- 
rativismo. 

E  tão  necessária  é  uma  liberdade  como 
a  outra.  A  sociedade  não  vive  só  de 
interesses,  mas  também  de  crenças.  A  re- 
ligião é  o  coroamento  moral  da  arte.  Por 
isso  a  Deus,  ideal  de  todo  o  bem,  se  con- 
sagram basílicas,  como  a  nossa  Sé  Velha, 


A  Associação  liberal  de  Coimbra  267 

i|ue  nos  encantam  pela  solemne  harmonia 
das  suas  proporções,  e  esses  templos  se 
recamam  de  esculpturas,  como  tantas  de 
Santa  Cruz,  e  de  quadros,  como  os  do 
nosso  Grão  Vasco  e  da  nossa  Josepha 
d'Obidos,  e  á  divina  imagem,  encerrada, 
sobre  um  tlirono  de  luzes  e  de  flores,  em 
preciosa  custodia,  —  como  a  dos  Jerony- 
mos,  que  vale  só  por  si  um  poema  — ,  os 
sacerdotes,  com  as  suas  vestes  de  brocado 
e  pedrarias,  erguem  o  cálix  da  saudação  e 
o  incenso  thuriferario,  emquanto  o  povo, 
em  trajes  também  de  gala,  lhe  entoa  em 
eôro  os  seus  hymnos  mais  enternecidos. 
E  a  santa  aspiração,  a  anciosa  conver- 
gência de  todas  as  emanações  affectivas 
da  arte  para  o  supremo  bem  ! 

A  religião  é  a  união  das  almas  pelo 
amor,  como  a  economia  o  é  pelo  trabalho. 
E  quem  mais  religioso  dç  que  nós,  filhos 
deste  abençoado  paiz,  onde  tudo  fala  ao 
coração,  tudo  inspira  affectos,  tudo  convida 
a  amar,  deste  paiz,  onde  o  sol  cada  dia 
nos  faz  uma  nova  surpreza  com  os  prodí- 
gios arrebatadores  das  suas  auroras  e 
occasos,  e,  quando  se  esconde,  ainda  refle- 
cte a  sua  magia  em  luares  incomparáveis. 


268  Da  iiionarchia  para  a  republica 

deste  paiz,  onde  o  campo  se  estrella  tanto 
como  o  ceu,  onde  o  rouxinol  vem  fazer 
o  seu  ninho  e  cantar  os  seus  amores,  e 
onde  a  voz  da  mulher  é  uma  música  e  a 
poesia  brota  espontânea  do  estro  do  povo  ? 
Como  não  havíamos  de  ser  religiosos,  e 
com  a  exuberância  artística  que  tanto 
caracteriza  este  tão  meridional  catholi- 
cismo  ? 

O  que  é  preciso,  é  moralizar  a  religião,  é 
contrapor  á  religião  do  sobrenatural,  da 
superstição,  da  crença  num  outro  mundo  e 
do  desprêso  deste,  a  da  fé  neste  mundo  e 
no  seu  immanente  progresso  para  a  justiça 
e  para  o  bem.  Ninguém  pretende  destruir  a 
religião  ;  o  que  pretendemos,  é  fazê-la  sin- 
cera e  pura,  tornando-a  voluntária  e  livre. 

Mas  não  basta  erigir  sobre  a  liberdade 
as  associações  religiosas  e  económicas ; 
falta-nos  ainda  fundar  nella  as  associações 
politicas  que  não  temos,  porque  não  podem 
merecer  tal  nome  os  centros  dos  diversos 
partidos,  sem  contacto  com  o  povo,  onde 
a  cubica  do  poder  reúne  os  homens  de 
opiniões  as  mais  diversas  e  até  oppostas. 
Todas  essas  associações  são  indispensáveis, 
mesmo     ^^^^'^     ^^     fortalecerem     umas     ás 


A  Associação  liberal  de  Coimbra  260 

outras.  Da  sua  força  collectiva  é  que  ha 
de  resultar  a  força  de  independência  e 
dignidade  da  nação. 

Em  todas  ellas  devemos  pensar,  quando 
damos  o  nosso  voto  para  a  constituição 
das  auctoridades,  desde  as  parochiaes  até 
ás  do  estado.  Esse  voto  decide  de  todas 
as  liberdades  publicas.  Por  isso  deste 
logar  exoro  a  todos  os  liberaes  não  só  para 
que  elejam  com  toda  a  consciência,  mas 
ainda  para  que  nunca  se  abstenham  de  ir 
á  urna.  Entendo  mesmo  que  a  lei  devia, 
como  na  Bélgica,  preceituar  a  obrigatorie- 
dade do  voto,  que  é  a  obrigatoriedade  da 
liberdade,  e  também,  como  lá  e  em  tantos 
cantões  suissos,  a  proporcionalidade  elei- 
toral, que  é  para  que  a  nimguem  fique 
pretexto  de  se  abster,  desalentado,  por  não 
ter  comsigo  a  maioria. 

E,  se  todas  as  liberdades  são  necessárias, 
e  todas  são  solidarias,  e  dahi  as  graves 
difticuldades  deste  momento,  repare-se  que 
também  por  isso,  em  compensação,  a  victo- 
ria  que  alcançarmos  para  uma,  ganhará 
logo  terreno  para  as  outras. 

A  reacção  religiosa  é  também  politica,  e 
reciprocamente      Foi  ella  que  sustentou  no 


270  Da  iDonarchia  para  a  republica 


throno  o  governo  usurpador  de  D.  Miguel, 
foi  até  mesmo  a  cúria  romana  a  única  corte 
estrangeira  que  o  reconheceu.  Reciproca- 
mente, quando  foi  que  se  auctorizaram  os 
jesuítas,  proscriptos  de  Portugal  por  Pom- 
bal, a  cá  voltarem  !  De  1828  a  1834. 
Quando,  já  depois  de  abolidas,  estiveram 
para  se  introduzir  de  novo  as  congrega- 
ções? Em  1848.  E,  ultimamente,  sob  que 
gabinete  mais  recresceram  as  tentativas 
reaccionárias,  e  a  sua  propaganda  mais 
lavrou,  chegando  a  arrolar,  além  das  classes 
ricas  e  ociosas  e  da  gente  simples  das 
aldeias,  até  numerosos  membros  das  classes 
trabalhadoras  das  cidades?  Foi  sob  o  gabi- 
nete dictatorial  de  1894.  E  o  congresso 
dos  25i'6lados,  celebrado  em  S.  Vicente  de 
Fora,  em  Lisboa,  abençoava  os  dictadores. 

Ahi  tèem  o  jornalismo  ultramontano  :  é 
ao  mesmo  tempo  absolutista. 

E,  para  comprovar  como  a  reacção  reli- 
giosa é  ao  mesmo  tempo  reacção  econc>- 
mica,  que  opprime  o  trabalhador,  bastará 
citar-Ihes  os  dizimos,  que  o  regimen  liberal 
extinguiu :  elles  consumiam  imj)roductiva- 
mente  33  "/o  dos  rendimentos  da  terra,  e 
eram    consumidos    em    grande    parte    pelo 


A  Associação  liberal  de  Coimbra  -71 

clero  regular.  Todos  sabem  os  impostos 
que,  sob  color  de  pedidos  de  esmolas  e  de 
empréstimos,  Eoma  lança  sobre  o  paiz  ;  e, 
emquanto  nelle  estanciarem  as  congrega- 
ções, o  seu  aboletamento  continuará,  a 
pesar  esmagadoramente  sobre  a  economia 
nacional.  Por  isso,  quando  clericaes  e 
mesmo  indiscretos  liberaes  nos  falem  das 
difficuldades  económicas  para  nos  aíFasta- 
rem  da  questão  religiosa,  respondamos- 
Ihes  :     Já  estamos  tratando  delias  ! 

As  ordens  religiosas  atacam  a  um  tempo 
a  verdadeira  religião,  cujos  jDrimeiros  vín- 
culos devem  ser  os  do  amor  da  familia, 
porque  pregam  o  voto  de  celibato ;  a 
cooperação  económica,  porque  pregam  o 
voto  de  pobreza ;  e  o  progresso  politico  da 
sociedade,  porque  pregam  o  voto  de  obe- 
diência servil. 

Digamo-lo  bem  claro  aos  nossos  prelados, 
para  que  se  desilludam :  as  ordens  monás- 
ticas são  a  obediência  absoluta  a  Roma 
com  desaire  pjara  todos  nós.  Acceitando-as, 
protegendo-as,  elles  vão  irremediavelmente 
ferir  a  pátria,  portanto  a  si  próprios,  a  sua 
dignidade  também.  Daqui,  d'ao  pé  de 
Santa  Cruz,  onde  jaz  D.  AfFonso  Henriques, 


Da  monavchia  para  a  i'epublica 


memoremos-lhes  a  lenda  do  bispo  negro, 
que  envolve  o  facto  histórico  da  violência 
com  qne  o  nosso  primeiro  rei  castigou  o 
legado  pontifício  vindo  a  Coimbra  para 
depor  o  seu  bispo.  E  não  só  a  lenda  e  a 
historia  antiga  lhes  podem  servir  de  lição 
e  escarmento  ;  successos  muito  próximos 
falam  eloquentemente  a  este  respeito.  Lem- 
brem-se  os  bispos  que  reclamam  agora  as 
congregações  religiosas,  de  que  foram  ellas 
que  tramaram  a  guerra  feita  aos  vigários 
geraes  seus  antecessores  de  1834  a  1839, 
desauctorizando-os  até  ao  ponto  de  serem 
pela  cúria  romana  declarados  nullos  os 
sacramentos  que  ministrassem  os  parochos 
collados  por  elles.  E  não  estará  sequer 
viva  no  seu  coração  a  dôr  jdcIo  desacato 
com  que,  já  depois,  até  as  irmãs  da  cari- 
dade se  recusaram  a  subordinar-se  á  sua 
jurisdicção  ? 

Mas,  ainda  quando  as  ordens  monásticas 
não  ultrajassem  directamente  a  sua  auctori- 
dade  prelaticia,  o  episcopado  português  não 
devia  perfilhá-las.  O  ultramontanismo  é  um 
crime  de  lesa-patriotismo.  Basta  apontar 
um  facto.  Quem  foi  que  nos  últimos  tempos 
clle  mais  freneticamente  agrediu  entre  nós  ? 


A  Associação  liberal  de  Coimbra  273 


Todos  o  sabem  :  foi  o  homem  que  mais  se 
consubstanciou  com  a  alma  da  nacionali- 
dade portuguesa,  o  seu  immortal  histo- 
riador, Alexandre  Herculano.  Os  prelados, 
advogando  a  causa  das  congregações,  estão 
sem  querer  chamando  sobre  o  solo  da  pá- 
tria a  invasão  inimiga  dum  exercito  estran- 
geiro que,  joor  não  trazer  armas  na  mão, 
não  é  menos  perigoso,  porque  combate, 
enfraquecendo-nos,  exterminando-nos  pela 
superstição. 

Até  nas  colónias,  onde  muitos  liberaes 
ha  que  as  admittem,  como  se  ellas  fossem 
necessárias  á  obra  civilizadora  das  missões 
religiosas,  até  lá  ellas  nos  estão  depredando. 
Quem,  nos  últimos  annos,  encetou  a  nossa 
expropriação  e  desprestigio  colonial,  antes 
da  Inglaterra,  da  Allemanha  e  da  França, 
foi  Roma,  a  oligarchia  reaccionária,  que  nos 
cerceou  o  nosso  padroado  de  Goa,  e  nos 
arrancou  o  de  Pekim,  onde  tínhamos  sé  e 
seminário  a  attestarem  que,  primeiro  que 
ninguém,  lá  chegáramos  com  o  facho  da 
civilização  christã.  Defraudou-nos  em  pro- 
veito das  suas  próprias  missões  de  propa- 
ganda, e,  para  com  o  oiro  das  nossas 
conquistas,    comprar    as    boas    graças    dos 

18 


274  Da  uionai'chia  para  a  republica 

que  hoje  são  mais  poderosos,  —  porque 
são  mais  livres  — ,  do  que  nós.  E  quem 
senão  o  negro  bando  reaccionário  ensina- 
aos  indigenas  do  nosso  ultramar  uma  lingua 
que  não  é  a  nossa?  EUes  não  empolgam 
só  os  nossos  bens ;  dilaceram,  sem  piedade,, 
os  nossos  mais  entranhados  aíFectos. 

Querem  os  prelados  portugueses  pôr-se 
em  luta  aberta  com  a  liberdade,  com 
a  nossa  independência  nacional  ?  Kão  a 
espero  do  seu  patriotismo.  Mas,  se,  em 
vez  de  emanciparem  as  almas,  como  o- 
missionário  Barroso,  actual  bispo  do  Porto, 
no  ultramar,  se,  em  vez  de  revindicarem  os- 
direitos  históricos  de  Portugal  á  considera- 
ção da  metrópole  catholica,  como  auno 
passado  na  própria  Eoma  o  bispo  desta 
diocese  de  Coimbra,  se.  em  vez  disso, 
hastearem  na  sua  mão  a  bandeira  da 
reacção,  por  maiores  que  sejam  as  suas 
virtudes  e  por  maior  que  seja  a  veneração 
que  lhes  consagramos,  nós,  liberaes,  não 
mais  poderemos  beijar-lhes  essa  mão.  E 
nem  consentiremos  que  se  tente  castigar 
os  nossos  filhos,  porque  se  recusem  também 
a  beijá-la. 


A  Associação  liberal  de  Coinibi'a  275 


Ex.'""  Sr.  * 

Dois  ideaes  dividem  a  humanidade.  Um 
é  o  ideal  asceta  dos  que  maceram  o  corpo  e 
o  espirito,  temem  e  malsinam  a  sciencia,  a 
industria  e  a  arte,  abdicam  de  toda  a  ini- 
ciativa, e,  rompendo  os  laços  da  familia, 
dissolvem  a  sociedade.  E  o  ideal  claustral, 
cellular,  dos  que,  sem  um  sorriso  para  nada, 
nem  para  ninguém,  de  cabellos  cortados  e 
vestidos  de  negro,  rojando-se  pelo  chão, 
desprendidos  de  tudo,  de  si  e  dos  seus, 
esperam  expiar  a  culpa  de  haverem  nascido 
e  alcançar  a  salvação  eterna  além-tumulo, 
á  força  de  se  mortificarem.  Que  louco 
sacrifício,  ou  antes  que  cruel  egoismo  !  A 
esse  ideal  mystico,  de  fraqueza,  de  ruina, 
de  miséria  e  de  servidão,  que  espalha  o 
pânico  pelas  almas,  temos  de  oppôr  o  ideal 
humano,  de  vida,  de  trabalho,  de  liberdade, 
de  patriotismo  e  de  franca  e  generosa  cor- 
dialidade ;    e,  i^ara  isso,  é  necessário  lutar 

*  Circular. 


276  Da  iiionarchia  para  a  republica 


sobretudo  pela  educação,  especialmente  da 
mulher,  em  cuja  sensibilidade  tão  facilmente 
se  enreda  a  superstição.  Abram-se  colle- 
gios,  onde  ella,  deixando  de  correr  o  risco 
de  ser  victima  da  sua  natural  abnegação, 
aprenda  que  o  verdadeiro  sacrifício  é  o 
que  a  todos,  por  amor  da  nossa  dignidade, 
da  nossa  gente,  da  justiça  e  do  bem,  nos 
cumpre  fazer,  ao  serviço  da  civilização  e  do 
progresso,  para  implantarmos  sobre  a  pró- 
pria terra  o  reinado  do  Senhor.  A  Associa- 
ção liberal  de  Coimbra,  propondo-se  fundar 
um  destes  collegios,  tem  a  honra  de  solici- 
tar o  concurso  de  V.  Ex.''.  Digne-se  V.  Ex.^ 
declarar  no  livro  que  lhe  será  conjuncta- 
mente  apresentado  pela  Commissão  espe- 
cial, as  pessoas  de  sua  familia  que  deseje 
confiar-lhe.  Os  cursos,  a  principio  só  de 
ensino  primário  e  secundário,  serão  oppor- 
tunamente  organizados,  antes  da  abertura 
das  aulas,  segundo  a  edade  e  as  habilita- 
ções dos  candidatos.  As  aulas  primarias 
admittir-se-hão  também  creanças  do  sexo 
masculino. 


A  Associação  liberal  de  Ck)inibra 


Mensagem  * 

A  Associação  liberal  de  Coimbra,  além 
de  celebrar  com  o  maior  lustre  o  festivo 
anniversario  da  entrada  do  exercito  liber- 
tador nesta  cidade  no  dia  8  de  maio,  hon- 
rar solemnemente  em  26  do  mesmo  mez 
a  memoria  preclara  **  do  grande  patriota 
Joaquim  António  d'Aguiar,  e  saudar  pela 
voz  do  seu  presidente  o  auspicioso  certa- 
men  da  filial  coimbrã  da  União  dos  atira- 
dores civis  portugueses,  identificou-se  com 
o  movimento  da  nação  em  prol  da  liberdade 
religiosa,  instando  com  o  governo  pela  pro- 
hibição  do  ensino  aos  membros  das  congre- 
gações, pela  publicação  dos  nomes  e  destino 
do  pessoal  congreganista  e  pela  creação  e 
organização  dos  serviços  de  inspecção  offi- 
cial  do  ensino,  fez  profissão  publica  de  dois 
princípios  que  devem  ser  base  da  nossa 
regeneração  politica,  a  obrigatoriedade  do 
voto,  que  envolve  o  principio  do  suífragio 

-  20  de  julho  de  ISOl. 

**  Consagrou-lhe  o  auctor  nesse  dia  uma  conferencia. 


Da  monarchia  para  a  republica 


universal,  e  a  representação  equitativa  de 
todos  os  jDartidos  proporcionalmente  ao 
numero  dos  seus  eleitores,  fundou  a  Asso- 
ciação das  creches,  dotando  logo  a  cidade 
alta  com  uma,  que  inaugurou  no  dia  8  de 
maio,  está  colligindo  meios  jíara  subsidiar 
uma  colónia  de  creanças  pobres,  de  com- 
pleição débil,  que  vão  nos  próximos  mezes 
retemperar-se  com  o  ar  e  cora  os  banhos 
do  mar,  promoveu,  em  sessões  preparató- 
rias de  uma  grande  assembléa  que  ha  de 
reunir-se  em  outubro,  a  formação  de  uma 
cooperativa  oj)eraria  de  consumo,  a  cujo 
cargo  virá  a  ficar  a  sustentação  de  cozinhas 
económicas  para  as  classes  trabalhadoras,  e 
não  só  inaugurou  no  dia  26  de  maio  cursos 
de  instrucção  de  adultos,  que  proseguirão 
depois  de  ferias,  e  vai  por  estes  dias  collo- 
car  em  vários  estabelecimentos  particulares 
caixas  de  esmolas  ou  mealheiros  para  so- 
ccorro  aos  analphabetos,  mas  empenha  os 
seus  maiores  esforços  para  constituir  uma 
associação,  em  que  as  senhoras  tomem 
principal  parte,  que,  no  principio  do  novo 
anno  lectivo,  possa  abrir  um  collegio  para 
a  educação  liberal  do  sexo  feminino,  con- 
tando, a  demais,  que  para  então  começará 


A  Associação  liberal  de  Coimbra  279 

também  a  funccionar  mu  curso  de  eufer- 
nieiras,  de  sua  iniciativa.  E  não  resumi 
ainda  por  completo  a  sua  acção  generosa. 
Acima  de  todas  as  obrigações,  impunlia-se- 
Ihe  a  de  ser  uma  verdadeira  sociedade, 
digna  do  seu  nome,  pugnando  corajosa- 
uiente  pela  causa  da  honra  e  da  segurança 
individual  dos  seus  sócios.  Dessa  obriga- 
ção teve  que  se  desempenhar  duas  vezes, 
num  processo  disciplinar  académico  e  num 
processo  crime  do  foro  commum :  de  ambas 
ellas  reclamou,  como  lhe  cumpria,  para  os 
accusados  o  direito  de  serem  julgados,  com 
todas  as  garantias  de  justiça,  pelos  tribu- 
naes  legaes  competentes,  e  não  pelo  arbítrio 
da  auctoridade  ou  pela  murmuração  das 
ruas,  porque  tanto  lhe  repugna  o  despo- 
tismo do  poder  como  o  da  multidão. 

A  Associação  liberal  de  Coimbra  deve 
estar  contente  de  si ;  e  eu,  que  tenho  de 
me  ausentar  com  demora,  —  declinando  a 
sua  presidência,  reconhecido,  —  faço  votos 
sinceros  por  que  ella  continue  fielmente,  na 
mais  perfeita  cordialidade  de  cooperação 
entre  os  seus  membros,  sem  jamais  faltar 
a  nenhum  com  a  sua  assistência,  a  sua 
uobilissima  campanha. 


A  liberdade  e  a  egreja 


Ás  provocações  dos  reaccionários  os 
liberaes  não  pretendem  responder  com 
provocações.  O  liberalismo  não  persegue 
nenhuma  religião.  E'  tolerante  para  com 
todas.  Todas  as  crenças  reúne  e  protege 
sob  a  égide  da  liberdade.  E'  por  isso 
indifFerente  em  religião  ?  Não  !  Tem  so- 
bretudo a  religião  do  amor,  do  trabalho, 
da  verdade,  isto  é,  da  j)ropria  liberdade, 
e,  dentro  desta,  acceita  todas  as  outras, 
comtanto  que  a  não  ataquem.  Não  é 
contra  nenhuma,  mas  só  contra  os  seus 
desmandos   despóticos. 

A  egreja  nasceu  e  cresceu  com  a  liber- 
dade.    Em  luta  porfiada  contra  a  opressão 

*  Conferencia  no  Atheneu  Commercial  de  Braga,  em  8 
de  niarf-o  de  1902.    Excei-pto. 


282  Da  monarchia  pai-a  a  republica 


antiga,  ella  amparava  os  liumildes,  dando- 
Ihes  mesmo  accesso  no  seu  seio  a  todas 
as  dignidades.  Ella  acudia  jDela  indepen- 
dência dos  povos  pequenos  e  fracos.  Sob 
a  sua  protecção,  o  esforço  dos  fundadores 
da  nossa  nacionalidade   vingou. 

Assim  cresceu  e  foi  triumphando.  A  re- 
ligião christã  chega  a  ser  o  coroamento 
de  toda  a  arte,  architectura,  esculptura  e 
pintura,  e  toda  a  litteratura.  As  mesmas 
ordens  militares  que  combatem  pela  cruz, 
arroteiam  os  maninhos.  As  corporações 
d'officios  invocam  os  santos  da  egreja  para 
patronos.  E  a  sciencia  faz-se  também 
christã :  é  a  escholastica.  As  Universi- 
dades e  as  bibliothecas  são  ecclesiasticas. 
A  lingua  universal  é  a  da  egreja,  o 
latim.  A  própria  egreja  cria  e  protege 
uma  confraria  internacional  de  pedreiros 
livres,  a  franco-maçonaria,  que  leva  por 
toda  a  parte  a  arte,  a  industria  e  a 
sciencia  daquelles  tempos,  consagradas  ao 
culto  de  Deus.  E,  com  a  arte,  a  industria 
e  a  sciencia,  ella  dispõe  do  governo  reli- 
gioso, económico  e  politico  do  mundo. 
Ella  é  o  coração,  o  braço  e  a  cabeça  da 
civilização.      A    Europa    christã    constitua 


A  liberdade  e  a  egreja  28; 


mesmo  um  iinico  estado  feudal,  o  da 
egreja.  Os  seus  concílios  são  parlamentos, 
as  leis  são  decretadas  por  ella.  Ella  é  a 
justiça:  reparte  os  bens  e  os  reinos,  sagra 
e  desthrona  os  príncipes.  O  seu  império 
estende-se  a  todos  os  continentes.  E  fomos 
nós  que,  pagando  bizarramente  a  divida 
contrahida,  levámos  a  hegemonia  da  cruz  a 
toda  a-  parte  onde  levámos  com  o  nosso 
arrojo  a  bandeira  da  pátria,  e  pelas  nossas 
extraordinárias  descobertas  e  conquistas 
contribuímos  poderosamente  j^ara  tornar 
catholica,  universal,  a  egreja.  ik.  egreja 
assume  sobretudo  uma  auctoridade  irre- 
cusável, porque  os  grandes  moralistas  são 
seus.  Ella  povoa  a  terra  de  santos  mar- 
tyres.  O  eatholicismo  parece  effectivamente 
uma  instituição  divina. 

Mas  a  egreja,  como  todos  os  que  possuem 
um  dom  superior,  corria  o  risco  de  o  julgar 
não  relativo,  imperfeito  e  progressivo,  mas 
absoluto  e  intangível,  e  de  se  julgar  não 
simples  depositaria,  mas  senhor'a  delle. 
Ha  dois  modos  de  governar :  o  liberal  e 
humano,  dando-nos  nós  aos  outros,  sacri- 
ficando-nos  por  elles,  e  achando  sempre 
pouco   todo    o   bem   que   lhes  fazemos,  e  o 


284  Da  nionarchia  para  a  republica 

despótico  e  deshumano,  exigindo  tudo  dos 
outros,  imaginando  que  só  nós  os  podemos 
salvar,  sacriíicando-os  ao  nosso  predominio. 
E  o  governo  da  egreja  foi  successivamente 
mudando  do  bom  para  o  mau  modo. 

Pregando  a  pureza  de  costumes  contra 
a  relaxação  do  tempo,  a  egreja  foi  até 
proclamar  o  celibato  como  estado  de  santi- 
dade, e  começou  logo  assim  a  exercer  o 
despotismo  religioso,  oprimindo  o  coração, 
abafando  os  sentimentos  de  familia.  Só  o 
seu  amor  é  legitimo  !  Só  ella  pôde  amar 
e  merece  ser  amada !  Pregando  o  desin- 
teresse e  a  caridade  contra  a  venalidade 
e  a  cubica  reinantes,  foi  até  proclamar  a 
pobreza  como  estado  de  santidade,  e  passou 
assim  a  exercer  também  o  despotismo  eco- 
nómico, apodando  d'expiação  o  trabalho 
e  condemnando  como  um  pecado  toda  a 
empreza  profana.  Só  os  seus  serviços  são 
legítimos !  Só  a  ella  pertence  toda  a 
riqueza,  que  só  ella  é  capaz  de  bem  admi- 
nistrar !  Pregando  a  humildade  contra  o 
orgulho,  que  confundia  com  os  direitos 
da  razão,  foi  até  proclamar  a  obediência 
passiva,  a  escravidão  mental,  a  ignorância, 
como  estado  de  santidade,  e  chegou  assim 


A  liberdade  e  a  egreja  285 


a  exercer  ainda  o  despotismo  politico,  ata- 
cando a  liberdade  do  pensamento.  Só  a 
sua  opinião  é  legitima  !  A  ella  e  só  a  ella 
cabe  dictar  dogmaticamente  a  verdade ! 
Assim  nasceram,  com  os  votos  servis,  as 
congregações  religiosas,  primeiro  o  anacho- 
retismo  e  cenobitismo,  depois  as  ordens 
mendicantes,  e  por  ultimo  os  jesuítas.  E  o 
clericalismo  tornou-se  o  inimigo  declarado 
da  sociedade  e  da  civilização. 

Que  resultou  do  despotismo  da  egreja? 
o  seu  próprio  abatimento.  A  sciencia,  a 
industria  e  a  arte  apartam-se  delia.  Os 
povos  e  os  governos  revindicam  contra 
ella  a  sua  autonomia.  A  lei  seculariza-se. 
Eebenta  mesmo  o  protesto  da  Reforma. 
A  familia  christã  divide-se  por  lutas  san- 
guinolentas. E  quanto  mais  a  egreja  tenta 
snbmetter,  comprimir  o  espirito  humano 
para  o  unificar,  mais  se  isola  e  vai  per- 
dendo as  forças  espirituaes  e  materiaes 
que   em   si  concentrara. 

E  veja-se  !  Que  dá  a  liberdade  religiosa 
aos  povos  protestantes?  O  progresso.  Que 
dá  o  despotismo  religioso  ás  nações  catho- 
licas  ?  Torquemada  e  os  flagícios  e  as 
fogueiras   da  inquisição.     E   quaes    são   as 


28(3  Da  inonarcbia  para  a  republica 

gentes  mais  christàs  ?  As  protestantes. 
E'  até  nellas  que  se  abrem  ainda  as 
fontes  da  inspiração  em  cânticos  ao  ideal 
christão.  A  poesia  religiosa  deixa  a  pátria 
catholica  de  Dante  e  de  Tasso  pelas 
pátrias  protestantes  de  Milton  e  de  Klop- 
stock.  E,  no  meio  da  indifferença,  da 
desconfiança  e  da  hostilidade  crescente,  a 
egreja  só  a-  custo  encontra,  e  cada  vez 
menos,  onde  recrutar  os  seus  sacerdotes 
para  a  direcção  das  almas.  São  as  conse- 
quências desastrosas  do  seu  despotismo,  de 
que  ella  própria  é  victima  também. 

E'  esse  despotismo  que  cumpre  denunciar 
e  combater  intransigentemente,  sem  tré- 
guas, porque  não  cessou.  Se  a  egreja  já 
não  queima,  ainda  amaldiçoa,  cxcommunga, 
anathematiza.  Consente-nos  ella  porven- 
tura a  liberdade  dos  nossos  afectos  ? 
Podem  os  catholicos  portugueses  ter  sequer 
uma  pátria  religiosa  ?  Por  todos  os  meios 
o  clero  romano  tenta  prevalecer  sobre  o 
clero  nacional.  Os  prelados  representam 
pelas  congregações  estrangeiras  ;  e  a  cada 
passo  alii  se  desnacionaliza  o  seminário, 
o  púlpito,  o  confessionário.  E'  sobre  os 
nossos    paroclios,    é   sobre   os   nossos   fieis, 


A  liberdade  e  a  egreja  287 


que  mais  pesa  logo  o  jngo  ultramontano  ; 
e  por  isso  elles  deviam  ser  também  os  pri- 
meiros a  querer  sacudi-lo,  pugnando  pela 
liberdade  dentro  da  egreja. 

Torne-se  a  egreja  liberal  no  seu  regimen 
tanto  interno  como  externo.  Faça  por  toda 
a  parte,  como  entre  os  povos  mais  cultos  e 
livres,  a  que  não  pode  hoje  impor-se,  como 
na  França,  onde  a  moral  christã  do  padre 
discute  com  a  moral  leiga  de  Buisson, 
como  na  Suissa,  onde,  nas  parochias  mais 
pobres,  catholicos  e  protestantes  celebram 
os  officios  no  mesmo  templo,  como  nos 
Estados-Unidos,  onde  o  cardeal  Gibbons 
preside  a  um  congresso  de  religiões,  e, 
perante  as  assembléas  populares,  o  bispo 
catholico  se  alterna  na  mesma  cathedra 
com  o  reitor  d'Universidade  livre  pensador. 
Seja  a  egreja  liberal,  que  só  a  liberdade  a 
defenderá. 


I 


o  despotismo  económico 


Lembra  que,  pouco  antes,  tinham  vindo 
ao  Porto  dois  illustres  estadistas,  o  sr.  José 
Dias  Ferreira,  que  se  occupara  da  questão 
fazendaria,  e  o  sr.  Augusto  Fuscliini,  que 
versara  o  ponto  mais  j)alpitante  dessa  ques- 
tão, o  regimen  da  nossa  divida  externa. 
Elle,  orador,  não  podia  acrescentar  nada 
sobre  os  mesmos  assumptos,  tão  proficien- 
temente desenvolvidos.  Mas  uma  questão 
lia  que  é  dominante :  qual  a  causa  de 
todos  os  males  financeiros  diagnosticados, 
quaes  os  remédios  a  aplicar-lhes  ?  Era  o 
que  ia  examinar. 

Todos  os  nossos  males  financeiros  deri- 
vam   dum,    que    é    o    maior    de    todos :    a 

*  Conferencia  no  Grémio  Comraercial  do  Porto  em  22 
■de  março  de  1902,  segundo  os  extractos  do  Commercio  do 
Porto  e  do  Jornal  de  Xoticias,  revistos  pelo  auctor. 

19 


290  Da  monarchia  para  a  republica 

opressão  económica  que  péza  esmagadora- 
mente sobre  o  paiz  productor. 

O  despotismo,  mesmo  quando  tão  illus- 
trado  como  o  pombalino,  nunca  \'inga 
frutos  sazonados.  Os  povos  nem  o  pro- 
gresso querem  que  lhes  imponham,  e  até 
ás  vezes  parece  que  jDreferem  destrui-lo 
para  em  seguida  o  refazerem  por  si,  pelo 
seu  próprio  esforço.  Ainda  o  marquês  de 
Pombal  não  tinha  morrido,  e  já  a  sua  obra 
formidanda,  assombrosa,  de  reconstrucção 
nacional  ameaçava  ruina  por  todos  os 
lados.  E,  dentro  em  pouco,  o  despotismo 
politico,  que  nas  suas  mãos  tudo  subju- 
gara, era  presa  dos  assaltos  senhoriaes  e 
clericaes,  que  de  novo  nos  escravizavam  ás 
insolências  dos  estrangeiros. 

Para  nos  redimirmos  foi  necessário  que 
a  soberania  jDopular  acordasse  no  glorioso 
anno  de  1820.  Desde  então,  a  luta  liberal 
tem  sido,  a  um  tempo,  religiosa,  económica 
e  politica. 

Os  nossos  patriarchas  do  liberalismo  ata- 
caram a  fundo  muitos  dos  antigos  privilé- 
gios, e  a  sua  obra  gigantesca  de  destruição 
ainda  hoje  maravilha  e  espanta  a  quantos 
imparcialmente    a   contemj)lam   em  toda    a 


o  despotismo  económico  291 


sua  grandeza.  Mas  não  bastava  derruir  o 
passado  despótico,  corria-nos  egualmente 
o  imperioso  dever  de  fundar  sobre  a  liber- 
dade um  novo  governo  de  vida,  resusci- 
tando  para  isso  a  arte,  a  industria  e  a 
sciencia  pátria,  e,  com  ellas,  o  alto  espirito 
collectivo  da  nação,  quasi  de  todo  extincto. 
A  arte  unir-nos-ia  pelo  acordo  dos  senti- 
mentos e  aspirações  communs,  a  industria 
pela  prestação  dos  serviços  reciprocos,  e  a 
sciencia  pela  formação  da  razão  social,  da 
opinião  pnblica.  Tal  tem  sido  a  empreza 
do  Portugal  contemporâneo,  cada  dia  mais 
ancioso  d'avançar  livremente  pelos  cami- 
nhos da  civilização. 

A  restauração  da  arte,  iniciou-a  sobretudo 
Garrett,  tendo  a  seu  lado,  a  imprimir-lhe 
toda  a  uncção  religiosa,  Herculano,  o  épico 
adversário  do  clericalismo. 

Fomentar  a  industria  foi  a  grande  pre- 
occupação  dos  regeneradores  de  1851, 
principalmente  de  Fontes.  Mas  Fontes, 
o  intrépido  propulsor  dos  melhoramentos 
materiaes  entre  nós  pela  construcção  de 
vias  de  communicação,  soífreu  a  illusão 
de  momento,  de  que  pela  livre  troca 
entre    os    povos    se    diífundiria    por    toda 


292  Da  monarchia  para  a  republica 


a  parte  a  prosperidade  económica.  As 
estradas,  os  caminhos  de  ferro,  os  tele- 
graphos  são  excellentes,  sem  dúvida,  para 
a  aproximação  entre  individuos  e  nações, 
mas  é  necessário  regular  pelos  principios 
da  justiça  essa  aproximação  para  que  não 
redunde  em  luta  perigosa.  O  livre  cam- 
bismo,  sob  as  aparências  falazes  da  liber- 
dade, envolveu-nos  numa  guerra  para  que 
não  estávamos  de  prompto  apercebidos. 
Se,  a  princijiio,  o  franqueamento  das  rela- 
ções internacionaes  aproveitou  á  expansão 
das  nossas  forças  productoras,  em  breve 
a  invasão  dos  mercados  nacionaes  pelas 
forças  superiores  dos  centros  estrangeiros 
de  producção  não  só  impediu  o  íiore- 
cimento  de  novas  industrias  entre  nós, 
mas  vibrou  mesmo  golpes  mortaes  em 
muitas  das  nossas  antigas  industrias.  Nós 
não  tínhamos  sequer  estendido  para  a 
j)ermuta  internacional  a  nossa  rede  de 
communicações,  acrescentando  ás  vias  ter- 
restres as  marítimas  pela  reconstituição 
da  nossa  marinha  mercante.  O  estran- 
geiro, com  quem  não  podíamos  competir 
industrialmente,  tornou-se  não  só  o  nosso 
vendedor,    mas     até    o    nosso     comprador 


I 


o  despotismo  económico  203 

soberano.  O  resultado  foi  que  a  producção 
cerealífera,  que  dera  mesmo  para  exportar, 
veiu  a  ser  insuíiiciente  para  acudir  ás 
nossas  necessidades  d'alimentação  ;  e  os 
nossos  géneros  d'exportação,  ainda  o  prin- 
cipal, o  vinho,  não  encontrando  quasi 
intermediários  portugueses,  iam  perdendo 
o  dominio  directo  dos  mercados  de  con- 
sumo, até  o  do  Brazil,  e  ficando  á  mercê 
das  casas  importadoras  estrangeiras.  Che- 
gou-se  assim  a  um  deficit  económico  egual 
ao  dos  dias  mais  dolorosos  da  invasão 
francesa.  Dahi  empréstimos  sobre  em- 
préstimos. Pode  dizer-se  que,  sob  este 
regimen,  com  a  industria  d'obras  publicas, 
em  que  principalmente  se  concentrara  a 
actividade  da  nação,  dirigida  por  estran- 
geiros, estrangeira  já  a  própria  moeda, 
não  tardaria  que  em  Portugal  nada  fosse 
nacional,  nada,  a  não  ser  o  devedor. 

Nesta  situação  tão  precária,  qualquer 
forte  abalo  poria  em  risco  a  nossa  vida 
económica.  Produziu-o  o  conflicto  de  1890 
com  a  Inglaterra :  muitos  commerciantes 
tiveram  de  fazer  liquidações  ruinosas  no 
estrangeiro,  deu-se  o  crack  dos  bancos 
e     companhias,    comprometidos    em    maus 


294  Da  monarchia  para  a  repablica 


negócios,  para  não  dizer  peor,  decretou-se 
a  inconvertibilidade  da  nota  e  o  estado 
abriu  falência. 

O  desastre  fora  vaticinado.  Xesta  mesma 
cidade,  Oliveira  Martins,  com  Alberto  Sam- 
paio, Malheiro  Dias  e  Pereira  de  Maga- 
lhães, haviam  soltado  o  grito  d'alarme  em 
prol  da  nossa  producção  agrícola  e  fabril,  e 
Joaquim  de  Vasconcellos  fizera  a  campanha 
pelas  nossas  tradicionaes  industrias  domes- 
ticas. E  os  seareiros  do  sul  e  os  vinha- 
teiros do  norte  tinham  reclamado  com 
alvoroço. 

A  obra  da  nossa  defesa  económica  fora 
mesmo  encetada.  A  regeneração  não  a 
descurara  inteiramente :  desde  Fontes,  a 
quem  se  devem  os  Institutos  industriaes 
e  commerciaes  e  o  Instituto  agrícola,  e 
que  foi  quem  apresentou  no  parlamento 
a  primeira  proposta  d"ensino  secundário 
23ara  a  classe  media,  até  António  Augusto 
d' Aguiar,  que  deu  um  tão  poderoso  im- 
pulso nas  escholas  profissionaes  para  o 
operariado.  E,  durante  o  governo  pro- 
gressista, com  Braamcamp  na  jjresidencia 
do  conselho,  os  ministros  Marianno  de 
Carvalho  e  Emygdio  Navarro,  para  obtém- 


o  despotismo  económico  295 

perar  ás  instancias  da  opinião,  publicaram 
providencias  de  protecção  económica,  espe- 
cialmente de  protecção  cerealifera  e  vini- 
cola.  Mas  tudo  fora  pouco  para  conjurar 
a  crise. 

Era  indispensável  acelerar,  com  vigor 
e  tenacidade,  o  fomento  da  producção, 
completando  assim  harmonicamente  para  a 
nossa  autonomia  e  25i'Ogi'6sso  económico 
o  fomento  da  circulação,  que  fora  quasi  o 
exclusivo   pensamento   governamental. 

Ainda  em  meio  da  crise,  Thomaz  Ribeiro 
lançou  os  alicerces  da  nossa  legislação 
socialista ;  o  próprio  Oliveira  Martins 
pôde,  extinctos  em  1891  os  tratados  de 
commercio,  acentuar  internacionalmente  o 
novo  regimen,  referendando  as  pautas  pro- 
teccionistas de  1892;  e,  nesse  mesmo  auno, 
o  ministro  Pedro  Victor  da  Costa  Sequeira 
formulava  preciosos  dictames  d'assistencia 
á  agricultura  e  á  industria.  Assim  se  pro- 
clamou ofiicialmente  desde  então  o  pro- 
gramma  da  nossa  restauração  económica 
pela  solidariedade  entre  o  caj^ital  e  o  tra- 
balho e  entre  todas  as  industrias  nacionaes. 

Foi  sobre  este  passado  que  se  constituiu 
o   gabinete   de   1893,   a   que   o   orador  per- 


296  Da  monarchia  para  a  republica 


tenceu.  Resumirá  a  obra  governamental 
desse  anno. 

Antes  de  mais  nada,  fez-se  a  revisão  or- 
çamental, operando-se,  principalmente  pelo 
ministério  das  obras  publicas,  profundas 
reducções  de  despesa.  E  logo  se  tratou, 
por  um  lado,  do  problema  da  nossa  divida 
externa,  que  se  resolvia  honradamente, 
abrindo  aos  credores  a  esperança  d'integral 
pagamento,  e,  por  outro  lado,  e  até  para 
essa  esperança  não  se  malograr,  do  nosso 
problema  económico,  que  tinha  de  ser 
resolvido  pelo  escrupuloso  aproveitamento 
de  todos  os  nossos  recursos  remanescentes. 

Urgia  consolidar  a  obra  dispendiosíssima, 
que  tantos  sacrifícios  importara,  do  fomento 
da  circulação,  que  estava  em  risco  de  se 
desmantelar  por  culpa  da  nossa  perdulária 
administração.  Ordenou-se  a  reparação  das 
estradas  arruinadas  ;  segurou-se  a  supre- 
macia do  estado  no  dominio  publico  dos 
caminhos  de  ferro ;  providenciou-se  para  o 
acabamento  e  a  exploração  do  porto  de 
Lisboa,  e  para  as  reparações  das  avarias 
dos  portos  de  Leixões  e  do  Funchal ;  adqui- 
riram-se  dragas  para  as  barras  d'Aveiro  e 
da  Fiííueira  da  Foz  :  dotou-se  eficazmente 


o  despotismo  económico  297 


a  construcção  dos  edifícios  dos  pharoes, 
cujo  material,  comprado  havia  annos,  jazia 
quasi  ao  abandono,  continuando  a  nossa 
costa  a  ser  infamada  com  o  nome  de  costa 
negra  da  Europa ;  tentaram-se  as  primeiras 
experiências  para  a  ligação  telephonica 
entre  Lisboa  e  Porto  e  ligou-se  de  facto 
pelo  cabo  submarino  o  continente  com  os 
Açores ;  e  decretou-se  o  serviço  d'aviso 
das  cheias  e  tempestades  em  beneficio  das 
nossas  populações  ribeirinhas  e  maritimas. 
Ao  mesmo  tempo,  adeantava-se  a  obra 
do  fomento  da  producção.  Para  se  avaliar 
mais  exactamente  das  forças  económicas 
do  paiz,  procedeu-se  a  um  ensaio  cadastral 
e  determinou-se  a  estatistica  industrial  e 
bancaria.  Protegeu-se  o  trabalhador,  orga- 
nizando a  inspecção  industrial,  limitando  o 
trabalho  dos  menores  e  das  mulheres  nas 
fabricas,  multiplicando  e  tornando  pratico 
o  ensino  technico,  cooperando  na  promul- 
gação dos  sjmdicatos  agrícolas,  preparando 
a  mais  fácil  collocação  e  a  melhor  remunera- 
ção do  operário  pela  regulamentação  das 
bolsas  de  trabalho,  e  garantindo  a  validade 
dos  contractos  entre  patrões  e  operários  pelo 
estabelecimento  em  Lisboa  do  primeiro  tri- 


298  Da  nionarchia  para  a  republica 


bnnal  d'arbitros  avindores.  E  protegeu-se 
especialmente  a  industria  agricola,  promo- 
vendo de  modo  pratico  a  colonização 
alemtejana,  distribuindo  pela  primeira  vez 
sementes  seleccionadas  de  trigos,  adubos  e 
preparados  cúpricos  ;  a  industria  vinicola, 
subsidiando  a  primeira  adega  social,  em 
Vianna  do  Alemtejo,  orientando  o  fabrico 
e  commercio  dos  nossos  vinhos,  e  pla- 
neando a  sua  propaganda  nos  mercados 
estrangeiros ;  a  sericicultura,  munindo  de 
todos  os  meios  de  trabalho  e  d'acção  a 
estação  ofíicial  de  Mirandella,  e  auxiliando 
a  iniciativa  particular  na  Guarda  e  em 
Coimbra ;  e  a  aquicultura,  creando  a  pri- 
meira estação  aquicola  em  Villa  do  Conde. 
E  tudo  isto  se  fez  sem  deficit^  um  verda- 
deiro escândalo  i^ara  os  nossos  hábitos 
governativos.  E  tudo  isto  se  fez  em  dez 
mezes,  de  fevereiro  a  dezembro  de  1893, 
liberalmente,  descentralizadoramente,  im- 
pondo o  cumprimento  do  dever  a  todos, 
e  atendendo  desveladamente  á  sorte  dos 
humildes  e  pobres,  um  completo  horror 
para  as  cubicas  vorazes  de  dentro  e  de 
fora  do  paiz.  Os  dois  ministros  responsáveis 
por  tamanhos  delictos,  o  sr.  Augusto  Fus- 


o  despotismo  económico  299 


cliini  e  elle,  orador,  acusados  de  governar 
com  princípios,  foram  portanto  sacrificados, 
proscriptos. 

A  conspiração  que  os  derrubou,  apodera-se 
de  chofre  do  governo.  Centraliza  dictato- 
rialmente  todos  os  poderes  nas  mãos  do 
chefe  do  estado,  e,  alimentando  todos  os 
egoísmos  e  ameaçando  todos  os  direitos, 
erige  sobre  o  paiz  o  predominio  clerical  e 
financeiro.  O  governo  chamado  do  engran- 
decimento do  poder  real  foi  sobretudo  o 
governo  do  engrandecimento  do  poder  da 
theocracia  e  da  plutocracia,  que  desde  1886 
a  1891  tinham  vindo  ganhando  força  e 
audácia  j^ara  nos  assoberbarem.  Foi  elle 
que,  abençoado  e  condecorado  pelos  cle- 
ricaes,  suspendeu  o  inquérito  ás  casas 
religiosas  exigido  pela  opinião,  que  a  morte 
de  Sarah  de  Mattos  sobresaltara  pungente- 
mente, infundindo-lhes  alentos  para  tenta- 
rem uma  grande  mobilização  de  forças  nos 
festejos  antoninos.  E  foi  elle  que,  conferindo 
constitucionalmente  ao  poder  executivo  o 
arbítrio  para  lançar  e  cobrar  impostos 
independentemente  do  parlamento,  intro- 
duzindo na  camará  dos  deputados,  com  o 
titulo  de  representação  das  forças  vivas  do 


300  Da  monarchia  pai'a  a  republica 


paiz,  elementos  da  agricultura,  industria  e 
commercio  que  não  eram  escolhidos  pelas 
suas  classes,  e  cujos  interesses  por  isso 
não  estavam  identificados  com  os  delias,  e 
dissolvendo  as  livres  associações  commer- 
cial,  dos  lojistas  e  industrial,  de  Lisboa 
para  as  substituir  por  uma  oligarchia  com 
o  nome  de  camará  de  commercio  e  d'in- 
dustria,  se  apartou  radicalmente  da  massa 
trabalhadora,  que  devia  ser  o  seu  sustentá- 
culo, ficando  financeiramente  escravizado 
aos  magnates  plutocratas  que,  reabrindo 
altiva  e  até  insultuosamente  todas  as  nossas 
questões  financeiras,  já  derimidas,  o  força- 
ram a  rasgar  o  decreto  da  reconstituição 
da  Companhia  real  dos  caminhos  de  ferro 
do  norte  e  leste  e  a  portaria  do  levan- 
tamento do  deposito  da  Companhia  dos 
caminhos  de  ferro  do  sul  do  Algarve,  e  a 
subscrever  contractos  tão  leoninos  como 
o  do  porto  de  Lisboa  e  liquidações  onerosas 
como  a  do  porto  de  Leixões.  Eis  as  con- 
sequências da  dictadura.  Xunca  tivemos 
governo  politico  mais  fraco  do  que  esse  go- 
verno de  dictadores,  que  jactanciosamente 
se  apellidava  governo  de  força !  E,  —  só 
para  isso  lhe  servia  a  omnipotência  !  —  sob 


o  despotismo  económico  301 

O  seu  arbítrio,  nenhuma  transacção  tinha 
seguro  o  dia  d'amanhã. 

Este  despotismo  triumphante  ainda  per- 
siste. A'  sua  sombra  se  tèem  multiplicado 
os  monopólios.  E,  agora  mesmo,  estamos 
ameaçados  de  mais  um,  o  da  cultura  da 
vinha.  Devíamos  exultar  com  a  abundân- 
cia do  vinho,  redobrando  de  propaganda 
para  o  aperfeiçoamento  da  sua  fabricação 
e  para  a  sua  fácil  collocação  no  estran- 
geiro ;  e  mal  de  nós,  se  os  productores 
nacionaes  se  vão  tornando  cúmplices  do 
despotismo   reinante  ! 

Para  valer  á  nossa  actividade  económica, 
é  absolutamente  necessário  dar-lhe  um  go- 
verno liberal  I 

O  primeiro  artigo  desse  governo  foi 
enunciado  pela  Associação  industrial  por- 
tuense: a  protecção  pautal.  Temos  efecti- 
vamente d'organizar  antes  de  mais  nada  a 
nossa  defesa  contra  as  invasões  dos  com- 
petidores externos. 

Mas  a  pauta  precisa  corrigida,  elimi- 
nando-se  sobretudo  delia  as  taxas  sobre  os 
géneros  alimentícios,  como  o  arroz,  o  baca- 
lhau, o  assucar,  o  assucar  que  é  hoje  um 
expoente  de  civilização,  e  em  cujo  consumo 


302  Da  monarchia  para  a  republica 


nós  estamos  abaixo  de  todas  as  outras  na- 
ções civilizadas  ;  precisa  aditada  com  a  taxa 
á  navegação  estrangeira,  para  protegermos 
sem  mais  perda  de  tempo  a  nossa  marinha 
mercante,  no  intuito  muito  especialmente 
de  conseguirmos  communicações  regulares 
com  as  colónias  e  com  o  Brazil ;  e  precisa 
remodelada,  para  que  á  dupla  pauta,  conti- 
nental e  ultramarina,  que  só  visa  os  inte- 
resses da  metrópole,  se  substitua  uma 
federação  aduaneira,  que  proteja  por  egual 
a  metrópole  e  as  colónias,  de  modo  a 
constituirmos  um  Portugal  maior,  em  que 
se  enlancem  estreitamente  com  a  família 
portuguesa  todos  os  povos  confiados  histo- 
ricamente á  nossa  guarda  e  hegemonia. 
E  ha  de  esta  defesa  não  se  volver  para  fora 
em  ataque  a  ninguém,  mas,  contendo  em 
limites  inofifensivos  a  importação  estran- 
geira, permittir  as  concessões  apropriadas  á 
celebração  de  tratados  do  commercio  que 
desafrontem  nos  mercados  lá  de  fora  a  cor- 
rente da  nossa  exportação ;  e  ha  de  esta  pro- 
tecção beneficiar  não  só  capitalistas,  proprie- 
tários dos  campos  e  das  fabricas,  mas  toda 
inteira  a  classe  trabalhadora,  difiundindo-se 
sobretudo  pelos  operários  e  jornaleiros. 


o  despotismo  económico  303 


Proclamada  assim  a  nossa  autonomia 
perante  a  industria  estrangeira,  organize-se 
liberalmente  a  economia  interna  da  nação  : 
a  do  estado,  tanto  a  do  poder  legislativo, 
revindicando  para  o  parlamento  a  votação 
annual  do  orçamento,  como  a  do  poder 
executivo,  descentralizando  os  serviços 
públicos,  nomeadamente  os  fiscaes,  e  con- 
ferindo toda  a  auctoridade,  com  toda  a 
responsabilidade,  ao  funcionalismo,  que 
deve  reduzir-se  ao  seu  numero  impre- 
scindível, mas  deve  remunerar-se  e  dignifi- 
car-se  justamente ;  a  das  corporações 
territoriaes,  restituindo-lhes  as  franquias 
perdidas,  para  que  não  continuem  a  ser, 
como  hoje,  meras  succursaes  do  Terreiro 
do  Paço,  obrigadas  a  cobrar  as  receitas 
que  lhes  mandam  votar,  mas  que  não 
consentem  sequer  que  ellas  administrem  ; 
a  das  associações  de  classe,  abolindo  a 
vexatória  auctorização  prévia  que  hoje  im- 
pende sobre  a  sua  creação  ;  e  ainda  a  da 
própria  officina,  introduzindo  legislativa- 
mente a  justiça  nas  relações  entre  o  patrão 
e  o  operário. 

Dentro  desta  organização,  proceda-se  á 
revisão     equitativa    dos    nossos    impostos. 


304  Da  monarchia  para  a  republica 

extinguindo,  como  propoz  o  sr.  Augusto 
Puschini  em  1893,  os  de  consumo,  contra 
os  quaes  protestaram  ainda  ultimamente 
no  parlamento,  com  a  eloquência  dos  alga- 
rismos, os  médicos  Oliveira  Monteiro, 
do  Porto,  e  Moreira  Júnior,  de  Lisboa, 
acusando-os  da  decadência  physica  do 
nosso  povo ;  e  opere-se  um  forte  movi- 
mento de  cooperativismo  publico,  suppri- 
mindo  e  socializando  os  monopólios,  quer 
sejam  monopólios  industriaes,  como  o  dos 
tabacos  e  o  dos  phosphoros,  do  estado,  e 
tantos  outros,  dos  municij^ios,  quer  sejam 
monopólios  commerciaes,  principalmente  o 
da  moeda  fiduciária,  que,  necessária  ás 
transacções,  não  deve  degenerar  em  meio 
de  enriquecimento  dalguns  privilegiados, 
para,  por  intermédio  delles,  o  estado,  que- 
brando-a  e  depreciando-a,  lançar  sobre  a 
nação  successivos  impostos,  que  recaem  em 
grande  parte  sobre  o  salário  e  portanto 
sobre  o  sustento  dos  pobres,  mas  deve,  sim, 
não  se  limitando  a  uma  funcção  passiva, 
animar  e  amparar  todas  as  iniciativas  pro- 
ductoras,  sobretudo  as  mais  desvalidas, 
levando-lhes  generosamente,  embora  com 
as  prudentes  garantias,  a  assistência  publica 


o  despotismo  económico  305 


do  capital.  Por  isso,  mesmo  no  actual 
regimen,  o  que  urgia,  era,  ao  contrario  do 
que  o  governo  propõe  no  projecto  de  con- 
tracto entre  o  estado  e  o  banco  de  Portugal 
snbmettido  ás  cortes,  reduzir  o  estado  a 
sua  divida  ao  banco  para  este  ir  queimando 
íis  notas  excessivas,  como  fizeram  o  Brazil 
e  a  Espanha,  e,  desoprimido  dos  emprésti- 
mos públicos,  ramificar  pelo  paiz  as  suas 
agencias  em  auxilio  dos  syndicatos  agríco- 
las e  das  associações  industriaes  de  classe. 

E,  com  o  producto  dos  impostos  e  dos 
rendimentos  públicos,  além  do  estado  e 
dos  municípios  se  irem  resgatando  fielmente 
das  suas  dividas,  cuide-se  zelosamente  de 
prestar  serviços  de  fomento,  como,  por 
exemplo,  o  da  construcção  dos  ramos  ferro- 
viários que  tanta  falta  fazem  ao  norte  e  ao 
sul  do  paiz,  e,  aqui  mesmo,  o  da  transfor- 
mação em  porto  commercial  do  porto 
d'abrigo  de  Leixões,  e  cuide-se  amoravel- 
mente  da  hygiene,  da  instrucção,  e  da 
independência  e  elevação  moral  do  traba- 
lhador. 

Xão  basta,  porém,  que  os  poderes  públi- 
cos cumpram  os  seus  deveres,  cumpram-nos 
igualmente  os  particulares.     E'  fundamen- 

20 


306  Da  moDarchia  para  a  republica 

tal.  A'  voz  da  imprensa,  tão  dignamente 
representada  pelo  Commercio  do  Porto,  se 
estão  construindo  nesta  cidade  casas  baratas 
para  operários.  Prosiga-se  no  generoso 
empenho.  E  tome-se  desde  já  o  compro- 
misso impreterivel  de  cooperar  para  uma 
lei,  de  justiça  e  piedade,  de  seguro  contra 
os  accidentes  do  trabalho,  para  que  não 
mais,  na  partilha  social  entre  o  patrão  e  o 
oj)erario,  vão  quasi  todos  os  proventos- 
e  lucros  para  aquelle  e  quasi  todos  os 
riscos   e  damnos  para  este. 

Hoje,  os  pobres,  esquecidos  e  maltra- 
tados pelos  ricos,  desinteressam-se  das 
reclamações  das  classes  j^roductoras.  Mas^ 
quando  todos  os  membros  delias,  unidos 
entre  si  pelo  interesse  commum  do  capital 
e  do  trabalho,  se  constituírem  democratica- 
mente, ellas  possuirão  uma  força  invencível 
de  governo,  que  ha  de  assegurar  á  nação  a- 
liberdade  e  a  prosj)eridade  económica. 


Formas  de  governo 


Nada  peor  do  que  a  ignorância  em  que 
os  membros  duma  nação  estejam  dos  seus 
direitos  e  dos  seus  deveres.  Nada  mais 
necessário  do  que  formar  a  opinião  para 
que  a  opinião  governe.  Eis  o  alto  intuito 
da  educação  civica.  Em  obediência  a  esse 
intuito,  é  que  determinou  o  tema  para  a 
inauguração  da  serie  de  conferencias  pro- 
movidas este  anno  pelo  Atheneu  commer- 
cial  de  Lisboa,  escolhendo  entre  todas  as 
questões  que  podem  interessar  a  esse  tema, 
a  que  lhe  pareceu  de  mais  actualidade  —  a 
das  formas  de  governo. 

Não  fala  como  falaria  num  comicio  elei- 
toral,  na  praça  publica.     Falará  didactica- 


*  Conferencia  realizada  no  Atheneu  Coinmercial  de 
Lisboa,  na  noite  de  31  d'outiibi-o  de  1903.  Segundo  o 
extracto  de  O  Mundo. 


308  Da  nionarcliia  para  a  republica 


mente,  permittam-lhe  o  termo,  como  um 
professor,  com  imparcialidade,  e,  não  dirá, 
sem  paixão,  mas  com  a  paixão  da  ver- 
dade, da  justiça  e  do  patriotismo,  como, 
ainda  não  ha  muito,  o  grande  historia- 
dor Mommsen,  que,  fazendo  a  critica  do 
governo  da  sua  nação,  não  duvidou  opor 
á  condemnação  fulminada  pelo  imperador 
contra  o  partido  socialista  o  elogio  do 
mesmo   partido   e   do   seu   chefe,  Bebei. 

Uma  lei  sobreleva  a  todas  na  historia 
da  humanidade  :  nenhuma  instituição  vive, 
se  sustenta  e  radica  senão  pelo  seu  amor 
á  liberdade.  A  historia  da  humanidade 
não  é  senão  a  historia  da  liberdade,  que 
mais  ainda  do  que  a  memoria  dos  heroes 
que  a  tornaram  vietoriosa,  consagra  so- 
bretudo a  dos  seus  raartyres  e  das  suas 
victimas. 

Yeja-se  o  mappa  das  nações.  Quaes  são 
as  nações  em  (jue  as  instituições  estão 
mais  inabaláveis  ?  São  as  nações  que  se 
têem  consubstanciado  com  a  liberdade : 
os  Estados-Unidos  na  America  do  Norte, 
e  a  Suissa  na  Europa.  Porque  é  que  a 
Inglaterra  é  ainda  um  colosso  monarchico  ? 
E,  porque  dentro  delia  vão  cabendo  todas 


Formas  de  governo  309 

as  liberdades,  como  téem  o  Canadá,  o 
Cabo.  Dentro  do  império  britannico  cabe 
até  a  republica  dos  Estados-Unidos  da 
Austrália.  A  Áustria  conta  com  o  lealismo 
monarchico  dos  povos,  j)orque  dentro  da 
monarchia  a  Hungria  vai  conquistando 
todos  os  direitos  de  autonomia  —  até  o  de 
possuir  um  exercito  próprio  ella  revindica 
actualmente  — ,  e  a  Bohemia  espera  conse- 
guir, como  a  Hungria,  a  sua  autonomia 
parlamentar.  Do  mesmo  modo,  na  Scandi- 
navia,  onde  cada  Estado  vai  sob  a  monar- 
chia pugnando  pela  sua  independência  até 
haver  já  conseguido  cada  um  a  sua  indepen- 
dência militar,  e  pretender  mesmo  agora 
uma  representação  consular  e  diplomática 
própria.  Ao  mesmo  tempo,  na  AUemanha, 
apesar  do  génio  superior  do  imperador,  a 
centralização  militar  vai  levantando  em 
ondas  o  partido  republicano  socialista. 
Quaes  são  as  nações  que  se  derruem  e  se 
esphacelam?  São  as  que  se  tornaram  in- 
compatíveis com  a  liberdade. 

Esta  lei  aplica-se  rigorosamente  até 
mesmo  ás  nações  republicanas.  Ahi  está 
a  França.  As  instituições  republicanas  ali 
sofreram    o    assalto    de    todas    as  reacções 


310  Da  monarchia  para  a  republica 

conjuradas  no  nacionalismo,  quando,  afron- 
tando os  direitos  do  proletariado,  manda- 
vam acutilar  os  manifestantes  do  j)rimeiro 
de  maio.  Como  se  têem  salvado  ?  Pelo 
programma  socialista  liberal  de  Waldeck 
Bousseau,  que  está  sendo  rigorosamente 
applicado   pelo   ministério    Combes. 

E'  que  a  nação  não  é  só  o  estado. 
Ha  muitas  republicas  a  implantar,  além  da 
republica  no  estado.  Por  isso,  quando 
se  accusa  o  nosso  povo  de  indifferente, 
é-se  injusto  para  com  elle,  porque  elle  está 
lutando  por  outros  direitos  tão  sagrados 
como  os  da  representação  parlamentar,  a 
começar  nos  direitos  de  existência.  Desa- 
foguem-no,  deem-lhe  liberdade,  e  elle  irá 
intervindo  cada  vez  mais  directamente  nos 
negócios  públicos.  Por  isso  também  tan- 
tas vezes  a  culpa  dos  liomens  que  se  ligam 
a  partidos  e  instituições  condemnaveis,  tem 
atenuante  na  obsessão  em  que  elles  estão 
de  pugnar  pelos  direitos  e  interesses  da 
sua  corporação,  da  sua  localidade,  da  sua 
classe. 

A  lei  de  que  só  vivem  instituições 
liberaes,  verifica-se  na  nossa  historia  con- 
temporânea. 


Formas  de  governo  311 


De  1852  a  1885,  tivemos  um  período 
de  liberdade  e  de  paz.  Foi  um.  periodo  de 
ascenção  liberal.  Aboliu-se  a  pena  de  morte, 
isto  é,  proclamou-se  pela  lei  a  liberdade 
de  viver.  E  proclamou-se  este  direito  em 
toda  a  sua  elevação,  dando  a  todos,  até 
aos  indígenas  das  nossas  colónias,  onde 
se  acabou  com  a  escravatura,  o  direito  de 
viver  espiritualmente,  com  uma  personali- 
dade moral.  Ampliou-se  a  liberdade  reli- 
giosa, tornando  efectiva  a  liberdade  de 
crenças  pela  decretação  do  registo  civil. 
Ampliou-se  a  liberdade  económica  pela 
extincção  dos  morgados,  pela  abolição 
dos  monopólios  e  pela  creação  legal  das 
associações  de  socorros  mútuos  e  coope- 
rativas. Ampliaram-se  as  liberdades  poli- 
ticas j)elo  alargamento  do  sufrágio  e  pela 
representação  das  minorias.  Descentraliza- 
ram-se  os  municípios,  deram-se  as  máximas 
franquias  aos  districtos,  e  até  na  constitui- 
ção se  implantou  o  principio  liberal  da 
eleição  parcial  da  camará  dos  pares.  Nesse 
periodo,  que  começou,  ouvindo-se  a  voz  do 
grande  tribuno  José  Estevam,  parece  que 
resoaram  até  final  os  acentos  do  seu  verbo 
eloquente. 


312  Da  monarchia  para  a  republica 


Foi  isento  d'erros  esse  período?  Xão 
foi.  Mas  muito  se  deve  absolver  a  esses 
grandes  liberaes,  porque  a  sua  culpa  esteve 
principalmente  em  acreditarem  em  excesso 
nas  forças  indi^dduaes.  Inspirando-se  no 
liberalismo  inglês,  eram  liberaes  até  ao  indi- 
vidualismo. Dalii  os  erros  económicos  que 
cometeram,  abraçando  illusoriamente  pelo 
prestigio  da  palavra  o  livre  cambismo, 
que  era  a  luta  do  nosso  productor,  ainda 
fraco,  sem  instrucção,  sem  bem  estar,  contra 
o  productor  estrangeiro,  principalmente 
inglês,  já  vigorosamente  apercebido  para 
essa  luta.  E  foram  tão  tolerantes,  que 
muitas  vezes  a  sua  tolerância  se  converteu 
em  relaxação. 

Esse  período  fecha  com  a  morte  de  Sam- 
paio, Braamcamp  e  Fontes.  Já  nos  seus 
últimos  tempos,  como  que  se  annunciava 
uma  reacção  ;  e  é  lastima  que,  tendo  come- 
çado pela  abolição  da  pena  de  morte, 
acabasse  pelo  restabelecimento  delia  para 
os  crimes  militares.  Por  isso  é  no  fim 
deste  período  que  entra  a  avultar  o  par- 
tido republicano. 

De  1886  até  hoje,  sopra  um  vento  impe- 
rialista.    A   inspiração,   em  vez   de  vir  da 


Formas  de  crovemo  313 


Inglaterra  liberal,  vem  da  Allemanha  cesa- 
rista.  O  partido  progressista  faz  a  centra- 
lização dos  serviços  rnateriaes.  Segue-se 
o  partido  regenerador  no  poder,  e  faz  a 
centralização  dos  serviços  espirituaes  na 
instrucção,  e,  depois,  dissolve  as  associa- 
ções, rasga  as  regalias  municipaes,  quasi 
extingue  os  districtos,  acaba  com  a  repre- 
sentação das  minorias,  legisla  dictato- 
rialmente  e  faz  até  mesmo  dictadura 
constitucional.  E,  por  fira,  para  que  toda 
esta  centralização  não  suscite  uma  revolta 
violenta,  faz  a  lei  sobre  o  anarchismo, 
que  ó  uma  ameaça  suspensa  sobre  todos 
os  liberaes. 

A  consequência  de  tudo  isto  foi  o 
engrandecimento  do  poder  real,  que,  contra 
a  constituição,  se  proclamava?  Não.  Se  o 
partido  repulicano  propriamente  se  não 
desenvolveu,  a  ideia  republicana  alastrou-se 
por  toda  a  parte.  A  consequência  foi  a 
dissolução  dos  partidos  e  a  anarchia  da 
nação. 

A  prova  da  dissolução  dos  partidos  está, 
não  é  preciso  mais,  em  que  elles  fizeram 
como  os  exércitos  em  derrota,  que  fusilam 
os  seus  generaes  :  exautoraram  os  illustres 


314  Da  niouarchia  para  a  republica 

caudilhos  que  tinham  sido  os  principaes 
fautores  da  centralização  —  o  partido  pro- 
gressista, os  srs.  Marianno  de  Carvalho  e 
Emygdio  Navarro ;  o  partido  regenerador, 
os  srs.  João  Franco  e  João  Arroio  —  . 

A  anarchia  da  nação  demonstra-se,  den- 
tro delia,  pelo  desencadeamento  das  forças 
dissolventes  do  caciquismo,  da  plutocracia 
e  agiotagem  e  do  clericalismo ;  e,  fora,  as 
mesmas  consequências  dolorosas  se  segui- 
ram a  uma  e  outra  dictadura  progressista 
e  regeneradora.  Após  a  dictadura  pro- 
gressista, o  idtimatum,  a  bancarrota  com  as 
negociações  para  o  primeiro  convénio,  e  a 
invasão  congreganista  sobresaltando  os  âni- 
mos com  o  caso  da  irmã  Collecta.  Após  a 
dictadura  regeneradora,  Kionga,  o  convé- 
nio definitivo,  e,  para  ser  em  tudo  rigoroso 
este  parallelismo,  de  novo  o  fanatismo  con- 
greganista irrompe  com  o  caso  Calmon. 

Donde  nos  ha  de  vir  a  salvação  ?  Como 
arcar  com  a  anarchia  e  vencê-la?  Será  a 
monarchia  capaz  de  o  fazer?  Como?  Pro- 
movendo a  reconstituição  liberal  dos  anti- 
gos partidos?  Com  quem?  Com  os  seus 
actuaes  chefes,  os  srs.  José  Luciano  e  Hintze 
Ribeiro?    São  bem  dignos  disso,  mas  ambos 


Formas  de  governo  315 

já  o  tentaram  e  a  experiência  está  feita. 
O  sr.  Hintze  Ribeiro  organizou  neste  sen- 
tido a  situação  liberal  de  1893,  a  que,  com 
Augusto  Fuschini,  esse  homem  de  bem  e 
illustre  estadista,  pertenceu  elle,  orador. 
Todos  sabem  o  que  aconteceu.  Tiveram 
ambos  de  sair  vencidos,  rendendo-se  o 
sr.  Hintze  Ribeiro  ás  forças  reaccionárias 
que  conspiravam  contra  essa  situação. 
O  sr.  José  Luciano  tentou  o  movimento 
oposicionista  contra  a  dictadura,  asso- 
ciando na  oposição  o  partido  republicano, 
como  no  governo  o  acaba  de  associar  em 
Itália  o  sr.  Zanardelli;  mas,  quando  voltou 
dos  comícios  com  as  representações  popula- 
res, teve  de  dependurar  por  inútil  a  espada 
liberal,  esperando  por  melhores  tempos. 
A  oportunidade  chegou  um  dia,  e  elle 
briosamente  apresentou  ás  camarás  a  sua 
reforma  da  constituição  num  sentido  libe- 
ral. Mas,  quando  essa  reforma  estava  para 
ser  votada,  caiu  o  ministério.  .  . 

Se  não  é  possivel  a  reconstituição  liberal 
dos  partidos  pelos  seus  próprios  chefes 
actuaes,  sê-lo-á  pelos  seus  caudilhos  dissi- 
dentes —  pelo  sr.  João  Franco  no  partido 
regenerador,    quem    sabe    se,    amanhã    no 


31(3  Da  monarchia  para  a  republica 


partido  progressista,  pelo  sr.  José  Maria 
de  Alpoim,  que,  como  o  sr.  João  Franco, 
possue  notáveis  qualidades  e  um  grande 
poder  de  atracção  pessoal  ?  A  experiência 
está  também  feita.  Logo  que  o  sr.  João 
Franco  a  tentou,  conjuraram-se  contra  elle 
os  antigos  partidos  numa  guerra  de  exter- 
mínio, como  que  parecendo  obedecer  a  um 
mot  d'ordre,  porque  faz  justiça  aos  srs.  José 
Luciano  e  Hintze  Ribeiro,  e  quer  crer  que 
estes  veteranos  das  lides  parlamentares  não 
receassem,  antes  estimariam  terçar  armas 
e  medir  galhardias  com  o  chefe  do  novo 
jDartido. 

Se  não  é  possível  a  reconstituição  dos 
partidos,  será  possível  a  formação  liberal 
dum  novo  partido  sob  os  auspícios  da 
monarchia?  Quem  o  constituiria ?  Os  nomes 
andam  na  boca  de  todos  :  o  sr.  José  Dias 
Ferreira,  o  sr.  visconde  de  Chanceleiros,  o 
sr.  dr.  Costa  Lobo,  o  sr.  Augusto  Fusehini, 
o  sr.  Anselmo  de  Andrade,  o  sr.  Augusto 
Castilho.  Mas  já  viu  alguém  que  a  monar- 
chia procurasse  rodear-se  destes  homens  de 
incontestável  mérito  ?  Foram  sequer  chama- 
dos ás  suas  festas,  que  são  festas  officiaes 
e   não  particulares?     Ainda  outro  dia,  por 


Formas  de  governo  317 


occasião  da  visita  de  Eduardo  VII,  o 
sr.  José  Dias  Ferreira,  que  fora  presidente 
do  conselho  de  ministros,  sentava-se  á 
mesa  do  rei  de  Inglaterra,  que  deu  assim 
nessa  occasião  com  o  seu  convite  um  exem- 
jdIo,  que  era  ao  mesmo  tempo  uma  lição  de 
bom  governo  constitucional.  E,  para  não  fa- 
lar individualmente  de  mais  ninguém,  basta 
perguntar  que  apoio  deu  a  monarchia  ao 
bravo  militar  Augusto  Castilho,  quando  elle 
era  sujeito  a  um  conselho  de  guerra  por  ter 
honrado  o  nome  português,  cobrindo  com  a 
nossa  bandeira  os  vencidos  das  lutas  civis 
do  Brazil.  Não  podem,  pois,  esses  homens, 
não  pode  ninguém  contar  que  elles  encon- 
trem na  monarchia  o  apoio  necessário  para 
a  organização  efhcaz  dum  novo  partido. 

Mas  entenderá  a  monarchia  que  a  salva- 
ção não  pôde  vir  assim,  que  as  classes  diri- 
gentes, que  a  burguezia  está  profundamente 
contaminada  e  que  é  preciso  governar  por 
cima  delia  e  contra  ella?  Foi  esse  o  sonho 
de  socialismo  de  estado  de  Oliveira  Mar- 
tins e  talvez  de  militarismo  democrático  de 
Mousinho  de  Albuqiierque.  A  monarchia 
teve-os  ao  seu  lado.  Um  não  seria  um 
estadista  como  Bismark,  e  o  outro  não  seria 


318  Da  monarchia  para  a  republica 

iim  estratégico  como  Moltke.  Mas  Oliveira 
Martins  podia  bem  ser  o  continuador  de 
Mousinho  da  Silveira,  e  Mousinho  de  Albu- 
querque era  da  raça  dos  Saldanhas  e  dos 
Terceiras,  para  não  dizer  antes  que  era  da 
raça  dos  Mousinhos.  A  monarchia  apro- 
veitcu-os?  Oliveira  Martins  morria  politica- 
mente poucos  meses  depois  de  ser  elevado 
a  ministro.  Mousinho  de  Albuquerque  não 
chegou  mesmo  aos  conselhos  da  coroa,  e, 
como  se  tivesse  desesperado  da  sua  profi- 
cuidade,  suicidou-se.  E  a  monarchia  tinha 
para  a  realização  deste  programma,  além 
destes  homens,  a  voz  mais  eloquente  dos 
nossos  dias,  António  Cândido,  o  successor 
de  José  Estevam,  que  saberia  conquis- 
tar para  elle  as  sympathias  das  massas, 
e,  para  captar  as  sympathias  internacio- 
naes,  um  diplomata,  o  marquês  de  Soveral, 
que,  pela  sua  gentileza  de  maneiras  e  pelo 
encanto  do  seu  espirito,  é  bem  do  estofo  dos 
Palmellas.  Aproveitou-os  ?  António  Cân- 
dido, como  que  desenganado,  emudeceu. 
O  marquês  de  Soveral  não  pôde  fazer  mais 
do  que  converter  a  opressão  inglesa  inso- 
lente de  Salisbur}'  no  protectorado  delicado, 
cortês,  quasi  afectuoso,  de  Eduardo  VII. 


Formas  de  governo  319 

E  note-se  que  este  programma  de  socia- 
lismo cesarista,  que  podia  talvez  vingar, 
começado  com  Oliveira  Martins  e  conti- 
nuado sob  a  impressão  das  gloriosas  victo- 
rias  africanas,  já  no  tempo  de  Mousinho 
de  Albuquerque  era  tarde  de  mais  para  se 
iniciar.  Tomou  parte  nas  ovações  que  por 
esse  paiz  as  multidões  acorriam  a  fazer  ao 
heroe  de  Chaimite,  que,  quando  lhe  entoa- 
vam vivas,  respondia  sempre  com  vivas  a 
el-rei;  e  viu-o  regressar  á  capital,  retiran- 
do-se  as  multidões  do  seu  caminho,  quasi 
despopularizado.  Assim  elle  se  sacrificara 
á  sua  devoção  monarchica.  O  que  não 
fez  Mousinho,  não  pode  decerto  ousar 
ninguém    mais. 

Hoje  as  massas  ainda  se  apartam  mais 
da  monarchia,  porque,  como  tudo  se  con- 
centrou no  poder  real.  todas  as  responsabi- 
lidades, com  fundamento  ou  sem  elle,  lhe 
imputam:  o  protectorado  inglês  é  para 
salvaguarda  da  monarchia;  a  ruina  finan- 
ceira do  paiz  é  a  confusão  dos  dois  erários ; 
e  até  o  jesuitismo,  se  não  se  imputa  ao  rei, 
imjDuta-se  ao  jjaço. 

Não  é  licito,  pois,  esperar  a  salvação 
dentro  da  monarchia.    Xão  é  possivel.    Por 


320  Da  nionarchia  para  a  republica 

maior  que  seja  a  cultura  do  chefe  de 
estado,  por  maior  que  seja  o  seu  brio 
e  coragem,  o  emprehendimento  não  é  para 
as  forças  de  nenlium  individuo  só.  Só  lhe 
pode  meter  hombros  a  massa  inteira  da 
nação,  o  seu  valoroso  povo,  as  suas  classes 
trabalhadoras. 

Ha  quem  objecte  que  a  nionarchia  está 
identificada  com  a  independência  da  pátria. 
Como  se,  sem  ella,  a  nação  não  pudesse 
viver!  Não.  A  nação  foi  de  facto  sempre 
monarchica;  mas,  infelizmente,  a  monar- 
chia  foi  a  monarchia  usurj^adora  dos 
Filipes,  foi  o  governo  napoleónico  de 
Junot  e  foi  o  governo  de  Beresford  sob 
Jorge  IV.  Não.  Efectivamente  a  monar- 
chia tem  um  logar  soberano  no  começo  da 
nossa  historia,  mas  gradualmente  quem 
o   vai  tomando  cada  vez  mais  para  si  é  o 

JDOVO. 

E  as  nossas  alianças?  Sem  as  discutir 
por  agora,  limitar-se-á  a  apontar  a  aliança 
entre  a  França  republicana  e  a  Rússia 
absolutista,  o  tratado  de  arbitragem  cele- 
brado ultimamente  entre  a  própria  Ingla- 
terra, nossa  alliada,  e  a  França  republicana. 
Não.     O    tempo    da  santa   aliança  passou, 


Formas  de  governo  321 


€  hoje  já  não  são  dos  reis  as  alianças, 
mas   dos   povos. 

O  que  é  indispensável,  é  organizar  as 
forças  vivas  da  nação  portuguesa.  Orga- 
nize-as  o  jjartido  republicano  e  a  nação 
salvar-se-á ! 

E'  preciso  que  o  partido  republicano, 
continuando  a  ser  um  partido  de  oposição, 
faça  mais  do  que  o  ataque,  do  que  a  demo- 
lição, que  já  está  feita.  Transforme-se  num 
partido  de  governo.  Se  não  puder  tentar 
a  eleição  parlamentar,  faça  por  vingar  a 
municipal ;  se  nem  no  governo  do  muni- 
cípio puder  intervir,  faça  por  intervir  no  da 
parochia.  Não  deixe  ao  abandono  nenhum 
posto,  por  minimo  que  seja,  que  possa 
occupar.  Faça  sobretudo  por  amparar 
todas  as  justas  revindicações  dos  pobres, 
dos  humildes.  Seja  um  partido  republicano 
profundamente  socialista.  Quando  os  repu- 
blicanos, por  toda  esta  sua  campanha,  se 
mostrarem  homens  de  governo,  tenham 
como  certo  que  a  republica  estará  feita  em 
Portugal,  como  se  fez  no  Brazil,  como 
aconteceu  na  França  em  1871,  onde  a 
assembléa  legislativa,  com  uma  maioria 
de     monarchicos,     elegia     para     seu     pre- 

2t 


322  Da  monarchia  pai'a  a  republica 


sidente  o  republicano  G-révy  e  para  chefe 
do  estado  um  monarchico  convertido  á 
republica,    Thiers. 

E  até  esse  momento,  se  a  monarchia 
não  é  impenitente,  o  partido  republicano, 
embora  isto  pareça  um  paradoxo,  ter-lhe-á 
acordado  os  sentimentos  liberaes,  satis- 
fazendo assim  as  esperanças  de  tantos 
homens  de  bem  que  ainda  confiam  nos  ser- 
viços delia  ao  paiz,  e  contribuindo  para 
que  ella,  novamente  congraçada  com  a 
liberdade,  ao  soar  a  hora  de  desaparecer, 
morra  com  honra  e  dignidade. 


Governo  e  ensino 


Ao  ver  comprometido  o  presente,  alguns 
espíritos  que  se  preocupam  sinceramente 
com  a  sorte  do  paiz  e  procuram  remédio 
para  os  nossos  males,  clamam,  num  apelo 
para  o  futuro :  —  escolas  !  Será  possível 
dentro  do  regimen  a  salvação  do  país  pelo 
ensino  ? 

Innegavelmente  a  íníluencia  do  ensino 
no  destino  dos  povos  é  importantíssima. 
Governo  e  ensino  são  solidários :  o  bom 
ensino  não  é  menos  eficaz  do  que  o  bom 
governo  para  a  prosperidade  da  nação. 
Atestam-no  exemplos,  tanto  da  historia 
pátria   como    de    estranhos. 

Logo  após  a  fundação  da  nossa  naciona- 
lidade, funda-se  a  Universidade.    E,  apesar 

*  Conferencia  realizada  em  Lisboa  na  Academia  dos 
Estudos  livres,  na  noite  de  21  de  novembro  de  1903. 
Segundo  o  extracto  de  O  Mundo. 


324  Da  monarchia  para  a  republica 

de  vacillantes  uma  e  outra  nos  seus  primei- 
ros passos,  é  já  da  Universidade  que  sai 
a  completar  a  sua  educação  juridica  em 
Bolonha  o  grande  causidico  da  nossa  inde- 
pendência, João  das  Regras.  Vencedores 
em  Aljubarrota,  surge-nos  a  figura  patrió- 
tica do  infante  D.  Henrique,  que  a  um 
tempo  impulsa  os  estudos  mathematicos 
e  as  nossas  navegações  e  descobrimen- 
tos. A  escola  de  Sagres  é  uma  escola 
naval  pratica,  ao  lado  da  nossa  Univer- 
sidade. E  tanto  neste  periodo  heróico  das 
nossas  glorias  o  ensino  serve  o  progresso 
nacional,  que,  ainda  ao  terminar,  elle  se 
personifica  em  Pedro  Nunes,  o  grande 
cosraographo,  professor  da  nossa  Universi- 
dade, e  D.  João  de  Castro,  o  grande 
navegador  e  capitão,  seu  discípulo.  Decaem 
os  estudos  em  Portugal  e  decaímos  até  á 
perda  da  nossa  independência ;  mas  bastou 
que  do  humanismo  universitário  ficasse  o 
poema  immortal  de  Camões,  Os  Lusíadas^ 
para  que  esse  compendio  glorioso  de  patrio- 
tismo electrizasse  os  ânimos  para  a  obra 
da  restauração.  Recobrada  a  independên- 
cia, o  ensino  vai  sendo  uma  preocupação 
do   estado,    até   que,   com  Pombal,  que   de 


Governo  e  ensino  325 


todas  as  opressões  parecia  querer  libertar  a 
nossa  terra,  submetendo-a  transitoriamente 
a  lima  só,  a  do  absolutismo  politico,  o 
ensino  adquiriu  uma  tal  força  de  eman- 
cipação, que  tomou  por  divisa  esta 
sentença  dos  novos  estatutos  da  Univer- 
sidade :  «  A  razão  é  a  alma  da  lei.  »  E  é 
da  Universidade  reformada,  da  sua  bri- 
hante  escola  jurídica,  que  saem  as  legiões 
constituintes  do  nosso  exercito  liberta- 
dor, entre  cujas  fileiras  se  batem  valorosa- 
mente os  juvenis  batalhões  académicos. 
A  nossa  historia,  pode,  pois,  dizer-se,  é  a 
historia  do  ensino  em  Portugal. 

O  mesmo  nas  nações  estrangeiras. 
A  grandeza  material  e  moral  dos  Estados 
Unidos  e  da  Suissa  assenta  firmemente  na 
larga  base  duma  solida  educação  nacional. 
O  exemplo  da  x4.11emanha,  tantas  vezes 
citado,  é  na  verdade  empolgante.  Depois 
do  desastre  de  lena  e  da  paz  de  Tilsitt,  a 
Prússia,  esquartejada,  parecia  não  ter  vida 
para  muito  tempo.  Mas  ouve-se  a  voz  do 
philosopho  Fichte  nos  seus  discursos  á 
nação  allemã,  chamando-a  ao  cumprimento 
dos  seus  deveres  educativos ;  a  sua  palavra 
resôa  em  todos  os  corações,  e,  do  alto  do 


326  Da  monarchia  para  a  republica 

throno,  a  rainha  Luiza,  tão  desditosa  como 
sympathica,  presta  todo  o  seu  concurso  a 
esta  campanha  patriótica.  Cria-se  a  Univer- 
sidade de  Berlim,  como  um  centro  potente 
de  idéas  e  de  civismo,  e  como  consequên- 
cia, de  victoria  em  victoria,  a  Prússia 
conquista  a  hegemonia  da  Allemanha,  e 
torna-se,  finalmente,  na  grande  potencia 
continental  e  colonial  que  a  todos  hoje 
causa   admiração. 

Não  são  menos  eloquentes  também  os 
exemplos  das  duas  outras  grandes  nações 
europeias,  a  França  e  a  Inglaterra.  Como 
é  que  a  Republica  francesa  se  levanta  do 
grande  desastre  de  Sédan?  Sangrando 
ainda,  faz  todos  os  sacrifícios  para  o  forta- 
lecimento do  ensino.  Legisla  um  ensino 
primário  leigo,  gratuito  e  obrigatório;  cria 
os  lyceus  femininos ;  dá  maior  autonomia  ás 
suas  Universidades ;  e  das  bancadas  escola- 
res saem  as  novas  gerações,  que  vão  tor- 
nando cada  vez  mais  forte  e  respeitada  a 
França,  aliada  hoje  dum  grande  império, 
requestada  por  todas  as  outras  nações, 
novamente  grande  potencia  colonial  com 
largo  dominio  na  Africa  e  na  Ásia.  E  é  tal 
a    importância    que    ali   se   liga   ao   ensino, 


Governo  e  ensino  327 


que  agora  mesmo  é  neste  terreno  que  a 
França  republicana  tenta  descarregar  os 
últimos  golpes  na  mais  antiga  e  na  mais 
perigosa  de  todas  as  reacções,  a  reacção 
clerical. 

A  exposição  internacional  de  Londres 
em  1851  marca  para  a  Inglaterra  uma  época 
memorável.  O  príncipe  Alberto,  marido  da 
rainha  Victoria,  propugna  em  todas  as 
ocasiões  solemnes  a  causa  do  ensino. 
Spencer  escreve  os  magníficos  capitules 
da  sua  tão  sugestiva  obra  de  educação 
physica,  intellectual  e  moral.  Decreta-se 
o  ensino  primário  obrigatório,  chamando  a 
intervir  na  sua  administração  toda  a  gente 
—  homens  e  mulheres.  Desenvolvem-se 
todos  os  ramos  de  ensino  colonial.  E  a 
Inglaterra  vai  ao  mesmo  tempo  percorrendo 
esse  período  victoriano  de  grande  prospe- 
ridade, em  que  augmenta  ainda  o  seu 
colossal  poderio  e  procura  finalmente  es- 
treitar os  laços  do  seu  enorme  im^Derio, 
transformando-se  duma  federação  de  esta- 
dos num  estado  federal. 

E,  na  larga  expansão  mundial,  que  é  o 
empenho  commum  destas  três  poderosas 
nações  —  a   Inglaterra,    a   Allemanha   e    a 


328  Da  monarchia  para  a  republica 

França  —  quem  são  as  suas  figuras  repre- 
sentativas ? 

Na  Allemanha,  o  imperador  Guilherme, 
que,  ao  mesmo  tempo  que  promove  o  in- 
cessante incremento  da  marinha  mercante  e 
de  guerra  allemã,  toma  sempre  uma  posição 
decisiva  na  vanguarda  de  todas  as  innova- 
ções  pedagógicas.  Em  França,  Júlio  Ferry, 
o  ministro  do  protectorado  de  Tunis  e  da 
annexação  do  Tonkin,  é  ao  mesmo  tempo 
o  ministro  reformador  da  instrucção  publica. 
Em  Inglaterra,  sob  o  ministério  de  Cham- 
berlain,  celebra-se  tanto  o  congresso  dos 
primeiros  ministros  coloniaes  como  o  con- 
gresso interbritannico  das  Universidades 
da  metrópole  e  das  colónias. 

Assim  se  enlaçam  intimamente,  por 
toda  a  parte,  o  ensino  e  o  governo  da 
nação. 

Poderemos,  pois,  nós  contar  com  a  acção 
salvadora  do  ensino  dentro  do  actual  re- 
gimen ? 

Não  perguntará  onde  está  entre  nós  uma 
rainha  Luisa,  porque  jDara  o  seu  respeito 
basta  ver  a  rainha  de  Portugal  á  frente 
da  cruzada  em  favor  da  assistência  ás 
creanças  doentes  e  aos  tuberculosos. 


Governo  e  ensino  329 


Mas  jnlga-se  no  direito  de  perguntar  se 
temos  entre  nós  um  Guilherme  II,  da 
Allemanha,  ou  um  principe  Alberto,  da  In- 
glaterra. 

O  rei  de  Portugal  cultiva  com  distincção 
as  sciencias  e  as  artes ;  interessa-se  pela 
lavoira  da  sua  casa ;  dá  mesmo  a  benéfica 
lição,  tão  necessária,  do  enrijamento  pliysico 
pelo  exercício  dos  deportos ;  zela  a  edu- 
cação de  seus  filhos,  que  confia  a  excellen- 
tes  professores ;  e  subsidia  do  seu  bolso 
alumnos  das  diversas  escolas  do  paiz. 
Exemplifica  assim,  nobremente,  as  virtudes 
do  homem  particular. 

Mas  o  funccionario,  o  homem  publico,  o 
primeiro  magistrado  da  nação  eguala  o 
homem  particular?  Que  serviços  presta  á 
causa  do  ensino  ?  E  esta  pergunta  tem 
tanto  mais  razão  de  ser,  quanto  se  sabe 
que  todos  os  poderes  se  concentraram  nas 
mãos  do  chefe  do  Estado.  Mas  vejam  ao 
que  chegou  o  nosso  constitucionalismo ! 
Deu-se  toda  a  força  á  prerogativa  régia, 
não  para  ella  fazer  o  bem,  mas  para  con- 
sentir e  auctorizar  todos  os  desmandos  ! 

Tivemos,  senão  um  Guilherme  II,  um 
principe   Alberto   no    discípulo    querido   de 


330  Da  monarchia  para  a  republica 

Herculano,  em  D.  Pedro  Y,  que  precisa- 
mente pelo  modelo  moral  daquelle  seu  pa- 
rente se  compunha  e  como  elle  se  devotou 
ao  progresso  do  ensino  entre  nós.  Mas 
esses  tempos  eram  outros. 

O  acto  adicional  de  1851  effectuou  uma 
transacção  entre  a  carta  constitucional 
outorgada  pelo  rei  e  a  constituição  espon- 
taneamente jurada  pela  nação.  Xelle  por 
isso  vinha  encerrada  uma  interrogação  :  se 
se  caminharia  para  a  carta  outorgada, 
isto  é,  ]}SLYa,  o  arbítrio  real,  ou  para  a 
constituição  livremente  jurada,  isto  é,  para 
a  emancipação  popular.  Os  estadistas  de 
1851  a  1885  seguem  o  caminho  das  liber- 
dades publicas  ;  e,  para  as  cimentar,  fun- 
dam escolas,  institutos,  museus,  organizam 
a  direcção  geral  de  instrucção  publica,  e, 
pela  voz  de  Sampaio,  chamam  a  si,  libe- 
ralmente, o  concurso  de  todas  as  corpo- 
rações. E  não  só  ellas,  mas  ainda  as 
iniciativas  particulares,  respondem  ao  seu 
chamamento,  destacando-se,  entre  estas,  a 
de  D.  Pedro  V,  criador  do  Curso  superior 
de  letras,  e  a  do  benemérito  conde  de 
Ferreira,  magnânimo  bemfeitor  da  escola 
primaria.     Yiu-se  então  mesmo,  ainda  que 


Governo  e  ensino  331 


por  momentos,  no  fastígio  do  ensino,  a 
figura,  hoje  veneranda,  do  amoravel  propa- 
gandista da  educação  popular,  D.  António 
da  Costa.  A  corrente  dos  melhoramentos 
do  ensino  tornara-se  tão  poderosa  nesse 
período,  que  ella  ainda  se  prolonga  algum 
tempo  j)elo  período  seguinte,  em  que  as 
corporações  administrativas  continuam  a 
corresponder  á  confiança  publica  que  nellas 
havia  sido  de^DOsitada,  em  qne  no  primeiro 
gabinete  progressista,  pelo  ministério  das 
obras  publicas,  se  dá  um  vigorosíssimo 
impulso  ao  ensino  profissional,  e  em  que, 
já  em  1890,  para  obedecer  á  opinião  exci- 
tada, se  criou  o  ministério  da  instrucção 
publica,  como  que  em  desforço  ao  repto  do 
tdtimatum  inglês. 

Mas  a  centralização  tudo  ia  destruindo 
6  anarchizando.  E  chegámos  a  esta  situa- 
ção :  o  analphabetismo  alastra-se  pelo  país, 
fecham-se  as  escolas,  e  mesmo  na  capital 
vende-se  o  terreno  cujo  destino  devia  ser 
sagrado,  porque  era  o  legado  dum  filho  da 
cidade  á  sua  instrucção  ;  descura-se  inteira- 
mente a  educação  da  classe  média,  que 
não  tem  escolas  onde  preparar-se ;  e  con- 
tinua-se   com   uma   só   Universidade,   como 


332  Da  monarcliia  para  a  repablica 

no  principio  da  nacionalidade,  quando  a 
Suissa,  três  vezes  menor  no  território  e 
com  uma  população  que  pouco  excede  três 
milhões  de  habitantes,  possue  sete  Univer- 
sidades, todas  numerosamente  frequenta- 
das, sendo  o  resultado  da  insuficiência  do 
ensino  para  as  classes  dirigentes,  que  a 
sua  ignorância  ainda  em  geral  é  maior  do 
que  a  das  classes  trabalhadoras  analpha- 
betas.  E  fez-se  peor  do  que  destruir  o 
ensino :  desacreditou-se.  Tudo  se  tornou 
suspeito  á  opinião.  Por  mais  respeitável 
que  seja  individualmente  cada  um  dos 
membros  dos  jurys,  não  ha  concurso  de 
professores,  não  ha  exame  de  livros,  que 
se  não  malsine.  Em  tudo  se  pretende  ver 
um  escândalo.  A  tal  ponto  que,  em  vez 
de  se  clamar  —  escolas !  sente-se  mas  é 
por  vezes  a  necessidade  de  gritar  —  abaixo 
as  escolas ! 

Esta  ruina,  este  descrédito  do  ensino 
dar-se-á  por  falta  de  quem,  dentro  delle,  o 
ampare  e  o  nobilite?  Não.  Mas  todos  os 
esforços  dos  seus  melhores  professores  são 
improfícuos. 

E'  que  não  ha  só  a  influencia  do  ensino 
sobre   o  governo  ;  ha  também  a  reciproca, 


Governo  e  ensino  333 


a  influencia  do  governo  sobre  o  ensino. 
E  o  mau  governo  não  pode  dar  senão  o 
mau  ensino. 

Citou  monarchias  onde  o  ensino  prospera. 
Mas  ó  que  ha  a  monarchia  patriota,  que 
promove  todos  os  progressos,  e  que,  no 
dia  em  que  pela  força  das  coisas  desapa- 
recer, deixará  de  si  memoria  honrada  e 
grata ;  é  assim  a  monarchia  inglesa,  onde 
até  o  prestigio  da  sua  scenografia  arcaica 
parece  destinado  a  dar  maior  realce  á 
majestade  da  lei,  que  assegura  todas  as 
liberdades.  E  lia  a  monarchia  symbolo  de 
todos  os  egoismos,  c^ue  vai  abrindo  a  cova 
onde  se  sepultará  a  nação,  mas  primeiro 
se  enterrará  a  si  própria  dentro  delia ;  é  a 
monarchia  do  arbítrio,  da  dictadura,  da 
centralização,  é  o  regimen  em  que  nin- 
guém cumpre  as  leis.  desde  o  rei,  que  viola 
as  leis  constitucionaes,  até  ao  regedor  de 
parochia,  que  não  conhece  nenhuma. 

Sob  este  regimen  do  arbítrio,  não  pôde 
de  certo  viver  o  ensino.  A  questão  do 
ensino  é  essencialmente  uma  questão  de 
liberdade. 

Os  que  esperam  salvar  a  nação  pelo 
ensino,  que  pretendem? 


334  Da  monarchia  para  a  republica 


Querem  escolas,  isto  é,  que  a  nação  tenha 
uma  sciencia,  uma  arte,  uma  industria  sua, 
original  e  independente,  portuguesa?  Mas 
o  regimen  vive  contente  e  festivamente  sob 
a  tuteila  estrangeira. 

Querem  que  não  só  o  estado,  mas  todas 
as  corporações,  contribuam  para  o  engran- 
decimento escolar  ?  Mas  isso  é  a  descen- 
tralização territorial,  e  o  regimen  tem 
suprimido  quasi  todas  as  franquias  locaes. 

Querem  um  ministério  autónomo  para  a 
instrucção  e  um  conselho  superior  de  in- 
strucção  e  conselhos  escolares  electivos  ? 
Mas  é  a  organização  liberal  das  repartições 
do  estado,  e  o  regimen  centraliza  todos  os 
serviços.  Para  tudo,  até  para  os  negócios 
do  ultramar,  é  necessário  recorrer  ás  secre- 
tarias do  Terreiro  do  Paço  e  nestas  aos 
ministros. 

Querem  professores  competentes  que  de- 
sempenhem cabalmente  o  seu  magistério  ? 
E'  querer,  para  todos  os  que  têem  mérito, 
o  direito,  a  liberdade  de  serem  escolhidos 
para  os  logares  públicos ;  é  querer  para  o 
empregado  a  liberdade  no  desempenho  das 
suas  funcções.  Mas  o  regimen  é  o  regimen 
do  nepotismo.     E,  se  o  funccionario  não  ó 


Governo  e  ensino  335 


inamovivel,  está  sujeito  ás  transferencias, 
ás  demissões ;  e  ainda  o  inamovivel  acha-se 
na  colisão,  ou  de  não  cumprir  bem  os  seus 
deveres  proíissionaes,  se  não  quizer  ser 
cúmplice  dos  maus  governos,  porque  então 
todos  os  meios  de  acção  lhe  recusam,  ou, 
para  os  obter,  de  não  cumprir  intransigen- 
temente os  seus  deveres  públicos. 

Querem  alumnos  para  as  escolas  ?  Mas 
para  isso  é  preciso  haver  liberdade  de  as 
frequentar;  ó  preciso  distribuir  socorros 
pelas  familias  das  creanças  pobres ;  são 
precisas  todas  as  liberdades  económicas  que 
o  socialismo  reclama.  E  o  regimen  não  se 
importa  com  isso  :  extinguiu  as  commissões 
municipaes  de  beneficência  e  ensino,  e 
centralizou  tudo,  até  a  beneficência !  Não 
temos  ainda  uma  lei  de  descanço  semanal 
para  que  as  classes  trabalhadoras,  ao  menos 
uma  vez  por  semana,  frequentem  a  escola ; 
não  se  executa  o  regulamento  do  trabalho 
dos  menores  ;  ha  horas  demais  de  trabalho 
na  officina  e  de  estudo  nas  aulas  ;  e  não  se 
cuida  de  desafogar  a  vida  do  operário, 
para  que  elle  mande  os  seus  filhos  á  escola, 
assegarando-o  contra  a  miséria,  pelo  menos 
nos    dias    de    crise    de    trabalho    e    nos    de 


336  Da  monarchia  para  a  republica 

invalidez  e  da  velhice.  Pelo  contrario, 
vive-se  em  grande  parte  da  espoliação  do 
trabalhador. 

Querem  ensino,  o  verdadeiro  ensino,  que 
dê  não  só  a  instrucção.  mas  também  a 
educação  ?  Mas  esse  é  o  ensino  liberal,  e 
como  ha  de  querê-lo  um  regimen  de  arbi- 
trio? 

Logo,  com  as  actuaes  instituições,  que 
esperanças  pode  haver  de  regeneração  pela 
virtude  do  ensino  ? 

Assuma  o  partido  republicano  os  seus 
deveres  para  com  as  novas  gerações. 
E  aponta-lhe  para  exemplo  José  Elias 
Garcia,  que  sempre  serviu  desinteressada- 
mente o  ensino,  no  parlamento,  no  peloiro 
da  instrucção  de  Lisboa  e  na  imprensa, 
onde  teve  por  companheiro  o  santo  medico 
José  da  Cunha  Castello  Branco  Saraiva, 
seu  querido  amigo,  cuja  morte  pranteiam 
ainda  muitos  pobres  da  população  desta 
cidade. 


Os  actuaes  partidos  políticos 


A  prova  de  que  a  victoria  da  liberdade 
é  inelutável,  é  que  até  a  reacção,  para  a 
combater,  precisa  de  falar  a  linguagem  da 
liberdade.  A'  opressão  eleitoral  chama 
liberdade  politica ;  á  opressão  do  traba- 
lhador chama  livre  concorrência,  liberdade 
económica;  e  á  opressão  clerical,  aos  votos 
monacaes,  chama  liberdade  religiosa. 

E  esta  confusão  não  deixa  de  ser  pertur- 
bante. Arrastados  por  ella,  vemos  liberaes 
desertarem  j)ara  o  campo  do  absolutismo, 
e  reciprocamente  reaccionários  invadirem  o 
campo  liberal.  Todo  o  discrimen,  pois,  é 
necessário.  Vem  por  isso  serenamente, 
como  educador,  como  o  poderia  fazer  numa 

*  Conferencia  realizada  no  Salão  da  Porta  do  Sol,  do 
Porto,  na  noite  de  23  de  janeiro  de  1904,  segundo  o 
extracto  de  O  Commercio  do  Porto,  O  Norte,  O  Primeiro 
de  JaneÍ7-o  e  A  Vo%  Publica. 

22 


338  Da  monarchia  para  a  republica 

aula  de  direito  publico,  falar  dos  nossos 
actuaes  partidos  de  governo,  para  apontar 
onde  está  a  liberdade  e  onde  os  seus 
inimigos,  que  não  se  resumem,  como  disse 
um  grande  patriota,  no  clericalismo,  mas 
são  também,  com  a  theocracia,  a  plutocracia 
e  o  cesarismo,  são  todos  os  usurpadores 
do  poder,  quer  dizer,  todas  as  reacções, 
religiosa,  económica  e  politica.  Ver-se-á 
quanto  esses  inimigos  estão  fortificados,  e 
como  precisamos,  todos  os  liberaes,  de 
andar  bem  vigilantes  e  apercebidos,  não 
só  para  os  desalojarmos  das  posições  con- 
quistadas, mas  ainda  para  repelirmos  a 
escalada  que  elles  tentam  contra  os  baluar- 
tes que  nos  restam  e  tantos  sacrifícios  nos 
custaram. 

Os  partidos  de  governo  definem-se  pelo 
seu  conceito  da  constituiçãp  da  nação. 
Constituição  liberal :  partido  liberal ;  cons- 
tituição arbitraria :  partido  reaccionário. 
Porque  o  arbitrio  pôde  ser  um  momento  a 
liberdade,  mas  sempre  se  converte  afínal 
no  absolutismo. 

No  período  da  nossa  iniciação  liberal  e 
atravez  das  lutas  por  vezes  tão  cruentas 
que    ella   custou,    os  heróicos   emancipado- 


Os  actuaes  partidos  políticos  339 


res  da  nação  que,  ao  impulso  da  gloriosa 
conspiração  do  synhedrio  portuense,  vinga- 
ram a  revolução  de  24  de  agosto  de  1820, 
fizeram  a  sua  constituição  quasi  republicana 
de  1822 ;  os  constitucionaes  da  campanha 
da  Terceira,  do  cerco  do  Porto,  de  Almoster 
e  da  Asseiceira,  tiveram  a  carta  outorgada 
de  1826,  que  foi,  ao  arbitrio.do  imperante, 
a  liberdade  com  D.  Pedro  IV  e  a  opressão 
com  D.  Maria  II ;  e,  em  oposição  á  carta 
outorgada,  Passos  Manuel  e  os  setembristas 
fizeram  a  democrática  constituição  de  1838, 
decretada  pela  vontade  da  nação.  No 
segundo  periodo  da  nossa  vida  constitucio- 
nal, que  ainda  abre  com  José  Estevam  e 
que  se  fecha  pouco  depois  da  morte  de 
Sampaio,  periodo  que  inaugura  entre  nós 
o  parlamentarismo,  os  regeneradores  fizeram 
os  actos  adicionaes  de  1852  e  de  1885, 
que  são  já  verdadeiros  pactos  constitucio- 
naes, e,  no  intervallo,  históricos,  reformis- 
tas, constituintes,  republicanos,  apresentam 
os  seus  projectos,  em  progressão  avançada, 
de  reforma  constitucional. 

Desde  então  o  nosso  systema  represen- 
tativo faz  crise.  E'  a  crise  do  sombrio 
periodo  que  atravessamos. 


340  Da  monarchia  pai'a  a  reputlica 

Ainda  t-res  partidos  intentam  proseguir 
na  ascenção  liberal :  são  o  partido  da 
Esquerda  dynastica,  o  partido  das  Ligas 
nacionaes  e  o  partido  da  Liga  liberal,  cada 
um  dos  quaes  tem,  pelas  suas  palavras  ou 
pela  significação  dos  seus  homens,  o  seu 
plano  constituinte  radical.  Mas  essas  ten- 
tativas malogram-se ;  e,  com  o  ministério 
de  1893.  a  que  teve  a  honra  de  pertencer 
com  Augusto  Fuschini,  que  ali  está  pre- 
sente, 23erde-se  toda  a  esperança  de  conci- 
liação  entre    a   monarchia  e  a  democracia. 

O  partido  chamado  do  engrandecimento 
do  jDoder  real,  constituído  principalmente 
pelos  ramos  mais  atrevidos  do  partido 
progressista  e  do  partido  regenerador,  acau- 
dilhados  pelo  sr.  João  Franco  e  pelo 
fallecido  Carlos  Lobo  d"Avila,  decreta  em 
ditadura  o  acto  adicional  de  1895.  jurado 
pelas  cortes  em  1896,  que  deveremos  antes 
denominar  acto  subtractivo,  porque  resta- 
belece de  novo  a  carta  outorgada  de  1826 ; 
e  o  antigo  partido  regenerador,  rasgadas 
as  suas  nobres  tradições  de  1852  a  1885, 
colabora  nelle ;  e  o  j)f^rtido  progressista, 
que  principia  briosamente  por  protestar 
contra    elle,    acaba   por    se    lhe    submeter. 


Os  actuaes  partidos  políticos  341 

Dois  partidos  novos  apareceram,  que  pre- 
tendem ser  governo,  o  partido  regenerador- 
liberal  e  o  partido  nacionalista  não  vienos 
liberal:  ambos  o  reconhecem. 

Todos  os  partidos  monarchicos  actuaes, 
portanto,  proclamam  como  lei  suprema  da 
nação  o  acto  de  1896,  isto  é,  a  carta 
outorgada  de  1826,  isto  é  o  arbitrio.  Neces- 
sitamos, pois,  de  saber  o  que  nos  trouxe 
já  e  o  que  nos  trará  amanhã  o  arbitrio 
que  nos  rege,  se  a  dictadura  liberal  de 
D.  Pedro  IV,  se  a  dictadura  opressiva 
de  D.  Maria  II,  senão  ainda  peor,  a  de 
D.  Miguel.  Recuamos  até  1826,  ou  vol- 
taremos mesmo  até  aos  três  estados,  aos 
ominosos  tempos  anteriores  á  implantação 
das  instituições  liberaes,  perdendo  cem 
annos  quasi  de  vida  constitucional? 

Desde  1820  que,  sem  embargo  de  todas 
as  vicissitudes,  o  progresso  liberal  se  foi 
operando  em  Portugal  em  todos  os  domí- 
nios, politico,  económico  e  religioso.  Esse 
progresso  accentua-se  de  1852  a  1855  prin- 
cipalmente. Mas  depois  a  reacção  envida 
todas  as  suas  forças  para  o  conter,  e  vai-o 
infelizmente  suplantando.  Mostrará  esta 
luta  em  cada  um  dos  três  domínios. 


542  Da  monarchia  para  a  republica 


Politicamente,  crearam-se  as  juntas  de 
parochia,  generalizaram-se  as  camarás  muni- 
cipaes  a  todos  os  concelhos,  crearam-se  ats 
juntas  geraes  de  districto  ;  levou-se  assim 
o  principio  electivo  a  todas  as  corporações 
locaes ;  e,  ainda  depois,  na  constituição  do 
Estado,  até  a  camará  dos  pares  se  tornou 
electiva.  E,  embora  não  estivesse  inscripta 
na  lei  a  liberdade  de  associação  politica, 
inscreveu-se  a  de  reunião ;  e,  de  facto, 
havia  a  liberdade  de  associação  politica, 
porque  os  partidos  tinham  os  seus  centros 
de  organização  mais  ou  menos  popular, 
que  o  digam  o  movimento  do  Primeiro  de 
Janeiro  e  o  antigo  partido  progressista  do 
Porto.  Era  a  monarchia  cercada  de  insti- 
tuições republicanas,  como  a  sonhara  Passos 
Manuel. 

Foi  contra  esta  republicanização  politica 
que  a  monarchia  assestou  as  suas  baterias 
desde  1886.  Como  vencer?  Substituindo 
em  toda  a  parte  a  eleição  popular  pela 
nomeação  regia.  Foi  o  que  praticaram 
successivamente  progressistas  e  regenerado- 
res e  o  que  levou  ao  seu  auge  o  partido  do 
engrandecimento  do  poder  real.  A  centra- 
lização   inutilizou    as    corporações    locaes, 


Os  actuaes  partidos  políticos  343 

anulando-lhes  as  regalias,  deixando-lhes 
qiiasi  só  uma  magistratura  consultiva.  Aca- 
baram com  a  eleição  do  pariato,  e  não 
acabaram  com  a  dos  deputados,  porque 
era  preciso  que  ficasse  uma  corporação, 
não  electiva,  mas  temporária,  onde  a  oli- 
garchia  politica  pudesse  a  seu  talante 
experimentar  os  seus  favoritos  antes  de 
lhes  dar  o  encarte  definitivo  na  camará 
dos  pares.  Ao  mesmo  tempo  que  centrali- 
zava os  empregos  públicos  locaes,  cha- 
mando-os  a  si,  o  estado  multiplicava 
enormemente  os  seus.  E  assim  pôde  ir 
atacando  e  abatendo  todas  as  influencias 
populares  e  opondo-lhes  as  dos  seus 
clientes,  de  tal  modo  que  todos  os  centros 
políticos  livres  foram  desaparecendo,  trans- 
formando-se  em  delegações  executivas  da 
vontade  dos  chefes  de  clientella.  Os  centros 
republicanos  que  resistiram,  dissolveram-se, 
e,  renascendo,  tem-se  feito  tudo  para  os 
reduzir  á  impotência. 

O  resultado  é  termos  hoje  o  governo 
politico  da  nação  convertido  numa  immensa 
burocracia  cesarista,  ou  corpo  d'exercitos 
mais  ou  inconciliáveis  de  empregados  públi- 
cos, de  influentes  sem  auctoridade  própria, 


344  Da  monarchia  para  a  republica 

commandaclos  pelos  oligarchas  políticos. 
E  as  lutas  politicas  reduzem-se  hoje  no 
campo  monarchico  a  escaramuças  entre 
esses  oligarchas  e  suas  clientellas,  dei- 
xando indiíferente  a  opinião  do  paiz,  que 
apenas  as  commenta,  como  ultimamente  as 
de  Braga  e  Espozende,  com  um  sorriso 
triste. 

Eis  o  que  tèem  sido  os  três  partidos  que 
têem  governado  com  a  legislação  constitu- 
cional de  1896;  partido  do  engrandecimento 
do  poder  real,  partido  progressista  e  partido 
regenerador :  partidos  de  reacção  politica. 
Escravizaram  a  opinião. 

As  consequências  desta  reacção  não 
foram,  é  claro,  só  politicas,  mas  também 
económicas  e  religiosas.  Nunca,  como  nos 
últimos  tempos,  desde  1886,  foram  maiores 
os  esbanjamentos ;  só  após  a  queda  do  sr. 
João  Franco  com  o  ministério  proclamador 
do  engrandecimento  do  poder  real,  foi 
necessário  legalizar  mais  de  õ:000  contos 
de  dividas.  Nunca  se  feriu  mais,  pela 
exaltação  de  homens  suspeitos  aos  postos 
eminentes,  o  culto  delicado  da  honra,  que 
é  o  apanágio  de  todas  as  almas  bem  for- 
madas ! 


Os  actuíies  partidos  políticos  345 

Se  os  partidos  que  ultimamente  têem 
disposto  do  poder,  representam  a  reacção 
politica,  o  novo  partido  dos  homens  que  têem 
que  perder,  cujo  chefe  referendou  o  artigo 
constitucional  que  confere  ao  rei  o  arbitrio 
de  lançar  e  cobrar  impostos,  independente- 
mente da  vontade  da  nação,  esse  partido  re- 
presenta a  plutocracia,  a  reacção  económica. 

Com  o  progresso  das  liberdades  politicas, 
veiu  também  o  progresso  das  liberdades 
económicas.  Fundaram-se  associações  coni- 
merciaes  pelas  principaes  cidades  do  paiz, 
as  Associações  dos  legistas  de  Lisboa  e  do 
Porto,  o  Centro  commercial  e  o  Grémio 
commercial  do  Porto,  os  Atheneus  commer- 
ciaes  de  Lisboa,  do  Porto,  de  Coimbra,  de 
Braga,  etc,  as  Associações  industriaes,  a 
Associação  d'agricultura  portuguesa,  ligas 
e  syndicatos  agricolas,  montepios,  associa- 
ções de  socorros  mútuos,  cooperativas, 
associações,  centros  e  federações  de  classe. 
Creou-se  assim  uma  força  eleitoral  admirá- 
vel. Basta  lembrar  o  Monte-pio  geral  com 
os  seus  avultados  capitães  e  o  seu  immenso 
credito,  basta  lembrar  a  Voz  do  operário, 
de  Lisboa,  com  44:000  sócios  e  84  escolas 
para  os  seus  associados. 


346  Da  monarchia  pai'a  a  republica 


Era  preciso  dar  batalha  a  esta  formi- 
danda  legião,  e  é  o  que  se  propõe  o  partido 
da  oligarchia  financeira. 

As  tentativas  datam  de  1886,  e  o  ataque 
foi  sobretudo  violento  durante  o  governo 
do  engrandecimento  do  poder  real.  Para 
essa  campanha  se  fez  a  centralização  finan- 
ceira, pondo  dependentes  do  governo  todas 
as  concessões  locaes,  ainda  mesmo  as  das 
camarás  municipaes,  que  só  nominalmente 
as  fazem,  pois  pouco  mais  são  do  que 
auctoridades  ao  serviço  dos  oligarchas  que 
tudo  decidem  e  mandam.  E  bem  tem 
demonstrado  reconhecê-lo  o  Porto  nos  seus 
recentes  protestos.  Depois,  o  Estado  foi 
concentrando  na  sua  mão  toda  a  força  finan- 
ceira que  dá  monopólios,  que  augmenta  ou 
diminue,  a  seu  bel-prazer,  as  pautas  alfan- 
degarias no  continente  e  no  ultramar,  que 
influe  nos  descontos  do  Banco  de  Portugal 
e  suas  caixas  filiaes,  e  que,  como  já  dissera, 
pela  legislação  constitucional  de  1896,  dis- 
põe discrecionariamente  dos  impostos,  que 
pode  lançar  e  cobrar  como  quizer.  Esta 
força  é  enorme  também.  Com  ella  se  pro- 
curou suffbcar  o  eleitorado  económico,  e, 
escudado  nella,  os  ministros  de  189-1  a  1897 


Os  actuaes  partidos  políticos  347 

dissolveram  a  Associação  industrial  e  as 
Associações  commercial  e  dos  logistas  de 
Lisboa  e  transformaram-nas  numa  Camará 
de  commercio  e  industria  tutelada  pelo 
governo.  Essas  associações,  graças  aos 
esforços  dos  seus  beneméritos  defensores, 
alguns  dos  quaes  tem  o  prazer  de  ver  ali 
a  seu  lado,  puderam  resuscitar  ;  mas  o  golpe 
dado  pela  reacção  não  foi  perdido,  e  os 
seus  auctores  lá  estão  hoje  predominando 
nos  corpos  gerentes  da  Associação  commer- 
cial de  Lisboa. 

A  obra,  porém,  tão  desabridamente  pro- 
seguida  de  1894  a  1897  não  ficara  completa. 
E  é  por  isso  que  a  mesma  oligarchia  eco- 
nómica, com  os  seus  novos  proselytos,  aqui 
se  reuniu  ha  dias,  em  ágape  festivo,  pre- 
tendendo estender  ramificações  pelo  país. 
Pergunta :  Os  homens  que  tèem  que  ijerder, 
que  então  se  apresentaram  coligados  em 
partido,  haviam  sido  escolhidos  para  se 
pronunciar  sobre  as  questões  publicas  do 
paiz,  como  representantes  das  associações 
commerciaes  e  industriaes  do  Porto  ?  Xão  ? 
Então  tentaram  substituir-se  aos  legítimos 
representantes,  e  por  esse  modo  atentaram 
contra  a  independência  e  os  direitos  sagra- 


348  Da  nionarchia  para  a  republica 


dos  da  sua  classe.  E  que  não  represen- 
tavam os  verdadeiros  interesses  económicos 
desta  terra,  viu-se  bem,  pois  que  nem 
uma  palavra  tiveram  de  sympathia  para  as 
questões  que  mais  a  têem  agitado  ultima- 
mente, uma  questão  orgânica,  a  da  hygiene 
da  cidade  e  das  habitações  operarias,  e 
duas  questões  moraes,  a  questão  pungente 
do  contracto  do  trabalho  entre  operários  e 
patrões,  e  a  questão  do  descanço  semanal 
dos  empregados  do  commercio,  de  cuja 
solução  dependem  a  saúde,  a  instrucção  e 
o  futuro  da  classe  commercial.  Nem  a  peste, 
nem  as  reclamações  dos  congressos  das 
classes  textis  e  dos  empregados  do  com- 
mercio celebrados  nesta  cidade,  nem  a  greve 
de  ha  pouco  ainda,  que  comoveu  todo  o 
país,  deram  rebate  no  seu  coração  endu- 
recido ! 

Oh !  elles  são  bem  a  reacção  financeira, 
que  será  ainda  peor  do  que  a  actual  reacção 
politica,  se  algum  dia  alcançar  o  poder, 
porque  hoje,  com  os  actuaes  governantes, 
ainda  as  classes  desvalidas,  nas  suas  revin- 
dicações  contra  a  plutocracia,  apellam  para 
a  auctoridade  ;  mas,  depois,  já  não  o  pode- 
rão  fazer,  porque   a  auctoridade  será  ella. 


Os  actuaes  partidos  políticos  349 

Condecora-se  com  o  titulo  de  partido 
liberal  a  facção  plntocrata,  ^^orqne  pretende 
arrancar  o  poder  aos  partidos  de  reacção 
politica,  que  até  agora  exclusivamente  se 
têem  alternado  na  governança.  Querem 
entrar  também  na  rotação,  na  partilha  do 
poder;  e  dahi  todo  o  seu  programma  monar- 
chico-liberal,  que  se  cifra  em  dois  artigos  : 
um,  de  adhesão  ao  rei,  de  cujo  arbítrio 
depende  supremamente  o  seu  advento  aos 
conselhos  da  coroa;  outro,  de  reforma  elei- 
toral, que  decrete  os  circules  uninominaes, 
por  meio  dos  quaes  esperam,  se  tanto  fôr 
preciso,  atestar  a  sua  força,  acrescentando 
com  o  peso  das  suas  clientellas  o  que  já 
hoje  tanto  oprime  em  cada  ponto  isolado 
do  país  o  eleitorado.  Todos  os  mais  artigos 
do  programma  são  pouco  mais  ou  menos 
tão  vãos  como  o  artigo  da  responsabilidade 
ministerial,  que,  no  dia  em  que  se  tornasse 
efectiva,  exautoraria  moralmente  a  maior 
parte  dos  homens  públicos  que  nos  últimos 
tempos  têem  servido  a  monarchia  em  Por- 
tugal, réus  de  atentados  contra  a  liberdade 
dos  cidadãos,  e,  com  elles,  os  partidos 
que  os  consideram  seus  chefes.  E'  ver- 
dade que,  se  não  fôr  tão  cedo  chamado  ao 


350  Da  monarchia  para  a  republica 

poder  o  partido  reaccionário  dos  que  têem 
que  perder,  o  seu  liberalismo  crescerá  indo- 
mável mente.  Elles  o  protestaram  :  —  o  seu 
chefe,  bradando:  Senão,  não!  —  o  seu  es- 
tado maior,  clamando  :  Para  a  frente^  sempre 
para  a  frente!  —  e  os  seus  novos  adeptos, 
declarando  na  sua  mensagem  ao  cliefe  que 
então  irão  até  onde  as  exigências  da  salvação 
nacional  os  levarem!  —  Felizmente  que,  para 
os  moderar,  vigora  a  lei  de  13  de  fevereiro 
de  1896,  da  iniciativa  do  seu  chefe .  .  .  Em 
nome  da  ordem  social,  poderão  ir,  mas  é 
para  Timor ! 

Peor  do  que  esta  reacção  plutocrata  que 
nos  ameaça,  só  a  clerical  do  nacionalismo. 

Desde  1880.  em  que  se  celebrou  o  cente- 
nário de  Camões,  ao  lado  da  velha  liturgia 
eclesiástica  começou  a  formar-se  entre  nós 
uma  nova  liturgia  civica.  As  festas  de 
Camões  seguiram-se  outras  aos  nossos  glo- 
riosos antepassados  :  o  Porto  ergueu  uma 
estatua  ao  infante  D.  Henrique ;  guarda- 
ram-se  piedosamente  as  cinzas  de  Herculano 
e  de  G-arrett ;  Lisboa,  Porto  e  Coimbra 
acompanharam  em  recolhido  cortejo  ao 
cemitério  os  seus  queridos  mortos,  Elias 
Garcia,  Rodrigues  de  Freitas  e  José  Falcão. 


Os  actuaes  partidos  politicos  351 

Uma  nova  religião  foi  despontando,  humana, 
toda  feita  de  cordialidade  e  de  amor.  O 
fanatismo  alvoroçou-se,  a  theocracia  chamou 
ás  armas  as  suas  hostes  e  constituiu-se  o 
partido  nacionalista.  Que  pretende  ?  EUe 
já  invade  o  seio  das  famílias,  faz  casamen- 
tos, dita  o  testamento  dos  moribundos  e 
apodera-se  dos  bens  particulares ;  mas, 
como  soífre  ainda  a  soberania  do  estado, 
que  nomeia  e  estipendia  o  clero,  o  seu 
liberalismo  revolta-se  contra  esta  depen- 
dência- Quer  também  dispor,  em  proveito 
dos  seus,  da  auctoridade  e  dos  bens  públi- 
cos. E,  para  isso,  para  escalar  o  poder, 
como  elle  é  liberal !  Quanto  mais  do  que 
a  plutocracia !  O  clericalismo  promette 
todas  as  liberdades,  inclusivamente  a  liber- 
dade dos  cultos,  e  tudo,  sob  uma  clausula 
apenas.  .  .   dentro  também  da  ordem  social. 

Aqui  têem,  pois,  o  que  são  os  partidos 
monarchicos  em  Portugal :  os  dois  que 
estão  no  goso  do  poder,  a  reacção  politica  ; 
os  que  o  pretendem,  um,  a  reação  finan- 
ceira, outro,  a  reacção  clerical. 

Contra  esta  tríplice  reacção  levanta  o 
partido  republicano  o  seu  estandarte,  em 
cuja   divisa   se   lê   esta   tríplice   aspiração : 


352  Da  nionarchia  para  a  republica 


liberdade    politica,    liberdade    económica    e 
liberdade  religiosa. 

Por  todos  os  que  querem  saber  e  não 
podem,  oprimidos  pela  reacção  politica,  — 
por  esse  sem  numero  de  creanças  analpha- 
betas  — ;  por  todos  os  que  querem  traba- 
lhar e  não  podem,  oprimidos  pela  reacção 
económica,  —  por  esse  sem  numero  de  pro- 
letários —  ;  por  todos  os  que  querem  amar, 
ser  bons,  e  em  cujo  seio  a  reacção  religiosa 
lança  a  semente  dos  ódios,  —  por  esse  sem 
numero  de  santas  e  piedosas  mulheres  que 
ella  tenta  desvairar  e  arrastar  após  si  para 
fora  dos  seus  deveres  — ;  por  todos  os 
pobres,  por  todos  os  humildes  e  por  todos 
os  fracos,  saudemos  a  liberdade  e  com  ella 
o  único  partido  que  hoje  a  sustenta  e 
defende  em  Portugal  —  o  partido  repu- 
blicano ! 


Contra  as  propostas  de  fazenda 


Comido  de  Coimbra  em  28  de  fevereiro 
de  1904  * 

Todos  conhecem  as  propostas  de  fazenda 
apresentadas  pelo  governo  ao  parlamento  ; 
delias  ha  uma  que  tem  por  fim  a  remodela- 
ção pautal.  Não  é  dessa  que  se  vai  ocupar, 
e  a  seu  respeito  apenas  dirá  que,  sendo  o 
proteccionismo  um  dever  de  solidariedade 
nacional,  é  mister  exercitá-lo,  não  só  em 
beneficio  dos  industriaes,  mas  muito  prin- 
<3Ípalmente  dos  operários,  melhoraudo-lhes 
o  salário  e  proporcionando-lhes  instituições 
de  ensino  e  de  assistência  social. 

As  outras  propostas  envolvem  todas  agra- 
vamentos de  impostos,  que  mais  vêem  ferir 
todas  as  manifestaçães  de  vida  e  de  inicia- 
tiva nacional. 

*  Discurso  pronunciado  na  presidência  do  comício 
republicano,  segundo  o  extracto  da  Resistência. 

23 


354  Da  monarchia  para  a  republica 

Coimbra,  que  ha  um  anno,  num  arranco 
de  indignação,  se  insurgiu  contra  a  violên- 
cia das  exacções  fiscaes,  não  podia  deixar 
de  se  associar  ao  movimento  de  protesto 
que  neste  momento  vai  lavrando  por  todo 
o  país,  contra  as  propostas  do  fazenda 
que  agravam  todos  os  imj^ostos  existentes, 
acrescentando-llies  ainda  outros  não  menos 
vexatórios  e  opressivos. 

A  nossa  situação  financeira  e  económica 
é  tal  como  se  tivéssemos  sofrido  uma 
guerra  exterior.  E'  a  guerra  interior  que 
temos  sofrido  das  oligarchias  dominantes 
contra  as  classes  que  trabalham.  Por  isso 
os  impostos  ultimamente  têem  sido  verda- 
deiros impostos  de  guerra.  Em  1892  lan- 
çavam-se  os  impostos  da  guerra  feita  ao 
país  pelas  dictaduras  progressista  e  rege- 
neradora. Agora  lançam-se  também  os 
impostos  da  guerra,  que  principalmente 
foi  feita  contra  as  liberdades  publicas 
pelo  governo  do  poder  pessoal  de  1894: 
a    1897. 

Estão  ainda  na  memoria  de  todos  as 
afrontas  que  foram  feitas  por  esse  governo 
contra  Coimbra,  terra  da  Universidade^  á 
qual  elle  arrancou  representação  parlamen- 


Contra  as  propostas  de  fazenda  355 


tar,  cujos  funcionários  ameaçou  e  preteriu 
por  motivo  das  suas  opiniões  democráticas, 
chegando  a  demitir  o  secretario,  Cerqueira 
Coimbra,  que  desde  então,  longe  desta 
cidade,  tem  continuado  a  estar  sempre 
presente  na  saudade  de  todos  os  que  o 
conheciam  e  apreciavam  as  suas  primorosas 
quahdades.  Esse  governo  pessoal,  que  se 
ufanava  de  ser  um  governo  de  força,  foi  — 
por  lhe  faltar  precisamente  a  força  que  só 
pode  dar  a  um  governo  a  opinião  — ,  foi, 
com  a  sua  ditadura,  não  só  dos  mais 
opressivos,  mas  também  dos  mais  esbanja- 
dores, escravizado,  como  esteve,  aos  pode- 
rosos de  dentro  e  de  fora  da  nação.  Foi 
então  que  Casimiro  Périer,  em  nome  da 
oligarchia  financeira,  nos  esbofeteou  deante 
de  todo  o  mundo,  em  pleno  parlamento 
francês.  E'  a  conta  de  todos  os  gastos  de 
então,  acrescentados  com  os  dos  partidos  que 
se  seguiram  ao  do  poder  pessoal  de  1894 
a  1897,  que  se  nos  apresenta  agora  para 
pagarmos  pelo  agravamento  de  impostos. 
Recusamo-nos  a  isso.  E  advertimos  os 
poderes  constituidos  de  que  é  possível,  e 
bem  provável,  que,  se  insistirem  no  seu 
propósito,  a  insurreição  que  no  anno  passado 


3õG  Da  monarchia  para  a  republica 


se  limitou  a  Coimbra,  se  alastre,  estuando 
no  coração  de  todo  o  país. 

O  partido  republicano  é  um  partido  d'or- 
dem ;  pretende  conquistar  o  poder  pela  força 
da  o]3Ínião ;  mas  contem  as  classes  trabalha- 
doras com  elle  na  vanguarda  para  todos  os 
sacrifícios,  em  qualquer  vicissitude. 

Quando  os  diversos  j^artidos  monarcliicos 
que  têem  governado  ou  querem  governar, 
são  unanimes  em  reclamar  mais  impostos 
ao  país,  em  oposição  a  elles  o  partido 
republicano  proclama  bem  alto,  assumindo 
um  "compromisso  solemne,  que  o  povo  por- 
tuguês nào  deve^  nem  pode  pagar  mais  impostos. 


Comido  de  Coimbra  em  27  de  março 
de  1904  - 

Saúda  o  commercio  de  Coimbra  e  as  dele- 
gações e  representantes  do  commercio  de 
todos  os  pontos  do  país,  que  se  acham  ali 

*  Discurso  110  comicio  promovido  pelo  corpo  comnier- 
cial,  segundo  o  extracto  da  Resistência. 


Contra  as  propostas  de  fazenda  357 


reunidos,  por  mais  aquella  demonstração  da 
sua  cohesão,  do  seu  espirito  corporativo,  e 
sobretudo  do  seu  patriotismo,  porque  nesta 
cam^Danha  travada  com  os  poderes  públicos 
não  se  trata  dos  interesses  só  duma  classe, 
mas  sim  dos  interesses  solidários  de  todas 
as  classes  trabalhadoras. 

Expõe  como  as  propostas  de  agra- 
vamento d'impostos  apresentadas  pelo 
governo  ao  parlamento  vinham  envolvidas 
e  acobertadas  com  outras  de  fomento 
económico  ao  commeroio,  á  industria  e  á 
agricultura.  Como  se,  na  desvalidez  a  que 
chegámos,  por  mais  numerosas  que  sejam 
as  nossas  necessidades,  não  sobreleve  a 
todas  a  necessidade  de  vivermos  !  Só  ao 
povo  proletário  o  governo  não  ofíereceu 
nada,  e  descarregou  rudemente  a  ameaça 
de  nova  tributação  sobre  a  sua  alimenta- 
ção e  a  sua  luz. 

Por  isso  o  partido  republicano  soltou 
o  grito  d'alarme  contra  as  propostas  de 
fazenda.  E  logo  as  federações  operarias 
no  seu  comicio  as  combateram.  As  outras 
classes  estudaram-nas,  discutiram-nas ;  e, 
dentro  em  pouco,  as  associações  commer- 
ciaes  representavam  ás  cortes  contra  ellas, 


358  Da  monarchia  para  a  republica 


e,  organizando  uma  acção  commum,  opera- 
vam essa  admirável  mobilização  de  forças 
do  dia  14  de  março,  que  ficará  para  sempre 
como  uma  data  gloriosa  para  o  commercio 
português,  —  e  folga  de  poder  apontar  á 
assembléa  os  promotores  dessa  grandiosa 
manifestação,  alli  presentes,  o  sr.  José 
Pinheiro  de  Mello,  de  Lisboa,  e  os  srs. 
José  Ferreira  Gonçalves,  e  José  Pimentel, 
do  Porto  — ;  a  agricultura  representava 
também  contra  ellas,  e  a  industria,  a  princi- 
pio vacillante  e  mesmo  inclinada  á  aprova- 
ção das  propostas  de  fazenda,  parece  final- 
mente já  convencida  de  que  todas  as 
vantagens  e  benefícios  da  reforma  da  pauta 
em  favor  da  producção  não  compensariam 
os  prejuízos  que  lhe  haviam  d'advir  da  dimi- 
nuição de  capacidade  do  consumo.  Assim 
foi  crescendo  o  movimento  de  protesto. 
Alastrou-se.  Tornou-se  verdadeiramente  na- 
cional, 

E,  qualquer  que  seja  o  seu  êxito,  não  se 
pode  negar-lhe  alta  importância.  E'  assim 
que  a  opinião  se  forma.  Este  é  o  grande 
meio  d'educação  politica  do  país,  porque 
este  movimento,  essencialmente  económico 
dentro    das     associações,    desde    que    saiu 


Contra  as  propostas  de  fazenda  3õ0 


de  dentro  delias  para  a  praça  publica, 
converteu-se  num  movimento  politico. 
E'  assim  que  se  poderá  ir  conseguindo  o 
governo  da  nação  pela  nação.  E,  quando 
o  obtivermos,  quando  todos  os  jDoderes, 
desde  o  mais  humilde  até  ao  mais  elevado, 
forem  da  vontade  e  eleição  da  nação,  tere- 
mos feito  ordeiramente,  pacificamente,  a 
maior  de  todas  as  revoluções,  alcançando 
com  ella  o  triumpho  não  só  dum  partido, 
mas  da  liberdade  e  da  pátria. 

Não  quer  acentuar  a  nota  partidária, 
mas  não  pode  deixar  de  tirar  a  moralidade 
politica  que  o  movimento  de  protesto 
encerra.  Achando-se  nesta  questão  vital, 
dum  lado,  todas  as  classes  trabalhadoras, 
€,  do  outro,  apenas  a  minoria  dos  privile- 
giados, é  licito  procurar  saber  com  quem 
estão  os  nossos  partidos  políticos.  E  vê-se 
que  com  a  oligarchia  dos  privilegiados  que 
devoram  a  substancia  da  nação,  não  estão 
só  os  partidários  do  actual  governo,  estão 
todos  os  partidos  monarchicos,  pois  todos 
elles,  i^or  mais  que  ataquem  as  propostas 
de  fazenda  em  discussão,  todos  ao  desafio, 
como  se  isso  fosse  condição  para  captarem 
a  confiança  da  coroa,  declaram  permanen- 


360  Da  monarchia  para  a  republica 

temente  que,  quando  houver  um  governa 
de  moralidade  na  administração,  eufemismo 
que  significa  —  quando  elles  forem  go- 
verno — ,  já  o  país  se  não  recusará  a  novos 
sacrifícios,  o  que  é  redondamente  falso,  por- 
que o  país  não  pode  nem  quer  pagar  mais,  e 
o  primeiro  acto  de  moralidade,  de  coragem 
cívica,  que  se  tem  d*exigir,  hoje,  dos  gover- 
nantes, é  que  equilibrem  o  orçamento  e  as 
contas  do  estado,  não  pelo  augmento  dos 
impostos,  mas  pela  sua  própria  reducção  e 
pela  supressão  de  todas  as  despesas  inú- 
teis e  faustosas.  Com  as  classes  trabalha- 
doras, identificado  com  ellas,  só  o  partido 
republicano,  que  iniciou  este  movimento 
de  protesto  e  que  o  acompanhará  sem 
esmorecer  até  final.  Tanto  é  certo  que  o 
partido  republicano  é  hoje  o  único  profun- 
damento  nacional ! 


A  insurreição  de  Coimbra 


O  movimento  d'insurreição  de  Coimbra 
contra  as  expoliações  governativas,  por 
mais  lamentáveis  que  sejam  as  mortes  dos 
dois  infelizes,  —  um  delles  uma  creança 
ainda !  —  que  foram  victimas  do  seu 
choque  com  a  arrebatada  repressão  das 
tropas,  tem  um  alto  significado  civico  e 
prestou  a  todos  os  ânimos  atribulados 
6  feridos  de  desalento  o  inapreciável  ser- 
viço de  tornar  bem  patente  que  ainda  ha 
aqui  corações  e  braços  robustos  e  dedi- 
cados para  estreitar  e  soerguer  com  toda 
a  paixão  e  toda  a  hombridade  o  estan- 
darte da  revolta  contra  as  prepotências  que 
nos  arruinam,  nos  vexam  e  deshonram. 
Provou-se   claramente  que  este  bom  povo, 


*  No  supplemento  da  Justiça,  commeinorativo  do  dia 
12  de  março  de  1903. 


302  Da  monarchia  para  a  republica 

que,  —  dia  a  dia,  de  sol  a  sol,  —  gasta  a 
sua  vida  num  Ímprobo  labor,  sem  nada 
mais  lograr  senão  ver  escarnecida  a  sua 
paciência  e  sobrecarregada  a  sua  miséria, 
é  também  capaz  de  arriscá-la  duma  vez, 
num  momento  de  nobre  e  heróica  indi- 
gnação, pela  esperança  generosa  de  haver 
melhores  dias  para  a  sua  família  e  para  a 
sua  pátria.  Podem  contar  seguramente 
com  elle,  com  os  seus  homens,  com  as 
suas  mulheres  e  até  com  os  seas  filhos, 
com  as  suas  sympathias  e  com  o  seu  apoio 
material  e  moral,  todos  os  que  se  unirem 
em  santa  cruzada  para  a  defesa,  reviu- 
dicação  e  conquista  dos  nossos  direitos 
individuaes  e  collectivos,  sem  os  quaes  é 
absolutamente  impossível  a  nossa  restau- 
ração  nacional. 


Protecção  ás  mulheres 
e  aos  menores 

Congresso  da  «  Liga  contra  a  Tuberculose  »  celebrado 
em  Coimbra  (abril  de  1904) 


Discurso  * 

Nunca  como  nos  últimos  tempos  o  natu- 
ralismo foi  tão  dominante.  Mas  nem  por 
isso  a  vida  se  materializou,  antes  hoje 
mais  do  que  nunca  a  civilização  é  gene- 
rosa, esjDiritual  e  idealista.  Exemplo  rele- 
vante da  influencia  humanista  e  mora- 
lizadora do  naturalismo  é  a  hygiene,  cujos 
dictames  cada  dia  mais  se  vão  conver- 
tendo nas  nações  cultas  em  códigos  de 
direitos   e   de  leis. 

Uma  destas  leis  é  a  da  regulamentação 
das  mulheres  e  menores  nas  fabricas,  que 
foi    a     obra    de    vários    homens    públicos, 

*  Segundo  o  extracto  da  Resistência  e  da  Justiça. 


364  Da  monai"chia  para  a  republica 


entre  os  quaes  é  dever  lembrar  dois  mor- 
tos ilustres,  Saraiva  de  Carvalho  e  Tho- 
maz  Ribeiro,  obra  a  que  teve  a  honra 
de  pôr  termo  em  1893,  ao  lado  de  Augusto 
Fuschini,  que  tanto  também  contribuíra 
para   ella. 

Embora  reputada  uma  das  mais  perfei- 
tas, senão  mesmo  a  mais  perfeita  de  todas, 
esta  lei  tem  decerto  lacunas  e  incorrecções. 

Apontará  algumas.  Entre  os  misteres 
prohibidos  aos  menores,  importa  incluir  o 
de  varredores  de  rua,  que,  perigoso  até 
mesmo  para  os  adultos,  o  é  sobretudo  para 
as  compleições  tão  susceptíveis  de  creanças. 

A  prohibição  do  trabalho  das  mulheres 
nas  proximidades  do  parto  deve  ser  não  só 
depois,  mas  também  antes  delle ;  e  que- 
reria até  que  se  condemnassem  os  contra- 
ctos de  creação,  em  que  duas  mães,  uma 
rica  e  outra  pobre,  uma  tantas  vezes  por 
egoismo,  outra  quasi  sempre  por  miséria, 
abandonam  os  seus  filhos,  impondo-se  a 
todas,  ricas  e  pobres,  a  obrigação  de,  sem- 
pre que  possam,  crearem  os  seus  filhos. 

E  a  nossa  aspiração  não  hade  limitar-se 
a  defendermos  os  menores  e  as  mulheres  só 
nas    fabricas,    mas    também    na    industria 


Protecyão  ás  iiuillieres  e  .aos  meuores  3()5 

domiciliaria,  que  tantos  progressos  tem 
feito  ultimamente  no  norte  do  país. 

E  não  só  na  industria,  mas  em  todas 
as  profissões.  Para  mostrar  quanto  isto  é 
preciso,  basta  dizer  que  os  'empregados  do 
commercio,  mesmo  as  mulheres,  mesmo 
os  menores,  não  têem  ainda  sequer  por  lei 
o  direito  ao  descanço  dum  dia  por  semana. 
E  quanto  não  precisam  de  protecção  os 
creados  de  servir,  principalmente  os  meno- 
res e  mulheres,  que,  na  prestação  dos  seus 
serviços,  vivem  inteiramente  á  mercê  do  ar- 
bitrio  humano  ou  deshumano  dos  patrões  ! 

E  não  só  o  exercicio  das  profissões,  mas 
também  o  seu  aprendizado,  cumpre  tornar 
hygienico.  Ora  o  alumno  entre  nós  está 
submetido  a  um  regimen  de  trabalho  for- 
çado :  na  escola  primaria,  a  estreiteza  do 
ensino  viola  a  integridade  do  seu  desenvol- 
vimento physico  e  moral,  e  no  lyceu,  a 
multiplicidade  dos  professores,  especiali- 
zando o  estudo  de  cada  disciplina,  torna-lho 
duma  intensidade  e  duração  incomportá- 
vel; ao  contrario,  no  ensino  superior,  que 
deve  ser  especial,  por  causa  da  amplitude 
dos  programmas  elle  é  arrastado  de  maté- 
ria em  matéria,  sem  nunca  poder  parar  em 


36G  Da  mouarchia  para  a  republica 

nenhuma,  com  fatigante  irritabilidade  do 
seu  espirito,  que  não  pode  deixar  de  rever- 
ter em  damno  para  a  sua  saúde. 

Todas  as  leis  de  protecção  são  necessá- 
rias para  a  mulher  e  para  a  creança  e 
ainda  para  o  homem  do  povo.  Por  todas 
ellas  devemos  pugnar,  principalmente  numa 
Universidade,  onde  crê  interpretar  os  sen- 
timentos de  todo  o  magistério,  declarando 
que  não  ó  sem  dor,  e  muitas  vezes  mesmo 
sem  indignação,  que  se  tem  de  ensinar  ura 
direito  civil,  que  é  principalmente  o  direito 
dos  i^roprietarios  e  dos  ricos,  um  direito 
publico,  que  ó  o  direito  duma  oligarchia 
sobre  a  vontade  da  nação,  um  direito  finan- 
cial, que  é  o  direito  que  têem  os  ricos  de 
tributarem  os  pobres,  um  direito  penal, 
que  é  o  direito  que  assiste  aos  poderosos 
de  castigarem  os  humildes  e  desvalidos  que 
lhes  não  pagam  ou  não  obedecem. 

Mas,  se  tantos  direitos  novos  de  solida- 
riedade social  é  necessário  ir  implantando  na 
nossa  legislação,  faça-se  ao  menos  por  cum- 
prir o  inicio  dessa  legislação  que  já  possui- 
mos  e  que  é  principalmente  importante 
como  promessa.  Para  pôr  em  execução  a 
regulamentação  do  trabalho  dos  menores  e 


Protecção  ás  mulheres  e  aos  menores  361 


mulheres  nas  fabricas,  organizou  e  dotou 
convenientemente  a  inspecção  industrial,  e 
os  inspectores  desempenham-se  com  zelo 
das  suas  funcções.  Sem  embargo,  a  lei 
pouco  ou  quasi  nada  se  executa.    Porque  ? 

Opõem-se-lhe  as  mesmas  causas  que  em 
Portugal  se  opõem  a  todas  as  leis  de 
justiça  e  de  progresso,  a  triple  reacção 
religiosa,  politica   e   económica. 

A  reacção  religiosa,  que  sempre  emba- 
raça quanto  pode  o  exercício  do  poder  civil, 
tem-llie  creado  difficuldades,  recusando-se 
muitos  parochos  a  passar  gratuitamente  as 
certidões  de  edade  que  são  necessárias  para 
definir  as  obrigações  impostas  pela  lei. 

A  reacção  politica,  pelo  seu  favoritismo, 
tira  a  força  aos  inspectores  para  empre- 
garem os  meios  necessários  á  sancção  das 
prescripções  da  lei. 

A  reacção  económica  que  empobrece  e 
arruina  a  nação,  pela  sua  avidez  e  dissipa- 
ção torna  a  vida,  a  alimentação,  o  vestuá- 
rio, a  habitação  do  operário  cada  vez  mais  \ 
cara,  enfraquecendo-lhe,  por  isso,  as  suas 
forças,  donde  resulta,  mais  do  que  em 
qualquer  outra  nação,  necessário  entre  nós 
proteger  o  menor  e  a  mulher  no  trabalho. 


368  Da  moaarchia  para  a  republica 

Para  que  a  família  possa  dispensar  o  salá- 
rio da  creança,  que  tantas  vezes  é  o  único 
braço  que  lhe  resta  para  a  sua  sustentação, 
é  preciso  organizar  em  seu  favor  a  assis- 
tência publica.  Para  que  a  mulher,  nas 
crises  da  maternidade,  possa  dispensar- 
se  de  trabalhar,  é  preciso  organizar  em 
seu  favor  caixas  de  seguros  ou  socorros. 
E  como  se  desempenham  destas  obrigações 
as  classes  possidentes  e  governamentaes  ? 
Ai !  em  Portugal,  são  os  pobres  que  pres- 
tam a  assistência  aos  ricos  e  não  os 
poderosos  aos  desvalidos.  Em  prol  dos 
industriaes,  ha  o  proteccionismo  pautal, 
que  é  feito  á  custa  dos  contribuintes  e 
portanto,  em  grande  parte,  pelas  classes 
trabalhadoras.  E  quantos  repartem  com 
ellas  essa  protecção  ?  Os  poderes  públicos 
lançam  sobre  a  nação  impostos,  em  grande 
parte  impostos  indirectos,  que  recaem  prin- 
cipalmente sobre  as  classes  trabalhadoras. 
E  que  beneficio  lhes  prestam  em  troca? 

Nem,  ao  menos,  quando  os  patrões  ten- 
tem resarcir-se  da  falta  de  braços  baratos 
dos  menores  e  da  reducção  do  tempo  de 
trabalho  dos  menores  e  das  mulheres,  redu- 
zindo elles  o  salário,  o  operário,  pela  faci- 


Protecção  ás  mulheres  e  aos  menores  369 


lidade  da  sua  organização  associativa  e 
pelo  direito  de  greve  pode  reagir.  Para  se 
ver  como  é  ainda  difficil  ás  classes  ope- 
rarias associar-se,  porque  a  lei  das  associa- 
ções de  classe  exige  a  auctorização  prévia 
do  governo,  sempre  fatigante  e  esteriliza- 
dora para  todas  as  iniciativas,  basta  dizer 
que  na  circumscripção  industrial  de  Coim- 
bra apenas  existe  com  estatutos  aprovados 
uma  associação  de  classe.  E  a  greve, 
a  colligação  operaria,  que  devia  ser  um 
direito,  embora  tolerada  pela  brandura 
dos  nossos  costumes,  é  punivel  pela  lei 
penal   como   um   delicto. 

Ao  operário  nem  resta  sequer  o  recurso 
de  por  toda  a  parte  apelar  para  os  tribu- 
naes,  quando  nem  mesmo  o  minguado  jor- 
nal a  que  se  sujeitou,  o  patrão  lhe  queira 
afinal  pagar  lealmente,  porque  não  existe 
€m  todo  o  país  ainda  senão  um  tribunal  de 
árbitros  avindores,  o  que  elle  creou  em 
Lisboa  em  1893,  e  esse  mesmo  com  vida 
precária,  muito  abandonado  pelos  poderes 
públicos. 

Eis  a  conclusão  a  que  chega  sempre  em 
todas  as  questões  sociaes  entre  nós  quem 
tem   alma  e  coração :   é  que,  para  resolver 

24 


370  Da  monarchia  para  a  republica 

qualquer  delias,  de  que  depende  a  vida  e 
o  futuro  da  nação,  é  absolutamente  indis- 
pensável uma  profunda  e  radical  reforma 
nas  instituições  que  nos  regem. 

Conclusões 

1.'"'  —  Ha  um  direito  novo  do  operariado, 
e,  em  esj^ecial,  da  mulher  e  do  menor,  que 
é  necessário  proclamar  bem  alto,  inscre- 
vendo-© na  legislação  civil. 

2.^  —  O  proteccionismo  aos  industriaes 
deve  ter  sobretudo  jDor  fim  o  proteccio- 
nismo aos  operários,  e,  primeiramente,  ás 
mulheres  e  aos  menores. 

3.^  —  Sem  o  barateamento  da  vida  do 
operário  por  effeito  da  socialização  do 
imposto,  mal  se  poderá,  ainda  á  custa 
duma  larga  beneficência,  pôr  em  execução 
a  lei  do  trabalho  das  mulheres  e  dos 
menores   nas   fabricas. 

á.""*  —  O  procedimento  duma  parte  do 
clero,  recusando-se  a  passar  gratuitamente 
as  certidões  de  edade  aos  menores  empre- 
gados nas  fabricas,  é  mais  um  argumento 
que  demonstra  a  necessidade  de  se  tornar 
obrigatório  para  todos  o  registro  civil. 


Protecção  ás  mulheres  e  aos  menores  371 

5.'"'  —  A  Repartição  do  trabalho  industrial 
deve  publicar  regularmente  um  boletim 
estatistico,  onde  se  insiram  os  relatórios 
dos   inspectores   industriaes. 

6.'"'  —  Provisoriamente  os  inspectores  in- 
dustriaes poderiam  com  vantagem  acumular 
as  funcções  de  inspectores  do  ensino  indus- 
trial. 

7.*  —  As  caixas  escolares,  como  tão 
benemeritamente  as  têem  instituído  muitos 
jDrofessores  primários,  são  um  poderoso 
meio  de  assistência  para  se  conseguir  aliar 
o   trabalho  com  a  instrucção  dos  menores. 

8.*  —  E'  necessário  ministrar  um  ensino 
complementar  aos  menores  dum  e  doutro 
sexo,  empregados  na  industria,  que  já  se 
achem  habilitados  com  a  instrucção  ele- 
mentar  obrigatória. 

9."''  —  Cumpre  tornar  extensiva  a  todas 
as  classes  de  trabalhadores  e  profissões  a 
protecção  social  para  com  os  menores  e  as 
mulheres. 


Eleições 


Eleger  ou  não  eleger,  eis  o  problema 
politico.  Sobre  a  eleição  se  funda  o 
governo  liberal,  como  sobre  o  arbítrio 
o  governo  despótico.  Eleição  e  liberdade 
são  irmãs.  Por  isso,  de  todos  os  governos 
o  mais  liberal  é  o  republicano,  que  é  o 
mais   electivo. 

Com  o  progresso  do  sufrágio,  cresce  a 
liberdade;  com  o  retrocesso,   decresce. 

Entre  nós,  no  periodo  constitucional,  á 
medida  que  se  vai  ganhando  em  eleição, 
ganha-se  em  liberdade.  Sem  falar  já 
nas  nossas  grandes  épocas  liberaes,  1822 
e  1838,  que  se  assignalam  pela  organi- 
zação   do    parlamento,    com    uma   ou   duas 


*  Conferencia  realizada  no  Centro  eleitoral  republicano 
José  Falcão,  de  Coimbra,  na  noite  de  30  de  maio  de  1904, 
segundo  o  extracto  da  Resistência. 


374  Da  raonarchia  para  a  republica 

camarás,  todo  de  eleição,  em  1826  a  carta 
declara  electiva  a  camará  dos  deputados, 
o  acto  adicional  de  1851  torna  electivas 
todas  as  camarás  municipaes,  e  o  acto 
adicional  de  1885  introduz  o  principio 
electivo  na  camará  dos  pares.  As  eleições 
vão  passando  de  indirectas  a  directas. 
A  temporalidade  do  mandato  reduz-se, 
amiudando-as.  E  o  sufrágio  alarga-se : 
em  1878  confere-se  o  voto  a  todos  os 
chefes  de  familia,  o  que  é  quasi  o  sufrá- 
gio universal.  Efectivamente,  emquanto 
em  1877  havia  recenseados  no  continente 
476:120  eleitores,  ou  10  por  cento  da 
população,  em  1880  o  corpo  eleitoral  subiu 
a  844:838,  e,  logo  em  1883,  a  863:280, 
ou  cerca  de  18  por  cento  da  população, 
percentagem  sensivelmente  egual  á  da 
Allemanha,  onde  ha  o  sufrágio  universal 
aos  25  annos  d'edade.  Conjuntamente  com 
o  numero  de  eleitores,  augmentou  também, 
embora  com  varias  oscilações,  o  numero  de 
deputados,  que  em  1884  foi  de  170. 

Ao  contrario,  com  o  governo  do  engran- 
decimento do  poder  real,  a  camará  dos 
pares  volta  a  ser  de  nomeação  regia,  as 
juntas    geraes    de    districto    passam    a    ser 


Eleições  375 

presididas  pelos  governadores  civis,  e  para 
as  camarás  municipaes  de  Lisboa  e  Porto 
os  presidentes  são  nomeados  pelo  chefe  do 
estado.  As  eleições  districtaes  tornam-se 
indirectas.  Eestringe-se  o  eleitorado  pela 
supressão  da  capacidade  eleitoral  dos  sim- 
ples chefes  de  familia.  O  numero  de 
deputados   desce   a   120. 

E,  assim  como  os  direitos  do  eleito  e 
portanto  do  eleitor  se  foram  elevando 
pelos  actos  adicionaes  de  1851  e  1885, 
que,  em  proveito  do  parlamento,  limitaram 
a  prerogativa  da  coroa  sobre  impostos  e 
sobre  a  dissolução,  e  pelo  código  adminis- 
trativo de  1878,  largamente  descentraliza- 
dor ;  assim  depois,  pelo  acto  constitucional 
subtractivo  e  pelo  código  administrativo 
de   1896,   diminuíram. 

As  nações  mais  liberaes  são  as  que  mais 
professam  o  principio  da  eleição.  A  Ingla- 
terra leva-o  até  ás  colónias.  Nos  Estados 
Unidos  e  na  França  o  próprio  chefe  do 
estado  é  electivo.  E  a  Suissa  elege  não 
só  as  auctoridades  do  poder  legislativo, 
mas  ainda,  em  grande  parte,  as  do  poder 
executivo ;  mais,  faz  de  cada  eleitor  um 
eleito    pelo    direito    d'iniciativa    e    de   refe- 


376  Da  monarchia  para  a  republica 

rendum.  Inversamente,  as  nações  mais 
escravizadas,  como  boje  a  nossa,  não 
conhecem  ou  não  acatam  o  principio 
electivo. 

A  eleição,  aqui  mesmo  celebrada  nas 
cortes  de  Coimbra  de  1385,  deu-nos  Alju- 
barrota, abrindo-nos  todo  o  glorioso  periodo 
das  nossas  navegações  e  descobrimentos. 
Depois,  com  a  supremacia  do  jesuita  e  a 
abolição  de  todo  o  voto  livre,  tudo  tivemos 
perdido,  até  a  independência  nacional. 

Porque  é  que  a  nossa  nação  está  tão 
dividida,  tão  arruinada  e  desauctorizada? 
Porque  é  que  lá  fora  lançam  sobre  nós  as 
suspeitas  mais  afrontosas :  não  ha  muito, 
que,  atraiçoando  a  hospitalidade  que  de- 
víamos a  Kruger,  o  iamos  entregar  aos 
ingleses ;  agora,  que  o  protesto  do  Vaticano 
contra  a  visita  do  presidente  Loubet  á 
Itália  se  tornou  do  dominio  publico  por 
inconfidência  da  nossa  chancelaria  ?  Que 
calumnias  nos  não  assacam  ?  E'  precizo 
ter  viajado  no  estrangeiro  para  se  ver,  com 
o  coração  retalhado  de  dôr  e  o  rubor  nas 
faces,  até  que  ponto  tem  baixado  a  nossa 
reputação.  O  que  soffrem  sobretudo  os 
nossos    filhos    que    têem    d'ir    procurar    o 


Eleições  377 

ensino  ás  escolas  doutros  jjaizes  !  E  por- 
que ?  Porque  somos  uma  nação,  uma 
raça  moribunda?  porque  já  não  possuímos 
homens  de  entendimento  e  de  caracter 
para  o  nosso  governo  ?  Não  !  porque  os 
não    escolhemos. 

O  principio  electivo  é  o  lemma  da  ban- 
deira dos  reformadores  politicos  por  toda 
a  parte.  Que  reclamam  os  valorosos  repre- 
sentantes da  infeliz  Irlanda?  o  hume  ride, 
isto  é,  o  direito  delia  se  governar  por  sua 
eleição.  Por  que  anceiam  os  épicos  patrio- 
tas do  Transwaal  ?  pela  restauração  do  seu 
direito  eleitoral. 

Foi  o  principio  electivo  o  que,  em  poucos 
annos,  communicou  ao  Ja23ão  a  força,  a 
cohesão  que  está  demonstrando  nas  suas 
tremendas  lutas  com  a  Eussia  autocrática. 
Restitua-se-nos  esse  principio  de  vida,  e 
Portugal  resuscitará. 

Um  povo  indiíferente  pela  eleição  é  um 
povo  indifiPerente  pela  liberdade. 

A  questão  religiosa,  a  questão  económica 
e  a  questão  politica  são  fundamentalmente 
questões  d'eleição. 

Que  pretendemos  em  religião  ?  Preten- 
demos    que     todos    tenham    o    direito    de 


378  Da  moDarchia  para  a  republica 


escolher  o  seu  culto ;  e,  dentro  do  culto 
catholico,  que  é  o  nosso  culto  tradicional, 
a  que  todos  queremos  muito,  porque,  ainda 
quando  não  seja  o  dalguns  de  nós,  foi  o 
dos  nossos  pães  e  é  o  de  quasi  todas  as 
nossas  mulheres,  pretendemos  que  á  nossa 
egreja-matriz  e  ao  nosso  seminário  dioce- 
sano, governados  pelos  nossos  parochos  e 
bispos,  da  nossa  escolha,  porque  são  da 
escolha  da  nação,  se  não  substituam  as 
capellas  e  os  noviciados  da  propaganda 
romana,  que  ás  nossas  misericórdias,  irman- 
dades e  confrarias,  de  nossa  eleição,  se 
não  substituam  as  congregações  religiosas 
adscritas  passivamente  á  obediência  de 
Roma,  e  não  mesmo  da  Roma  do  papa 
branco,  mas  da  Roma  do  papa  negro. 

Que  pretendemos  economicamente  ?  Pre- 
tendemos que  não  só  os  ricos,  mas  todos 
tenham  direito  á  vida  económica,  podendo 
unir-se,  associar-se  cooperativamente  para 
escolherem  livremente  os  seus  chefes,  os 
seus  mestres  e  directores ;  e  que  os  que 
não  tenham  meios  de  trabalhar  por  sua 
conta,  possam  solidariamente  debater  pelos 
seus  representantes  os  seus  contractos  de 
trabalho    e    por  meio   delles   assegurar  em 


Eleições  379 


tribunaes  d' arbitragem  o  exacto  cumpri- 
mento desses  contractos. 

Que  pretendemos  politicamente  ?  Que 
todas  as  corporações  até  o  estado  sejam 
francamente  electivas,  dando-se  a  cada 
uma  das  nossas  divisões  administrativas, 
tanto  da  metrópole  como  das  colónias,  a 
mais  liberal  autonomia.  Quem  não  vê  que 
os  litigios  que  hoje  ameaçam  despedaçar  a 
unidade  nacional,  como,  por  exemplo,  entre 
S.  Thomé  e  Angola,  só  assim  se  podem 
resolver  ? 

Ai !  é  muito  difficil  o  exercicio  do  direito 
de  eleição  entre  nós,  de  toda  eleição  e 
sobretudo  de  eleição  politica,  bem  o  sei. 
Contra  elle  avança  não  só  o  despotismo 
politico,  commandando  a  legião  dos  seus 
influentes,  mas  também  o  despotismo  finan- 
ceiro, ou  a  plutocracia,  e  o  despotismo 
clerical,  ou  a  theocracia.  Custa  a  ter  a 
liberdade  politica,  porque  é  preciso  ter 
primeiro  a  liberdade  económica  e  a  liber- 
dade religiosa. 

Mas,  se  é  certo  que,  nos  individues  como 
nas  sociedades,  a  nossa  opinião  depende 
muito  dos  nossos  interesses  como  das 
nossas  paixões,  não  é  menos  certo  recipro- 


380  Da  monarchia  para  a  republica 

camente  que,  desde  que  a  razão  se  desen- 
volve, tende  a  ser  predominante.  O  poder 
politico  vai  cada  vez  mais  regulando  e 
garantindo  a  liberdade  económica  e  a 
liberdade  religiosa  das  nações.  A  questão 
económica  e  a  questão  religiosa  têem 
de  ser  decididas  superiormente  por  elle. 
Daqui  a  suprema  importância  da  eleição 
politica.  E'  necessário  que  todos,  não  só 
os  que  têem  uma  opinião  sobre  as  coisas 
publicas  a  sustentar,  mas  também  os  que 
tèem  interesses  geraes  a  defender  e  senti- 
mentos de  fraternidade  a  salvaguardar, 
apellem  para  ella. 

As  almas  piedosas  que  se  confrangem 
do  materialismo  grosseiro  duns  e  do  impio 
fanatismo  de  tantos  outros  ;  aos  proletários 
que  se  vêem  sem  trabalho,  ou  esfalfados 
pelo  excesso  de  trabalho,  sem  o  descanço 
diário  ou  semanal  indispensável,  e  sem 
segurança  para  a  desvalidez  do  dia  d'ama- 
nhã  por  accidente,  doença  ou  velhice,  e 
aos  negociantes,  industriaes  e  lavradores 
que  protestam  contra  os  esbanjamentos  e 
os  impostos  que  nos  arruinam  a  todos  ; 
aos  nossos  mestre-escolas  e  professores, 
aos  nossos  jornalistas  e  aos  nossos  tribunos, 


Eleições  381 


que  combatem  a  ignorância  e  o  erro  e  pro- 
curam formar  a  razão  social  para  que,  em 
seu  nome,  a  lei  governe;  a  todos  direi: 
Lutem  pela   eleição  ! 

Reunamo-nos  !  Que  nada  neste  momento 
nos  divida  e  enfraqueça !  Não  macule  o 
clero  liberal  as  suas  mãos  com  os  presentes 
que,  agora  no  periodo  eleitoral,  o  governo 
lhe  quer  fazer  para  as  suas  egrejas  e 
cathedraes ;  não  peça  nada  ao  governo  a 
nossa  burguezia  liberal,  nem  caminhos  de 
ferro  nem  estradas,  nem  serviço  algum, 
por  mais  que  urja  aos  interesses  públi- 
cos, nada ;  ninguém  que  tenha  uma  par- 
cella  d'iníluencia  na  opinião,  solicite  do 
governo  nem  sequer  o  reconhecimento 
do  minimo  direito  que  do  comprazimento 
delle  dependa.  Tudo  têem  nas  suas  mãos : 
Votem ! 

Sejam. absolutamente  intransigentes!  Não 
se  comprometam !  Não  vão,  j)ela  vanta- 
gem da  ocasião,  alimentar  e  dar  alento 
ao  arbítrio  governativo,  que  os  abaterá  e 
subjugará    amanhã. 

Lutemos  pelo  direito  d'eleição  !  E'  para 
travar  essa  luta  que  se  criam  os  par- 
tidos   políticos,   uns    para   esmagar   a   elei- 


382  Da  monarchia  para  a  repablica 

ção,  outros  para  a  proclamar  e  defender. 
E  conhece-se  logo  os  que  são  por  ella  ou 
contra  ella,  pela  sua  própria  constituição 
electiva,  democrática,  ou  arbitraria,  des- 
pótica. Entre  nós,  os  partidos  progressista 
e  regenerador,  cujos  membros  estão  todos 
os  dias  abdicando  nos  seus  chefes,  são 
inimigos  da  eleição  ;  o  partido  neo-regene- 
rador  dos  homens  que  teem  que  perder, 
logo  pelo  seu  apelido  de  franquismo,  que 
atesta  quanto  o  magnetismo  pessoal  do 
seu  chefe  se  impõe  discrecionariamente  aos 
seus  correligionários,  parece  ainda  mais 
inimigo  da  eleição  ;  e  o  nacionalismo,  que 
acaricia  no  seu  seio  as  congregações  reli- 
giosas e  portanto  sustenta  o  voto  perpetuo, 
isto  é,  por  anti-phrase,  a  abolição  do  voto, 
esse  é  de  todos  o  maior  inimigo  da  eleição. 
Em  Portugal  hoje  só  ha  um  partido  que 
se  vai  organisando  electiva  e  democratica- 
mente, e  que  é  capaz  por  conseguinte  de 
revindicar  o  principio  da  eleição  para  a 
nação  ;  é  o  partido  republicano.  Não  falte, 
pois,  ao  seu  dever. 

Tomemos,  republicanos,  todos  nós,  sem 
excepção  de  ninguém,  o  nosso  posto  de 
combate. 


Eleições  383 

Primeiro  de  tudo,  a  revindicação  do 
sufrágio  universal. 

Protestemos  contra  um  regimen  que, 
deixando  o  país  sem  escolas,  exige  para  se 
ser  eleitor  a  habilitação  de  saber  ler  e 
escrever ;  contra  um  regimen  que,  ao  passo 
que  lança  sobre  os  desvalidos  o  maior 
encargo  d'impostos,  sob  a  forma  d'impos- 
tos  indirectos,  os  risca  do  censo  dos 
contribuintes  para  lhes  negar  a  capacidade 
eleitoral,  tornando-os  duplamente  proletá- 
rios. E'  um  ludibrio  !  Todo  o  cidadão  que 
dá  a  um  país  o  seu  amor,  o  seu  trabalho  e 
a  sua  intelligencia,  tem  o  direito  d'intervir 
no  governo  dos  destinos  desse  país.  Nem 
se  pode  constituir  a  grande  família  nacio- 
nal, sem  que,  a  dentro  da  nação,  cada  um 
possa  ser,  como  é  na  família,  não  só  um 
eleitor,  mas  também  um  eleito.  A  Consti- 
tuição define  a  nação,  a  associação  politica 
de  todos  os  cidadãos  portugueses.  Sem  o 
sufrágio  universal,   é  falso. 

Após  o  sufrágio  universal,  revendiquemos 
uma  representação  eleitoral  tão  fiel  que 
assegure  a  cada  partido  um  numero  d'elei- 
tos  proporcional  ao  numero  dos  seus  elei- 
tores, protestando   tanto  contra  o  systema 


384  Da  nionarchia  para  a  republica 

vigente  da  lista  plurinominal  como  coutra 
a  resurreição  do  systema  dos  circiilos  uni 
nominaes,  que,  um  e  outro,  oprimem  o 
eleitor  e  falsificam  o  acto  eleitoral.  Num 
impera  o  feudalismo  local,  no  outro  o 
absolutismo  central. 

E,  protestando,  façamos  ao  mesmo  tempo 
a  demonstração  solemne  das  nossas  forças, 
das  forças  liberaes  e  republicanas  do  país. 
Se,  por  culpa  da  lei  e  por  dolo  dos  seus 
agentes,  os  nossos  votos  se  não  contarem, 
deixar  que  os  partidos  monarcliicos  decla- 
mem amanhã  que  foram  elles  que  trium- 
pharam,  vamos  com  os  nossos  recensea- 
mentos e  as  nossas  actas,  tudo  devidamente 
authenticado,  ao  parlamento  representar 
contra  a  legislação  eleitoral  que  nos  arranca, 
viola  e  escamoteia  a  eleição.  E.  se  não  nos 
atenderem,  se  a  lei  não  fôr  honradamente 
reformada,  voltemos  então  lá  já  com  os 
nossos  deputados  para  que  elles  tomem  o 
seu  logar.  Quem  é  que  se  nos  ha-de  opor? 
A  força  publica?  O  exercito  respeitará  a 
vontade  expressa  da  maioria  da  nação. 

A'  urna,  cidadãos  ! 


Aos  eleitores 


19  de  junho  de   1904 

Em  1884,  celebravam  os  partidos  monar- 
chicos  um  acordo  para  se  reformar  liberal- 
mente a  lei  eleitoral  e  a  lei  constitucional, 
isto  é,  para  se  augmentarem  as  liberdades. 
Hoje  os  partidos  monarchicos  celebram  o 
acordo  para  ludribiar  a  lei  eleitoral,  viciando 
na  sua  origem  o  regimen  representativo. 

E'  que  os  nossos  antigos  estadistas  do 
periodo  constitucional,  ainda  os  mais  con- 
servadores, eram  sinceramente  liberaes  e 
faziam  a  politica  do  engrandecimento  popu- 
lar. E  os  partidos  monarchicos,  desde  1886, 
e  sobretudo  depois  de  1894,  foram  cada 
vez  mais  tornando-se  em  partidos  reaccio- 


*  Discursos  nos  comicios  eleitoraes  celebrados  em 
Lisboa,  para  a  apresentação  dos  candidatos  republicanos, 
segando  os  extractos  de  O  Debate  e  O  Mundo. 

25 


386  Da  monarchia  para  a  republica 

narios  até  chegarem  a  proclamar  a  politica 
do  engrandecimento  do  poder  real,  isto  é, 
do  restabelecimento  do  absolutismo.  Por 
isso,  não  se  importam  com  o  sufrágio 
popular.  O  seu  eleitor  é  outro,  que  corte- 
jam e  adulam  ciumentamente. 

E  o  acordo  que  agora  selaram  da  dicta- 
dura  eleitoral,  não  é  senão  uma  manifestação 
do  acordo  geral  em  que  estão  intimamente 
identificados  na  sua  luta  commum  contra  a 
liberdade. 

Na  politica  interna,  estão  unidos  por  um 
systema  de  leis  opressivas  que  vão  desde 
a  constituição  dictatorial  de  1895,  que 
ameaça  todas  as  liberdades  publicas,  até  á 
odiosa  lei  de  13  de  fevereiro  de  1896,  que 
ameaça  todas  as  liberdades  individuaes. 

Na  politica  externa,  estão  unidos  por 
três  actos  de  exautoração  nacional,  que  o 
actual  presidente  do  conselho  de  ministros 
na  Sala  do  risco,  por  ocasião  do  banquete 
que  lhe  ofereceram  os  seus  coiTcligionarios, 
obcecadamente  capitulou  de  três  relevantes 
serviços  prestados  nos  últimos  tempos  pela 
monarchia:  a  aliança  inglesa,  o  convénio, 
6  o  decreto  de  legalização  das  ordens 
religiosas,  a  que  o  sr.  Hintze  Eibeiro  deu 


Aos  eleitores  387 


O  nome  de  pacificação  religiosa.  Ora  a 
aliança  inglesa,  mostrou  ainda  ha  pouco 
a  Inglaterra  o  que  é,  ocupando  como  suas 
as  nossas  aguas  territoriaes  para  as  mano- 
bras das  suas  esquadras.  Não  é  aliança, 
é  protectorado.  O  convénio  foi  a  confissão 
da  nossa  insolvência  e  a  intervenção  dos 
credores  externos  na  nossa  administração 
financeira.  E  o  que  foi  a  legalização  das 
ordens  religiosas,  viu-se  no  atrevimento 
com  que  outro  dia  a  cúria  romana  feriu  os 
nossos  brios  no  exemplar  deprimente  que 
nos  destinou  da  sua  circular  de  protesto  ás 
nações  catliolicas  contra  a  viagem  do  pre- 
sidente Loubet  ao  rei  de  Itália.  Foi  ao 
menos  de  pacificação  ?  Di-lo  bem  claro  a 
parada  de  forças  que  acaba  de  fazer  em 
Braga  o  clericalismo  para  solemnizar  o 
cincoentenario  da  definição  do  dogma  da 
Immaculada   Conceição. 

Se  a  politica  interna  dos  actuaes  partidos 
monarchicos  tem  sido  de  dictadura,  a  ex- 
terna tem  sido  de  subserviência. 

Hoje,  só  o  partido  republicano  tem  o 
direito  de  se  chamar  liberal. 

Só  os  republicanos  são  os  continuadores 
da  politica  de  Mousinho  da  Silveira,  Passos 


388  Da  monarchia  para  a  republica 

Manoel,  José  Estevam,  Rodrigues  Sampaio. 
Só  elles  podem  adeantar  e  acrescentar  a 
obra  de  emancipação  económica,  religiosa 
e  politica  iniciada  por  esses  grandes  libe- 
raes  e  patriotas.  E  não  faltarão  ao  desem- 
penho de  tão  sagrado  dever.  E'  o  que  os 
candidatos  republicanos  vêem  dizer  a  toda 
a  nação,  desfraldando  perante  os  seus 
eleitores  o  programma  do  partido. 

Nós  queremos  a  plena  liberdade  de  cultos, 
portanto  a  liberdade  de  associação  reli- 
giosa, mas  sem  que  dentro  de  nenhuma  se 
professem  votos  que  sejam  a  anulação  da 
própria  liberdade.  E,  como  respeitamos 
todas  as  crenças,  não  queremos  que  nas 
nossas  escolas  se  obriguem  os  nossos  filhos 
a  nenhum  catecismo  nem  a  nenhum  jura- 
mento confessional,  e  tão  pouco  queremos 
que  se  desnature  a  missão  civilizadora, 
moralizadora,  que  nos  compete  sobre  as 
raças  incultas  das  possessões  ultramarinas 
confiadas  á  nossa  guarda,  convertendo-a 
numa  missão  sectária,  fanática,  de  propa- 
gação da  fé  idtramontana  de  nenhuma 
egreja.  O  estado,  que  é  a  grande  associação 
onde  se  reúnem  todos  os  crentes  da  nação, 
das  mais  diversas  confissões,  a  todas  deve 


Aos  eleitores  389 


respeito  e  protecção,  mas  só  uma  religião 
pode  e  deve  ter  sua  própria,  que  é  a  do 
bem,  da  fraternidade,  da  assistência  pelos 
humildes  e  pelos  infelizes. 

Queremos  que  não  só  os  ricos  tenham  o 
direito  á  vida  económica ;  que  todos  os 
trabalhadores  se  possam  associar  economi- 
camente entre  si,  sem  dependência  da 
auctorização  previa  que  hoje  se  lhes  exige, 
e  que,  emquanto  essas  associações  não 
forem  de  força  para  contractar  livremente 
com  o  capitalismo,  o  estado  intervenha 
com  leis  humanitárias  que  evitem  o  trabalho 
sobreposse  não  somente  dos  menores  e  das 
mulheres,  mas  de  todos  os  operários,  e 
que  imponham  aos  patrões  a  devida  res- 
ponsabilidade pelo  risco  profissional,  cujas 
lastimosas  consequências  não  é  justo  que 
pesem  só  sobre  os  proletários,  hoje,  quando 
victimas  dum  sinistro,  quasi  sempre  força- 
dos a  estender  a  mão  á  caridade  por  essas 
ruas  e  estradas.  E,  assim  como  combate- 
mos a  tyrannia  do  patrão  na  ofíicina, 
egualmente  combatemos  a  t3^rannia  dos 
ricos  sobre  os  pobres  na  sociedade.  Xão 
queremos  monoj^olios  que  encareçam  o 
preço     de    todos    os    géneros,    até    o    das 


390  Da  monarcliia  para  a  republica 


substancias  alimentícias,  em  proveito  dos 
syndicatos  financeiros.  Não  queremos  pri- 
vilegiados do  imposto,  nem  na  sua  incidên- 
cia nem  na  sua  applicação.  Hoje,  são 
principalmente  os  pobres  que  pagam  os 
tributos  e  são  principalmente  os  ricos  que 
os  aproveitam.  Queremos  o  contrario  : 
que  sejam  principalmente  os  ricos  que  con- 
tribuam para  as  despesas  publicas,  não 
só  proporcionalmente,  progressivamicnte,  e 
que  os  rendimentos  públicos  sirvam  não 
jDara  o  fausto  e  dissipação  de  nenhumas 
famílias  poderosas,  mas  para  o  fomento  da 
j)roducção,  e  sobretudo  para  que  o  estado 
possa  acudir  nos  dias  sombrios  e  tristes  da 
inactividade  e  da  velhice  aos  pobres  traba- 
lhadores que,  apesar  de  todas  as  canceiras, 
nada  puderam  amealhar  para  si  e  para  as 
suas  famílias.  Não  são  só  beneméritos  os 
que  pelejam  pela  pátria  no  campo  da 
batalha,  mas  também  os  que  labutam,  dia 
a  dia,  nas  lides  não  menos  incruentas 
tantas  vezes  do  trabalho  nacional. 

Queremos  a  inteira  liberdade  de  pensa- 
mento, desde  a  escola,  que  ministre  a 
toda  a  nação  a  educação  mais  liberal,  até 
á  praça  publica,  onde  tanto  a  liberdade  da 


Aos  eleitores  391 


tribuna  como  a  liberdade  da  imprensa 
sejam  unicamente  garantidas  pela  respon- 
sabilidade do  orador  ou  do  escriptor.  Que- 
remos a  liberdade  de.  associação  jDolitica, 
que  ainda  hoje  é  defesa  segundo  o  nosso 
código  penal.  Queremos  a  autonomia  das 
corporações  locaes,  tanto  na  metrópole 
como  nas  colónias,  suprimindo-se  na  me- 
trópole, como  fazem  a  Suissa  e  a  Inglaterra, 
os  agentes  do  poder  central  junto  a  essas 
corporações,  que,  salvo  honrosas  excepções, 
se  convertem  quasi  sempre  em  instrumentos 
da  corrupção  e  opressão  dos  governos. 
E  queremos  os  membros  do  parlamento, 
não  como  hoje  são  —  uns,  os  pares  do 
reino,  de  nomeação  régia,  por  lei;  outros, 
os  deputados,  de  nomeação  régia,  de  facto 
— ,  mas  todos  electivos  ;  e,  acima  de  todos, 
revendicamos  o  direito  de  escolher  para 
chefe  supremo  da  nação  o  melhor  dos 
portugueses. 

Ao  cumprimento  deste  programma  devo- 
tará todas  as  suas  forças,  nos  annos  que 
lhe  possam  restar  de  vida,  convicto  de  que 
da  sua  execução  dependem  a  honra  e  a 
salvação  da  pátria. 


392  Da  monarchia  para  a  republica 


5  de  fevereiro  de  1905 

Meus  senhores ! 

Antes  de  mais  nada,  quero  agradecer  á 
cidade  de  Lisboa  a  carinhosa  manifestação 
que  hontem  me  dispensou,  e  que  era  também 
dirigida  ao  meu  querido  camarada,  o  grande 
causidico  da  democracia  portuguesa,  dr. 
Affonso  Costa.  Assim  esta  cidade  demon- 
stra este  anno,  como  já  demonstrara  o  anno 
passado,  nas  vésperas  do  acto  eleitoral, 
que  só  ha  um  partido  verdadeiramente 
popular,  um  partido  que  principalmente 
tem  direito  á  sua  representação  parlamen- 
tar, que  é  o  partido  republicano. 

Meus  senhores !  Desde  que,  ha  quasi 
um  século,  os  nossos  constituintes  procla- 
maram os  direitos  do  homem  e  do  cidadão, 
três  vezes  sobretudo  a  reacção  tentou 
suplantar  as  liberdades  publicas.  Primeiro 
foi  a  reacção  miguelista,  depois  a  reacção 
cabralina,    e   ultimamente    a   reacção    fran- 


Aos  eleitores  393 


quista,  que  assim  tem  que  ser  dominada, 
porque,  embora  dos  dois  principaes  fautores 
da  politica  chamada  do  engrandecimento 
real,  e  que  não  é  senão  do  engrandecimento 
do  poder  pessoal  dos  ministros  validos,  o 
único  sobrevivente  não  tenha  feito  parte 
dos  últimos  ministérios  regeneradores  e 
progressistas,  a  verdade  é  que  elle  é  que 
tem  continuado  a  governar  o  país  pela 
observância  da  sua  legislação  dictatorial, 
que  está  ainda  de  pé.  Elle  e  os  seus 
adeptos  é  que  caracterizam  a  ultima  reacção 
politica ;  todos  os  outros  estadistas  monar- 
chicos,  qualquer  que  seja  o  seu  valor 
individual,  não  passam  nella  de  comparsas. 
Felizmente,  porém,  se  a  reacção  migue- 
lista venceu  logo  do  principio  facilmente 
os  liberaes  e  foi  necessário  depois  toda 
essa  épica  campanha  que  elles  fizeram 
desde  a  Terceira  até  Almoster  e  Asseiceira, 
já  a  reacção  cabralina  não  pôde  conter  a 
revolução  popular  que  provocou,  sem  o 
socorro  da  intervenção  estranjeira,  e  foi 
quasi  sem  resistência  qvie  os  liberaes  ope- 
raram o  movimento  da  regeneração.  E  hoje 
a  reacção  dominante  não  tem  força,  interna 
nem  externa,  em  que  se  apoie. 


394  Da  monarchia  para  a  republica 


Se  o  regimen  contava  com  dedicações  no 
exercito,  ellas  pode  dizer-se  que  se  suici- 
daram com  Mousinho  de  Albuquerque,  e  o 
exercito  não  se  indigna  menos  do  que 
o  povo  contra  as  protervias  dos  nossos 
governantes,  porque  soffre,  como  elle,  as 
consequências  desastrosas  dos  seus  des- 
mandos e  prodigalidades,  sofre-as  até  ao 
sacrifício,  até  á  morte  desesperada,  como 
outro  dia  na  horrenda  catastrophe  do 
Cunene,  cuja  noticia  resoou  na  alma  da 
nação  mais  do  que  como  um  dobre  de  fina- 
dos por  alguns  dos  nossos  melhores  irmãos, 
como  um  toque  de  rebate  contra  a  reacção 
criminosa  que  os  immolou. 

E  do  protectorado  estrangeiro  a  que  o 
regimen  se  acolheu,  nenhuma  força  lhe 
pode  advir,  porque,  se  lá  fora  lhe  aceitam 
com  desvanecimento  as  homenagens,  porque 
parecem  as  homenagens  da  nação,  nenhum 
governo  estrangeiro  que  se  preza,  pode  ter 
pelos  nossos  dictadores  senão  o  desdém  e  a 
antipathia  que  merece  o  seu  servilismo. 

O  espirito  liberal  em  Portugal,  até  mesmo 
pelas  suas  lutas  com  a  reacção»»  tem-se 
aguerrido,  fortificado.  A  prova  é  que  os 
nossos  partidos  monarchicos,  que  são  todos 


Aos  eleitores  395 


reaccionários,  todos  pretendem  encobrir-se 
hypocritamente,  inculcando-se  liberaes,  até 
propriamente  a  facção  franquista,  que  poz 
taboleta  de  liberal,  sem  embargo  de  ainda 
outro  dia  o  seu  chefe  revindicar  com  osten- 
tação sobre  os  outros  partidos  como  seu 
titulo  supremo  ás  boas  graças  da  reacção, 
a  responsabilidade  directa  do  acto  mais 
odioso  da  sua  dictadura,  a  lei  nefanda 
de  13  de  fevereiro  de  1896. 

Nem,  por  isso,  comtudo  o  liberalismo 
deve  desarmar,  supondo-se  perfeitamente 
seguro.  Também  D.  Miguel  começou  por 
jurar  a  carta  constitucional,  também  Costa 
Cabral  prometeu  uma  constituição  mais 
liberal  do  que  a  carta,  e  depois.  .  .,  depois 
seguiram-se  os  dias  sombrios  e  pungitivos 
das  sanguinolentas  lutas  civis.  E'  que, 
após  a  reacção  politica,  vêem  sempre  a 
reacção  senhorial  e  plutocrata  e  a  reacção 
clerical,  que  são  as  suas  verdadeiras  alia- 
das, e,  todas  três  reunidas,  adquirem  uma 
força  tremenda.  Eis  o  perigo  que  já  neste 
momento  vamos  correndo. 

Hoje,  na  Europa,  ha  governos  republica- 
nos, como  o  da  Suissa  ou  da  França,  ha 
governos   parlamentares,  como  o  da  Ingla- 


396  Da  moaarchia  para  a  republica 

terra,  sempre  justamente  citado  para  mo- 
delo, que  é  como  o  duma  republica  presidida 
por  um  chefe  coroado,  ha  governos  repre- 
sentativos, como  o  d'Allemanha,  onde  o 
poder  legislativo  é  de  livre  eleição,  mas 
o  poder  executivo  é  de  nomeação  do 
imperante,  ha  governos  em  que  o  chefe 
do  estado  intervém  também  no  legislativo, 
e  ha  finalmente  governos  pessoaes  absolu- 
tos, como  o  da  Rússia,  essa  desgraçada 
nação,  a  cujas  tragedias  externas  e  internas 
todos  assistimos  assombrados  de  dôr. 

Pois  o  governo  português,  muito  mais 
fraco,  é  claro,  do  que  o  governo  russo, 
porque  tem  apenas  a  força  que  lhe  provém 
da  desorganização  dos  liberaes,  e  que,  se 
persegue  só  á  pranchada  da  policia  os  mani- 
festantes pacíficos,  como  hontem  á  noite, 
nesta  cidade,  e  não  os  espingardeia  pela 
tropa,  como  em  S.  Petersburgo,  é  uni- 
camente porque  lhe  não  secundaria  as 
violências  o  nosso  exercito,  que  não  é 
nenhum  corpo  de  malfeitores  armados 
á  custa  da  nação,  que  sabe  muito  bem  que 
o  seu  dever,  o  seu  glorioso  dever  é  dar  a 
vida  pela  pátria,  e  que  não  ha  dever 
de  obediência  e  disciplina  que  possa  com- 


Aos  eleitores  397 


peli-lo  a  atentar  contra  a  \dda  dos  seus 
concidadãos  para  defender  e  salvar  a  tira- 
nia;  o  governo  português,  que  não  é  menos 
despótico  do  que  o  governo  russo,  porque, 
se  lá  se  deportam  para  a  Sibéria,  sem 
culpa  formada,  os  revoltosos,  cá  deportam-se 
para  Timor ;  o  governo  português,  que  é 
mesmo  mais  despótico  do  que  o  governo 
russo,  porque,  ao  passo  que  lá  o  despotismo, 
descarregando  os  seus  golpes  sobre  os 
zemvstoSj,  suspendia  a  sua  sanha  perante 
o  de  Moscou',  aqui  não  duvidou  dissolver 
quantos  municipios  quiz,  inclusivamente  o 
da  própria  Lisboa ;  o  governo  português 
está  ainda  abaixo  do  governo  russo.  Para 
achar  algum  que  lhe  seja  comparável, 
é  preciso  sair  da  Europa  e  ir  até  á  Africa, 
onde  ha  os  governos  das  companhias,  e  lá 
ainda  ao  menos  sob  a  garantia  duma  fisca- 
lização superior,  emquanto  que  entre  nós 
ellas  reinam  discrecionariamente.  E,  peor 
ainda,  vamos  sendo  governados  também 
pelo  clericalismo,  que,  no  seu  atrevimento, 
já  pretende  erguer  no  coração  da  capital, 
opor,  na  grande  avenida,  ao  monumento 
dos  restauradores,  que  é  o  monumento  da 
independência,  o  monumento  da  escraviza- 


398  Da  monarchia  para  a  republica 


cão,  porque  o  é  do  fanatismo,  já  mesmo  o 
inaugurou  com  a  assistência  e  aplauso  dos 
nossos  dirigentes. 

Que  nos  cumpre  fazer  ?  Renovar  a  obra 
dos  nossos  constituintes  e  liberaes,  in- 
terrompida, suspensa,  pela  terceira  vez 
pela  reacção.  Com  Joaquim  António  de 
Aguiar  e  com  Silva  Carvalho  combatamos 
a  teocracia,  as  suas  congregações  opressivas 
e  as  SLias  odientas  perseguições  religiosas. 
Com  Mousinho  da  Silveira  e  os  seus  conti- 
nuadores, combatamos  todas  as  servidões 
do  trabalhador,  combatamo-las  desde  a 
granja  e  oficina  até  ao  estado,  onde  o  regi- 
men, dia  a  dia,  multiplica  os  monopólios, 
que  são  outros  tantos  tentaculos  com  que 
elle  dessangra  e  esgota,  quasi  até  á  inanição, 
a  economia  nacional.  Com  Passos  Manoel, 
José  Estevam  e  Sampaio,  combatamos  as 
oligarchias  politicas,  reclamando  a  liberdade 
do  pensamento,  tanto  na  tribuna  como  na 
imprensa,  e,  para  isso,  antes  de  mais  nada, 
a  immediata  derogação  da  lei  de  13  de 
fevereiro  de  1896  ;  reclamando  a  liberdade 
de  reunião  e  a  liberdade  de  associação, 
sem  as  quaes  a  nação  mal  pode  preparar-se 
para  o  livre  governo  da  grande  associação, 


Aos  eleitores  399 


O  estado ;  reclamando  a  liberdade  corpo- 
rativa, a  descentralização  local,  tanto  das 
divisões  administrativas  da  metrópole  como 
das  províncias  ultramarinas  ;  e  reclamando 
enfim  todas  as  liberdades  constitucionaes, 
todas,  porque,  se  os  nossos  constituintes  e 
antigos  liberaes  contavam  com  o  apoio  da 
monarchia  para  a  realização  das  suas  refor- 
mas, nós,  a  nação,  passado  já  quasi  um 
século  depois  de  1820.  é  que  não  podemos 
contar  com  isso. 

Implantemos  no  nosso  torrão  natal  a 
liberdade  religiosa,  a  liberdade  económica 
6  a  liberdade  politica,  para  com  ellas  asse- 
gurarmos a  ordem  á  nação,  porque  a  ordem, 
só  se  estabelece  firmemente  pelo  respeito 
de  todos  os  direitos  do  homem  e  do  cidadão, 
para,  com  ellas,  não  só  evitarmos  novas 
guerras  fratricidas,  mas  estreitarmos  inti- 
mamente os  nossos  laços  de  solidariedade, 
fazendo  com  que  nos  amemos  mais,  com 
que  trabalhemos  melhor,  com  que  sejamos 
mais  instruídos  e  rectos,  e,  fraternalmente 
unidos,  protejamos  por  todos  os  meios  os 
pobres,  os  desvalidos,  os  fracos,  a  mulher, 
a  criança  e  os  velhos,  e  levemos  ainda  a 
nossa  civilizadora  e  benéfica  influencia  até 


400  Da  nionarchia  para  a  republica 


aos  povos  longínquos^  cuja  guarda  e  dire- 
cção nos  foi  confiada  pelos  nossos  heróicos 
antepassados. 

E,  reassumida  assim  a  nossa  antiga  missão 
na  historia,  o  nome  português,  hoje  tão 
amesquinhado,  voltará  a  ser  por  toda  a 
parte  honrado  e  bemdito. 


o  descanço  semanal 


Minhas  sexhokas  e  meus  senhukes !  * 

Nenhuma  cansa  mais  justa  do  que  o  des- 
canço semanal.  Defendendo-o.  as  classes 
laboriosas  defendem  a  sua  vida,  e  não  só  a 
sua  vida  physica,  mas  também  a  sua  vida 
espiritual  e  sobretudo  a  sua  vida  moral. 

E  todas  as  outras  classes  lhes  devem 
prestar  o  seu  apoio  nesta  campanha,  por- 
que os  membros  delias,  por  mais  ricos  e 
poderosos  que  hoje  sejam,  quem  lhes  diz 
que  os  seus  descendentes  a  breve  prazo 
não  necessitarão  também  inteiramente  do 
trabalho  e  portanto  do  descanço  para 
viver  ? 

E,  por  isso,  por  ser  o  descanço  semanal 
nm  principio  de  justiça  e  de  interesse  geral, 

*  Conferencia  no  Teatro  de  Santarém,  na  noite  de  17 
de  julho  de  1005,  segundo  O  Mundo. 

26 


402  Da  uionarchia  para  a  ]-epublica 

que  ha  muito  o  tenho  iuscripto  entre  as 
revindicações  liberaes  do  meu  programma. 
Por  elle  propugnei  especialmente  numa 
conferencia  que  ha  dois  annos  hz  na 
Figueira  da  Foz  e  ainda  ha  dias  noutra 
na  Povoa  de  Varzim,  e  venho  novamente 
agora  aqui  sustentá-lo  nesta  conferencia 
que  me  é  muito  grato  fazer,  corresjDon- 
dendo  ao  amável  convite  que  me  dirigiram 
os  empregados  de  commercio  desta  cidade. 

O  nosso  tempo  distingue-se  de  todos 
principalmente  pelo  seu  humanismo.  Nunca 
como  durante  o  século  xix  o  homem  foi 
tão  humano  para  com  todos,  até  mesmo 
para  com  os  criminosos. 

Entre  nós,  a  constituição  de  1826  aboliu 
as  torturas,  o  acto  adicional  de  1851 
aboliu  a  pena  de  morte  nos  crimes  políticos, 
e  a  lei  de  1  de  julho  de  1867  estendeu 
essa  abolição  a  todos  os  crimes  communs. 
E'  certo  que  mais  tarde  um  vento  de 
despotismo,  que  ainda  não  passou,  restabe- 
leceu a  pena  de  morte  nos  crimes  militares,^ 
e  depois,  sob  o  governo  do  engrandeci- 
mento do  poder  real,  foi  até  restabelecê-la 
mesmo  em  certos  delitos  civis,  equiparan- 
do-os   aos  delitos  militares.     Mas   o   senti- 


o  descanço  semanal  403 


mento  nacional  não  sancionou  estas  pre- 
scripções  de  violência,  e  até  hoje  não  se 
executaram.  Desapareceram,  pois,  as  cruel- 
dades para  com  os  indivíduos  declarados 
criminosos  pela  lei. 

Veja-se,  porém,  que  contradicção  e  que 
anomalia  tão  dolorosa !  As  crueldades 
subsistem  para  com  os  cidadãos  mais  bene- 
méritos, para  com  as  classes  produtoras 
da  nação,  que  estão  sujeitas  a  um  trabalho 
insano  sem  pausa  è  sem  respiro,  a  um  tra- 
balho torturante,  que  origina  fatalmente  a 
doença  e  a  morte  prematura. 

Em  todas  as  suas  profissões,  a  vida  media 
do  operariado  desce  abaixo  da  media  nor- 
mal da  vida  humana ;  em  algumas  delias 
não  atinge  sequer  metade  !  E  aos  damnos 
do  regimen,  e,  quasi  sempre  também,  aos 
damnos  logo  da  própria  profissão,  que  agra- 
vante tão  descaroada !  Ao  patrão  estraga-se- 
Ihe  uma  machina,  uma  peça  de  mobiliário? 
procura  repará-la.  Adoece-lhe  um  animal 
domestico  ?  trata  de  o  melhorar.  Mas  quan- 
tas vezes  se  deteriora  a  saúde  do  operário 
ou  do  caixeiro,  do  seu  empregado,  e  elle  o 
despede !  Porque  ?  Porque  o  empregado 
é  um  homem  livre  ?     Se  trabalhou  demais 


404  Da  mouarchia  para  a  republica 

e  adoeceu,  foi  porque  quiz  ?  Ah!  é  atroz. 
Devemo-nos  gloriar  de  termos  ido  na  van- 
guarda das  nações,  abolindo  a  escravatura 
até  nas  nossas  colónias.  Foi  uma  nobre 
conquista  !  Mas  não  consintamos  insensa- 
tamente e  cruamente  que  a  pague  com  a 
sua  vida  a  classe  trabalhadora. 

Foi  para  acabar  com  esta  cruel  hj^pocrisia 
que  alguns  estadistas,  entre  os  quaes  devo 
lembrar  dois  já  falecidos.  Saraiva  de  Car- 
valho e  Thomaz  Ribeiro,  promoveram  a 
obra  da  regulamentação  do  trabalho  dos 
menores  e  mulheres  nas  ofíicinas,  que  pude 
completar  em  1893,  ao  lado  de  Augusto 
Fuschini,  que  tanto  contribuirá  também 
jDara  ella.  Por  essa  legislação  não  só  se 
preceitua  o  descanço  diário,  mas  ainda  um 
dia  de  descanço  semanal  para  os  menores. 

E'  indispensável  geralisá-lo  aos  adultos 
de  ambos  os  sexos,  bem  como  a  todas  as 
classes  trabalhadoras,  industriaes,  agrícolas 
e  commerciaes. 

E,  como,  apesar  de  todos  os  cuidados  de 
previdência,  sempre  algum  acidente  pode 
advir,  que  tire  a  vida  ao  operário  ou  que  o 
invalide  ás  vezes  j^ara  todo  o  resto  dos  seus 
dias,  reclamemos,  como  ha  já  hoje  em  quasi 


o  (lescauço  semanal  405 


toda  a  parte  e  como  a  França  agora  procura 
ampliar  aos  empregados  do  commercio, 
uma  lei  do  risco  profissional,  que  imponha 
aos  patrões  a  obrigação  de  acudirem  ao 
operário  durante  a  sua  invalidez  ou,  por 
sua  morte,  á  familia,  orphã  do  seu  amparo. 

Lá  fora  leva-se  o  zelo  pela  saúde  do 
trabalhador  ao  ponto  dos  legisladores  man- 
darem que  nos  armazéns  servidos  por  mu- 
lheres os  patrões  lhes  ponham  cadeiras, 
para  ellas  poderem  pelo  dia  adeante  assen- 
tar-se  e  descançar. 

Ha  assim  um  direito  novo  das  classes 
trabalhadoras,  que  é  indispensável  que  nós 
vamos  também  inserindo  no  nosso  código 
civil. 

O  descanço  semanal  aproveita  não  só  á 
saúde  do  corpo,  mas  também  á  do  espirito ; 
queremo-lo  no  interesse  do  próprio  trabalho, 
para  se  poder  trabalhar  mais  e  melhor. 

Não  ha'  profissão  nenhuma  que  ponha 
em  jogo,  em  perfeito  equilíbrio,  desenvol- 
vendo-as  completamente,  todas  as  nossas 
faculdades  ;  todas  as  profissões  mais  ou  me- 
nos as  mutilam.  E,  se  as  faculdades  feridas 
de  abandono  reagem  quanto  podem  pela 
vida,  sempre  afinal  acabam  por  se  atrophiar.. 


406  Da  monarchia  para  a  republica 


Temos  um  exemplo  flagrante  nos  nossos 
estudantes.  Os  rapazes,  oprimidos  dentro 
da  escola  primaria,  fazem  explosão  á 
saída;  ao  depois,  nos  lyceus,  vão-se  tor- 
nando dormentes;  e  finalmente,  mais  tarde, 
quando  frequentam  as  aulas  superiores, 
tornam-se  tão  apathicos  que  não  excursio- 
nam,  não  passeiam,  e  estagnam  nas  ferias 
grandes  pelos  casinos  balneares.  E,  uma 
vez  concluído  o  seu  curso,  formados, 
por  que  aspiram?  Por  um  emprego  buro- 
crático, sedentário,  quando  não  é  logo 
por  uma  aposentação.  E'  que  o  nosso 
vicioso  regimen  claustral  de  ensino,  pro- 
longando-se  annos  e  annos,  acaba  por  lhes 
atrophiar  e  suprimir  toda  a  faculdade  de 
acção. 

Até  os  profissionaes  que  mais  fulgente- 
mente  parece  porem  em  actividade  nas  suas 
obras  todos  os  dons  da  alma  humana,  até 
esses  necessitam  de  descançar,  mlidando  de 
ocupação,  para  refazerem  as  forças  do  seu 
espirito,  já  num  trabalho  de  instrucção 
geral,  que  melhor  os  habilite  a  devotarem-se 
de  novo  á  sua  profissão,  já  mesmo  num 
trabalho  especial  duma  outra  profissão, 
quasi  sempre,  pelo  que  ella  tem  effectiva- 


o  descanço  semanal  407 

mente  de  atrahente,  a  lavoira.  Alexandre 
Hercnlano  descançava  dos  seus  immor- 
taes  trabalhos  históricos,  fabricando  o  seu 
azeite,  que  se  tornou  famoso,  tanto  que, 
conta-se,  perguntando-lhe  uma  vez,  ao  des- 
pedir-se,  alguém  que  com  elle  fizera  uma 
viagem  sem  o  reconhecer,  a  quem  tinha 
tido  a  honra  de  estar  falando,  elle  respon- 
deu :  Alexandre  Herculano,  azeiteiro  em 
Yalle  de  Lobos.  Ahi  têem  Guerra  Jun- 
queiro, que  descança  dos  geniaes  poemas, 
não  só  dissertando  sobre  a  radiação  uni- 
versal, mas  também  tratando  das  suas 
vinhas  na  Barca  d' Alva.  Escuso  de  lhes 
dizer  quanto  valem  as  suas  concepções 
philosophicas,  depois  da  apreciação  que 
«lias  acabam  de  receber  em  Paris.  E,  se 
não  sou  entendido  para  os  informar  dos 
vinhos  que  elle  prepara  mas  não  bebe, 
posso  assegurar-lhes  que  as  uvas  dos  seus 
vinhedos  são  quasi  tão  doces  como  os  seus 
deliciosos  versos  lyricos. 

Que  vida  espiritual  levam  as  nossas 
classes  trabalhadoras  ?  Hão  de  repetir  in- 
cessantemente o  mesmo  trabalho,  tortu- 
rando, consumindo,  mortificando  não  só 
o    corpo,   mas    o    espirito    também. 


408  Da  mouarchia  para  a  republica 


E'  indispensável  que  o  empregado  da 
commercio,  como  todo  operário,  tenha  horas 
e  dias  feriados,  em  que  possa  ir  vêr  o 
nosso  mar,  as  nossas  montanhas,  os  nossos 
campos  e  arvoredos,  em  que  possa  pegar 
num  microscópio  ou  num  telescópio  para 
admirar  as  maravilhas  do  mundo  dos  infi- 
nitamente pequenos  ou  dos  infinitamente 
grandes,  e  sobretudo  em  que  possa  comu- 
nicar com  as  outras  almas,  frequentanda 
uma  aula,  assistindo  a  uma  conferencia, 
lendo  um  livro,  visitando  os  museus,  indo 
a  um  teatro,  a  um  concerto,  etc. 

São  divertimentos  ?  São  exercicios  espi- 
rituaes  egualmente  necessários  a  todos. 

Por  isso,  outro  dia,  uma  das  minhas 
filhas,  ouvindo  que  uma  menina  das  nossas 
relações  tivera  de  assumir,  apesar  da  sua 
tenra  edade,  os  pesados  encargos  proíissio- 
naes,  com  razão  a  lamentou :  Tão  nova 
ainda!  nem  brincou! 

Não  é  tolerável  que  a  sociedade  se  divida 
em  duas  castas :  uma  de  regalões,  que 
só  se  divertem  e  nada  produzem,  outra 
de  parias,  que  labutam  constantemente  no 
seu  mister,  sem  nunca  terem  um  momento 
único  de  desenfado  e  distracção. 


o  descauço  semanal  400 

Nas  nações  mais  adeantadas,  em  que  o 
trabalhador  já  pôde  descançar  das  fadigas 
do  seu  trabalho,  até  as  universidades  lhes 
enviam  professores  que  por  meio  de  lei- 
turas e  conferencias  os  põem  em  commu- 
nhão  com  os  mais  elevados  representantes 
da  nossa  espécie,  um  Homero,  por  exem- 
plo. Para  que  mesmo  o  tempo  que  o  traba- 
lhador passa  em  sua  casa,  lhe  seja  grato  e 
educativo,  deHcadas  associações  de  homens 
e,  ainda  mais,  de  senhoras  fazem  frequen- 
temente distribuição  de  flores  e  estampas 
pelas  habitações  dos  pobres  operários. 

E,  de  todas  as  faculdades,  a  que  sobre- 
tudo é  necessário  não  deixar  nunca  atro- 
phiar,  é  a  liberdade,  esta  faculdade  sobe- 
rana que  cria  as  artes,  as  industrias  e  as 
sciencias,  isto  é,  toda  a  civilização. 

O  trabalho  regulamentado,  arregimen- 
tado, forçado,  servil  é  sempre  afinal  penoso. 
Por  isso,  até  aos  condemnados  nas  moder- 
nas casas  de  regeneração  se  vai  pouco  a 
pouco  permitindo  o  trabalho  livre. 

Não  ha  faculdade  que  não  resista  e  que 
não  repugne  ás  imposições  estranhas. 

Quantas  vezes  os  pães  estão  acariciando 
o    sonho    do    casamento    duma    filha    com 


410  Da  monarchia  para  a  republica 

um  noivo  exemplar,  e  indiscretamente  pela 
sua  demasiada  intervenção  compromettem  a 
realização  desse  seu  doirado  sonho!  Como 
o  sentimento,  revolta-se  também  contra 
imposições,  a  intelligencia.  Todos  os  que 
somos  professores,  sabemos  quantos  rapa- 
zes são  capazes  de  estudar  tudo,  menos 
as  lições  para  as  suas  aulas.  E  o  que 
custa  egualmente  fazer  qualquer  serviço 
forçado  !  Nem  o  auxilio  d'outrem  queremos 
para  aquillo  que  podemos  fazer  por  nós  mes- 
mos. Toda  creança  nos  vem  contar  jubi- 
losa :  Fiz  isto  só  !  E  lembra-me  que  uma 
vez,  que  a  minha  filha  Gigi,  muito  pequena 
ainda,  a  custo  trepava  para  a  sua  cadeira,  e 
eu  fui  sentá-la,  ella  logo  de  golpe  se  atirou 
abaixo  para  poder  subir  á  cadeira  por  si  só. 

E"  necessário  a  todo  o  homem  descançar 
do  trabalho  forçado  no  trabalho  livre. 

Se  nos  dissessem  que  não  poderíamos  por 
muitas  horas  sair  desta  sala,  que  aflicção 
nos  não  acometeria  a  todos !  Imaginem 
pois  o  sofrimento  das  classes  proletárias, 
oprimidas  não  só  na  sua  faculdade  de  mo- 
vimento," mas  em  todas  as  faculdades  da 
sua  alma,  durante  toda  a  vida,  pelas  regras 
da   sua   profissão,  que   as  encerram  dentro 


o  descaaço  semanal  •  411 

delia,  como  se  fosse  dentro  duma  piisão, 
dum  ergástulo. 

O  christianismo,  para  redimir  o  traba- 
lhador, ao  menos  um  dia  por  semana,  das 
mãos  dos  seus  senhores  deste  mundo,  cha- 
mou a  esse  dia  de  descanço  —  domingo  — , 
o  dia  do  Senhor.  Nós,  para  o  redimirmos 
de  toda  a  tyrania,  ainda  daquella  que 
invoca  para  se  autorizar  o  nome  de  Deus, 
chamaremos  ao  dia  de  descanço  semanal 
—  o  dia  da  liberdade  — . 

Para  que  queremos,  portanto,  o  descanço 
semanal  ? 

Para  que  o  trabalhador  possa  robuste- 
cer-se,  instruir-se,  elevar-se,  ser  alguém, 
alcançar  a  plenitude  da  sua  personalidade, 
para  que  deixe  de  padecer  este  mart}^!©  de 
conhecer  que  tem  dentro  de  si  a  semente 
da  verdade,  do  bello  e  do  útil,  e  não  poder 
vingá-la  e  não  poder  convertê-la  em  frutos 
que  lhe  deixem  prelibar  ao  menos  os  pra- 
zeres da  sciencia,  da  arte  e  da  industria, 
que  são  os  maiores  que  podemos  sentir, 
depois  do  prazer  supremo  de  fazer  o  bem. 

Porque  é,  sobretudo,  para  que  o  homem 
possa  fazer  o  bem,  que  reclamamos  o 
descanço   do   trabalho. 


412  Da  monarchia  para  a  republica 

Queremo-lo  robusto  e  rijo,  para  que  as 
gerações  não  depereçam  e  a  nossa  raça  se 
não  definhe  e  extinga.  O  que  a  mim  me 
confrange  na  desgraça  dos  filhos  dos  po- 
bres, não  é  tanto  a  miséria  económica  como 
a  miséria  physica,  o  rachitismo,  os  aleijões, 
as  enfermidades  constitucionaes.  Quere- 
mo-lo culto  e  emjDrehendedor,  para  termos 
um  exercito  activo,  poderoso,  de  lidadores, 
que  possam  medir-se  na  paz  e  na  guerra 
com  os  melhores  do  estrangeiro.  Mas  o 
descanço  semanal  é,  sobretudo,  para  que 
o  trabalhador  possa  fazer  o  bem  á  sua 
familia,  á  sua  classe  e  á  sua  pátria ;  para 
que  possa  fazer  vida  de  familia,  fazer 
companhia  a  seus  pães,  brincar  com  os 
seus  irmãos  mais  novos,  renovar  as  flores 
sobre  sepulturas  queridas,  escolher  o  seu 
noivo  ou  a  sua  noiva ;  j)ara  que  possa, 
como  homem  livre,  tratar  da  sua  ocupação 
e  dos  seus  direitos,  que  lhe  cumpre  defen- 
der, tanto  dentro  da  oficina  ou  da  loja, 
como  dentro  da  nação. 

Hoje,  a  sociedade  é  composta  de  dirigen- 
tes que  não  trabalham  e  de  trabalhadores 
que  não  dirigem.  E'  preciso  entregar  a 
direcção  da  nação  ás  classes  trabalhadoras. 


o  descanço  semanal  413 


Por  isso,  eu,  que  não  admitto  o  sacrifício 
forçado,  que  não  quero  que  as  classes 
produtivas  se  arruinem  j)elo  excesso  do 
trabalho,  para  que  as  classes  dirigentes  se 
arruinem  também  pelo  excesso  da  ociosi- 
dade ;  eu  não  proclamo  o  egoismo,  não 
tento  cortar  os  voos  da  abnegação  e  do 
sacrifício  livre  a  ninguém,  e  quero  pelo 
contrario  que  ao  operário  seja  licito  deixar 
a  oficina  ou  a  loja  j)ara  se  votar  deveras 
ao  desempenho  dos  seus  deveres,  jogando 
a  vida  por  elles  nos  lances  ainda  os  mais 
arriscados,  se  tanto  fôr  necessário,  como 
parece  que  vai  sendo.  Quero  a  liberdade  e 
a  republica  na  oficina  e  na  loja  para  as 
alcançar  na  nação. 


o  anarchismo 


Ex."'°  SR. ! 

Acompanho-os  cordialmente  na  sua  be- 
nemérita campanha  pela  revogação  da 
lei  de  13  de  fevereiro  de  1896.  Não  ha 
delitos  de  o^^inião.  E  o  anarchismo,  em 
toda  a  sua  pureza,  é  um  sublime  ideal  que 
as  sociedades  vão  cada  dia  mais  reali- 
zando. Já  hoje  não  queremos  profissões 
religiosas,  já  vamos  suprimindo  os  inter- 
mediários económicos,  o  direito  de  inicia- 
tiva e  o  referendum  já  esboçam  na  Suissa  o 
anarchismo  politico.  Incriminá-lo  é  sobre- 
tudo prova  de  ignorância.  Está  sucedendo 
com  elle  o  mesmo  que  sucedeu  com  a 
republica :     as     violências     cometidas     em 


*  Carta  ao  presideute  da  Liga  contra  a  lei  de  13  de 
fevereiro  de  1896. 


410  Da  niouarchia  para  a  republica 

seu  nome  deturpam-lhe  o  seu  verdadeiro 
sentido.  Mas  não  tardará  também  que  se 
lhe  faça  justiça.  E'  questão  de  propaganda, 
de  instrucção.  Para  ella  contem  sempre 
com  o 

Todo  seu. 

Bernardino  Machado. 

Coimbra,  31-12-1904. 


A  aliança  inglesa 


Mdíhas  senhoras  e  meus  senhores  ! 

As  minhas  primeiras  palavras  serão  de 
publicas  congratulações  pela  sessão  solemne 
com  que  esta  tarde  se  inaugurou  o  Centro 
republicano  de  Yizeu,  que  eu  espero  que 
seja,  no  coração  desta  heróica  e  lendária 
Beira,  mais  do  que  um  j)oderoso  núcleo  de 
organização  e  força  partidária,  um  verda- 
deiro centro  de  reconstituição  nacional. 

Estamos  hoje  como  no  principio  do 
século  XIX,  dividida  a  nação  em  dois 
campos  opostos,  o  reaccionário  e  o  liberal, 
com  a  diferença,  que  então  reaccionários  e 
liberaes  eram  todos  monarchicos,  e  hoje 
ha  de  certo  ainda  muitcs  monarchicos  libe- 

'  Ck)nfereacia  no  Teatro  Viriato,  de  Yizeu,  na  noite 
de  29  de  janeiro  de  190Õ,  segundo  a  Resistência. 

27 


418  Da  monarchia  para  a  republica 


raes,  mas  os  partidos  monarchicos  é  que 
são  todos  reaccionários  e  o  único  partido 
sinceramente  liberal  é  o  republicano.  Ora 
a  reacção  nas  instituições  politicas  produz 
fatalmente  o  retrocesso  e  a  decadência  da 
nação.  Por  isso,  hoje  só  ha  um  partido 
que  nos  pôde  salvar,  que  é  o  partido 
republicano.  E  dahi  os  nossos  pergami- 
nhos nobiliarchicos,  o  nosso  titulo  sagrado 
de  existência  legal,  mas  dahi  também  as 
nossas  tremendas  obrigações  e  responsabi- 
lidades. 

Preciso  demonstrar-lhes  que  todos  os- 
actuaes  partidos  monarchicos  são  reaccio- 
nários ?  Todos  são  réus  ou  cúmplices  dum 
regimen  que  suprime  todas  as  liberdades, 
desde  as  constitucionaes  até  ás  individuaes. 
Pela  constituição  vigente,  com2:)letada  pela 
lei  eleitoral  subsidiaria,  a  nação  não  pôde 
intervir  livremente  na  gerência  dos  negocies 
geraes  do  estado.  Pelo  código  administra- 
tivo tão  pouco  pôde  intervir  livremente  na 
gerência  dos  negócios  locaes.  Carecemos 
ainda  da  liberdade  d'associação  :  os  cultos 
diversos  do  catholico  são  aviltantementet 
tolerados  como  o  jogo  e  a  prostituição  ;  á 
liberdade    d'associação    de    classe,    sujeita 


A  aliança  inglesa  419 


ainda  á  autorização  prévia,  falta  o  instru- 
mento imprescindivel  do  direito  de  greve  ; 
e  a  associação  politica  de  mais  de  vinte 
pessoas  é  punida  como  um  delito  pelo  có- 
digo penal.  Finalmente,  as  liberdades  indi- 
viduaes  acham-se  totalmente  á  mercê  do 
arbítrio  governativo  :  a  lei  é  ainda  inquisi- 
torial,  e  persegue  por  motivos  religiosos, 
como,  outro  dia,  a  Alexandre  Braga ;  não 
ha  leis,  ou  não  se  cumprem,  de  garantia  e 
protecção  para  o  trabalho ;  e  a  liberdade 
de  pensamento  não  é  só  coarctada  na  tri- 
buna e  na  imprensa,  mas  está  ahi  hoje  sob 
a  alçada  permanente  da  lei  scelerada  de  13 
de  fevereiro  de  1896. 

E'  um  systema  completo  do  absolutismo. 
E  são  tantas  as  leis  despóticas  entre  nós, 
que  dir-se-iam  obra  de  monomaniacos, 
atacados  da  paixão  vesanica  de  collecio- 
nadores. 

Quem  é  que  em  Portugal  defende  hoje  a 
liberdade  de  crenças '?  O  partido  republi- 
cano ;  e  defendi-a  eu  na  própria  Braga, 
logo  depois  de  acesa  a  questão  Calmon. 
Quem  é  que  defende  os  direitos  do  opera- 
riado ?  O  partido  republicano  ,"  e  tenho-os 
defendido  eu  sempre,  e  ainda  ultimamente 


420  Da  monarchia  para  a  republica 


na  Figueira  da  Foz  e  depois  na  Povoa  de 
Varzim  e  Santarém,  fazendo  a  justa  cam- 
panha do  descanço  semanal,  que  pode  e 
deve  ser  em  grande  parte  dominical,  mas 
não  é  o  descanço  dominical  que  os  reaccio- 
nários advogam,  porque  elles  só  querem  a 
emancipação  económica  do  trabalhador  para 
o  reduzirem  nesse  dia  á  escravização  cle- 
rical, e  nós  queremos  que  o  dia  de  descanço 
seja  um  dia  de  plena  libertação.  Quem  é 
que  defende  a  liberdade  de  opinião  ?  O  par- 
tido republicano,  que  agora  mesmo  por 
todo  o  país  formula  o  libello  contra  a  lei 
de  13  de  fevereiro ;  defendi- a  eu  ainda  outro 
dia  na  histórica  sala  dos  capellos  da  nossa 
Universidade,  reclamaudo-a  não  só  para  os 
indivíduos  de  maior  edade,  mas  ainda  para 
todos  os  educandos  das  nossas  escolas,  que 
só  pela  disciplina  dum  ensino  liberal  se 
irão  formando  para  o  desempenho  cabal 
dos  deveres  de  cidadãos  livres  na  sociedade. 
Só  nós,  republicanos,  somos  os  conti- 
nuadores da  politica  liberal  de  Mousinho, 
de  Passos,  de  José  Estevam  e  Sampaio,  e, 
para  lembrar  nomes  sempre  queridos  nesta 
terra,  da  politica  liberal  do  bispo  de  Vizeu, 
dos  Mendes  e  dos  Campos,  venerando  chefe 


A  aliança  inglesa  421 


e  distintos  membros  do  valoroso  partido 
reformista,  partido  profundamente  popular, 
donde  saíram  para  a  republica,  já  então 
desenganados,  alguns  dos  seus  eminentes 
fundadores,  Latino  Coelho,  José  Elias 
Garcia,  Rodrigues  de  Freitas,  Bernardino 
Pinheiro,  cujo  exemplo  parece  estar  indi- 
cando aos  habitantes  de  Vizeu  o  caminho 
que  têem  de  seguir  para  honrarem  as  suas 
tradições  liberaes. 

A  concentração  dos  poderes  operada  pelos 
partidos  monarchicos  foi,  como  alguns  dos 
seus  promotores  apregoaram,  para  engran- 
decimento do  poder  real  e  elevação  do  pres- 
tigio do  principio  da  autoridade  ?  A  gran- 
deza da  autoridade  mede-se  unicamente 
pela  grandeza  dos  seus  serviços  á  liberdade. 

Mas  havia  sem  duvida  na  nossa  vida 
publica  muitos  abusos  a  corrigir,  muitos 
vicios  a  extirpar.  Foi  a  essa  missão 
que  os  nossos  governantes  se  dedicaram? 
Deram  ao  menos  essa  compensação  dos 
seus  damnos  á  liberdade,  servindo-a  assim, 
ainda  que  indirectamente,  á  pombalina? 
Não  !  O  regimen  é  um  regimen  de  fra- 
quezas, de  abatimento  e  de  desprestigio  do 
poder    e    da    autoridade.     Não    somos    nós 


422  Da  monarchia  para  a  republica 


sós  que  o  dizemos.  Dizein-no  também,  e 
bem  alto,  os  próprios  monarcliicos  :  os  pro- 
gressistas, que  acusam  os  regeneradores  de 
haverem  passado  ultimamente  pelas  secre- 
tarias como  uma  epidemia  moral ;  os  rege- 
neradores, respondendo-lhes  que  têem  na 
sua  mão  a  documentação  photographica 
das  malversações  progressistas  ;  e  os  fran- 
quistas, que,  visando  a  j^rogressistas  e 
regeneradores,  senão  mesmo  mais  alto, 
lançam  sobre  a  dissolução  geral,  para 
que  tanto  contribuíram,  a  interrogação, 
se  haverá  logar  dentro  da  monarchia 
jDara  uma  administração  honesta,  isto  é, 
o  partido  que  tem  por  chefe  um  dos  prin- 
cipaes  fautores  da  politica  do  engrandeci- 
mento real,  reconhece,  embora  atribuindo-o 
aos  seus  adversários,  o  desastre  dessa  po- 
litica. 

E  não  é  só  no  ardor  da  refrega,  em  luta 
uns  contra  os  outros,  que  os  partidos 
monarchicos  acusam  a  queda  moral  do 
regimen ;  dentro  dos  próprios  partidos 
essas  acusações  se  erguem,  determinando 
o  movimento  de  desagregação  dos  seus 
homens  de  maior  valor.  Ha  poucos  dias 
ainda,    que    todos    vimos    um    dos    ilustres 


A  aliança  inglesa  42.S 

caudilhos  do  partido  governamental,  apesar 
de  toda  a  sua  estima  e  consideração  pessoal 
pelo  seu  chefe,  rejeitar  com  um  gesto  de 
escrupuloso  desdém  a  gran-cruz  de  S.  Thiago 
com  que  elle  desejava  galardoá-lo. 

A  fraqueza  do  poder  civil  denuncia-se, 
como  sempre  tem  sucedido  historicamente, 
pelos  atrevimentos  da  reacção  feudal,  que 
é  hoje  a  plutocrata,  e  da  reacção  clerical, 
que  estão  sempre  espreitando  o  ensejo  de 
o  assaltar.  Como  ambas  têem  recobrado 
alentos  e  vão  empolgando  o  governo  da 
sociedade  ! 

Já  a  reacção  plutocrata,  pelos  seus  syn- 
dicatos,  decide  da  sorte  dos  ministérios : 
foi  assim  que  caiu,  envolvido  nas  suas 
lutas  de  rivalidade,  o  ultimo  ministério 
regenerador.  Já  a  reacção  theocrata  in- 
fringe abertamente  as  leis  da  nação,  já  tem 
autoridades  civis  suas  e  vai  ter  deputados 
seus  egualmente  nomeados  pelo  governo ;  e 
amanhã  fará  e  desfará  também  ministérios, 
se  não  chegar  mesmo,  como  nos  seus  bons 
tempos,  a  sagrar  e  a  desthronar  o  próprio 
chefe  do  estado,  em  previsão  do  que,  será 
de  bom  aviso  lembrar  aos  nossos  gover- 
nantes   que    para    a    theocracia    o   genuino 


424  Da  monarchia  para  a  republica 


chefe  do  estado  não  é  o  descendente  do 
pedreiro  livre  D.  Pedro  IV,  mas  sim  o 
do  apostólico  D.  Miguel  I. 

Que  sustenta  pois  hoje  o  regimen  ? 
Desautorizado,  sem  força  moral,  intenta 
apoiar-se  na  força  plwsica.  Esse  é  hoje  o 
seu  único  meio  de  governo.  Um  dia  assalta 
as  redacções  dos  jornaes,  outro  dia  fere  ás 
pranchadas  nas  ruas  os  manifestantes  pací- 
ficos, encarniçando-se  principalmente  contra 
aquelles  que  victoriam  as  grandes  persona- 
lidades que,  como  Guerra  Junqueiro,  são 
honra  e  gloria  da  pátria  portuguesa.  E.  para 
cometer  impunemente  todas  as  violências, 
não  duvidou  cobrir-se  com  a  irresponsabi- 
lidade, estendendo-a  desde  o  rei  até  ao 
simples  policia  civil.  De  tal  modo,  que  eu, 
que  sou  um  homem  d'ordem,  um  homem 
de  paz,  que  entendo  que  as  almas  se  con- 
quistam sobretudo  pela  sympathia  e  pelo 
amor,  eu  devo  dizer  que  hoje  os  liberaes 
não  tèem  de  lutar  contra  a  tyrania  e 
corrupção  só  pela  palavra,  na  tribuna  e  na 
imprensa,  mas  também  defendendo-se,  braço 
a  braço,  na  praça  publica,  como  nos  tempos 
mais  agitados  da  iniciação  do  nosso  consti- 
tucionalismo. 


A  aliança  inglesa  425 


E  SÓ  nós,  partido  republicano,  podemos 
lutar  contra  os  desmandos  do  regimen. 
E,econhecem-no  os  próprios  monarchicos, 
que,  presos  dentro  delle  pelas  suas  convi- 
cções, se  julgam  impotentes  para  defender, 
de  per  si  sós,  os  seus  direitos  ultrajados, 
e,  em  nome  desses  direitos,  apellam  para 
a  intervenção  e  fiscalização  republicana. 
Tanto  nós  somos  hoje  a  única  esperança 
de  justiça  até  para  os  nossos  mais  intransi- 
gentes adversários  ! 

E  este  regimen,  sem  força  moral,  sem 
autoridade,  que  tem  atentado  contra  todas 
as  nossas  liberdades  internas  e  que  ninguém 
respeita  dentro  do  j^aís,  tem  a  audácia  de 
querer  fazer  acreditar  que  inspira  todas 
as  sympathias  e  respeitos  lá  fora,  e  é  o 
sustentáculo  e  o  único  amparo  das  nossas 
liberdades  externas,  da  integridade  nacional, 
pela  sua  estreita  aliança  com  uma  grande 
potencia !  Como  se  a  politica  externa  não 
fosse  uma  consequência  directa  da  politica 
interna !  E  isto,  quando  temos  perdido  a 
nossa  influencia  internacional  até  na  nossa 
segunda  pátria  —  o  Brazil,  donde  ainda  no 
dia   22,    em   meio   das   aclamações  festivas 


426  Da  monarcbia  para  a  republica 

dos  aulicos  pelo  regresso  dos  reis,  nos  che- 
gava a  noticia  de  haverem  sido  acintosa- 
mente confundidos  com  os  desordeiros  e 
maltratados  pelas  tropas  muitos  compatrio- 
tas nossos  na  ultima  revolta  militar. 

Quem  é  que  nos  respeita  desde  o  ulti- 
matum  inglês  ?  A  Allemanha,  arreando  a 
nossa  bandeira  em  Kionga  ?  A  França, 
disparando  aos  nossos  governos  as  inso- 
lências com  que  oficialmente  deu  força  ás 
reclamações  injuriosas  dos  nossos  credores? 
Respeita-nos  a  própria  Inglaterra,  que, 
ainda  ha  pouco,  na  guerra  com  o  Transwaal, 
nos  forçou  a  violar  a  nossa  neutralidade, 
atravessando-nos  o  território  com  os  seus 
soldados?  Como  foi  que  tudo  isto  mudou? 
Que  grande  mystificação  ! 

O  charlatanismo  dos  nossos  governantes 
resalta  manifestamente  dos  alardes  que 
fazem  do  elixir  da  aliança  inglesa.  Por 
virtude  delia,  milagrosamente,  Portugal 
não  só  restaurou  já  todas  as  suas  forças, 
mas  recuperou,  afirmam  mesmo,  no  con- 
certo das  nações,  o  logar  que  ocupava  na 
época  gloriosa  em  que  os  nossos  arrojados 
navegadores  abriram  á  civilização  o  cami- 
nho da  índia!!     Dir-se-ia  até,  ouvindo-os, 


A  aliança  inglesa  427 

que  não  somos  simplesmente  os  aliados  da 
Inglaterra,  mas  sim  os  seus  conquistadores. 
A'  viagem  dos  reis  a  Londres  chama-lhe  a 
camará  de  Lisboa  triumphal,  e  a  folha 
oficiosa  do  governo,  entoando-lhe  o  seu 
bymno.  declara-a  mais  gloriosa  do  que  a 
missão  dos  nossos  antigos  guerreiros .  .  . 

Para  prova  de  que  a  aliança  inglesa  não 
passa  dum  engodo,  para  prova  de  que 
não  ha  de  facto  tal  aliança,  basta  observar 
a  insistência  com  que  os  seus  pretendidos 
autores  procuram  confirmá-la  com  actos 
que,  aliás,  são  a  sua  própria  negação, 
como  ultimamente  o  tratado  de  arbitragem 
celebrado  entre  Inglaterra  e  Portugal  para 
todas  as  divergências  que  não  envolvam 
interesses  vitaes  ou  não  sejam  casos  de 
honra  ou  de  independência  das  duas  na- 
ções. Xem  que  fosse  preciso,  havendo  entre 
ellas  uma  aliança !  Porque  é  claro  que 
então  essas  divergências  se  derimiriam  ami- 
gavelmente. Celebram  tratados  d'arbitra- 
gem,  como  esse,  a  Inglaterra  com  a  França, 
a  França  com  a  Itália,  a  Suissa  e  os  Esta- 
dos Lenidos  com  varias  nações,  mas,  que 
conste,  não  os  celebraram  até  agora,  porque 
seria  redundante,  a  França  com  a  Rússia, 


428  Da  nionarchia  para  a  republica 


a  Itália  com   a  Allemanha,  nações  aliadas 
entre  si. 

Aliança  entre  o  governo  inglês  e  o 
governo  português  ?  Que  pode  liaver  de 
commum  entre  elles  ?  E'  uma  aliança  reli- 
giosa ?  Mas  como  ha  de  aliar-se  a  um 
governo  que  tem  sobretudo  por  dogma  o 
respeito  de  todas  as  crenças,  um  governo 
que  acata  e  festeja  servilmente  todos  os 
dogmas,  ainda  os  mais  revoltantes  para  a 
razão  e  para  o  sentimento  humano  ?  E'  uma 
aliança  económica  ?  Mas  como  ha  de 
aliar-se  a  um  governo  que  cimenta  forte- 
mente a  independência  da  nação  na  sua 
liberdade  financeira,  um  governo  arruinado, 
falido,  na  dependência  de  todos  os  auto- 
cratas da  finança  mundial  ?  E'  uma  aliança 
politica  ?  Mas  como  ha  de  aliar-se  a  um 
governo  exemplarmente  liberal,  que  sus- 
tenta, sem  a  minima  quebra,  o  direito  do 
habeas  corpus,  um  governo  despótico,  arbi- 
trário, o  governo  da  lei  de  13  de  fevereiro? 
Pôde  haver  uma  aproximação  politica  entre 
a  Inglaterra,  a  França  e  a  Itália,  todas 
liberaes,  podem  até  mutuar  visitas  os  seus 
parlamentos.  Mas  quem  se  não  riria  até 
ás    gargalhadas,    se    os    nossos    deputados 


A  aliança  inglesa  429 


tivessem  a  preterição  de  visitar  os  deputados 
ingleses?  Eu  bem  sei  que  os  nossos  gover- 
nantes, pela  voz  do  cliefe  do  estado,  ren- 
deram homenagem  á  liberdade  na  Inglaterra 
e  até  em  França  se  curvaram  devotamente 
perante  a  republica.  Mas  sucede-lhes  como 
aos  selvagens,  que,  nos  centros  da  civili- 
sação,  trajam  á  ultima  moda,  e,  que,  em 
chegando  á  terra  natal,  voltam  á  tanga : 
assim  que  chegaram  cá,  voltaram  ao  regimen 
do  poder  pessoal.  O  seu  primeiro  acto  de 
expiação  devia  ser  a  amnistia  de  Bartlio- 
lomeu  Constantino.  Pois  não  só  o  não 
praticaram,  mas  até  pleiteiam  entre  si  a 
paternidade  da  lei  scelerada  que  o  con- 
demnou.  Aliança  militar?  Como,  sem 
exercito  e  marinha  ?  Não  basta  o  valor 
e  o  arrojo  dos  nossos  militares,  quando  a 
dissipação  e  a  incúria  dos  governantes  os 
deixa  sem  recursos,  ao  abandono,  con- 
demnados  a  perecer  fatalmente,  como  outro 
dia,  nesse  horrendo  desastre  de  Cunene. 

Aliança,  não  a  pode  haver  hoje  entre  o 
nosso  governo  e  o  governo  inglês,  nem 
infelizmente,  sob  o  actual  regimen,  o  nosso 
povo  trabalhador,  esmagado  na  sua  indus- 
tria sob  o  peso  dos  impostos,  pôde  esperar 


430  Da  inonarchia  para  a  republica 

realizá-la  com  o  povo  inglês  sequer  ao 
menos  por  um  tratado  de  commercio.  Para 
alcançarmos  uma  aliança  que  nos  honre  e 
nos  preste,  havemos  de  mudar  primeiro'  de 
instituições. 

Protectorado  inglês,  isso  é  o  que  ha, 
diz-se  lá  fora  em  todas  as  chancelarias, 
sentimo-lo  dolorosamente  cá  dentro  todos 
que  temos  consciência  e  coração.  E  este 
protectorado,  pelas  suas  condições  irregu- 
lares, instáveis,-  —  porque,  no  dia  em  que 
elle  se  declarasse  formalmente,  ruiria  a 
monarchia,  —  este  protectorado,  deprimente 
para  a  nossa  dignidade  nacional,  nem  sequer 
assegura  aos  espíritos  pusilânimes  a  pro- 
priedade e  a  vida  dos  portugueses.  Já  o 
marquês  de  Soveral,  que  o  deve  conhecer 
bem,  na  camará  dos  pares  aconselhou  o 
governo  a  não  contar  demais  com  elle. 
E  com  razão.  Também,  depois  da  viagem 
de  el-rei  D.  Luiz  a  Berlim  em  1S85,  tivemos 
o  protectorado  allemão,  e  seguiu- se-lhe  o 
ultimatum  de  1890  e  a  perda  do  nosso  //*»- 
terland  africano.  Agora,  depois  das  viagens 
sucessivas  d'el-rei  D.  Carlos  a  Londres, 
<iue  futuro  nos  estará  reservado  ?  Então  o 
perigo  era  o  perigo  inglês  na  costa  oriental 


A  aliança  inglesa  431 

da  Africa.  Agora  não  é  menor  o  perigo 
alemão  na  costa  occidental.  E  não  é  com. 
cartas  de  conselho  aos  representantes  da 
Allemanha  entre  nós  que  elle  se  debella. 

Façamos  a  aliança  interna,  a  aliança 
das  nossas  crenças,  a  aliança  dos  nossos 
misteres,  a  aliança  das  nossas  opiniões ; 
façamo-la  pela  liberdade,  como  a  quer  o 
partido  republicano,  como  só  elle  a  pôde 
fazer,  e  a  aliança  externa  virá.  E  então 
as  palavras  justas  que  el-rei  D.  Carlos,  em 
resposta  ao  lord  maior  de  Londres,  dirigiu 
á  Inglaterra,  ouvi-las-emos,  nós,  em  nossa 
honra,  da  boca  dos  nossos  aliados,  sau- 
dando em  nós  a  livre,  forte  e  progressiva 
nação  portuguesa. 

Serão  excessivas  as  nossas  aspirações, 
temerárias  as  nossas  revindicações  ?  Cer- 
tamente que  não.  Fizemos  com  todos  os 
crentes  liberaes  a  campanha  anti-clerical  e 
obrigámos  o  governo  a  revalidar  os  decretos 
de  Pombal  e  Joaquim  António  d'Aguiar 
contra  as  congregações  religiosas  :  e,  se  não 
vencemos,  foi  porque  parámos.  Fizemos 
com  as  classes  produtoras  a  campanha 
contra  o  augmento  dos  impostos  e  o 
ministro   que   o   propunha,  eaíu ;   e   só  não 


432  Da  inonurchia  para  a  republica 

veuceremos,  se  pararmos.  Façamos  egual- 
mente  a  campanha  pela  implantação  de 
todas  as  liberdades  politicas  em  Portugal, 
desde  as  individuaes  até  ás  constitucionaes, 
façamo-la  com  coragem  e  perseverança,  e 
triumpharemos. 


Perante  o  tribunal  de  verificação 
de  poderes  ' 


Senhores  Juizes  ! 

Não  venlio  aqui  para  defender  só  os 
direitos  eleitoraes  dos  meus  correligioná- 
rios, mas  os  de  todos  os  eleitores  do 
circulo  oriental  de  Lisboa,  que  foram  poli- 
ticamente espoliados  pelas  oligarchias  domi- 
nantes no  ultimo  acto  eleitoral.  O  partido 
republicano  é  um  partido  de  princípios,  que 
tanto  os  acata  nos  seus  correligionários 
como  nos  seus  adversários.  Nós  desejamos 
mesmo  que  os  nossos  adversários  exerçam 
os  seus  direitos  eleitoraes,  porque,  habi- 
tuando-se  a  elles,  em  breve  acabarão  por 
querer  exercer  todos  os  seus  direitos  j)oliti- 
cos,  e,  nesse  dia,  a  linha  divisória  que  nos 


*  Discurso  cm  24  de  março  de  190Õ,  segundo  o  extracto 
de  O  Mimdo. 


434  Da  monarchia  para  a  republica 


separa,  se  apagará,  e  constituiremos  juntos 
uma  só  grande  familia,  a  livre  e  altiva 
nação   portuguesa. 

Deante  de  magistrados  encanecidos  no 
estudo,  ocioso  será  demonstrar  que  o  prin- 
cipio eleitoral,  é  na  altura  em  que  hoje  se 
acham  as  sociedades,  uma  condição  impre- 
scindivel  de  vida  para  as  nações.  Onde  esse 
principio  falta,  as  nações  convulsionam-se 
e  esfacelam-se  como  neste  momento  e  tão 
tragicamente  o  colossal  império  russo. 
Onde  elle  vigora  e  se  radica,  as  nações 
florescem  e  prosperam,  como,  entre  as  pri- 
meiras, a  grande  e  nobre  nação  inglesa. 

Porque  é  que,  agora  mesmo,  o  povo  por- 
tuguês acolhe  tão  festivamente  a  esposa  e 
as  filhas  do  chefe  de  estado  da  Ingla- 
terra ?  Não  é  só  porque  elle  sabe  corres- 
ponder gentilmente  á  delicada  visita  de 
tão  sympathicas  senhoras,  mas  sobretudo 
porque  essas  senhoras  são  a  esposa  e  as 
filhas  dum  chefe  de  estado  que  timbra 
em  cumprir  escrupulosamente  as  suas  obri- 
gações constitucionaes.  e  porque  esse  chefe 
de  estado  é  o  chefe  dum  governo  que, 
embora  monarchico,  ó,  a  muitos  respeitos, 
modelo    de    liberalismo,    que    atesta    logo 


Perante  o  tribunal  de  verificação  de  poderes       435 


fundamentalmente  na  sua  legislação  elei- 
toral. Estes  festejos  que  o  povo  português 
celebra  em  honra  da  briosa  nação  inglesa, 
são  ao  mesmo  tempo  a  condemnação  e  o 
protesto  que  elle  lavra  contra  o  regimen 
pessoal  que  nos  oprime  todas  as  franquias, 
desde  as  franquias  eleitoraes,  como  acaba 
de  suceder  mais  uma  vez  na  ultima  eleição 
para  deputados. 

E'  contra  semelhante  agravo  que  venho 
pedir  reparação  ao  tribunal. 

Em  todos  os  concelhos  ruraes  do  circulo 
oriental  de  Lisboa,  pode  aíirmar-se,  duma 
maneira  geral,  que  a  eleição  se  não  reali- 
zou. O  direito  eleitoral  foi  arrancado,  em 
massa,  a  assembléas  inteiras. 

Não  me  demorarei  a  examinar  minucio- 
samente o  processo  eleitoral.  Não  é  pre- 
ciso. Ha  nelle  dois  elementos  que  são 
capitães  para  denunciar  a  falsificação  elei- 
toral. Um  é  o  numero  dos  eleitores  inscri- 
ptos  nas  actas  das  assembléas  ruraes. 
Quasi  que  não  faltou  nenhum.  Ha  fregue- 
zia  mesmo  em  que  votaram  todos  os  recen- 
seados. Compare-se  essa  votação  compacta 
das  aldeias  com  a  da  cidade,  onde,  tra- 
vando-se    tão    intensamente    a   luta,   foram 


436  Da  monarchia  para  a  republica 

comtudo  ainda  muito  numerosas  as  absten- 
ções, e  tanto  bastará  para  tornar  muito 
suspeita,  inverosimil  mesmo,  a  votação  des- 
carregada nas  actas  das  assembléas  ruraes. 
O  outro  elemento,  também  capital,  é  a  du- 
ração do  acto  eleitoral.  Nessas  assembléas 
ruraes  estão  tão  pouco  práticos  em  fazer 
verdadeiras  eleições,  que  nem  sabem  o 
temj^o  que  ellas  levam,  e  por  isso  não  fal- 
sificaram habilmente  as  actas  eleitoraes. 
Assim  como  dispozeram  dos  eleitores,  cal- 
cularam caprichosamente  a  duração  do  acto 
eleitoral.  Imaginem  que  ha  assembléa  de 
mais  de  seiscentos  eleitores  em  que,  princi- 
piando o  acto  eleitoral  ás  nove  horas,  logo 
ás  onze  horas  começaram  as  duas  horas 
d'espera.  Ora  vejam.  Constituiu-se  a  mesa, 
lavrou-se  a  acta  da  sua  constituição  em  três 
exemplares,  anxou-se  o  edital  respectivo,  e 
fizeram-se  as  duas  chamadas,  tudo  em  duas 
horas.  Meio  minuto  que  levem  as  duas 
chamadas  de  cada  eleitor,  cada  uma  das 
quaes  ainda  a  miude  se  repete,  seriam  para 
seiscentos  eleitores  precisas  cinco  horas. 
Pois  em  duas  horas  estava  tudo  feito  ! 

Mas,  dir-se-á,  bem   sei :   o  tribunal  orde- 
nou um  inquérito  ás  assembléas  ruraes  do 


Perante  o  tribunal  de  verificação  de  poderes       437 

circulo,  e  os  juizes  encarregados  dessa 
missão  concluem  nos  seus  relatórios  pela 
validade  da  eleição  nas  mesmas  assembléas. 
E'  certo.  Infelizmente  não  foram  só  ludi- 
briados os  eleitores  pelos  nossos  dirigentes, 
foi-o  também  este  tribunal.  O  relatório 
dum  dos  juizes,  o  de  Villa  Franca,  não 
procede,  porque  elle  não  pôde  considerar  o 
documento  essencial,  que  era  o  depoimento 
dos  delegados  oposicionistas  que  protes- 
taram contra  a  eleição  nos  concelhos  sujei- 
tos ao  seu  inquérito.  Esse  depoimento, 
tarde  pedido  por  deprecada  para  Lisboa, 
não  foi  de  Lisboa  remetido  a  tempo  de  o 
ponderar  o  juiz  syndicante.  E  por  isso  o 
seu  relatório  não  tem  valor  algum.  O  outro 
inquérito,  que  devia  ser  feito  pelo  juiz  de 
direito  do  Cartaxo,  não  o  foi  por  elle,  mas 
sim  por  um  juiz  substituto,  que  se  identi- 
ficou inteiramente  com  os  mandões  locaes. 
O  seu  relatório  é  a  consagração  da  falsifi- 
cação eleitoral.  E  nem  ha  meio  de  a  enco- 
brir, desde  que  o  chefe  principal  das  facções 
locaes  a  confessou,  pretendendo  até  obter 
de  dois  meus  correligionários  a  declaração 
formal  de  que  o  sr.  dr.  Afifonso  Costa  s  eu 
concordáramos   nessa   falsificação,    quando, 


438  Da  monarchia  para  a  republica 


j^elo  contrario,  a  verdade  é,  como  se  tornou 
publico,  que  nós  envidámos  todos  os  nossos 
esforços  para  a  evitar. 

Tudo  nos  leva,  portanto,  a  presumir  que 
a  eleição  não  se  realizou  nas  assembléas 
ruraes  do  circulo  oriental  de  Lisboa.  E  aqui 
tèem  V.  ex.^*  como  ás  portas  da  capital  se 
faz  escravatura  politica.  E,  pois,  indispen- 
sável que  a  eleição  se  realize,  que  a  lei 
eleitoral  se  cumpra.  E  digo-o  com  todo  o 
desassombro  de  imparcialidade,  porque  é 
claro  que,  por  maior  que  seja  a  minha 
confiança  no  prestigio  do  ideal  politico  que 
professo,  eu  não  posso  imaginar  que  de 
repente,  sem  uma  radical  transformação 
politica  da  nação,  dum  momento  para 
outro,  como  por  milagre,  se  vá  operar  a 
republicanização  das  populações  campesi- 
nas deste  circulo,  ainda,  pelas  pressões 
monarchicas  que  sobre  ellas  pesam,  tão 
atrazadas  civicamente.  Isso  ha  de  vir,  e 
muito  breve,  espero-o,  da  educação  e  da 
assistência  republicana,  mas,  em  todo  o 
caso,   não  já  d'aqui  a  alguns  dias  apenas. 

E  eu  j^eço  o  cumprimento  da  lei  eleitoral 
vigente,  sem  que  por  isso  a  adopte  e 
abrace.     Não !     Esta    lei   foi    forjada   pela 


Perante  o  tribunal  de  verificação  de  poderes       439 


ditadura  de  propósito  para  ferir  as  liberda- 
des publicas.  Mas  nem  as  suas  próprias 
leis  ella  cumpre  !  Os  republicanos  são  hoje 
o  único  partido  que  em  Portugal  sustenta 
e  revindica  a  legalidade.  E  para  prova 
ahi  está  a  ultima  eleição.  Onde  foi  que  se 
procedeu  legalmente  ?  Na  cidade  de  Lis- 
boa, onde  as  forças  republicanas  predo- 
minam. E  onde  é  que  a  legalidade  foi 
desprezada  e  calcada  ?  Nas  assembléas 
ruraes,  onde  predominaram  as  influencias 
monarchicas.  Eu  peço  o  cumprimento  da 
lei,  porque  peor  do  que  uma  lei  má  é  o 
arbítrio  absolutista  das  facções. 

Espero  que  este  tribunal  não  quererá 
submeter-se  ao  regimen  pessoal  que  tudo 
e  todos  tem  intentado  avassalar  no  nosso 
paiz.  Não  sancionará  por  certo  como 
suprema  lei  o  arbitrio  governativo.  Seria 
converter  a  sua  magistratura  num  in- 
strumento liberticida  de  que  os  nossos 
governantes,  sem  se  atreverem  a  abolir 
declaradamente  todas  as  liberdades,  se 
serviriam  para,  simulando  consigná-las  até 
certo  ponto  na  lei,  impunemente  as  viola- 
rem de  facto,  na  sua  execução.  A  irres- 
ponsabilidade  do  poder  executivo,   que  já 


440  Da  nionarchia  para  a  republica 


hoje  é  completa  para  todos  os  seus  repre- 
sentantes legaes,  estender-se-ia  desse  modo 
até  mesmo  áquelles  que  o  governo  não 
pôde  sem  crime  reconhecer  como  taes. 

Xão  !  não  ha  de  suceder  assim.  Este  tri- 
bunal ha  de,  j^elo  contrario,  espero-o,  san- 
cionar hoje  aqui  solemnemente  que  a  poli- 
tica é  e  deve  ser  para  todos,  desde  o  chefe 
do  estado  até  o  simples  cidadão,  uma  coisa 
séria,  aquillo  mesmo  que  numa  nação  ha 
de  mais  sério,  de  mais  grave  e  de  mais 
sagrado,  que  a  ninguém  é  licito  prostituir. 
E  não  precisarei  certamente  para  isso  de 
invocar  as  suas  tradições  liberaes,  nesta 
mesma  sala  Dersonificadas  nas  figuras  vene- 
randas  de  Paschoal  José  de  Mello,  o 
mestre  da  escola  jurídica  donde  sairam 
os  nossos  illustres  constituintes  dessa  glo- 
riosa revolução  de  20  que  conferiu  a 
autonomia  á  magistratura  judicial,  e  de 
Mousinho  da  Silveira,  o  formidável  funda- 
dor do  nosso  constitucionalismo,  em  cujo 
código  se  formulou  como  primeiro  principio 
da  organização  politica  da  nação  a  divisão 
e  independência  dos  poderes.  E  menos 
ainda  precisarei  de  invocar  a  \v.  ex.'"**  a 
sua  dignidade  de  homens  e  de  magistrados, 


Perante  o  tribunal  de  verificação  de  poderes       441 

para  que  vv.  ex.*^  zelem  acima  de  tudo, 
custe  a  quem  custar,  como  a  sua  mais 
imperativa  lei,  a  autonomia  e  a  indepen- 
dência do  jDoder  que  lhes  foi  confiado  pela 
nação.  Os  juizes,  em  Portugal,  já  hoje 
não  são  juizes  senhoriaes,  dos  potentados 
locaes,  nem  tão  pouco  juizes  do  rei,  da 
monarchia,  como  nos  velhos  tempos  do 
feudalismo  e  da  monarchia  absoluta.  São 
juizes  de  direito,  que  a  todos,  sem  dis- 
tinção de  classes  nem  categorias,  devem 
egualmente   justiça. 

Reparem  vv.  ex.'"**,  com  todo  o  seu 
patriotismo,  na  responsabilidade  que,  no 
actual  momento  critico  que  o  país  atra- 
vessa, impende  sobre  este  tribunal.  Todos 
sabem  a  violência  de  paixão  com  que,  em 
volta  duma  grande  questão  económica  que 
está  na  ordem  do  dia,  se  discute  na 
imprensa,  chegando-se  ao  ataque  e  á  sus- 
peita mais  dilacerante  e  cruel.  Pois  eu 
digo  o,  com  a  mais  profunda  comoção  da 
minha  alma :  somem-se  todos  os  gritos  de 
dôr  e  de  raiva  que  por  esse  país  fora  soltam 
incessantemente,  nos  milhares  de  questões 
que  nelle  dia  a  dia  se  debatem,  todos  os 
interesses  que  se  julgam  ameaçados  ou  se 


442  Da  monarchia  para  a  republica 

sentem  feridos,  e  o  seu  enorme  clamor 
abafará  por  completo  a  vociferação  jorna- 
lística que  ahi  agora  estruge  tão  atroado- 
ramente.  E  porque  é  toda  essa  irritação, 
porque  toda  essa  tempestade,  que  por 
vezes  parece  anunciar-nos  a  calamidade 
duma  próxima  guerra  civil  ?  E'  porque 
hoje  infelizmente,  entre  nós,  domina  abso- 
lutamente a  autocracia  dos  chefes  das 
facções  que  se  alternam  no  poder.  E'  por- 
que os  interesses  e  os  direitos  não  se  acham 
representados  e  defendidos  nas  instituições 
pelos  nossos  governantes.  E'  porque  o 
parlamentarismo  desapareceu  entre  nós. 

Urge  que  este  tribunal  o  restabeleça. 

E,  de  duas,  uma.  Ou  a  nação  vê  que 
pôde  contar  com  a  justiça  para  progredir 
pacificamente  nas  revindicações  das  suas 
reformas  liberaes,  ou,  faltando-lhe  esse 
ultimo  recurso  legal,  é  de  recear  que,  para 
viver  livre  e  honrada,  ella  se  lance  na 
revolução.  Tal  é  o  tremendo  dilema  que 
está  suspenso  do  veredictum  deste  tribunal. 
Escuso  de  dizer  eu,  homem  de  ordem  e  de 
paz,  quaes  os  votos  que  cordialmente 
formulo  perante  vv.   ex.'''\ 


A  psycologia  da  reacção 


Minhas  senhoras  e  meus  senhores  ! 

O  titulo  desta  associação  —  Centro  de- 
mocrático d'instrução  —  sôa  como  o  toque 
dum  clarim.  Ha  efectivamente  dois  ensi- 
nos, o  ensino  liberal  e  o  ensino  reaccio- 
nário, e  a  nós  liberaes  cumpre-nos  travar  a 
luta  contra  a  reacção,  não  só  na  praça 
publica,  nos  nossos  comicios  e  na  nossa 
imprensa,'  mas  também  na  escola,  nos 
nossos  salões  de  conferencia,  como  este. 

Os  principios  que  proclamamos  para  o 
governo  da  nação,  temos  de  proclamar 
também  jDara  o  seu  ensino.  As  nossas 
revindicações  mesmo  da  liberdade  d'amar, 
de  trabalhar  e  de  jDensar  não  são  senão  as 

*  Conferencia  no  Centro  democrático  d"insti-ução  do 
Porto,  em  6  de  maio  de  190Õ,  segundo  o  extracto  de  O 
Norte  e  Vo^  Publica. 


444  Da  monarchia  para  a  republica 


revindicações  do  direito  de  exercitarmos 
as  nossas  faculdades,  do  direito  de  nos 
educarmos. 

E  tão  sagrada  é  para  nós  a  vida  duma 
das  nossas  faculdades  como  a  de  qualquer 
das  outras.  Todas  três  são  indispensáveis  á 
a;firmação  da  nossa  personalidade,  da  nossa 
dignidade  moral. 

Cada  uma  delias,  é  certo,  tem  o  seu  pe- 
ríodo de  maior  desinvolvimento.  Nós  somos 
primeiro  sobretudo  coração.  A  creança  é 
toda  risos  e  lagrimas.  Depois  somos  sobre- 
tudo acção.  A  mocidade  é  toda  força, 
emprehendimento,  aventuras.  E  mais  tarde 
somos  sobretudo  reflexão.  A  edade  adulta 
é  a  da  madureza  da  inteligência.  Por  isso 
até  não  ha  maior  tortura  para  a  infância  do 
que  conter-lhe  os  risos  e  os  choros,  para  a 
mocidade  do  que  forçá-la  á  imobilidade 
e  ao  silencio  horas  seguidas,  e  para  os 
adultos  do  que  reprimir-lhes  a  razão,  a 
liberdade  d'opinião.  E,  se  as  creanças 
ainda  só  se  desesperam,  coitaditas !  os 
rapazes  já  vão  reagindo  em  arruaças  e 
tumultos  á  saída  das  aulas,  e  a  conse- 
quência inevitável  da  opressão  da  opinião 
publica  é  sempre  a  revolução. 


A  psycologia  da  reacção  445 


Mas,  se  cada  faculdade  tem  a  sua  edade 
própria  em  que  mais  se  desenvolve,  e  se  a 
edade  iião  é  só  a  physiologica  e  ha  pessoas 
sempre  um  tanto  infantis  ou  que,  pelo  con- 
trario, logo  desde  a  adolescência  parecem 
maduras  e  até  velhas,  nenhuma  faculdade 
falta  ou  cessa  em  qualquer  das  épocas  da 
vida.  A  creança,  que  é  tão  emocionavel,  é 
também  logo  movimento  e  curiosidade. 
Todos  sabem  como  para  a  entreter,  para 
lhe  dissipar  o  mais  forte  amuo,  basta  dar- 
Ihe  alguma  coisa  que  fazer,  basta  contar-lhe 
uma  historia.  A  juventude,  que  é  a  edade 
da  acção,  é  ao  mesmo  tempo  a  do  amor,  e 
as  mais  fecundas  e  originaes  idéas  da  nossa 
edade  madura  tiveram  quasi  sempre  o  seu 
gérmen  nos  annos  juvenis.  O  adulto  é  refle- 
xão, mas  o  adulto  é  também  o  pa.e,  e  só 
na  edade  madura  é  que  o  homem  atinge  a 
perseverança  da  acção  e  todo  o  apuro  e  jjer- 
feição  technica  na  execução  da  sua  obra. 

O  beato,  que  só  ama,  o  agiota,  que  só 
agencia,  e  o  figurão  que  passa  por  deante 
de  nós  na  rua,  a  dar-se  ares  de  sábio  sem 
nunca  se  rir.  solemne  e  hirto,  como  se  fosse 
levado  num  andor  pela  própria  admiração 
dos  transeuntes,  são  monstruosidades  espi- 


446  Da  moDíirchia  pai'a  a  republica 

rituaes ;  e  nem  o  beato  ama,  nem  o  agiota 
agencia,  nem  o  sabichão  sabe  nada. 

O  homem  normal,  o  homem  perfeito, 
integro,  não  pode  passar  sem  exercitar  por 
completo  todas  as  suas  faculdades. 

De  que  é  feita  esta  coisa  dulcissima  que 
parece  ser  o  melhor  de  nós  mesmos,  a  que 
nós  chamamos  amor  de  familia  e  amor  de 
pátria,  e  que  não  é  só  amor,  porque  nós  per- 
tencemos á  familia  e  á  pátria  conjuntamente 
pelo  coração,  pelo  braço  e  pelo  cérebro  ? 

E'  que,  em  j^arte  alguma  como  no  seio 
da  familia,  nós  damos  tão  plena  efusão 
aos  nossos  sentimentos,  nós  fazemos  tanto 
o  que  queremos  e  comunicamos  tanto  os 
nossos  pensamentos  até  á  confidencia.  Se 
em  familia  a  gente  se  ama !  é  escusado 
dizê-lo,  é  claro.  Que  todos  estão  sempre 
dentro  delia  pelo  que  intentamos  fazer, 
não  é  menos  certo.  A  dificuldade  para  a 
nossa  acção  provém  ás  vezes  até  de  todos 
nos  quererem  ajudar.  E'  o  que  sucede  aos 
nossos  filhos,  a  quem  tanto  queremos 
ajudar,  que  os  não  deixamos  fazer  nada. 
E  aos  pães  também  isso  sucede,  não  com 
os  filhos,  mas  com  as  boas  das  nossas 
filhas,  que  correm  sempre  pressurosas,  tão 


A  psycologia  da  reacção  447 


dedicadas  como  tyranicas,  a  tirarem-nos  o 
serviço  das  mãos  para  o  tomarem  ellas 
a  seu  cargo.  E  na  familia  não  ba  idéa, 
não  ha  dito  dos  nossos  filhos  que  nos  não 
pareça  genial  e  que  nós  não  repitamos  logo 
e  não  quizessemos  ver  impresso  e  publicado 
por  toda  a  parte.  E,  se  um  delles  faz  o  seu 
verso?  as  irmãs  cantam-no,  e  o  pae  e  a 
mãe  recitam-no  de  cór  um  ao  outro  em 
comum,  e,  se  o  não  cantam  também,  é 
simplesmente  porque  não  podem :  chorariam 
de  ternura.  E  elles,  os  filhos,  pagam-no-lo 
na  melhor  moeda.  As  nossas  idéas  são 
sempre  para  elles  sublimes,  para  elles  nin- 
guém sabe  tanto  nunca  como  seus  pães. 
Os  meus  já  me  prometeram  que  eu  hei  de 
figurar  no  pantheão  da  historia  entre  os 
homens  notáveis  do  periodo  contemjíoraneo 
em  Portugal.  Se  elles  forem  os  chronis- 
tas...  E  o  meu  Domingos,  ainda  muito 
pequeno,  ainda  sem  saber  ler,  já  andava 
pelos  corredores  da  casa,  com  um  masso 
de  provas  typographicas  debaixo  do  braço, 
apregoando  :  Notas  dum  pae  !  Notas  dum 
pae ! 

O  amor  da  pátria  é  também  assim  feito 
como  o  da  familia.     O  que  logo  nos  custa, 


448  Da  monarchia  pava  a  republica 


longe  delia,  não  podermos  desafogar  o 
nosso  coração !  Falamos  dos  nossos  ami- 
gos, de  tudo  que  nos  é  mais  caro  da  nossa 
terra,  mas  ninguém  comunga  comnosco 
nos  mesmos  sentimentos,  e  temos  de  os 
conter.  .  .  Depois,  o  país  estrangeiro  é 
sempre  um  tanto  como  a  quinta  do  pro- 
prietário soberbo  e  avaro,  cercada  d'altos 
muros  que  nos  não  deixam  ver  nada  para 
dentro,  e  fechada  por  pezados  portaes  ao 
nosso  transito.  E,  ainda  por  cima,  lá  fora, 
ninguém  dá  conta  da  nossa  opinião  :  os  es- 
trangeiros não  têem  voto.  Por  isso,  quando 
numa  nação  não  pode  cada  um  dos  seus 
membros  prestar  livremente  homenagem 
nem  aos  seus  homens  mais  ilustres,  como, 
por  exemplo,  ainda  ha  pouco  aqui  mesmo 
nesta  cidade  a  Guerra  Junqueiro  ;  quando, 
pela  dissipação  dos  poderes  públicos,  o 
trabalho  falta  ou  é  ^penosíssimo  ;  e  quando 
não  é  licito  a  cada  um  expor  desassombra- 
damente tudo  quanto  pensa,  sem  correr  o 
risco  de  ir  degredado  para  Timor,  o  conflito 
está  travado  entre  a  pátria  e  a  tyrania,  e 
uma  tem  de  sucumbir. 

Ha  de   ser  a  tyrania,  porque  a  vida  da 
pátria  ó   a  vida  da  alma  nacional,  a  vida 


A  psycologia  da  reacção  449 

das  nossas  faculdades,  que  se  não  rendem 
pusillanimemente. 

Para  prova,  vejam  :  Quanto  ahi  se  não 
descura  e  contraria  nas  classes  cultas  a  fa- 
culdade d'acção!  Primeiro  ha  de  o  menino 
estar  quietinho  em  casa,  depois  encerra-se 
o  rapaz  meses  consecutivos  num  colégio,  e 
não  se  lhe  ensina  nunca  pelo  tempo  adeante 
nenhum  oficio,  o  minimo  trabalho  manual. 
Calumnia-se-lhe  ainda  a  sua  faculdade  de 
acção :  chama-se-lhe  faculdade  de  destrui- 
ção. Pois  bem  !  Um  dia,  que  elle,  já  fora 
das  aulas,  hesita  em  escrever  uma  palavra, 
sem  saber  se  ella  se  escreve  com  uma 
consoante  simples-  ou  dobrada,  e  não  lhe 
lembra  a  sua  graphia,  que  a  memoria  visual 
lhe  devia  dar,  e  nem  tão  pouco,  repetindo-a 
d'alto,  a  memoria  auditiva  lhe  diz  nada,  é 
esse  pobre  sentido,  contrariado,  maltratado, 
amesquinhado,  mas  resistindo  até  á  ultima, 
que  o  tira  d'embaraço.  O  nosso  heroe  pega 
na  penna  e  escreve  para  deante,  entre- 
gando-se  á  sua  faculdade  motriz,  e  a  orto- 
graphia  sai-lhe  certa. 

Por  isso  a  reacção,  seja  qual  fôr,  clerical, 
plutocrata  ou  cesarista,  para  atacar  as 
almas     emprega    sempre    o    mesmo    estra- 

29 


450  Da  monarchia  para  a  republica 

tagema  de  guerra :  divide  as  nossas  facul- 
dades, põe-nas  em  conflito. 

Todos  sabem  quanto  esses  conflitos  são 
frequentes.  Surge  perante  nós  uma  paisa- 
gem, uma  pessoa  muito  bella  ?  Paramos, 
ficamos  em  êxtase  deante  delia,  sem 
podermos  mexer-nos  nem  pensar.  A  emo- 
ção paralj^sa-nos  as  outras  faculdades. 
Um  passeio,  uma  viagem,  uma  ocupação, 
faz-nos  passar  a  dôr  e  a  tristeza,  e  até  ás 
vezes  também,  infelizmente,  distrae  dos 
afectos,  do  amor.  E  como  o  estudo  absor- 
vente a  que  se  sujeita  a  mocidade  nas 
aulas,  lhes  vai  fechando  tanto  o  coração  e 
tanto  apoucando  a  acção  e  a  serventia ! 

Os  reaccionários  excitam,  alimentam  e 
multiplicam  estes  conflitos. 

O  clericalismo,  invocando  o  amor,  ex- 
comunga o  trabalho  e  a  razão. 

O  trabalho  desperta  o  interesse,  que 
corrompe  o  coração.  O  ideal  é  o  ascetismo, 
o  estado  de  pobreza.  Dôe-se,  legue-se 
tudo  á  egreja.  Ella  distribuirá  depois  a 
riqueza  a  cada  um  segundo  os  merecimentos 
da  sua  devoção.    O  grande  caso  é  tê-la. 

O  estado  de  ignorância  é  também  o  de 
santidade.     O   pensamento   gera   a  duvida^ 


A  psycologia  da  reacção  451 

que  é  a  descrença,  e  o  erro,  que  é  o  pecado. 
E  para  que  pensar  ?  Para  saber  ?  Lá  está 
a  egreja  infalível  para  com  os  seus  dogmas 
nos  infundir  toda  a  sabedoria,  sem  ser 
necessário  pensarmos.  E  para  que  saber? 
Para  grangear  autoridade  ?  Ella  é  que  é  a 
suprema  autoridade,  e  reparte-a  também, 
como  a  fortuna,  entre  os  seus  fieis. 

Sobre  a  ignorância  e  a  miséria  a  teo- 
cracia ergue-se  então  ousadamente  contra 
o  amor.  Rompe  todos  os  laços  afectivos. 
Separa  o  homem  da  natureza,  da  familia  e 
da  pátria.  Os  laços  da  familia  são  carnaes, 
os  laços  da  pátria  são  mundanos,  e  a  carne 
e  o  mundo,  com  o  diabo,  são  os  três  ini- 
migos da  alma.  E  não  se  contenta  de 
extinguir  o  amor,  acende  os  ódios  dos  seus 
sectários  contra  todos  que  não  comunguem 
no  mesmo  credo,  principalmente  contra  os 
bons,  contra  aqueles  que  pela  virtude  da 
sua  atracção  moral  possam  fundar  sobre 
a  terra  uma  nova  religião,  melhor,  mais 
humana. 

A  plutocracia,  essa,  invoca  o  interesse 
contra  o  amor  e  a  razão. 

O  sentimento  distrae  dos  negócios. 
E  para  que  perder  tempo,  que  é  dinheiro, 


452  Da  nionarchia  para  a  republica 

a  amar?  O  pobre  não  o  tem,  e  o  rico  não 
ha  de  assim  malbaratá-lo.  Amar  a  nossa 
terra,  o  campo  arroteado  e  plantado  por 
nossos  pães  e  avós,  para  que  ?  Para  colher- 
Ihe  os  fructos  ?  Fica  mais  barato  mandá-los 
comprar  ao  mercado.  Amar  a  mulher,  os 
filhos  ?  O  rico  não  precisa  de  amar  para 
casar ;  nem  precisa  d'ocupar-^se  nunca  da 
sua  familia,  toma  para  isso  creados,  mestras 
e  professores,  médicos  e  enfermeiros,  em 
suma  não  lhe  faltam  serventuários.  Ter 
amigos  ?  As  amizades  saem  sempre  muito 
caras,  e  tê-las  com  pobres  é  a  ruina. 

Nem  divertimentos  nem  estudos  !  Nada 
de  teorias!  Sejamos  práticos.  E  para  que 
estudar  ?  Para  saber  ?  O  pobre  não  pôde 
dar-se  o  luxo  da  instrução.  Quem  é  rico, 
passa  facilmente  por  culto ;  quando  muito, 
tem  para  isso  de  comprar  alguns  quadros, 
estatuas  ou  livros  d'autores  celebres,  e, 
ainda  melhor,  dar-lhes  a  honra  de  os  sentar 
á  sua  meza.  E  para  que  saber?  Para 
alcançar  consideração  social  ?  O  homem 
rico,  que  passa  altivo  e  triumphante  na  sua 
carruagem  de  altas  molas,  vê  logo  todos 
a  pararem  no  caminho  para  o  cortejar. 
E'    para    alcançar    autoridade  ?     A    autori- 


A  psycologia  da  reacção  458 


dade  compra-se.  Compram-se  empregos, 
compram-se  votos.  E  o  rico  tem  sempre 
um  ultimo  recurso  decisivo  para  intervir 
na  governança,  que  é  emprestar  aos  altos 
poderes   do   estado. 

Sacrificados  assim  o  amor  e  a  razão  ao 
interesse,  e  portanto  enfraquecido  o  traba- 
lhador, a  plutocracia  dá-lhe  o  seu  assalto. 
Ha  de  trabalhar  só  para  ella.  Ella  é  que 
dispõe  soberanamente  do  capital.  Paga-lhe 
o  que  quer  de  soldada;  e,  se  não  quer,  não 
lhe  paga  mesmo  nada,  porque  o  pobre  pro- 
letário não  tem  para  onde  apelar.  O  único 
tribunal  d'arbitros  avindores  que  temos, 
creado  por  mim  em  Lisboa,  vegeta  a  custo, 
e  o  que  eu  quiz  crear  aqui  no  Porto,  ainda 
não  existe.  E,  se  o  trabalhador  adoece  ou 
se  invalida,  ou  quando  envelhece  ?  Peça 
uma  esmola. 

O  cezarismo,  por  sua  vez,  invoca  a  razão 
para  ferir  o  coração  e  o  braço  do  homem, 
e,  depois  delle  assim  enfraquecido,  impõe  á 
razão  o  seu  próprio  arbitrio  ! 

As  paixões  desvairam.  O  coração  é  uma 
cratera  acesa  donde  por  vezes  irrompe  e  se 
projecta  a  lava  das  revoluções.  E'  indis- 
pensável   arrancá-lo    do    peito.     Acima    de 


454  Da  monarchia  para  a  republica 


tudo,  a  lei.  Ella  vai  buscar  aos  braços 
dos  pães  o  filho,  que  é  o  seu  colaborador 
insubstituível,  para  o  arremessar  á  vida 
insana  e  crapulosa  dos  quartéis  ?  Abram 
os  braços,  obedeçam-lhe.  Ella  manda  a 
esse  rapaz,  feito  soldado,  que  aponte  e  faça 
fogo  sobre  os  concidadãos,  talvez  sobre  os 
seus  irmãos?  Dispare,  obedeça-lhe.  Ella 
decreta-nos  festejos  nos  dias  lutuosos  em 
que  um  telegrama  nos  acabou  de  anunciar 
a  catastroplie  do  nosso  bravo  exercito, 
imolado  em  Africa  não  pelas  armas  do 
gentio,  mas  pelo  descaroamento  governa- 
tivo da  metrópole  ?  Pois  façamos-lhe  a 
vontade,  vistamo-nos  de  gala  e  bailemos, 
que  é  para  assim  irmos  perdendo  de  todo 
até  ao  ultimo  os  assomos  da  nossa  emoti- 
vidade moral. 

E  os  interesses  não  são  melhores  conse- 
lheiros do  que  as  paixões.  A  lei  deve 
recalcá-los  egualmente.  Se  ella,  em  nome 
da  salvação  publica,  nos  manda  levar  tudo 
o  que  temos  á  boca  do  erário,  obedeça-se, 
ainda  que  depois  não  reste  nada  para  levar 
á  boca  dos  nossos  filhos.  O  cezarismo  faz 
isso  mesmo  por  systema.  A  riqueza  pode 
cimentar    a    independência.     Por    isso    nas 


A  psycologia  da  reacção  4õã 


nações  escravizadas  politicamente  se  dá 
esta  contradição  flagrante :  que,  quanto 
mais  empobrecido  está  o  povo,  mais  os 
governantes  luxam  e  esbanjam. 

E'  assim  que  o  cezarismo,  esmagando  o 
amor  e  o  trabalho,  firma  sobre  a  inteli- 
gência, consequentemente  também  enfra- 
quecida, a  sua  ditadura  politica.  A  vontade 
do  príncipe  é  a  suprema  lei.  Proclama-se 
a  sua  omnipotência  na  constituição  e  nas 
leis.  Suprimem-se  todos  os  outros  poderes 
constituidos :  parlamento,  juntas  geraes, 
camarás  municipaes.  Todos  os  partidos 
liberaes,  democráticos,  e  toda  e  qualquer 
associação  politica  declaram-se  fora  da 
lei.  Xenhuma  liberdade  politica  individual. 
Basta  até  simplesmente  um  homem  ter 
grande  valor  para  ser  logo  suspeito  ao 
cezarismo,  mesmo  que  seja  seu  súbdito 
leal ;  dentro  em  pouco,  ou  está  anulado  ou 
é  sepultado  vivo  nos  grandes  mausoléus 
consagrados  á  sua  apoteose.  Portugal 
tem  em  Mousinho  uma  espada  vitoriosa  ? 
Embainhe  o  heróico  capitão  a  espada  e 
faça-se  mestre  do  meninos,  de  principes. 
Serpa  Pinto  e  Capello  e  Ivens  percorrem  o 
continente   negro,    atravessando-o    de    lado 


456  Da  nionarchiâ  para  a  republica 


a  lado  e  sondando  os  m3''sterios  do  seu  inte- 
rior ?  Fechem-se  e  imobilizem-se  adentro 
das  quatro  paredes  dum  paço,  onde  até 
num  simples  salão  lhes  seja  defeso  pela 
■etiqueta  mover-se  á  sua  vontade.  Ha  uma 
palavra  primacial  na  eloquência  portu- 
guesa? E'  a  de  António  Cândido?  Tire-se 
o  grande  orador  da  camará  dos  deputados 
onde  se  falia  mais,  para  a  camará  dos 
23ares  onde  se  falia  menos,  e  na  camará 
dos  pares  ponha-se  no  logar  onde  tenha 
mais  por  obrigação  ouvir  do  que  fallar. 

E  na  sociedade  não  ha  só  a  grande 
reacção.  O  clericalismo,  a  plutocracia,  o 
cezarismo  tomam  a  cada  passo,  por  ahi, 
formas  profanas,  vulgares,  frustes.  Que  é 
o  marido  que  exige  da  mulher  que  o  ame 
só  a  elle  e  a  ninguém  mais,  nem  a  seus 
próprios  pães,  não  lhe  consentindo  sequer, 
como  dizia  o  chanceler  BuIotv,  referindo-se 
a  uma  espécie  mais  alta  de  casamentos, 
que  ella  dê  uma  volta  de  valsa  com  outro 
23ar?  Um  teocrata.  Que  é  o  negociante 
que  recusa  a  mais  pequena  distracção  ao 
seu  caixeiro  e  não  tolera  que  elle  vá  á 
escola,  clamando  que  não  lhe  foi  a  si 
preciso    estudar    nada   para    ganhar  a   sua 


A  psycologia  da  reacção  457 


vida?  Um  plutocrata.  Que  é  o  intelectual 
que  não  ouve  o  que  os  outros  lhe  dizem, 
porque  não  presta  atenção  a  ninguém,  não 
se  importando  senão  só  com  a  sua  própria 
idéa  ?     Um  cezarista. 

E  aqui  têem,  minhas  senhoras  e  meus 
senhores,  como  a  escravização  das  facul- 
dades arrasta  a  escravização  e  a  divisão  e 
guerra  social,  e  como  portanto  a  maneira 
de  operarmos  a  solidariedade  e  a  paz  na 
sociedade  é  operando  o  equilibrio  das 
nossas  faculdades  pela  implantação,  logo 
no  ensino,  da  tríplice  liberdade,  d'amar,  de 
trabalhar  e  de  pensar. 


Coimbra  republicana 


Meus  senhores ! 

Em  nome  de  Coimbra,  a  que  pertenço, 
desde  muito  novo,  por  laços  afectivos  que 
o  tempo  tem  cada  vez  mais  estreitado, 
eu  agradeço  as  palavras  inolvidáveis  que 
acabara  de  aqui  pronunciar  os  três  tri- 
bunos da  democracia  portuguesa :  Manuel 
d"Arriaga,  o  génio  da  oratória  e  do  bem, 
exemplo  venerando  das  mais  bellas  e 
nobres  virtudes  civicas,  e  António  José 
d'Almeida  e  António  Luiz  Gomes,  duas 
das  esperanças  mais  sanguíneas  de  todas 
as  almas  que  anceiam  ardentemente  pelo 
resurgimento  da  nossa  grandeza  histórica. 

E  este  dia  de  festa,  em  que  Coimbra  teve 
o    prazer    de    receber    tão    ilustres   visitas, 

*  Allocução  no  Centro  republicano  «  José  Falcão  »,  de 
Coimbra,  em  7  de  maio  de  1905,  segundo  o  extracto  de 
A  Resistência. 


460  Da  monarchia  para  a  republica 

deve-0  ella  ao  seu  valoroso  partido  repu- 
blicano, que  tantas  provas  eloquentes  tem 
dado  ultimamente  da  sua  vida  e  solida- 
riedade e  da  sua  progressiva  força  e  in- 
fluencia, agitando  as  mais  graves  questões 
publicas  nos  seus  comicios,  e  que  é  o 
partido  que  efectivamente  já  lioje  melhor 
representa  esta  cidade,  porque  conta  nO 
seu  seio  professores  da  nossa  Universidade 
tão  insignes  como  Aífonso  Costa,  o  cau- 
sidico  incomparável,  mestre  abalizado  do 
direito  e  da  jurisprudência,  nome  sempre 
aqui  saudosamente  evocado  e  entusias- 
ticamente aclamado  por  toda  a"  parte, 
como  Pbilomeno  da  Camará,  o  sábio  pby- 
siologista  e  o  benemérito  clinico  dos  pobres, 
carinhoso  presidente  das  Creches,  que  foi 
um  dos  Íntimos  companheiros  de  espirito 
de  Anthero  e  de  Falcão,  e  como  Angelo 
da  Fonseca,  um  novo,  tão  modesto  como 
talentoso  e  trabalhador,  que  é  uma  das 
promessas  mais  solidas  e  brilhantes  da 
moderna  medicina  portuguesa,  um  jorna- 
lista tão  empolgante  e  primoroso  como 
Joaquim  Martins  Teixeira  de  Carvalho, 
que  põe  sempre  em  todos  os  assumptos 
que    versa   com    a   mais    ampla   cultura,    o 


Coimbra  republicana  4(jl 


relevo,  o  colorido  e  a  nota  vibrante,  cáus- 
tica ou  delicada  e  terna,  da  sua  poderosa 
emotividade,  e  que,  por  esse  seu  poder  de 
cordialidade,  tanto  tem  atraído  em  volta 
de  si  a  unanime  simpatia  da  mocidade 
académica,  o  artista  proeminente,  que  se 
chama  António  Augusto  Gonçalves,  honra, 
a  um  tempo,  da  arte  e  do  magistério 
nacional,  que  é  de  direito  a  figura  de  mais 
autoridade  e  de  mais  prestigio  para  o  ope- 
rariado e  para  a  industria  conimbricense 
porque  ninguém  lhes  tem  prestado  serviços 
mais  assinalados  para  a  sua  educação  e 
para  a  sua  defesa,  negociantes  de  tanta 
valia  e  tanto  credito,  como  Cassiano  Mar- 
tins Ribeiro,  Manoel  António  da  Costa, 
Manoel  Augusto  Rodrigues  da  Silva,  Ma- 
noel José  Telles,  e  como  Francisco  Yillaça 
da  Fonseca,  que  mereceu  mesmo  á  sua 
classe  a  distincção  de  ser  o  seu  eleito  para 
a  presidência  da  xlssociação  Commercial, 
e  os  três,  João  da  Fonseca  Barata,  Jayme 
Lopes  Lobo  e  Manoel  Augusto  da  Silva, 
a  quem  me  cumpre  fazer  hoje  aqui  uma 
menção  muito  especial,  porque  a  elles,  á 
sua  imperterrita  dedicação  partidária,  de 
que  são  o  mais  louvável  exemplo,  se  deve 


462  Da  nionarchia  para  a  republica 


principalmente  a  vida  deste  Centro,  cujo 
anniversario  estamos  celebrando,  e,  entre 
todas  as  outras  classes  sociaes,  personalida- 
des de  tanto  mérito,  de  tanta  consideração 
social,  e  tão  queridas,  como,  por  exemplo, 
o  distinto  professor  e  advogado  Francisco 
Fernandes  Costa. 

Todas  estas  suas  forças  os  republicanos 
de  Coimbra  põem  confiadamente  ao  ser- 
viço da  nossa  emancipação  nacional.  E,  ao 
saudar,  por  elles,  nesta  solemnidade,  nos 
nossos  três  amados  hospedes  todos  os 
outros  membros  da  nossa  familia  politica, 
sei  bem  que  interpreto  essa  profunda  e 
inabalável  confiança,  exclamando  :  Viva  o 
partido  republicano  português  ! 


Só  a  liberdade  é  a  paz 


Minhas  senhoras  e  meus  senhores  ! 

Poderá  parecer  a  algumas  pessoas  que 
esta  Liga  da  Paz  é  descabida  e  vã  num 
país  como  o  nosso,  onde  ninguém  2)eiisa 
em  aventurar-se  a  guerras  exteriores  ;  nem 
faltará  talvez  vontade  a  essas  pessoas  de 
pedir  á  Liga  que  faça  a  sua  j^ropaganda 
pacificadora,  não  dentro  do  país,  que  não 
precisa  delia  para  se  convencer,  mas,  além 
fronteiras,  a  todos  os  que  no  estrangeiro  nos 
ameacem  com  as  suas  cubicas.  E  ironica- 
mente estarão  repetindo  os  versos  camo- 
neanos  :  Aos  infiéis,  Senhor,  aos  infiéis,  e 
não  a  mim,  que  creio  o  que  dizeis. 

Mas  não  têem  razão.  A  sociedade  portu- 
guesa oferece  hoje  um  contraste  profundo 

*  Conferencia  na  Liga  da  Paz,  em  Lisboa,  na  noite 
de  18  de  maio  de  1905,  segundo  o  extracto  de  O  Mundo. 


464  Da  mouarchia  para  a  republica 


entre  governantes  e  governados.  Os  gover- 
nados não  podem  ser  melhores.  O  nosso 
povo  é  tudo  quanto  ha  de  mais  generoso  e 
fraternal.  Percorrendo  o  país,  d'extremo 
a  extremo,  se  revê  a  cada  passo  a  sua 
hospitalidade.  Eu  ia  com  os  meus  filhos 
aqui  por  Monsanto,  ao  ])é  de  Lisboa, 
quando  nos  apareceu  um  padeiro  sobre  a 
sua  forte  mula  carregada  das  canastras  do 
pão.  Escuso  de  lhes  dizer  que  não  foram 
só  os  pequenos  que  ajDeteceram  o  pão 
saloio.  Comprei-o.  E,  ao  proceder  á  sua 
distribuição,  ouvi  atraz  de  mim  uma  voz 
simpática  de  mulher,  que  me  dizia  quasi 
exprobatoriamente  :  »  Mas  os  meninos  não 
hão  de  comer  assim  o  pão  sem  mais 
nada.  .  .  ».  Era  a  dona  dumas  vacas  lei- 
teiras, que  morava  ali  ao  cimo,  e  que  logo 
correu  ao  seu  casal  para  nos  trazer,  e  pre- 
sentear com  ella,  a  mais  deliciosa,  a  mais 
delicada  das  manteigas.  Isto,  ao  sul.  Outro 
anno,  que  eu  estava  com  a  familia  no  norte, 
em  Moledo  do  Minho,  a  banhos,  saímos  a 
passeio  pelos  campos  fora,  e,  ao  passarmos 
por  ao  pé  dum,  cujas  macieiras  avergavam 
de  fruto,  parámos,  maravilhados.  Pois  não 
era  menos  exuberante  o  coração  do  dono  i 


Só  a  liberdade  é  a  paz  465 


Vein  logo  convidar-nos  a  entrar  no  seu  eido, 
e  a  colher  das  suas  maçãs.  Imagina-se  a 
cresta  que  os  meus  filhos  lhes  dariam.  Não 
contente  com  isso,  ainda  o  excelente  am- 
phitryão  lhes  encheu  os  bolsos  por  fim,  e, 
ao  despedirmo-nos,  instou  comigo  para  lá 
voltarmos,  pedindo-me  :  «  E,  para  a  outra 
vez,  traga  um  creado  com  um  sacco  para 
levar  para  casa  para  os  meninos  ».  Um 
sacco  !  Minha  mulher  frequentemente  me 
observa :  «  Não  temos  presentes  senão  de 
pobres  ».  E  é  assim.  O  nosso  povo  está 
tão  afeito  á  vida  de  trabalho  e  dedicação, 
que  não  ha  renuncia  e  sacrificio  de  que 
não  seja  capaz.  São  o  contrario,  em  geral, 
os  nossos  dirigentes :  ociosos,  egoistas  e 
ávidos,  e  por  isso  mesmo  insociáveis, 
brigões,  por  vezes,  até  á  ferocidade.  Se 
a  consciência  publica,  a  brandura  dos 
costumes  do  nosso  povo  abolira  já  antes 
da  lei  a  pena  capital,  e  não  consentiria  a 
ninguém,  hoje,  que  ella  se  acha  restabe- 
lecida no  código  militar,  a  sua  execução, 
os  nossos  dirigentes  ardem  no  delirio  de 
continuas  expedições  e  guerras  coloniaes, 
e  ainda  ultimamente,  possessos  de  cólera, 
têem   reclamado,    vozes    em   grita,    que   se 

30 


466  Da  raonarchia  para  a  republica 


castigue  com  a  morte  barbara  o  gentio 
africano  que  nos  infligiu  a  cruel  derrota  de 
Cunene.  E'  o  atavismo  do  ponto  d'honra 
militar  da  edade  media,  que  o  génio  de 
Cervantes,  agora  comemorado  solemne- 
mente  não  só  pela  Espanha,  até  nos  seus 
nobres  arroubamentos  caricaturou  na  figura 
imortal  de  D.  Quixote :  com  a  diferença, 
que  os  nossos  dirigentes,  á  maneira  de 
tantos  dos  nossos  morgados  pugnazes  e 
poltrões,  que  mandavam  os  seus  creados 
liquidar  por  elles  as  suas  contas,  preten- 
dem desagravar  o  seu  brio,  mandando  o 
exercito,  de  que,  na  grande  maioria,  caute- 
losamente se  isentaram,  e  que  é,  portanto, 
quasi  todo,  o  exercito  só  do  povo,  arriscar 
por  elles  a  vida,  como  se  fossem  seus  la- 
caios, no  áspero  recontro  com  os  rebeldes. 

E  as  lutas  não  são  unicamente  as  que  se 
travam  com  as  armas  na  mão.  Por  muitos 
outros  modos  se  dilaceram  também  rude- 
mente os  nossos  dirigentes  entre  si.  e  é 
raro  que  se  juntem,  a  não  ser  para  melhor 
poderem  dar  o  golpe  nas  justas  revindica- 
ções  nacionaes 

Das  lutas  clericaes  o  ultimo  caso,  que 
veiu  a  limie,  é  o  do  Seminário  de  Bragança, 


Só  a  liberdade  é  a  paz  467 


que  teve  o  seu  tanto  de  dramático,  espe- 
cialmente para  as  pobres  familias  cam- 
pezinas  dos  seminaristas,  para  contrapor 
aos  casos  hilariantes,  ainda  não  de  todo 
esquecidos,  da  batalha  heroi-comica  dos 
padres  do  Hospício  de  Santa  Martha,  que 
chegaram  a  vias  de  facto,  e  das  contenções 
de  passamanaria,  menos  violentas,  mas  não 
menos  ruidosas  e  ridículas,  do  patriarcado 
de  Lisboa  com  a  cúria  romana.  Aqui  tèem 
uma  briga  que  tomou  as  proporções  duma 
luta  externa.  E  da  fúria  com  que  o  cleri- 
calismo  assalta  todos  que  não  são  seus 
sectários,  posso  eu  dar-lhes  pessoalmente 
testemunho.  Ver-se-ha  a  que  ponto  elle 
excita  contra  os  herejes  as  sanhas  da  sua 
grei.  Ha  pouco  ainda,  uma  pessoa  das 
minhas  relações  propunha-se  solicitar  de 
mim  um  serviço  ;  informadas  disso,  duas 
beatas,  logo  a  procuraram  para  a  demover 
do  seu  propósito,  comprometendo-se  a  con- 
seguir-lhe  o  que  ella  desejava.  E  conse- 
guiram, é  claro.  Mas  isto  é  simplesmente  a 
excomunhão,  e  os  clericaes  não  se  limitam  a 
afastar  zelosamente  os  seus  devotos,  as  suas 
ovelhas,  dos  herejes,  dos  lobos.  E'  jDreciso 
exterminar  a  gente  de  pouca  fé.    Para  isso 


408  Da  monarcliia  para  a  repablica 

fanatizam  tanto  as  suas  ovelhas,  que  fazem 
delias  feras,  muito  peores  do  que  os  verda- 
deiros lobos,  levando-as  a  crer  que,  para 
alcançar  a  bemaventurança  eterna,  não 
devem  mesmo  hesitar  em  atentar  contra 
a  vida  dos  herejes.  E  desgraçadamente 
chega-se  a  essa  loucura  moral.  Eu  lhes 
conto.  Passando  por  ao  pé  duma  casa  em 
Coimbra,  ouvi  gritos  aflitivos,  e  nessa 
ocasião  entrava  para  a  casa  um  medico, 
que  me  explicou :  «  E'  uma  senhora,  que 
sofre  da  monomania  religiosa.  )>  E  vim 
depois  a  saber  que  essa  infeliz,  na  força  dos 
seus  acessos,  impunha  a  todos  que  nesses 
momentos  a  rodeavam,  que  gritassem  com 
ella :  «  Morra  o  Bernardino  Machado  !  » 
Eu  era  então  o  grão-mestre  da  Maçonaria 
portuguesa,  quer  dizer,  o  próprio  Satanaz 
em  pessoa.     Coitada  ! 

As  lutas  financeiras  entre  sindicatos 
rugem  ahi  neste  mesmo  momento,  desgre- 
nhadamente,  os  mais  pungentes  doestos,  no 
prélio  em  volta  do  contracto  dos  tabacos. 
E,  para  avaliar  quanto  toda  essa  plutocracia 
fere  de  inanição  o  trabalho  nacional,  basta 
lembrar  a  torrente  d'emigração  que  cada 
anno  desangra  o  corpo  social,  e  essa  outra 


Só  a  liboixlade  é  a  paz  469 

torrente  de  miséria,  orphãos,  viuvas,  invá- 
lidos e  velhos,  que  por  toda  a  parte,  nos 
caminhos  e  nas  ruas,  estendem  a  mão  á 
caridade  jDublica,  e  até,  para  nosso  maior 
desdouro,  á  dos  estrangeiros  que  nos  visi- 
tam, e  que  deixam  aqui,  como  deixam  em 
Marrocos,  as  suas  esmolas.  Os  plutocratas 
tratam  os  infelizes  desalmadamente,  á  seme- 
lhança dos  povos  selvagens,  que  os  imolam 
para  não  se  sobrecarregarem  com  a  sua 
sustentação,  mas  sem  terem,  como  os 
selvagens,  a  atenuante  da  penúria  geral, 
porque  o  que  tiram  ao  alimento,  ao  ves- 
tuário e  ao  abrigo  dos  proletários,  dissi- 
pam-no  no  luxo  e  na  corrupção. 

As  lutas  politicas  ahi  estão  também 
patentes.  Os  partidos  monarchicos  esfa- 
celam-se,  um  após  outro ;  e,  no  próprio 
partido  republicano,  se  os  dirigentes  se 
não  dilaceram,  se  muitos  mesmo  dão  os 
melhores  exemplos  da  mais  leal  camara- 
dagem, é  certo  que  também  alguns  não 
unem.  Um  amigo  meu  referiu-me  ha  tempo 
a  queixa  significativa  que  um  desses  dissi- 
dentes formulava  contra  o  nosso  querido 
jornalista  França  Borges :  que  elle  elogiava 
incessantemente    os    seus    correligionários, 


470  Da  monarchia  para  a  republica 

dizia  bem  demais  delles.  Que  foi  elle  fazer, 
realmente  !  E  nem  lhe  valiam,  para  resgate 
de  tão  grave  pecado  perante  esse  rispido 
censor,  as  vezes  que  elle,  com  egual  ardor 
partidário,  teria  também,  para  compensa- 
ção, dito  mal  demais  dos  seus  adversários. 
Isto  é  dentro  de  cada  partido.  Dum  para 
outro,  a  luta  mais  se  encarniça.  Para 
muitos  monarchicos  todo  o  republicano  é 
um  discolo,  quasi  um  bandoleiro  ;  para 
vários  republicanos  todo  o  monarchico  é 
um  criminoso,  um  malfeitor.  Eu  mesmo, 
para  a  intolerância  de  taes  republicanos, 
não  passarei  nunca,  apesar  da  unidade 
moral  de  toda  a  minha  vida,  duma  espécie 
de  christão  novo,  cuja  conversão  se  celebra 
festivamente  no  dia  do  baptismo,  mas  que, 
passado  esse  dia,  a  breve  trecho  se  lança 
ao  lume  vivo  da  fogueira  para  o  expurgar 
de  toda  a  peçonha  original.  Tem  muitas 
relações  com  monarchicos  !  arguirão,  como 
se  repetissem  a  acusação  do  Santo  Oficio : 
Tem  sangue  de  judeu !  Quasi  todos  os 
monarchicos  só  sonham  com  medidas  de 
repressão  contra  o  povo ;  e  não  faltam 
republicanos  que  só  sonhem  com  as  incan- 
descencias   da  revolução   popular.     E,   em- 


Só  a  liberdade  é  a  paz  471 

quanto  para  estes  republicanos  não  chega 
a  hora  anciada  da  revolução,  hora  em  que 
podem  contar  que  terão  ao  seu  lado,  senão 
á  sua  frente,  muitos  dos  monarchicos  que 
já  hoje,  nas  suas  agressões  reciprocas, 
invocam  a  alçada  dos  candieiros,  os  monar- 
chicos aproveitam  o  seu  tempo,  não  per- 
dendo ensejo  de  ir  acutilando  as  mil  cabeças 
da  hidra  democrática  e  embarcando-as  no 
porão  dos  navios  para  Timor,  com  tanta 
crueza,  que  não  tardará  que  efectivamente, 
aos  seus  excessos  de  repressão  responda 
a  explosão  espumante  da  onda  revolucio- 
naria. • 

E'  uma  demolição  geral.  As  nossas 
classes  dirigentes,  ou  não  se  associam,  ou 
as  suas  corporações  não  se  reúnem.  Estão 
em  perpétuos  conflitos  d'interesses,  tra- 
tam-se  pelas  alcunhas  mais  deprimentes  e 
infamantes,  e  um  facto  bem  característico 
da  sua  dissociação  :  em  Portugal,  seja  sobre 
o  que  fôr,  não  se  cita  um  português. 

E,  entre  nós,  estrugem  como  um  grito  de 
guerra  as  palavras  desapiedadas  de  Brenno 
aos  romanos:  Vcevictisf  Ai  de  todos  os 
fracos  !  Não  se  poupa  a  fraquêsa  de  nin- 
guém.   Basta  alguém  cahir  doente  ou  entrar 


472  Da  monarchia  para  a  republica 

na  velhice  para  logo  tentarem  acabar  com 
ellc :  «  Não  serve  para  nada !  Está  perdido  ? 
Está  chocho  !  » 

Já  vêem  quanto  na  sociedade  portuguesa 
persiste  ainda,  como  uma  sobrevivência 
canibalesca,  o  espirito  da  guerra. 

Será  necessário  demonstrar  que  esse 
espirito  pre-historico  é  o  espirito  da  des- 
truição e  do  mal  ?  Estarão  as  nossas 
classes  chamadas  cultas,  que  até  moral- 
mente se  vestem  das  modas  estrangeiras, 
compenetradas  de  que  o  struggle  for  life,  a 
luta  pela  existência,  é  a  lei  do  universo? 

Hoje  a  sciencia  não  proclama,  como 
dantes,  a  antitese,  a  luta  das  idéas,  que 
agitava  o  cérebro  d'Hamlet  no  celebre  mo- 
nologo :  Ser  ou  não  ser,  eis  o  problema ! 
Não.  Desde  Hegel  que  ella  proclama  a 
sintese,  a  unidade,  a  harmonia.  Nem  os 
corpos  inorgânicos  se  separam  por  sub- 
stancias, nem  os  seres  vivos  se  separam 
por  espécies,  nem  os  homens  se  separam  por 
castas  e  classes.  Unidade  e  conversão  da 
matéria  e  da  força,  unidade  e  transformismo 
dos  mineraes,  plantas  e  animaes,  unidade  e 
evolução  da  humanidade,  eis  os  altíssimos 
principios  do  nosso  tempo. 


Só  a  liberdade  é  a  paz  473 

E  a  sciencia,  já  hoje,  no  começo  do 
século  XX,  não  julga,  como  julgava  Hegel, 
no  começo  do  século  xix,  que  a  síntese,  a 
unidade,  a  harmonia  envolve  a  antítese,  que 
a  conversão,  o  transformismo,  a  evolução, 
que  o  progresso  se  opera  por  meio  da  luta. 

A  gravitação  que  Newton  demonstrara 
para  os  astros,  generalizou-a  a  sciencia 
contemporânea  para  todas  as  massas  dos 
corpos,  ainda  as  mais  pequenas,  desven- 
dando os  mistérios  da  cohesão  molecular  e 
da  afinidade  atómica. 

E  seria  contraditório,  paradoxal,  não  é 
verdade  ?  que  a  atracção  fosse  a  lei  dos 
corpos  brutos,  e  a  dos  corpos  vivos  e 
animados  fosse  a  luta,  a  destruição.  Para 
os  organismos,  desde  os  mais  simples, 
como  o  lichen,  que  é  uma  simbiose,  a  lei 
é  também  a  associação,  a  solidariedade. 
Para  uns  viverem  não  é  preciso  que  morram 
outros.  xA_s  duas  grandes  leis,  enunciadas 
pelos  sábios  naturalistas,  de  Lamark  a 
Darmn,  da  hereditariedade  e  da  adaptação, 
são  incompatíveis  com  a  pretendida  lei  da 
luta  pela  existência.  A  hereditariedade  ó 
a  solidariedade  das  novas  com  as  antigas 
gerações  ;  e  a  adaptação  é  a  solidariedade 


474  Da  moQarchia  para  a  republica 

de  cada  ser  vivo  com  o  meio,  o  qual  não  e 
somente  o  meio  inorgânico,  mas  também 
o  orgânico,  e,  mais  do  que  com  qualquer 
outro  meio,  com  o  dos  seus  semelhantes. 

A  figura  então  do  homem  é  a  própria 
figura  da  paz.  Já  não  tem,  como  os  seus 
próximos  parentes,  os  antropoides,  presas, 
garras,  e  a  cabeça  conformada  em  tom  de 
guerra,  a  face  j^i^ogn^-ta,  aguçada  como  um 
punhal,  e  o  crânio  encimado  de  cristas 
como  um  capacete.  A  sua  cabeça  apro- 
xima-se  da  forma  espherica,  que  é  a  forma 
do  equilibrio,  da  suprema  harmonia,  a  boca 
deixou  de  ser  um  órgão  de  presa,  d'ataque 
e  dilaceração,  para  se  converter  no  órgão 
da  palavra,  pela  qual  exprimimos  os  mais 
doces  sentimentos,  e  as  mãos  deixaram  de 
ser  garras  para  se  transformarem  em  instru- 
mento de  trabalho  e  meio  de  sociabilidade. 
E,  pela  sua  atitude  erecta,  o  homem  não 
só  pode  estender  afectuosamente  a  mão  ao 
outro  homem,  mas  pode  ir  de  peito  para  elle 
e  apertá-lo  nos  seus  braços  junto  ao  seu  co- 
ração. Por  isso,  chamem  ainda,  se  quize- 
rem,  ao  homem  rei  da  creação,  mas  o  que 
já  não  é  licito,  é  dar-lhe  o  titulo  de  seu 
íreneralissimo. 


Só  a  liberdade  é  a  paz  475 

A  unidade  dos  seres  vivos  não  é  só  a 
orgânica,  é  também  a  espiritual.  A  psico- 
logia reúne  lioje  creanças  com  adultos,  a 
mulher  com  o  homem,  o  povo  com  os 
grandes,  o  selvagem  com  o  civilizado, 
os  anormaes,  até  os  monstros,  com  os  nor- 
maes,  os  animaes  com  os  homens.  E  as 
mesmas  leis  do  desenvolvimento  dos  orga- 
nismos presidem  ao  dos  espirites.  Os  povos 
são  tanto  mais  fortes  quanto  mais  unidos 
com  os  seus  antepassados  e  com  os  seus 
coetâneos.  A  civilização  dum  não  se  faz  á 
custa  da  civilização  de  nenhum  dos  outros, 
mas  assimilando  em  si  a  de  todos  elles. 
Exemplo:  o  Japão. 

Ha,  em  suma,  para  os  seres  vivos  e  ani- 
mados, uma  atracção  orgânica  e  espiritual, 
que  se  estreita  tanto  mais  quanto  mais 
consanguíneos  elles  são,  da  mesma  raça,  da 
mesma  pátria,  da  mesma  familia.  O  prazer 
tão  intenso  que  os  moços  sentem  em  estar 
uns  com  os  outros,  o  prazer  que  todos,  novos 
e  velhos,  sentimos  em  nos  encontrarmos,  o 
I^razer  tão  saboreado  pelos  lisboetas  de  fa- 
zer  a  Avenida,  não  tem  outra  explicação. 

A  luta,  pois,  entre  os  seres,  é  ainda  um 
facto  infelizmente  muito  frequente,  mas  não 


470  Da  monarchia  para  a  republica 

é  uma  lei.  Tal  é  a  afirmação  da  sciencia 
moderna.  E  por  isso,  se  dantes,  que  a 
sciencia  era  a  sciencia  da  luta,  como  ella 
não  descobrisse  a  paz  neste  mundo,  o 
homem  tinha  de  procurá-la  noutro,  hoje 
que  a  paz  impera  como  uma  verdade  scien- 
tifica  sobre  a  terra,  não  tem  já  ninguém 
de  procurá-la  noutro  mundo,  mas  a  nossa 
obrigação  é  contribuir  por  todos  os  nossos 
esforços  para  consolidar  o  seu  reinado  cá 
neste. 

A  industria  deixou  também  de  ser  a 
industria  da  guerra.  Dantes,  a  principal 
ocupação  era  a  das  armas.  Os  cavaleiros 
desdenhavam  de  letras,  não  aprendiam 
sequer  a  ler.  A  sociedade  moderna  desmi- 
litarizou-se.  Hoje  nem  os  próprios  minis- 
tros da  guerra  e  da  marinha  são  sempre 
militares.  Da  militarização  antiga  dos 
chefes  quasi  só  resta,  archeologicamente,  a 
farda  e  a  durindana  dos  reis  e  dos  prín- 
cipes. Até  a  industria  da  caça,  que  é  a 
industria  da  guerra  aos  animaes,  vai  sendo 
só  delles .  . .  e  dos  presidentes  de  republica, 
para  os  obsequiarem.  A  industria  é  a  da 
fabrica,  dos  caminhos  de  ferro,  dos  túneis, 
dos   canaes,  industria  que  tudo  pacifica,  e 


Só  a  liberdade  é  a  paz  477 


até  da  bala  da  espingarda  mortífera  faz 
o  projéctil  dum  cabo  de  salvação  a  náu- 
fragos, do  corcel  de  guerra  faz  o  cavallo  do 
medico  que  percorre  a  aldeia  para  dar  alivio 
aos  seus  doentes,  e  da  luva  de  combate,  do 
guante,  faz  a  luva  do  britador  de  pedra 
nos  Estados  Unidos  da  America  do  Norte. 

A'  arte  guerreira  sucedeu  egualmente 
uma  arte  que  nos  comove  com  os  quadros 
mais  ternos.  Erguemos  estatuas,  não  aos 
grandes  caj)itães,  mas  aos  grandes  patriotas 
e  bemfeitores  da  humanidade.  Pinta-se  a 
creança,  pintam-se  as  outras  raças,  pin- 
tam-se  animaes  e  plantas,  pinta-se  o  ceu,  o 
mar,  e  a  montanha.  A  arte  interpreta,  sob 
todas  as  formas  estéticas,  o  movimento 
de  efusiva  simpatia  que  anima  o  homem 
moderno  para  com  todos  os  seres. 

E  sciencia,  e  industria  e  arte  vão  vin- 
culando as  mais  diversas  gentes  e  nacionali- 
dades, até  na  mesma  oficina  ou  laboratório, 
pelos  laços  dos  seus  descobrimentos  scien- 
tificos,  dos  seus  inventos  industriaes,  das 
suas  creações  artísticas.  Para  nada  disso 
ha  fronteiras.  O  mesmo  drama  apaixona 
desde  a  Scandinavia  todas  as  plateias  do 
mundo.    Mais:  uma  idéa  gera-se  em  França, 


478  Da  monarchia  para  a  republica 


desenvolve-se  na  Inglaterra  e  na  Alemanha, 
amadurece  na  Itália,  e  assim  torna  as 
diversas  nações  colaboradoras,  consócias  e 
amigas.  E,  se  entre  os  representantes  da 
actual  cultura,  surgem  competências,  ellas 
se  derimem  e  resolvem  nesses  certamens  de 
paz,  que  se  denominam  exposições  e  con- 
gressos, onde  os  homens  se  aproximam  e 
tratam  de  perto,  travando  entre  si  relações 
afectuosas  que  nunca  jamais  arrefecem  de 
todo. 

Assim  arte,  industria  e  sciencia  conver- 
gem para  uma  nova  moral  humana,  de 
cooperação  e  fraternidade,  se  não  foi  mesmo 
a  moral  do  imperativo  categórico  de  Kant, 
do  dever,  da  solidariedade,  que  preparou 
toda  esta  florescência  de  concórdia  e  de 
paz  pelo   universo. 

Como  as  antigas  catastrophes  da  natu- 
reza, já  tão  raras  nos  tempos  recentes,  as 
guerras  diminuem.  As  lutas  singulares  e 
as  lutas  de  bandos  tendem  por  toda  a  parte 
a  desaparecer  das  sociedades  policiadas. 
Kellas  a  força  publica  serve,  não  para 
armar  desordens,  mas  para  manter  a  ordem. 
Quer-se,  por  exemplo,  atravessar  com  um 
cortejo    as    ruas   da   cidade  ?     A  tropa  vai 


Só  a  liberdade  c  a  paz  470 


adeante  abrindo  caminho,  e  ladeia  mesmo  e 
fecha  o  cortejo  para  que  ninguém  se  atreva 
a  perturbá-lo.  As  lutas  hodiernas  são  quasi 
só  de  nação  para  nação,  e  essas  mesmas 
ferem-se  cada  vez  menos  corpo  a  corpo  e 
cada  vez  mais  espiritualmente,  dÍ2:)loniatica- 
mente.  Os  exércitos  são  o  ultimo  recurso, 
e  recurso  cie  que  só  é  licito  lançar  mão 
para  a  defesa,  não  para  o  ataque.  Devemos 
todos  fazer  o  serviço  militar,  como  nos 
cumpre  educarmo-nos,  aguerrirmo-nos  fisi- 
camente, profilaticamente,  para  nos  defen- 
dermos de  todo  agente  de  destruição,  seja- 
qual  fôr,  seja  um  micróbio,  seja  um  homem. 
'E'  este  o  nosso  espirito  militar.  Temos 
oficiaes,  instrutores  militares,  como  temos 
médicos.  Quando  paramos  na  rua  para 
ver  o  regimento  que  passa,  com  a  sua 
banda  de  musica  á  frente,  não  é  o  ódio  ao 
estrangeiro  que  nos  agita,  mas  o  cuidado 
pelos  nossos  filhos,  pelas  nossas  mulheres, 
pelos  nossos  velhos  pães,  é  a  figura  da 
pátria  que  j)erpassa  pelos  nossos  olhos, 
representada  na  bandeira  do  regimento,  á 
vista  da  qual  todos  nos  descobrimos,  com 
os  corações  inquietos,  mas  unisonos,  palpi- 
tantes de  anciedade  e  de  ternura. 


480  Da  monarchia  para  a  republica 


O  que  augmenta  2:)rodigiosamente  na 
humanidade,  é  a  união,  a  cooperação. 
Organizam-se  legalmente  em  todas  as  na- 
ções avançadas  associações  politicas ;  o 
cooperativismo  é  o  mote  da  economia ; 
e  as  próprias  religiões,  com  todas  as  suas 
dissidências,  senão  mesmo  antagonismos, 
congregam-se  pelas  suas  mais  eminentes 
personalidades  no  congresso  de  Chicago. 
Estes  laços  atam-se  até  doestado  para 
estado,  cimentando-se  cada  dia  mais  entre 
elles  a  grande  internacional  do  amor,  do 
trabalho  e  da  instrucção,  sobre  que  se  hão 
de  erigir  no  futuro  os  Estados  Unidos  da 
humanidade  inteira. 

E,  assim  como  no  mundo  phisico  a  força 
d'atracção  se  estendeu  dos  astros  até  aos 
átomos,  assim  também  no  mundo  moral  a 
atracção  das  almas  se  foi  estendendo  dos 
grandes  e  poderosos  até  aos  fracos,  aos 
humildes,  aos  infelizes.  A  nossa  ordem 
não  é  como  a  de  Varsóvia,  não  se  firma 
sobre  a  dôr.  O  mundo  moral  moderno  é 
em  grande  parte  a  obra  d'integração  social 
de  todos  os  pequenos.  Socializa-se  a  creança 
pelo  ensino.  Socializa-se  a  mulher,  daudo- 
Ihe  losar  ao  lado  do  homem  em  todas  as 


Só  a  liberdade  é  a  paz  481 

profissões  e  reuniões  publicas.  Socializa-se 
o  povo,  abrindo  á  jaqueta  do  lavrador  e  á 
blusa  do  operário  todas  as  carreiras  e  digni- 
dades até  ao  parlamento,  até  á  suprema 
magistratura  nacional.  Queremos  que  a 
colonização  seja,  não  o  extermínio  das 
raças  selvagens,  mas  a  sua  educação,  a 
sua  socialização,  a  transfusão  do  sangue 
da  civilização  na  alma  inculta  dessas  raças 
juvenis.  Xem  os  lázaros  e  pestíferos  empa- 
redamos e  isolamos,  mas  entregamo-los  aos 
desvelos  dos  mais  hábeis  e. devotados  clíni- 
cos, e  apressamos  a  convalescença  de  todos 
os  doentes,  distribuindo-lhes  nos  hospitaes 
ilustrações  e  jornaes,  que  os  ponham  em 
comunicação  com  a  sociedade.  Mais  ainda: 
nem  guerra  aos  criminosos  hoje  fazemos. 
Acabou-se  com  a  pena  de  morte,  acabou-se 
com  os  suplicies  e  as  torturas  ;  está  conde- 
mnado  o  degredo,  condemnada  a  peniten- 
ciaria cellular.  Tratamo-los  como  doentes, 
pelo  convívio  sobretudo  dos  homens  de 
bem,  em  casas  de  regeneração,  como  as 
que  amoravelmente  dirigem  o  padre  Areosa, 
Pinheiro  Torres,  Silva  Pinto  e  os  dois 
irmãos  Vasconcellos.  Até  os  animaes  fe- 
rozes e  as  plantas  venenosas  o  homem  foi 

31 


482  Da  monarchia  para  a  republica 

domesticando,  cultivando,  trazendo  para  ao 
j)é  do  sen  lar,  e  até  os  micróbios  mais 
terriveis  procura  hoje  regenerar,  atenuando- 
Ihes  a  virulência.  Guerra,  nem  aos  maus  ! 
Para  se  defenderem  delles,  os  bons  não 
precisam  senão  de  unir-se,  unir-se  até  para 
lhes  acudirem.  Nesse  elevado  sentido  é 
que  se  devem  orientar  os  tratados  e  as 
alianças  ;  por  essa  elevada  significação  mo- 
ral é  que  hoje  por  todo  o  mundo  civilizado 
se  consagra  esperançosamente  o  anniver- 
sario  da  Confederação  internacional  da  paz 
e  arbitragem  inaugurada  em  egual  dia  na 
cidade  da  Haya. 

Desde  o  mineral  até  ao  homem,  que  o 
universo  se  vae  solidarizando,  organizando, 
pacificando.  A  paz  é  tão  indispensável  ao 
progresso  da  civilização,  como  ao  de  toda 
a  cristalização. 

Mal  dos  países,  onde,  como  em  Portugal, 
aos  enfermos  indigentes  faltam  enxergas 
nos  asilos  e  nos  hospitaes  !  Mal  dos  países 
onde  as  cadeias  são  como  as  nossas !  Mal, 
muito  mal,  dos  países,  onde,  como  entre 
nós,  não  só  se  deixa  morrer,  se  mata  muita 
gente  por  falta  d'altruismo  e  d'assistencia 
dos  poderosos !     As   sociedades    assim   de- 


Só  a  liberdade  é  a  paz  483 

caem  abaixo  da  natureza  bruta,  porque  a 
desordem  moral  é  ainda  mais  incomportável 
do  que  a  desordem  phisica ;  e  por  isso  os 
membros  dessas  sociedades  decadentes,  sem 
crença  nos  homens,  apellam  para  a  super- 
stição das  coisas,  para  os  bruxedos  e 
feitiços,  sem  meios  de  ganhar  a  sua  vida 
e  amealhar  a  minima  economia,  apellam 
para  os  azares  da  sorte,  para  o  jogo  e 
loteria,  e,  sem  confiança  na  justiça  de 
ninguém,  apellam  para  os  ditamens  natura- 
listas da  hereditariedade  para  a  investidura 
dos  cargos  públicos  e  da  antiguidade  para 
as  suas  promoções.  Não  será  este  o  retrato 
do  estado  d'alma  de  tantos  portugueses  no 
angustioso  momento  histórico  que  hoje 
atravessamos  ? 

A  guerra,  a  luta,  é  o  mal.  Mas  como 
suprimi-la?  E'  mister  atacá-la  na  sua  ori- 
gem. Ora  a  sua  causa  é  o  despotismo. 
Hobbes  disse :  homo  homini  lujjus.  Mas 
disse  também  :  Jiomo  homini  deus.  A  luta  é 
sempre  a  obra  infesta  dos  déspotas  que  se 
divinizam,  que  se  investem  absolutamente 
no  poder  por  direito  próprio. 

As  guerras  e  lutas  religiosas,  com  todos 
os  seus  horrores,  provieram  do  despotismo 


484  Da  mouarchia  para  a  republica 

sectário,  que  ainda  hoje  desencadeia  os 
paroxismos  da  fúria  musulmana  contra  os 
christãos  da  Arménia  e  da  Macedónia. 
As  conflagrações  económicas,  acendeu-as 
o  despotismo  ávido  dos  senhores,  e,  se 
mesmo  nos  nossos  dias  se  ouve,  por  vezes, 
o  seu  fragor,  é  que  as  renova  a  tirania  do 
capital  contra  o  trabalho.  As  convulsões 
politicas,  provocou-as  sempre  o  despotismo 
cesarista,  provocou-as  quasi  por  toda  a 
Europa  ainda  na  primeira  metade  do  século 
passado,  durante  a  qual  a  nação  portuguesa 
teve  também  de  defender-se,  á  mão  armada, 
do  miguelismo  e  do  cabralismo. 

Porque  é  tão  medonha  a  tragedia  russa? 
E'  que  nessa  desditosa  nação  todos  os 
despotismos  se  concentram  para  a  oprimir 
e  revolver. 

Mas  para  que  buscar  exemplos  lá  fora  ? 
Porque  é  que  actualmente  em  Portugal 
estamos  tão  divididos,  governantes  de  go- 
vernados e  governantes  uns  dos  outros, 
que  parece  até  que  sofremos  do  pânico  da 
nossa  decomposição  social  ?  Qual  a  causa 
das  nossas  agitações  religiosas  ?  E'  que 
os  nossos  teocratas  pretendem  fazer  da 
religião    catholica,   que   o  estado   subsidia, 


Só  a  liberdade  é  a  paz  485 


a  própria  religião  do  estado,  excomungando 
delle  todos  que  publicamente  a  não  pro- 
fessem, pelo  restabelecimento  de  leis  pe- 
naes,  atentatórias  da  liberdade  de  cultos, 
que  haviam  cabido  em  desuso  e  esqueci- 
mento no  nosso  foro,  e  que  nunca  foram  legi- 
timas, porque  estavam  em  contradição  com 
a  letra  expressa  da  constituição,  que  declara 
que  ninguém  pode  ser  perseguido  por  mo- 
tivo religioso.  Qual  a  causa  das  nossas 
agitações  económicas?  E'  esse  sem  numero 
de  monopólios,  que,  dia  a  dia,  se  multipli- 
cam —  monopólios  de  tudo,  até  da  luz  — , 
que  todo  o  trabalho  nacional  vão  avassa- 
lando e  toda  a  seiva  da  nossa  producção 
vão  sugando,  como  se  fossem  os  mil  tenta- 
culos  dum  polvo  enorme,  insaciável  de 
riqueza  e  de  carnagem.  Qual  a  causa  das 
nossas  agitações  politicas  ?  E'  que  não 
temos  liberdades  publicas,  não  temos  fran- 
quias locaes,  não  temos  direitos  e  regalias 
individuaes.  O  arbítrio  cesarista  é  que  ó  a 
lei :  está  na  legislação  constitucional  e  elei- 
toral, está  na  legislação  colonial,  e  está 
num  sem  numero  de  disposições  legislativas 
geraes,  que  tiveram  como  soberano  remate 
a  lei  nefanda  de  13  de  fevereiro  de  1896 ;  e. 


486  Da  raonarchia  para  a  republica 

quando  não  está  na  lei,  rasga-a,  passa  por 
cima  delia  e  calca-a  aos  pés.  Os  partidos  mo- 
narchicos  esfacelam-se,  porque  reina  dentro 
delles  discrecionariamente  a  autocracia  dos 
chefes  ;  e,  se  até  mesmo  dentro  do  partido 
republicano  nem  todos  os  correligionários 
se  unem  como  um  só  homem,  uma  só  alma, 
é  que  dentro  delles  ha  também  dirigentes, 
aliás  cheios  das  melhores  ambições,  que 
são,  talvez  mesmo  sem  o  saber,  como  a 
egreja,  e,  como  ella,  não  querem  que  nin- 
guém se  salve  senão  pela  sua  graça. 

Toda  centralização,  todo  monopólio,  todo 
privilegio  é  a  dissolução  dos  laços  sociaes, 
é  um  estado  de  tanta  divisão,  e  por  isso  de 
equilíbrio  tão  instável,  que  se  torna  fatal- 
mente precursor  do  rompimento  e  da  luta. 
Não  é  pela  convergência  de  todos  para  um 
só  homem,  amando-o  só  a  elle,  trabalhando 
só  para  elle  e  pensando  só  nelle  e  como 
elle,  mas  pelo  entralaçamento  mais  intimo 
de  todos,  amando-se  uns  aos  outros,  traba- 
lhando uns  para  os  outros  e  pensando  uns 
nos  outros  e  como  os  outros,  que  se  edifica  e 
firma  e  profunda  inabalavelmente  a  unidade 
e  integridade  da  pátria.  O  despotismo  inte- 
rior deslaça,  enfraquece  e  degrada  as  nações, 


487 


expondo-as  aos  atrevimentos  do  despotismo 
exterior,  que  não  tarda  que,  até  em  nome 
da  civilização  e  da  justiça,  pretenda  impôr- 
se-lhes. 

Onde  é  que  ha  menos  lutas?  E'  na 
família,  onde,  como  em  nenhuma  outra 
parte,  nós  temos  liberdade,  onde,  mais  que 
em  qualquer  outra  j)arte,  nós  fazemos  as 
nossas  vontades.  Porque  é  que  as  guerras 
civis  dentro  das  nações  vão  desaparecendo? 
E'  porque  em  nenhuma  outra  nós  temos 
tantas  liberdades  como  na  que  é  nossa 
pátria.  Quando  numa  nação  abafam  os 
nossos  sentimentos,  entorpecem  e  paralysam 
o  nosso  braço  e  roubam  os  nossos  votos, 
deixa  de  haver  nella  um  centro  de  cohesão 
e  de  paz,  deixa  de  haver  pátria,  porque 
deixa  de  haver  liberdade,  e  a  revolta  é 
certa. 

Quaes  as  nações  mais  ordeiras  e  pacificas  ? 
As  mais  liberaes.  A  Suissa,  tão  dividida  de 
território,  de  raça  e  até  de  lingua,  atingiu 
uma  tranquilidade  inalterável,  graças  ao  seu 
entranhado  culto  pela  liberdade.  A  Ingla- 
terra sustenta  em  pé  o  seu  collossal  império 
pela  força  do  self  governmcnt.  E  a  França, 
sem     embargo    de    todas    as    conspirações 


488  Da  monarchia  para  a  republica 


reaccionárias,  vai  cada  vez  mais,  pelo  de- 
senvolvimento das  suas  instituições  republi- 
canas, afastando  para  o  passado  a  era  dos 
golpes  de  estado,  das  insurreições,  das 
guerras    e    desmembramentos    territoriaes. 

Uma  nação,  ainda  que  seja  mais  pequena 
do  que  a  nossa,  ainda  que  tenha  sobre  si 
visinhos  mais  poderosos  do  que  os  nossos, 
e  ainda  que  tenha,  como  nós.  possessões 
longínquas  a  guardar  e  a  socorrer,  basta 
que  seja  fiel  á  liberdade,  seja,  como  a 
Holanda,  antigo  asilo  inviolável  de  raças 
e  indivíduos  oprimidos,  desde  Spinoza  até 
Kruger,  e  hoje  pretório  augusto  da  justiça 
internacional,  e  pode  descançar ;  que  nin- 
guém atentará  contra  a  sua  autonomia, 
A  independência  dentro  garante  a  indepen- 
dência fora. 

A  ordem,  a  paz,  obtem-se  pela  liberdade, 
é  o  seu  premio.  Atesta-o  admiravelmente  a 
Inglaterra,  que,  depois  da  rude  experiência 
que  lhe  custou  a  separação  dos  Estados- 
Unidos  da  America  do  Xorte,  pacificou 
pela  liberdade  o  Canadá  revoltado,  é  pela 
sucessiva  emancipação  religiosa,  económica 
e  politica  que  vai  pacificando  a  Irlanda,  e  é 
pela  concessão   do   governo  representativo 


Só  a  liberdade  é  a  paz  489 

que  agora  mesmo  inicia  a  obra  da  pacifica- 
ção do  Transwaal.  Atestam-no  egualmente 
neste  momento  os  Estados-Unidos  da  Ame- 
rica do  Norte,  que,  á  medida  que  augmen- 
tam  as  imunidades  nas  Filipinas,  reduzem 
lá  as  suas  guarnições. 

Só  nas  nações  livremente  governadas, 
onde  todos  os  cidadãos  estão  certos  de  que 
ninguém  os  deshonrará,  usurj^ando  e  ludi- 
briando os  seus  direitos,  pôde  cada  qual 
dedicar-se  serenamente  aos  seus  negócios, 
entregar-se  de  todo,  proficuamente,  ás  suas 
ocupações.  Entre  nós,  impossivel.  Na  irre- 
quietação  moral  que  nos  consome,  receosos 
sempre  dos  peores  desaires  e  afrontas,  mal 
se  pôde  trabalhar,  mal  se  pôde  pensar, 
quasi  se  não  pôde  sequer  amar.  Quantas 
vezes  se  me  depara  uma  das  formosíssimas 
paisagens  do  nosso  querido  torrão,  e  eu  fico 
encantado,  extasiado,  mas  alguma  cousa 
dentro  em  mim  me  não  deixa  parar  e  ver 
bem,  e  digo  comigo :  Que  beleza,  se  hou- 
vesse bom  governo  em  Portugal !  Isto  é, 
como  eu  então  a  gosaria ! 

Como  foi  que  nós  acalmámos  as  nossas 
lutas  e  agitações  civis  ?  Foi  pelo  libera- 
lismo do  acto  adicional  de  1852.    Como  foi 


490  Da  monarchia  para  a  republica 


que  desde  então  mantivemos  quasi  sem 
secussões  a  paz  por  mais  de  trinta  annos  ? 
Toi  pelo  liberalismo  progressivo  desse  pe- 
riodo  que  se  fecha  logicamente  pelo  acto 
adicional  de  1885.  Como  lia  de  voltar  a 
paz  á  nossa  nação,  aos  nossos  casaes  ? 
Só    a   liberdade    é    a   paz. 


"A  Reforma" 


Minhas  senhoras  e  meus  senhores  ! 

Apesar  de  ainda  coberto  de  luto  pela 
morte  recente  duma  j)essoa  de  minlia  famí- 
lia, por  toda  ella  venerada,  apressei-me  a 
vir  a  esta  sessão  solemne,  que  os  seus 
23romotores  tão  amavelmente  haviam  adiado 
para  quando  eu  pudesse  estar  presente, 
para,  ao  lado  dos  oradores  que  acabam  de 
abrilhantá-la,  o  dr.  Francisco  Joaquim 
Fernandes,  que  é  honra  da  cathedra  e  da 
tribuna  portuguesa,  António  Leite  da  Silva, 
que  é  um  dos  mais  jDrometedores  talentos 
do  foro  portuense,  e  Américo  da  Silva 
Castro,  esperançoso  e  simpático  alumno  da 
Faculdade  de  direito  da  nossa  Universidade, 


*  Discurso  na  inauguração  do  Monte-pio  da  classe 
commercial  do  Porto,  «  A  Reforma  »,  segundo  o  Norte  e 
A  Vox  Publica,  em  IG  de  julho  de  1905. 


492  Da  nionarchia  pai-a  a  republica 

saudar  com  toda  a  efusão  da  minha  alma 
a  generosa  instituição  que  hoje  aqui  se 
inaugura,  os  seus  beneméritos  fundadores, 
e  nomeadamente  José  Ferreira  Gonçalves, 
meu  querido  amigo  e  correligionário  pres- 
tantissimo. 

«  A  Reforma  »  é  mais  uma  afirmação 
eloquente  das  inesgotáveis  forças  com  que 
a  sociedade  portuguesa  se  vai  renovando  e 
vai  reconstituindo  o  seu  abatido  credito  e 
prestigio  antigo. 

Graças  ás  classes  trabalhadoras,  a  nação 
cada  dia  opera  mais  solidamente  e  profun- 
damente a  sua  organização  religiosa,  eco- 
nómica e  politica. 

Nunca  como  nos  últimos  tempos  houve  o 
culto  dos  antepassados.  Iniciam-se  mesmo 
em  honra  das  grandes  figuras  históricas 
verdadeiras  associações  religiosas.  O  povo 
sente  a  necessidade  d'amar,  de  festejar  os 
seus  contemporâneos  ilustres.  Não  ha 
muito  que,  com  a  nossa  mocidade  escolar, 
celebrou  em  Lisboa  a  anotheose  de  João 
de  Deus,  e  ainda  ha  pouco  nesta  cidade 
manifestava  a  Guerra  Junqueiro  a  sua 
carinhosa  admiração.  E  a  piedade  pelos 
fracos  e  humildes  tem  augmentado  sempre. 


«  A  Reforma  »  493 

As  Misericórdias  acrescentam  as  suas  enfer- 
marias, 6  erguem,  ao  lado  dos  seus  hospi- 
taes,  novos  recolhimentos  para  os  cegos  e 
surdos-mudos.  Criam-se  creches  e  asylos 
para  as  creanças,  hospicios  para  os  velhos 
e  inválidos.  Então  as  creancinhas,  pega-se 
até  nas  mais  anemicas  e  levam-se  amoravel- 
mente  em  bandos,  em  colónias,  á  beira-mar, 
onde  se  lhes  retempere  a  saúde  com  o  ar 
puro  e  o  banho  tonificante. 

Economicamente,  têem-se  sobretudo  mul- 
tiplicado as  sociedades  de  socorros  mútuos, 
e  o  Monte-pio  Geral  de  Lisboa,  que  é 
hoje  uma  potencia  financeira,  exemplifica 
o  incremento  que  ellas  vão  tomando.  Por 
varias  partes  se  estreiam  auspiciosamente 
caixas  económicas.  Esboça-se  já  a  pro- 
tecção aos  inválidos  do  trabalho,  e  agora 
mesmo  o  faz  relevantemente  a  classe  comer- 
cial do  Porto  com  esta  magnifica  instituição 
—  «í  A  Reforma  »  —  destinada  a  assegurar 
previdentemente  aos  seus  membros  e  ás 
suas  famílias  o-  pão  e  a  independência  nos 
dias  precários  da  invalidez  e  da  velhice. 
E  estes  laços  económicos  das  classes  tra- 
balhadoras não  são  somente  locaes,  mas 
geraes.     Basta   lembrar  a   soberba   parada 


494  Da  monarcbia  para  a  republica 

de  forças  que  no  anno  passado  as  associa- 
ções comerciaes  de  todo  o  país  fizeram 
na  capital  contra  as  onerosas  propostas  de 
fazenda  então  em  discussão. 

Politicamente,  cada  vez  mais  o  nosso 
povo  procura  unir-se  pelas  idéas,  pela  ra- 
zão. Cada  vez  se  forma  mais  em  Portu- 
gal, e  se  torna  mais  imperativa  a  opinião 
publica.  Surgem  jornaes  até  nas  povoações 
mais  modestas.  Fundam-se  academias  e 
universidades  populares  de  estudos  livres. 
E  de  todos  os  pontos  do  país  se  solicitam 
avidamente  conferencias,  conferentes. 

E  esta  obra  de  organização  da  pátria, 
elaborada  infatigavelmente  pelas  classes 
trabalhadoras,  é  tanto  mais  de  admirar, 
quanto  ó  lastimosamente  certo  que  ellas  a 
tèem  emprehendido  e  realizado,  sósinhas, 
ao  criminoso  abandono  dos  poderes  públi- 
cos, das  classes  dirigentes,  que  são  colecti- 
vamente irreligiosas,  anti-economicas  e  tão 
ignorantes  como  capricliosas  e  vesanicas. 

Os  nossos  dirigentes  amam  o  tabaco,  a 
mesa  lauta,  as  carruagens  e  os  automóveis, 
têem  todos  estes  cultos  feiticistas,  mas,  em 
geral,  não  amam  a  ninguém.  Ainda  agora 
estrugiu  dilacerantemente  nesta  cidade  um 


A  Reforma  »  495 


grito  cVangustia  da  classe  piscatória,  espa- 
vorida pelo  espectro  da  fome  :  e  quem  dos 
nossos  governantes  a  ouviu  e  lhe  acode  ? 

A  vida  dos  nossos  dirigentes  é  uma  vida 
de  perdulários.  Sangram  incessantemente 
o  corpo  da  nação  e  tudo  é  semjDre  pouco 
para  a  sua  insaciável  voracidade.  Os  dejicits 
acumulam-se  assustadoramente.  E,  quando, 
acossado  pela  miséria,  alguém  ousa  ir  além 
mar  em  busca  de  trabalho,  ainda  os  nossos 
governantes  fazem  da  miséria  matéria  cole- 
ctável, e  cominam,  sob  penas  graves,  ao 
desditoso  emigrante  o  imposto  dos  passa- 
portes. 

E.  entre  os  dirigentes,  ninguém  se  im- 
porta com  idéas.  Xão  é  isso  que  os  liga. 
Eiem-se  dos  princípios  ás  gargalhadas,  cha- 
mam-lhes  trocistamente  os  imortaes  prin- 
cipies. Os  partidos  monarchicos  não  têem 
programa.  Dantes  no  partido  regenerador 
Fontes  e  Casal  Ribeiro,  nos  seus  discursos 
no  parlamento  e  fora  delle,  expunham  os 
seus  planos  governativos  ;  hoje  ao  seu  chefe 
basta-lhe  merecer  a  confiança  da  coroa,  não 
tem  que  pensar  em  mais  nada.  O  actual 
chefe  dos  progressistas,  faça-se-lhe  esta 
justiça,  ainda  até  ao  seu  penúltimo  minis- 


496  Da  raonarchia  para  a  republica 


terio  quiz  sustentar  o  programa  do  par- 
tido, mas  os  seus  próprios  correligionários 
arrancaram-lho  das  mãos  e  rasgaram-no. 
O  chefe  dum  partido  recente  apresentou 
se,  é  verdade,  ao  país  com  um  discurso 
programa.  Mas  quem  não  vê  que  esse 
simulacro  de  programa,  tecida  dos  farrapos 
das  liberdades  que  o  seu  autor  febrilmente 
se  fartou  de  despedaçar  durante  o  governo 
do  engrandecimento  do  poder  real,  não 
passa  duma  capa  de  furta-côres,  com  os 
seus  laivos  vermelhos,  com  que  esse  partido, 
espécie  de  bulangismo  nacional,  unicamente 
pretende  atrahir  e  bandarilhar  o  toiro  po- 
pular, que  felizmente  já  se  não  cega  assim 
com  tamanha  facilidade,  e  oxalá  um  dia, 
d'enraivecido,  não  macule  a  arena  com  o 
sangue  dos  seus  bandarilheiros. 

E  não  só  os  nossos  governantes  não 
ajudam  o  progresso  religioso,  económico 
e  politico  da  nação,  antes  o  dificultam  e 
enfraquecem,  mas  até,  a  cada  passo,  com- 
batem sem  tréguas  os  esforços  que  por  elle 
envidam  as  classes  trabalhadoras. 

A'  solidariedade  religiosa  da  nação,  ao 
nosso  amor  pela  familia,  pela  pátria  e  pela 
humanidade,  opõem  uma  religião  d'estado, 


«  A  Reforma  »  497 


que  não  é  a  doce  e  caroavel  religião  de 
Jesus,  zelosamente  praticada  por  muitos 
membros  do  nosso  clero  parochial,  mas  sim 
a  religião  sectária,  das  congregações  ultra- 
montanas,  que  é  feita  de  superstição,  de 
terror  e  d'odio. 

A'  solidariedade  económica  da  nação,  á 
sua  organização  cooperativa,  mutualista, 
opõem  os  monopólios  egoistas  e  avaros, 
que  são  a  depredação  da  riqueza  publica 
e  a  guerra  declarada  ao  consumidor  e  ao 
productor   nacional. 

A'  união  politica  da  nação  pelo  governo 
da  opinião  publica  opõem  o  arbítrio,  a 
autocracia  dos  chefes  dos  partidos,  que 
todos  os  elos  da  cohesão  civica  rompem 
entre  os  seus  correligionários.  Os  actuaes 
partidos  monarcliicos  são  monarchicos  até 
na  sua  constituição  interior.  Os  seus  che- 
fes, investidos  numa  magistratura  vitalícia, 
são  dentro  delles  uns  reis.  E  este  vicio 
constitucional  parece  irremediável.  Obser- 
ve-se  como  se  tem  constituído  esse  ultimo 
partido  monarchico  que  se  denomina  liberal, 
e  que  agora  anda  a  protestar  democracia 
entre  o  operariado.  O  seu  chefe  impoz-se- 
Ihe,  e  faz  no  governo  do  partido  a  politica 

32 


498  Da  monarchia  para  a  republica 


do  engrandecimento  do  poder  pessoal,  em- 
quanto  não  pôde  tornar  a  fazê-la  no  governo 
da  nação.  E  é  curioso  e  significativo  que 
elle  pregue  aos  ouvintes  dos  seus  centros 
—  aristocraticamente  divididos  em  centros 
dos  homens  que  têem  que  perder  e  cen- 
tros dos  operários  que  nem  muitas  vezes 
terão  que  ganhar  —  que  devem  intervir 
pelos  seus  eleitos  no  governo  da  nação, 
começando  por  não  lhes  consentir  que  ele- 
jam sequer  o  seu  chefe  a  dentro  do  partido. 
Imagine-se  que  eleições  livres  ha  a  esperar 
dahi.  Tanto  esse  partido  é  o  seu  chefe, 
que  os  seus  membros  se  chamam  ordina- 
riamente franquistas,  tanto  é  o  chefe  e  só 
elle,  que  os  seus  correligionários  proclamam 
que  no  dia  em  que  elle  não  corresponder  á 
sua  confiante  espectativa,  se  dispersarão, 
alguns  até  promettem  vir  então  desenga- 
nados para  a  republica.  E  em  que  titulo 
se  funda  o  seu  chefe  para  assim  se  impor? 
Que  tem  atraz  de  si  no  seu  passado  para 
assim  se  julgar  de  direito  aclamado  pelas 
gentes  ?  Fontes  blasonava  um  dia,  na 
camará  dos  deputados,  de  não  haver  pre- 
cisado nunca  de  ser  eleito  chefe  do  seu 
partido  ;  mas  a  Fontes  havia  que  lhe  des- 


A  Reforma  »  499 


culpcir  essa  altanaria,  porque,  quaesquer 
que  fossem  os  erros  da  sua  administração, 
tinha  a  falar  por  elle  as  estradas,  os 
caminhos  de  ferro,  os  telegraphos,  inúmeros 
serviços  prestados  na  sua  longa  carreira  á 
nação . . . 

Não  excomungo  ninguém  da  democracia. 
Tomara  vê-la  acrescentada  com  todos  os 
seus  actuaes  adversários.  Faço  mesmo 
quanto  posso  por  isso.  Entendo  que  é 
do  meu  dever  fazer  uma  politica  de  atra- 
cção, de  tal  modo  que,  ,no  dia  em  que 
os  monarchicos  reconhecerem  que  nada 
podem  tentar  com  êxito  para  bem  da  pátria 
senão  nas  fileiras  dos  republicanos,  nem 
uns  nem  outros  se  sintam  humilhados  ao 
estenderem-se  mutuamente  as  mãos.  Por 
vários  dos  meus  adversários  tenho  mesmo 
a  ternura  que  me  fica  sempre  jdcIos  meus 
camaradas  dalgum  dia.  Mas,  assim  como 
por  mais  amigo  que  eu  seja  dum  coxo,  não 
o  recommendarei  nunca  para  estafête  e 
moço  de  recados,  assim  também  não  posso 
recommendar  a  ninguém  um  antigo  déspota 
para  chefe  de  liberaes.  Sirva  a  liberdade  ! 
Faça  primeiro  as  suas  provas  de  que  é 
capaz   d'amá-la   e  de  defendê-la ;  e,  amnis- 


500  Da  monarchia  para  a  republica 


tiando-0  então  das  suas  ditaduras  passa- 
das, acreditaremos  confiadamente  nos  seus 
protestos  d'emenda. 

Contra  a  força  das  classes  trabalhadoras 
que  organizam  a  nação,  ha,  pois,  uma  força 
apostada  a  desorganizá-la,  que  é  sempre  o 
absolutismo,  ou  o  das  congregações  reli- 
giosas, ou  o  das  companhias  financeiras, 
ou  o  dos  corrilhos  monarchicos.  E  esta 
força  absolutista  tem  crescido  tanto  nos 
últimos  tempos,  que  é  indispensável  que 
cresça  também  muito,  por  sua  vez,  para 
não  sossobrar  na  luta,  a  força  do  socia- 
lismo liberal. 

Prosiga  a  classe  commercial  na  sua  lou- 
vável campanha,  e  á  protecção  dos  seus 
veteranos  junte  em  breve  a  protecção  aos 
seus  recrutas,  regulando-lhes  a  edade  de 
admissão,  as  horas  e  os  dias  de  trabalho, 
e  concedendo-lhes  o  temj^o  e  os  ócios  ne- 
cessários para  o  seu  enrijamento  físico  e 
espiritual.  E,  reunidos  assim  estreitamente 
entre  si  patrões  e  caixeiros,  celebre  o 
commercio  os  seus  congressos,  as  suas 
audiências  geraes,  onde  pondere  e  discuta 
as  magnas  questões  da  estatistica  dos 
commerciantes   portugueses    dentro   e  fora 


«  A  Reforma  »  501 


do  país,  do  ensino  commercial,  da  moeda 
e  das  pautas,  da  marinha  mercante  e  dos 
tratados  de  commercio,  e  donde  reclame  os 
órgãos  de  que  necessita  na  administração 
publica,  pelo  menos  um  ministério  indepen- 
dente com  a  agricultura  e  a  industria. 

E,  tendo-se  assim  socializado  e  conse- 
quentemente nacionalizado  o  capital,  po- 
nha-o  ao  serviço  da  socialização  da  classe 
operaria,  que  é  desgraçadamente  ainda  em 
grande  parte  a  classe  dos  proletários. 
Ninguém  no  partido  republicano  combate 
o  capital.  A  fortuna  publica  é  a  somma 
das  fortunas  particulares.  O  que  se  quer, 
é  que  o  capitalista  se  considere  austera- 
mente como  o  depositário  fiel  de  bens  que 
lhe  cumpre  administrar  com  todo  o  zelo 
em  proveito  geral  da  nação,  acudindo  com 
elles  a  toda  a  parte  onde  haja  um  necessi- 
tado, onde,  por  mais  ténue  e  abafado  que 
seja,  se  solte  um  soluço  de  dôr. 

E'  essa,  minhas  senhoras  e  meus  senho- 
res, a  abençoada  fortuna  que  do  coração 
lhes  desejo. 


I 

i 


Manoel  d'Arnaga 


A  vida  de  Manoel  d'Arriaga  é  sobretudo 
um  apostolado.  Essa  a  santa  missão  a  que 
elle  se  devotou  na  sociedade  portuguesa. 

A  sua  larga  e  fecunda  acção  moral  ultra- 
passa os  lindes  do  seu  partido,  porque  tudo 
nelle,  a  physionomia,  a  palavra,  as  manei- 
ras, tudo  desperta  simpatia.  Yendo-o  e 
ouvindo-o,  não  ha  quem  se  não  sinta 
atraído  para  elle  e  para  a  nobre  causa 
que  elle  tão  dignamente  personifica,  pelo 
irresistível  magnetismo  religioso  que  se 
difunde  de  todo  o  seu  ser.  Inabalável  nas 
suas  generosas  aspirações,  tem  a  intransi- 
gência austera  dum  forte  e  dum  delicado  ; 
mas,  ainda  quando  com  mais  ardor  denun- 
cia e  ataca  os  erros  e  os  desvarios  dos  seus 
adversários,    o    seu    braço    estende-se-lhes 

*  No  Mundo  de  5  de  setembro  de  1905. 


504  Da  monarchia  para  a  republica 


fraternalmente.  Não  combate  por  insocia- 
bilidade,  por  ódio  ou  irreverência  a  nin- 
guém. Ama  a  liberdade,  porque  ama  os 
seus  concidadãos,  revindica  a  republica, 
porque  revindica  para  a  sua  querida  pátria 
o  direito  e  a  honra  de  se  associar  livre- 
mente, intimamente ;  e,  se  o  seu  civismo 
não  receia  sacrifícios,  a  sua  tolerância  re- 
siste ás  mais  acerbas  provações.  Symbolo 
da  bondade  e  da  fé,  a  sua  radiosa  figura 
sorri  docemente  a  todas  as  almas  como 
uma  rósea  esperança  d'emancipação  e  de 
revisvicencia  nacional. 

Para  o  seu  partido  elle  é  mais  do  que 
um  caudilho  prestigioso.  E'  um  chefe  de- 
veras querido  e  venerado.  E  elevou-se  aos 
mais  altos  respeitos  dos  seus  correligioná- 
rios, incontestavelmente,  sem  nunca  acen- 
der ou  provocar  sequer  entre  elles  a  minima 
discussão.  A  sua  influencia  e  preponde- 
rância não  se  fizeram  e  cresceram  á  custa 
de  nenhuma  outra.  E'  uma  grande  força 
dirigente,  porque  é  um  centro  cordialissimo 
de  cohesão.  Espirito  independente,  mas 
familiar,  sem  sombra  d'autoritarismo,  d'im- 
pertinencia  ou  d'animosidade  pessoal,  con- 
ciliador e  paciente,  lealissimo,  dum  tracto 


Manoel  d' Arriaga  505 

primoroso,  elle  tem  exemplificado  edifican- 
temente em  todas  as  phases  da  sua  carreira 
publica  as  mais  acrisoladas  virtudes  demo- 
cráticas. Ninguém  melhor  do  que  esse  re- 
publicano modelar,  educando  liberalmente 
o  seu  partido,  opondo  sempre  dentro  delle 
á  ditadura  dos  individues  e  dos  bandos  o 
governo  dos  principios,  da  lei,  o  prepara 
para,  num  dia  que  tudo  anuncia  cada  vez 
mais  próximo,  elle  cumprir  fielmente  o  seu 
destino,  que  é  o  imprescriptivel  destino 
histórico  da  nação.  Por  isso  o  estreitamos 
hoje  festivamente  ao  nosso  seio,  saudando 
nelle  com  toda  a  efusão  uma  das  mais 
puras  encarnações  do  nosso  glorioso  ideal. 


:i 


o  contracto  dos  tabacos 


Meus  senhores  ! 

Diz-se  frequentemente  ao  povo  —  e  essas 
vozes,  ainda  mal!  saem  muitas  vezes  mesmo 
dentre  o  operariado  —  que  o  tempo  das 
revindicações  politicas  passou,  que  ás 
classes  laboriosas  do  nosso  tempo  só  inte- 
ressam e  importam  as  lutas  e  conquistas 
económicas.  Quanto  é  falsa  a  asserção ! 
E  como  o  nosso  país  lhe  vibra  a  cada 
instante  o  mais  formal  desmentido  ! 

A  politica  e  a  economia  são  inter-depen- 
dentes ;  mas  a  politica  deve  dominar  a 
economia  como  a  inteligência  os  nossos 
actos.  Nação  onde  os  financeiros  sobrepu- 
jam os  políticos,  é  nação  irremediavelmente 
delapidada    e    consumida   pela  agiotagem. 


*  Discurso  no  comício  republicano  de  10  de  setembro 
de  ]905,  no  Porto. 


508  Da  monarchia  para  a  republica 

De  certo  que  a  nossa  penúria  e  servilismo 
financeiro  nos  enfraquecem  e  escravizam 
politicamente  ;  mas  nós,  se  não  temos  boas 
finanças,  é  porque  não  temos  boa  politica, 
nós,  se  não  temos  a  riqueza,  a  abundância, 
a  abastança  sequer  em  cada  lar,  é  porque 
não  temos  nenhuma  liberdade  politica,  nem 
colectiva,  nem  individual.  Hoje,  entre  nós 
não  ha  mesmo  questão  alguma  económica 
de  trabalho  e  de  assistência  ao  trabalha- 
dor, que  se  não  prenda  entranhavelmente 
e  pungitivamente  na  questão  politica  por 
excelência,  na  questão  constitucional  do 
nosso  regimen.  E,  sem  se  resolver  esta 
radicalmente,  pela  mudança  de  instituições, 
não  se  resolverá  já  agora  bem  nenhuma 
outra. 

Exemplo  flagrante  desta  dependência  sub- 
stancial é  a  questão  dos  tabacos  que  actual- 
mente excita  os  ânimos  por  toda  a  parte 
no  país.  Qual  a  sua  mais  nefasta  solu- 
ção ?  A  mais  ruinosa  e  a  mais  opressiva  ? 
O  monopólio.  Qual  a  solução  que  um  e 
outro  partido  monarchico  sucessivamente 
têem  proposto  para  ella  ?  O  monopólio 
com  todas  as  suas  agravantes  leoninas  e 
deprimentes. 


o  contracto  dos  tabacos  509 


E  porque  é  isto  ?  Porque  nas  nações, 
como  nos  indivíduos,  onde  a  razão  não 
impera,  desencadeiam-se  e  prevalecem  con- 
tra ella  os  interesses  ainda  os  mais  illegiti- 
mos ;  e  o  governo  politico  em  Portugal  ha 
muito  que  deixou  de  ser  o  governo  da 
razão  publica,  da  opinião,  para  se  trans- 
formar deploravelmente  no  governo  do 
arbítrio  pessoal,  da  autocracia  e  do  nepo- 
tismo dos  chefes,  no  governo  do  despotismo. 
Dahi  a  sua  fraqueza,  dahi  a  sua  subserviên- 
cia ás  oligarchias  financeiras. 

Veiu  demonstrá-lo  mais  uma  vez  a  actual 
questão  dos  tabacos.  Submissos  ás  oligar- 
chias financeiras,  nenhum  dos  nossos  polí- 
ticos que  tiveram  de  tratá-la  no  governo, 
pensou  sequer  em  arrancar-lhes  das  mãos  o 
monopólio,  que  é  mais  que  lesivo  para  os 
interesses  nacionaes,  porque  é  sobretudo 
uma  arma  tremenda  de  reacção. 

E,  nas  lutas  da  avidez  travadas  entre 
ellas,  os  nossos  governantes  têem  sido 
sempre  arrastados  rudemente  pelo  predo- 
mínio da  mais  poderosa.  E'  assim  que  a 
antiga  companhia  dos  tabacos  impõe  ao 
partido  regenerador  a  renovação  do  con- 
tracto ;    e,    quando    outra    companhia    por 


510  Da  nionarchia  para  a  republica 

momentos  a  põe  em  cheque,  concitando 
contra  ella  a  oposição  progressista,  o  go- 
verno regenerador  não  se  eleva  acima  das 
lutas  entre  uma  e  outra,  demite-se,  isto  e, 
retira-se  para  que  a  companhia  mais  pode- 
rosa converta  a  si  o  partido  progressista, 
desde  que  elle  esteja  no  poder.  Assim  foi. 
O  governo  progressista  apresentava  dentro 
em  pouco  a  proposta  de  renovação  do 
contracto  com  a  antiga  companhia  dos 
tabacos,  como  haviam  feito  os  regenera- 
dores, com  as  mesmas  agravantes  que 
combatera,  quasi  com  as  mesmas  clausulas, 
quasi  com  os  mesmos  termos  de  redacção. 
Tal  a  insolência  da  omnipotente  compa- 
nhia ! 

E,  assim  como,  perante  a  oposição  pro- 
gressista, ella  forçara  o  governo  regenerador 
a  pedir  a  sua  demissão  e  a  coroa  a  conce- 
der-lha,  assim  depois,  levantando-se  dissi- 
dência contra  o  contracto  no  seio  do  próprio 
partido  progressista,  ella  força  o  seu  governo 
a  pedir  uma  reconstituição  ministerial  e  um 
adiamento  parlamentar  e  a  coroa  a  conce- 
der-lhos  para  castigar  o  ministro  rebelde  e 
para  acalmar  os  deputados  irrequietos,  dis- 
pensando-lhes  mais  alguns  meses  para  a  sua 


o  contracto  dos  tabacos  õll 


definitiva  conversão.  Quem  governa,  pois, 
em  Portugal? 

Eis  a  consequência  da  j^olitica  do  engran- 
decimento do  poder  real,  que  não  é  de 
engrandecimento,  mas  de  enfraquecimento 
de  todo  o  poder  politico  desde  o  menor  até 
ao  mais  alto.  Eis  para  o  que  se  concentra- 
ram todos  os  poderes  no  estado  e  todos 
os  do  estado  no  seu  chefe.  Foi  para  o 
submeter  ao  nuto  das  oligarchias  finan- 
ceiras. 

E  o  que  se  passa  entre  nós,  sucede  em 
toda  a  parte.  Ao  menor  deslise  mesmo  do 
poder  politico,  mal  elle  deixe  de  ser  no 
minimo  acto  o  governo  da  razão  social, 
da  justiça,  logo  a  agiotagem,  que  o  está 
espreitando  continuamente,  investe  contra 
elle  e  o  explora.  Porque  é  que  a  própria 
França,  republicana,  radical  e  socialista. 
a  França  de  Waldeck  Rousseau  e  de  Com- 
bes,  que  tem  levado  de  vencida  no  seu  solo 
tantas  tyranias  do  capital,  promulgando 
cordialíssimas  leis  d'assistencia  ás  classes 
trabalhadoras,  j)orque  é  que  ella  é  ao 
mesmo  tempo  para  comnosco  a  França 
de  E-eillac  e  de  tantos  aventureiros  e  joga- 
dores da  finança  ?    E'  porque  ainda  não  ha 


512  Da  monarchia  para  a  republica 

um  direito  publico  internacional  liberal  e 
republicano  ;  e,  nas  suas  relações  externas, 
a  França  é  ainda,  infelizmente,  a  França 
militarista,  aliada  da  Rússia  despótica,  e, 
quando  nella  Jaurés,  o  grande  campeão 
da  socialização  e  da  paz  internacional,  pro- 
clama que  o  governo  da  França  deve  ser 
republicano,  tanto  na  sua  politica  interna 
como  na  sua  politica  externa,  o  republicano 
Temps  declara-o  atacado  da  loucura  da  re- 
nuncia. 

A  opressão  financeira,  o  monopólio,  é  a 
consequência  letal,  o  fruto  venenoso  do 
despotismo  politico.  Xós,  se  quizemos  abo- 
lir o  peor  de  todos,  o  monopólio  da  terra, 
se  quizemos  libertá-la,  tivemos  de  fazer  a 
revolução  de  20  e  de  pelejar  as  campanhas 
liberaes  de  28  a  34.  O  próprio  monopólio 
dos  tabacos  nasceu  com  o  absolutismo, 
cresceu  e  medrou  com  o  seu  crescimento  e 
violência,  com  o  miguelismo,  revigorou-se 
com  o  cabralismo,  e,  se  foram  necessários 
os  esforços  reiterados  das  revoluções  de  36, 
de  46  e  de  51  para  se  entrar  num  largo 
periodo  de  ascenção  liberal,  de  52  a  85, 
no  qual  se  aboliu  esse  monopólio,  hoje, 
que   elle   resuscitou  com   a  resurreição   do 


o  contracto  dos  tabacos  513 


despotismo  de  86  para  cá,  como  é  qiie 
havemos  de  tornar  a  aboli-lo  ?  Só  por  uma 
profunda  e  radical  reforma  politica  da  nação. 

Quem  a  ha  de  fazer  ? 

Os  regeneradores,  impenitentes  nos  seus 
reaccionários  processos  governativos  ?  Os 
progressistas,  que  no  poder  têem  aposta- 
tado  de  todos  os  seus  princípios  liberaes  ? 
Quem  ?  Outros  monarchicos  entoam  agora 
dithyrambos  á  liberdade.  Quem  são  elles  ? 
O  sr.  João  Franco,  o  sr.  Alpoim,  o  sr. 
Dias  Ferreira?  Mas  o  sr.  João  Franco  já 
em  1893  proclamou  a  descentralização,  a 
liberdade  de  imprensa  e  o  direito  de 
reunião,  e  depois,  no  governo,  foi  um  dos 
dois  principaes  fautores  da  politica  do 
engrandecimento  do  poder  real.  Mas  o  sr. 
Alpoim  foi  em  1895  um  dos  corifeus  da 
coligação  liberal ;  e  depois,  no  governo, 
abraçou  a  politica  do  engrandecimento  do 
poder  real,  e,  em  nome  delle,  ditou  a  pros- 
cripção  aos  republicanos  para  fora  do  par- 
lamento. Mas  o  sr.  Dias  Ferreira,  sempre 
liberal  na  sua  longa  oposição,  foi  em  1892 
o  precursor  dessa  politica  ominosa  do  en- 
grandecimento do  poder  real.  O  regimen 
empolgara-os. 

33 


514  Da  monarchia  para  a  republica 

SÓ  ha  um  partido  que  pôde  já  agora  re- 
solver as  nossas  incomportáveis  dificuldades 
financeiras  e  opor  um  veto  soberano  ao  mon- 
struoso contracto  dos  tabacos.  E'  o  partido 
do  povo,  o  único  que  tem  por  si  a  opinião, 
o  partido  republicano,  o  partido  que  não 
repelle  ninguém,  partido  dentro  do  qual 
podem  vir  tomar  logar  todos  os  patriotas 
que  os  últimos  acontecimentos  governativos, 
tão  vergonhosos,  devem  ter  desenganado 
por  completo  das  virtudes  da  monarchia, 
hoje  irremediavelmente  incompativel  com 
os  sagrados  destinos  da  nação. 

Para  escarmento  dos  novos,  ahi  está  o 
sr.  José  Maria  de  Alpoim,  cheio  de  talento, 
tendo-se  batido  em  todos  os  terrenos  pelo 
seu  partido,  o  caudilho,  depois  do  seu  chefe, 
mais  querido  e  o  único  popular  dentro  delle  : 
no  dia  em  que  ousou  rebelar-se  contra  as 
demasias  da  oligarchia  financeira  predomi- 
nante, foi  pelo  seu  próprio  chefe  exautorado 
de  todas  as  suas  dignidades,  como  se  fosse 
um  desertor.  Para  escarmento  dòs  vetera- 
nos, ahi  está  o  sr.  Pereira  de  Miranda, 
antigo  lutador  inquebrantável,  cercado  dos 
respeitos  de  correligionários  e  adversários, 
tantas    vezes   indigitado    e    solicitado   para 


o  contracto  dos  tabacos  515 


ministro  e  ultimamente  considerado  indis- 
pensável á  formação  do  actual  gabinete 
progressista:  pois,  apesar  de  toda  a  sua 
provadissima  dedicação  pelo  seu  partido  e 
pelo  seu  chefe,  poucos  meses  pôde  sobraçar 
a  pasta  politica  do  ministério  do  reino  que 
lhe  fora  confiada  ...  E,  para  aviso  e  escar- 
mento de  todos,  ahi  está  o  próprio  chefe, 
o  sr.  José  Luciano  de  Castro,  com  uma 
longa  carreira  de  serviços  ao  seu  partido, 
tendo  sacrificado  á  monarchia  muitas  das 
suas  aspirações  liberaes  e  até  na  derradeira 
quadra  da  vida  a  sua  saúde,  ahi  está,  em 
meio  das  refregas  financeiras,  injuriado  e 
lapidado,  dentro  mesmo  da  monarchia, 
mesmo  pelos  seus  correligionários,  que  não 
vêem,  que  não  comprehendem  que  elle  não 
é  senão  uma  victima  expiatória  do  fatalismo 
das  instituições.  Que  fim  de  vida  !  Como 
acabam  ultimamente  entre  nós  os  maiores 
homens  da  monarchia  ! 

O  regimen  gasta,  despedaça  e  anula  todos 
que  o  servem.  E,  quando  os  homens  são 
individualidades  excepcionaes,  tamanhas 
como  um  Emygdio  Navarro  ou  um  Ma- 
riano de  Carvalho,  e  não  os  pôde  anular, 
abusa  da  força  delles,  comjoromette-os  nos 


516  Da  monarchia  para  a  republica 


próprios  desmandos,  e  fere-os  e  mortifica-os 
afrontosamente  nas  suas  mais  altas  ambi- 
ções. 

Hoje  em  Portugal  só  iim  campo  politico 
resta  a  quem  quizer  servir  a  sua  pátria, 
nobilitando  o  seu  nome.     E"  o  republicano. 


o  Mundo" 


Meus  senhores  ! 

Viva  a  republica  portuguesa ! 

Meus  senhores  !  Levanto  um  brinde  ao 
Mundo,  aos  nossos  valorosos  correligioná- 
rios que,  dia  a  dia,  com  o  maior  denodo^ 
sem  jamais  esmorecerem,  defendem  e  sus- 
tentam na  vanguarda  do  jornalismo  a  causa 
da  republica.  E  brindo  a  todos,  ao  seu 
director,  aos  seus  redactores  e  collaborado- 
res,  aos  seus  typograplios,  aos  seus  auxi- 
liares ainda  os  mais  modestos,  porque 
todos  são  beneméritos  da  liberdade  e  da 
pátria. 

A  todos  cumprimento  e  rendo  homena- 
gem   na    pessoa    do    seu    director,    França 


*  Xo   almoço   em   honra  d' O  Mundo,  por  ocasião  do 
seu  5."  anniversario,  era  10  de  setembro  de  1905. 


518  Da  monarchia  para  a  republica 


Borges,  o  nosso  querido  amigo,  que  tão 
brilhantemente  representa  a  heróica  moci- 
dade portuguesa,  com  todo  o  seu  coração, 
com  a  toda  sua  fé,  com  todo  o  seu  Ímpeto 
e  todas  as  suas  exaltações  no  ataque,  e 
com  todos  os  seus  enthusiasmos,  todas  as 
suas  ternuras,  nos  afectos  e  na  dedicação. 
Ha  nelle  tanta  cordialidade  e  delicadeza, 
que  não  posso  festejá-lo  dignamente  sem 
evocar  perante  esta  reunião  a  figura  da 
sua  santa  mãe,  da  veneranda  educadora  que 
lhe  instillou  na  alma  os  mais  nobres  predi- 
cados sociaes,  e,  acima  de  todos,  a  sua 
abnegação  pessoal,  a  sua  modéstia  em 
todos  os  lances  e  sacrifícios.  Nelle  admiro 
não  menos  do  que  o  lutador  inquebran- 
tável, que  por  vezes  tem  concentrado  na 
sua  arremetida  todo  o  ardor  militante  do 
seu  partido,  o  correligionário  leal,  prestan- 
tissimo  e  extremoso,  que  não  perde  o  mí- 
nimo ensejo  de  louvar  e  exaltar  os  seus 
camaradas.  Um  partido  não  precisa  só  de 
combatentes,  mas  também  de  homens  que 
se  prezem  e  se  estendam  e  se  dêem  frater- 
nalmente as  mãos.  Um  partido  não  é  só 
um  exercito,  mas  é,  mas  deve  ser  sobre- 
tudo uma  grande  familia.    Eu  por  mim  lhes 


o  Mundo  » 


519 


confesso  que  uma  das  grandes  satisfações 
que  encontrei  no  partido  republicano,  tem 
sido  o  fino  trato,  a  convivência  encantadora 
de  França  Borges. 

Viva  O  Mundo!    Viva  França  Borges  ! 


A  Associação  dos  Artistas 
de  Coimbra  * 


Minhas  senhoras  e  meus  senhores! 

A  Associação  dos  Artistas  de  Coimbra 
festeja  no  seu  anniversario  d'hoje  quarenta 
e  três  annos  de  vida,  isto  é,  de  camarada- 
gem, de  socorros  mútuos,  de  discussão  e 
d'orientação  commum.  E'  assim,  amando- 
se,  assistindo-se  e  disciplinando-se,  que  o 
nosso  bom  povo  vai  por  todo  o  país  pro- 
movendo a  irresistível  mudança  das  insti- 
tuições. A  sua  crescente  força  orgânica 
assegura  cada  vez  mais  entre  nós  a  victoria 
da  soberania  da  nação. 

A  democracia  impõe-se.  Para  prova,  ahi 
está   a  creacão  do  tribunal  d'arbitros-avin- 


*  Alocução  na  presidência  da  sessão  solemne  de  8  de 
dezembro  de  1905. 


522  Da  monarchia  para  a  republica 

dores,  que,  reclamado  pelos  operários  desta 
cidade,  a  camará  municipal,  —  sob  a  presi- 
dência do  insigne  economista,  o  lente  da 
nossa  Universidade,  dr.  Marnoco  e  Sousa, 
—  apoiando-se  nelles,  conseguiu  ha  pouco 
fazer  decretar.  A  esta  conquista  outras 
devem  seguir-se  incessantemente.  E'  um 
código  civil  inteiro  de  que  o  operariado 
necessita.  E  precisa  revindicar  também 
todos  os  seus  direitos  políticos,  a  começar 
pelo  do  sufrágio,  até  mesmo  para  com  elle 
possuir  na  sua  mão  o  mais  poderoso  instru- 
mento de  reforma  e  progresso  social. 

Para  esta  sua  campanha  d'emancipação 
têem  as  classes  trabalhadoras  de  marchar 
em  massa,  sem  quebra  alguma  de  continui- 
dade de  geração  em  geração,  inspirando-se 
sucessivamente  nas  virtudes  preclaras  dos 
seus  precursores,  e  preparando  com  toda  a 
diligencia  o  espirito  de  novas  phalanges 
para  o  culto  da  independência  e  da  honra. 
E'  o  que  a  Associação  dos  Artistas  de  Coim- 
bra comprehende  perfeitamente.  E  eu  com 
todo  o  fervor  a  acompanho  tanto  nas  suas 
reiteradas  homenagens  pela  memoria  do 
seu  e  meu  querido  amigo,  Olympio  Nicolau 
Huy  Fernandes,  o  venerando   apostolo  do 


A  Associação  dos  Artistas  de  Coimbra 


socialismo  liberal,  como  na  sua  carinhosa 
faina  educativa,  em  que  me  é  dado  esta 
noite  tomar  uma  parte  gratissima,  entre- 
gando aos  seus  melhores  alumnos  o  justo 
premio  do  seu  esforço.  Não  só  esta  asso- 
ciação, toda  a  familia  operaria  sabe  muito 
bem  quanto  lhe  quero,  como  estou  identifi- 
cado com  ella  nos  mesmos  sentimentos  e 
aspirações,  e  o  enternecido  afecto  que  voto 
aos  seus  filhos. 


I 


Orientação  republicana 


Declarações  * 


Meus  senhores ! 

Em  nome  do  partido  republicano  cumpre- 
me  declarar : 

Que  os  republicanos  votaram  a  moção 
proposta  ao  comicio,  porque  a  abolição  das 
leis  d'excepção  e  de  monopólio,  a  auto- 
nomia local,  a  liberdade  eleitoral  e  a  fisca- 
lização parlamentar  são  ha  muito  revindi- 
cações  do  partido  republicano,  que  as  faz 
sob  este  governo  como  as  tem  feito  e  fará 
sob    todos    os    ministérios    de    engrandeci- 


mento do  poder  real. 


*  Xo  comicio  promovido  em  Coimbra  pelos  dissidentes 
do  partido  progressista,  em  8  de  dezembro  de  1905. 


õ26  Da  mcmarchia  para  a  republica 

Que,  depois  do  malogro  final  dos  esforços 
quasi  seciilares  dos  grandes  partidos  con- 
stitucionaes  para  se  estabelecer  em  Portu- 
gal o  regimen  monarchico-representativo, 
toda  nova  tentativa  de  reconciliação  entre 
o  povo  e  o  trono  não  é  hoje  para  as  for- 
ças de  ninguém,  não  só  porque  a  monarchia, 
impenitentemente  reaccionária,  a  não  quer. 
mas  ainda  porque  a  não  quer  tão  pouco  o 
espirito  progressivo  do  nosso  povo,  cada 
dia  mais  consciente  e  cioso  dos  seus  direi- 
tos e  desenganado  de  que  nenhum  estará 
garantido  pela  lei,  emquanto  acima  delia 
houver  autoridade  constituida  que  possa 
afrontosamente  e  impunemente  infrigi-la 
jDelo  seu  arbitrio  ditatorial,  emquanto, 
pois,  não  se  implantar  entre  nós  o  genuíno 
governo  da  nação  pela  nação,  o  governo 
republicano. 

Que,  portanto,  aos  dissidentes  dos  actuaes 
partidos  monarchicos,  progressistas  ou  rege- 
neradores, para  bem  servirem  com  segu- 
rança d"exito  a  liberdade,  só  resta  um 
recurso,  e  é  tornarem-se  também  dissiden- 
tes da  monarchia,  vindo  alistar-se  lealmente 
sob  a  bandeira  republicana ;  e,  quanto  a 
nós,  republicanos,  não  pense  ninguém  que 


Orientação  republicana  52  <- 

fazemos  ainda  hoje  alguma  campanha,  es- 
perançados em  ver  a  liberdade,  por  minima 
que  seja,  definitivamente  triumphante  den- 
tro da  monarchia,  as  nossas  revindicações 
são  sobretudo  libellos  d' acusação  contra 
ella,  que  todas  as  liberdades  individuaes  e 
colectivas  nos  tem  ultrajantemente  concul- 
cado,  para  que  a  nação,  que  a  julgou  e 
condemna,  a  exautore  para  sempre  do 
poder. 


Discurso  * 


Meus  senhores  ! 

Desde  1894,  e  sobretudo  nos  annos  omi- 
nosos de  1895  e  1896,  o  governo  do  engran- 
decimento do  poder  real  sujsrimiu  todas  as 
liberdades,  liberdades  parlamentares  e  elei- 


*  Xo  comicio  republicano  de  Lisboa,  em  10  de  dezem- 
bro de  1905. 


Da  inoBarchia  para  a  republica 


toraes,  liberdades  corporativas,  liberdades 
publicas  e  individuaes,  e,  para  ser  absoluta 
a  omnipotência  do  mando  real,  estendeu  a 
sua  irresponsabilidade  até  aos  seus  minimos 
agentes.  Tudo  se  centralizou  no  estado  e 
todo  o  estado  no  seu  chefe.  E  jíara  que? 
Sobre  as  ruinas  da  liberdade  ergueu-se 
assim  por  ventura  um  governo  de  íbrça  ? 
l^ão !  O  chefe  do  estado  viaja,  o  regente 
do  reino  é  ainda  uma  creança,  o  presidente 
do  conselho  de  ministros  é  (com  pezar  o 
digo)  um  enfermo,  e  a  maior  parte  das 
autoridades  constituídas  não  passam  duns 
anónimos.  Xão  ha  governo  !  Infestam  im- 
punemente o  país  as  quadrilhas  sindica- 
teiras  e  congreganistas ;  e,  se  lá  fora  res- 
peitam o  nosso  povo,  pela  sua  cordura, 
pela  sua  laboriosidade  e  pela  sua  inteligên- 
cia, e,  mais  do  que  tudo,  pela  sua  honradez 
e  espirito  de  bondade  e  sacrifício,  se  por 
isso  os  governos  estrangeiros  cumprimen- 
tam o  rejíresentante  oficial  da  nação  como 
quem  saúda  a  gloriosa  bandeira  portu- 
guesa, é  de  lá  que  os  chefes  dessas  qua- 
drilhas planeiam  e  dirigem  afrontosamente 
os  seus  assaltos  ao  nosso  coração  e  aos 
nossos  bens. 


Orientação  repubiicaua  5"_'y 


É,  pois,  necessário  lioje  opor  o  governo 
do  engrandecimento  do  poder  popular  ao 
governo  do  engrandecimento  do  poder  real, 
não  só  para  revindicar  entre  nós  a  liberdade, 
mas  até  também  para  assegurar  a  autori- 
dade, a  ordem,  o  respeito  á  lei. 

E'  o  que  tèem  ultimamente  comprehen- 
dido  bem  todas  as  classes,  tanto  proletá- 
rias como  conservadoras,  todos  que  têem 
a  conquistar  ou  manter  algum  direito. 
A  nação  republicaniza-se  cada  vez  mais. 
Prova  eloquente  disso  foram  os  dias  de 
outubro  que  Casimiro  Freire,  á  beira  do 
mausoléu  de  Alves  Correia,  tão  justamente 
chamou  históricos,  em  que  não  só  Lisboa 
inteira,  mas  muitos  milhares  de  pessoas  de 
todo  o  país,  vibrantes  de  enthusiasmo,  acla- 
maram Loubet,  anciosas  do  fundo  de  alma 
por  um  governo  e  por  um  chefe  de  estado 
como  o  governo  republicano  e  como  o  pre- 
sidente eleito  da  França. 

Se  já  em  1894,  nos  inicios  do  governo  do 
engrandecimento  do  poder  real,  o  teórico 
do  cesarismo.  Oliveira  Martins,  lamentava 
a  profunda  separação  entre  as  instituições 
e  o  nosso  povo,  de  1894  para  cá  essa  se- 
joaração   toniou-se   irredutível.     A'  medida 

34 


530  Da  moDarchia  para  a  republica 

que  a  monarchia  se  foi  fazendo  reaccionária, 
o  espirito  do  nosso  povo  foi-se  acentuando 
progressivamente  liberal.  Hoje  não  pode 
haver  transacção  alguma  entre  a  monarchia 
e  a  liberdade.  A  monarchia  liberal  morreu. 
Resuscitá-la,  depois  do  malogro  secular 
dos  nossos  grandes  patriotas  constitucio- 
naes,  é  uma  tentativa  que  excede  as  for- 
ças, seja  de  quem  for.  E'  uma  espécie  de 
sonho  sebastianista.  Os  dissidentes,  rege- 
neradores ou  progressistas,  que  se  quei- 
xam da  autocracia  dos  seus  antigos  chefes 
de  partido,  deviam  reconhecer  que  essa 
autocracia  não  é  senão  a  consequência 
doutra  legalmente  proclamada  pela  consti- 
tuição. 

Quer  isto  dizer  que  lhes  vamos  fanati- 
camente impor,  como  um  dogma,  o  nosso 
credo  republicano,  com  o  risco  de  fazê-los 
recuar  para  o  absolutismo  monarchico  ? 
Não  !  O  partido  republicano  é  um  partido 
tolerante,  de  atracção  e  de  assimilação. 
Não  excomungamos,  não  repelimos  nin- 
guém. Fiamo-nos  na  virtude  educativa  da 
liberdade,  e  em  que,  vindo  á  praça  publica, 
na  convivência  com  o  povo  os  dissidentes 
dos  partidos   monarchicos    da    rotação    em 


<Jrienta(;5.o  republicaua 


531 


breve  se  converterão  em  dissidentes  da 
projíria  monarchia. 

Entretanto  declaramos-lhes  leal  e  fran- 
camente :  Não  se  trata  só  da  restaura- 
ção das  liberdades  perdidas.  Queremos  a 
abolição  dos  votos  religiosos,  como  a  fez 
Joaquim  António  de  Aguiar ;  queremos  a 
abolição  dos  monopólios  e  de  tantos  impos- 
tos, especialmente  os  impostos  de  consumo, 
que  tendem  a  restabelecer  um  regimen 
financeiro  como  o  dos  dizimos  e  foraes 
abolidos  por  Mousinho  da  Silveira ;  que- 
remos, como  Passos  Manoel,  cercar  de 
instituições  republicanas  o  supremo  poder 
politico.  Mas  não  estamos  em  183G.  Que- 
remos mais.  Queremos  a  plena  liberdade 
de  cultos,  queremos  a  emanci^Dação  econó- 
mica do  trabalhador,  e  queremos  todas  as 
liberdades  politicas,  todas,  sem  excepção, 
até  a  da  eleição  do  nosso  chefe  do  estado. 
Portanto,  se  os  dissidentes  monarchicos  não 
vierem  para  nós,  no  dia  em  que  pararem, 
nós  avançaremos  contra  elles,  como  seus 
adversários  intransigentes.  A  nossa  cam- 
panlia  contra  a  monarchia  é  sem  tréguas. 

Mas  é  uma  campanha  pacifica,  ordeira. 
Não  pretendemos  contrapor  á  ditadura  do 


532  Da  inouarcliia  para  a  republica 


poder  a  da  revolução.  Xão  somos  nós  que 
a  intentamos ;  quem  incessantemente  a  pro- 
voca, são  os  partidos  monarchicos.  Nós 
nem  ameaçamos  pegar  em  armas  para 
sustentar  13  liberdade,  nem  pensamos  aliciar 
o  exercito  em  favor  da  nossa  causa.  A  nossa 
doutrina  é  que,  assim  como  todo  o  cidadão 
deve  ser  um  soldado,  todo  o  soldado  deve 
ser  um  cidadão ;  mas  não  queremos  um 
exercito  partidário,  do  partido  do  rei  ou 
do  partido  republicano  ;  queremo-lo  para 
assegurar,  com  a  honra  e  a  independência 
da  pátria,  a  liberdade  e  a  lei,  seja  contra 
governados,  seja  contra  governantes.  Mas, 
se  não  somos  um  partido  de  violentos,  não 
o  somos  também  de  fracos,  de  cobardes,  e 
levaremos  a  luta  pelo  nosso  ideal,  pelos 
nossos  direitos,  até  ao  ultimo  transe,  repe- 
lindo, se  tanto  fôr  preciso,  a  força  pela 
força. 

Oh !  não  !  não  ó  na  força  bruta,  na  sedi- 
ção, na  guerra  civil,  que  pomos  as  nossas 
esperanças.  As  nossas  armas  são  de  paz. 
Esperamos  vencer  pela  fraternidade,  pela 
assistência,  pela  persuasão.  Cada  dia  se  vai 
formando  mais  a  consciência  republicana 
da  nação.    E,  nós,  republicanos,  temos  por 


Orieutavão  republicana 


533 


nós  a  força  irresistível  da  civilização,  por- 
que a  democracia,  a  republica,  não  é  hoje  só 
uma  forma  de  governo  das  sociedades,  é  a 
própria  forma  do  sentimento,  da  acção  e  do 
pensamento  contemporâneo. 


índice 


Pag. 

Os  soldados  da  liberdade 5 

A  crise  do  Douro 9 

A  reforma  constitucional  de  1885 15 

O  ultimatum  de  1890 79 

A  lei  de  salvação  publica 85 

O  ministério  de  1893 91 

A  armada  nacional 107 

Guerra  ao  banditismo  politico ! 113 

O  fomento  vitícola 123 

José  Elias  Garcia 145 

O  governo  do  engrandecimento  do  poder  real  .      .  149 

A  maçonaria  portuguesa 165 

Concurso  pecuário 175 

Duarte  Fava 179 

Rodrigues  de  Freitas 181 

O  estudo  do  pais 185 

Mousinho  d"Albuquerf[ue 195 

Contra  o  convénio 199 

Joaquim  Martins  de  Carvalho 203 

Centenário  de  Garrett 207 

Pela  liberdade 215 

A  Associação  liberal  de  Coimbra 259 

A  liberdade  e  a  egreja 281 


/ 


53(i  lúdico 

Pag. 

O  despotismo  económico 289 

Formas  de  governo 307 

Governo  e  ensino 323 

Os  actuaes  partidos  politicos 337 

Contra  as  propostas  de  fazenda 853 

A  insurreição  de  Coimbra 361 

Protecção  ás  mulheres  e  aos  menores  ....  363 

Eleições 373 

Aos  eleitores 385 

O  descanço  semanal 401 

O  anarchismo 415 

A  aliança  inglesa 417 

Perante  o  tribunal  do  verificação  de  poderes   .      .  433 

A  psycologia  da  reacção 443 

Coimbra  republicana 459 

Só  a  liberdade  é  a  paz 463 

*  A  Keforma  » 491 

Manoel  d' Arriaga 503 

O  contracto  dos  tabacos 507 

«  O  Mundo  » 517 

A  Associação  dos  Artistas  de  Coimbra  ....  521 

Orientação  republicana 525 


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